22.3.16

amor nos tempos de fúria

[Kees Van Dongen | 1877-1968]

[...]

Um homem solitário, morando sozinho e ainda vivendo para os alunos, e Annie não parou de visitá-lo, mas no fim ela teve de esquecer, teve de seguir adiante, com as próprias necessidades, e o professor deu a ela um anel de prata com um escaravelho que ela ainda tinha e ainda usava. E além disse ele deu a Annie muito mais, mostrou a ela que o artista é o inimigo perpétuo do Estado, a mosca na sopa do Estado, o inimigo total de todas as forças organizadas que sobrepujam o indivíduo livre em todos os lugares, o artista como portador de Eros, portador da verdadeira força vital, portador do amor, num mundo aparentemente inclinado a destruir tudo isso, Eros versus civilização, vida contra morte. Sim, nas aulas de gravura você aprendia não apenas litografia em pedra e desenho a ponta-seca, você também aprendia que tinha de usar a arte para dizer algo importante, não apenas um monte de inutilidades minimalistas. Você passava a conhecer a tradição radical dos artistas e muralistas da WPA.

Lawrence Ferlinghetti
Trad.: Rodrigo Breunig


19.3.16

os inimigos íntimos da democracia

[Goya | Los desastres de la guerra]

[...]

Por que é perigoso o projeto de impor o Bem? Supondo-se que se conheça a sua natureza, seria preciso declarar guerra a todos os que não compartilham do mesmo ideal, e eles ameaçam ser numerosos. Como escrevia Charles Péguy no início do século XX: "Na declaração dos Direitos Humanos há o suficiente para fazer guerra a todo mundo, durante a duração de todo o mundo"! Vítimas incontáveis seriam necessárias para alcançar o futuro radioso. Mas a natureza desse ideal também é problemática. Basta dizer "liberdade" para ficarmos todos de acordo? Não sabemos que os tiranos do passado invocavam regularmente a liberdade? Além disso, pode-se clamar, como faz o documento presidencial americano, negligenciando milênios de história humana, que “esses valores de liberdade são justos e verdadeiros para toda pessoa, em toda sociedade”? Somos verdadeiramente a favor de toda liberdade, incondicionalmente, inclusive, como se diz, a da raposa no galinheiro? E o que vem fazer a “livre empresa” entre os valores universais, deve-se travar guerra contra todos os países que praticam uma economia estatizada? Quanto à “democracia” e à igual dignidade de todos os membros do gênero humano que ela implica, será que ainda à estamos praticando quando impedimos os outros povos de escolher por eles mesmos seu destino?

[...]

...uma publicação oficial do governo americano, datada de abril de 2009, revelou a regulamentação inacreditavelmente minuciosa da tortura, formulada nos manuais da CIA e retomada por conta própria pelos responsáveis jurídicos do governo. Pois é esta a novidade: a tortura já não é representada como infração - lamentavelmente mas desculpável - à norma: ela é a própria norma.

[...]

O contágio se espalha bem além do círculo limitado dos torturadores: vários outros grupos de profissionais se envolvem na prática de suplícios. Conselheiros jurídicos do governo se mobilizam para assegurar a impunidade legal de seus colegas e fornecer uma legitimação para seus atos. Regularmente estão presentes psicólogos, psiquiatras, médicos, mulheres (os torturadores são homens, mas o aviltamento sob o olhar das mulheres agrava a humilhação). Enquanto isso, professores universitários produzem as justificações morais, legais ou filosóficas da tortura. A tortura marca de maneira indelével o corpo dos torturados, mas também corrompe a mente dos torturadores. Progressivamente, a sociedade inteira se vê atingida por esse câncer insidioso, esse ataque ao pacto fundamental que liga uns aos outros os cidadãos de cada país democrático, pacto segundo o qual o Estado é o fiador da justiça e do respeito por todo o ser humano. Um Estado que legaliza a tortura não é mais uma democracia.

[...]

Uma das mais poderosas ameaças que pairam sobre nossas democracias, escreve o juiz Serge Portelli, "é a de uma sociedade de segurança absoluta, de tolerância zero, de prevenção radical, de prisão preventiva, de desconfiança sistemática em relação ao estrangeiro, de vigilância e de controle generalizado". Assim é que nos tornamos nosso próprio inimigo, e um dos piores que existem.

[...]

Antes de entoar um hino à glória de uma nova conflagração verdadeiramente melhor do que todas as outras, talvez fosse preferível meditar sobre as lições que Goya extraiu, duzentos anos atrás, de outra guerra conduzida em nome do Bem, aquela dos regimentos napoleônicos que traziam a liberdade e o progresso aos espanhóis. Os massacres cometidos em nome da democracia não são mais fáceis de sofrer do que os causados pela fidelidade a Deus ou Alá, ao Guia ou ao Partido. Uns e outros conduzem aos mesmos desastres da guerra.

Tzvetan Todorov | 2012
Trad.: Joana Angélica


16.3.16

fofuras, precisamos esclarecer duas coisas:


Primeiro, esta onda de denominar os conservadores de coxinhas está ocultando três grandes preconceitos. O machismo, o racismo e a homofobia. Machista, racista e homofóbico estão longe de ter a mesma conotação de coxinha. 

E segundo, esta dicotomia terrorista, esta lógica binária redutora e burra de que existe Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, eu superei quando tinha dez anos. Dez anos. 

Era isso o que eu tinha a dizer, ou seja, o óbvio.


15.3.16

dialética da escola-prisão


oito

O educador libertário não pode ficar refém de um sistema educacional que tem como meta resultados. Porque o educador com comprometimento real diante dos alunos enxerga a educação como um processo. Uma longa caminhada cheia de palavras: práticas de leitura e práticas de escrita. E também silêncio. 

Mas o sistema educacional vê o aluno como um número. Quer padronizar o modo de pensar, quer notificá-lo como capaz ou incapaz. 

Medo de ousar na escola parece ser uma regra comum. Mas quem ousa quebrar certos paradigmas normalmente é perseguido e, consequentemente, despedido. 

Do jeito que andam as coisas, é mais fácil vender calcinha ou produtos da avon em horário de aula. Para que pensar na "era da sociedade do consumo". Pensar não compra e precisamos a todo custo comprar para sermos sujeitos. 

Sujeitos etiquetas. 


10.3.16

para dar um fim ao juízo


[1925 - 1995]

[...] 

O combate não é de modo algum a guerra. A guerra é somente o combate-contra, uma vontade de destruição, um juízo de Deus que converte a destruição em algo “justo”. O juízo de Deus está a favor da guerra, e de modo algum do combate. Mesmo quando se apodera de outras forças, a força da guerra começa por mutilá-las, por reduzi-las ao estado mais baixo. Na guerra, a vontade de potência significa apenas que a vontade quer a potência como um máximo de poder ou de dominação. Nietzsche e Lawrence verão nisso o mais baixo grau de vontade de potência, sua doença. Artaud começa evocando a relação de guerra EUA-URSS; Lawrence descreve o imperialismo da morte, dos antigos romanos aos fascistas modernos. É para melhor mostrar que o combate não passa por aí. O combate, ao contrário, é essa poderosa vitalidade não orgânica que completa a força com a força e enriquece aquilo de que se apossa. 

[...] 

O combate não é um juízo de deus, mas a maneira de acabar de vez com deus e com o juízo. Ninguém se desenvolve por juízo, mas por combate que não implica juízo algum. 

[...] 

... a vontade de potência contra um querer-dominar, o combate contra a guerra. 

Gilles Deleuze
Trad.: Peter P. Pelbart 
1997 



8.3.16

dialética da escola-prisão


sete 

Eu ainda não entendo uma coisa. Por que submeter o planejamento anual de minha disciplina (que é referente à minha pesquisa e ao complexo bibliográfico) para um corpo pedagógico que não possui a mesma leitura? Às vezes, sequer tem leitura. 

É como se houvesse uma hierarquia de controle: de vigiar o conteúdo e puni-lo por um viés moral lunático.


6.3.16

psicologia da publicidade


[...]

Hoje se lava tudo em plena rua, pobreza como política, sob uma polvaderia tamanha, provocada pelas politiquices em estouro, que tudo inda sai mais sujo que antes da lavação.

Mário de Andrade | 1932


5.3.16

entrevista



Paul Simonon | 1978
[Entrevista originalmente publicada na edição 7 do fanzine Search & Destroy]

O motivo pelo qual eu gosto tanto de Patti Smith Group é que... Bem, se você comparar a Patti Smith com a Debbie Harry do Blondie, quero dizer - a Debbie Harry é meio que "apenas para rapazes" e como as Runaways... Os caras vão aos shows e ficam meio malucos porque tem uma menina no palco cuja atitude é fazer os homens babarem e coisas assim. Enquanto a Patti Smith é muito mais forte e mais honesta. As Slits também... Elas estão fazendo o que querem fazer. Elas não precisam se preocupar com os homens - elas fazem o que gostam.

Alguém como centopéias gigantes? | Seleção de entrevistas do zine Search & Destroy e da Re/Search Publications. V. Vale | Org: Fabio Massari | Trad.: Alexandre Matias


3.3.16

teoria ou teorias


[...]

Perguntar-me-ão: qual é a sua teoria? Responderei: nenhuma. E é isto que dá medo: gostariam de saber qual é a minha doutrina, a fé que é preciso abraçar ao longo deste livro. Estejam tranquilos, ou ainda mais preocupados. Eu não tenho fé - o protervus é sem fé e sem lei, é o eterno advogado do diabo, ou o diabo em pessoa: Forse tu non pensavi ch'io loico fossi! Como Dante lhe faz dizer, "Talvez não pensasse que eu fosse um lógico" ("Inferno", canto XXVII, v. 122-123) -, nenhuma doutrina, senão a da dúvida hiperbólica diante de todo discurso sobre a literatura. À teoria da literatura, vejo-a como uma atitude analítica e de aporias, uma aprendizagem cética (crítica), um ponto de vista metacrítico visando interrogar, questionar os pressupostos de todas as práticas críticas (em sentido amplo), um "Que sei eu?" perpétuo.

Antoine Compagnon | O demônio da teoria: literatura e senso comum. Trad.: Cleonice P. B. Mourão e Consuelo F. Santiago
UFMG | 2012


2.3.16

dialética da malandragem


No Brasil o charlatanismo virou profissão. 
E muito bem remunerada.


1.3.16

de la musique




Guía para combatir las causas de la infelicidad
Responsables No Inscriptos

Vamos a empezar la historia después de terminar / porque de principio a fin ya no queda qué contar / todos saben bien de qué va todo esto así / no es lo que quieren vender / sino lo que compremos al fin / y al parecer padecer para ser solo para parecer / y lo que sé, lo que ser, enloquecer para volver a adaptarse // Vamos a ordenar cada cosa en su lugar / porque lo que se hace gris es blanco o negro, nada más / qué parte no entender de todo lo que está ahí / no es lo que pueden mostrar / sino lo que creemos al fin / y solo ver solo lo que se quiere ver / y lo que sé... / no es sano estar adaptado a un mundo enfermo y yo / me multiplico por cero y desparezco / no tiene lógica ni explicación / que otra cosa se podía esperar / lo que está al margen es solo por la aclaración / no para ser marginal / vamos a llevar todo esto hasta el final / para no seguir así, negando lo que va a pasar / todos saben bien para dónde va todo esto así / no es la forma de pensar sino lo que hacemos al fin / y otra vez yo no sé a dónde me llevan mis pies / y lo que sé... / no es sano estar adaptado a un mundo enfermo y yo / me multiplico por cero y desparezco / no tiene lógica ni explicación / qué otra cosa se podía esperar / si estoy al margen es solo por la aclaración / para no ser funcional / no tiene lógica la explicación / mucho más no se podía esperar / no tiene caso buscar resolver la ecuación / entre entrar y ya no entrar / entre estar y ya no estar / de querer la paz mundial / la misma pulsión de no contribuir / la misma tragedia individual / el mismo miedo a lo que va a venir / y a lo que no se puede controlar / la misma química para estar bien / la misma euforia servil y normal / el mismo vacío al no conseguir / y la tortura de la oscuridad / la misma duda para estar peor / mismo motivo para festejar / la misma estúpida contradicción / de no querer pero seguir igual / la misma traición para comprender / el mismo sentimiento terminal / la misma señal para interferir / el mismo ruido que sintonizar / la misma negación intencional / el mismo intento de decir que no / la zanahoria que está frente a mí / y la mentira que tiene razón / la misma estafa subliminal / el mismo ego para destruir / la misma causa de infelicidad / la misma guía para no seguir / siempre alguien nos quiere dar una lección de vida / la culpa es de los demás / tus horas erróneas.


28.2.16

blues de la calle beale


[James Baldwin | 1924 - 1987]

[...] 

Andar com problemas produce a veces un efecto raro. No sé se podré explicarlo. Hay días e que nos parece que vivimos como de costumbre, oyendo a los demás, hablando con ellos, trabajando o, por lo menos, viendo que el trabajo queda hecho. Pero la verdad es que en esos días no vemos ni oímos a nadie; y si alguien nos pregunta qué hemos hecho durante el día, tenemos que pensar un rato antes de contestar. Pero al mismo tiempo, y en esos mismos días - esto es lo más difícil de explicar -, vemos a los demás como nunca los hemos visto. Todos brillan como navajas. Quizá sea porque antes de que empezaran nuestros problemas los mirábamos de otro modo. Quizá sea porque ahora nos interesamos mucho más en ellos, y de manera muy distinta, y eso nos los hace ver como extraños. Quizá sea porque estamos asustados, confundidos, y ya no sabemos con quién podemos contar en el futuro para que nos ayude. 

Trad.: Enrique Pezzoni


18.2.16

los libros de mi vida


¿Como se convierte alguien en escritor - o es convertido en escritor -? No es una vocación, a quién se le ocurre, no es una decisión tampoco, se parece más bien a una manía, un hábito, una adicción, si uno deja de hacerlo es ridículo, y al final se convierte en un modo de vivir (como cualquier otro).


Ricardo Piglia


15.2.16

tenemos que salir de este lugar


[The animals | 1965]

En el aire de esta ciudad / Donde a duras penas se hace ver el sol / La gente repite sin parar / Y dice / Muchacho, no sirve para nada probar / ¿No sabes que nunca cambia nada? // Entonces, ¿me escuchas? / Eres bonita, eres joven / Tienes la suerte de empezar ahora, / ¿Me escuchas? // Mira a mi padre, / Mira a mi padre / Cada noche / Temprano a la cama / Ya todo gris / Como un esclavo / Ha trabajado toda su vida / Y nosotros / Pero mira / Em que trampa estamos. // Eh, pero ¿no ves? / Tenemos de largar de aqui / Antes que lagarnos de aqui / Antes de que nos puedan / Atrapar también a nosotros. // Eh, pero¿no oyes? / Debe existir algo mejor / Para ti y para mí / Si no / A ti, que eres joven y bonita / Te harán morir / Bastante antes de tiempo.


12.2.16

los libros de mi vida

[Buenos Aires]

Páginas de una autobiografia futura

En esa ciudad los nombres de las calles remiten a los mártires muertos en defensa de su fe en el cristianismo primitivo, y mientras andaba por sus callejuelas, imaginé de pronto una ciudad, esa misma quizá, cuyas calles llevaran el nombre de los activistas que han muerto luchando por el socialismo...

Ricardo Piglia


11.2.16

somos un pueblo


En Buenos Aires
mi corazón
es una guerrilla.


4.2.16

bolachão


Nunca sere policia

Hoy me encuentro solo / sentado en un rincon / pensando en muchas cosas / buscando una razon / Mirando al pasado / los dias que yo vivi / trate de buscar en vano / el modo de ser feliz / Tuve mil mujeres / y mil gente conoci / pero igual estoy vacio / y no puedo ya fingir / Quitense la mascara / y vean la realidad / el que nunca estuvo solo / no conoce la amistad / Todos sabemos / que los amigos de verdad / nunca te mandaran preso / y nunca lo haran / Y lo que rescato / despues de tanto sufrir / que solo una cosa / no voy a elegir // Nunca sere policia / de provincia ni de capital / Nunca sere policia / de provincia ni de capital.


3.2.16

un colegio en la esquina


La hierba de la tumba nos cubrirá el año próximo.
Ahora estamos de pie y reímos;
mirando pasar a las muchachas;
apostando a caballos lerdos; bebiendo ginebra barata.
Nada tenemos que hacer; ningún sitio adonde ir; nadie.

El año pasado fue un año; nada más.
No fuimos más jóvenes entonces; ni más viejos ahora.
Nos arreglamos para lucir como jóvenes:
nada sentimos detrás de nuestros rostros, de un lado u otro.

Probablemente no estaremos del todo muertos al morir.
Jamás fuimos algo a lo largo del camino; ni siquiera soldados.

Somos los insultados, hermano, los muchachos desolados.
Sonãmbulos en una tierra oscura y terrible,
donde la soledad es un cuchillo roñoso contra nuestras gargantas.
Estrellas heladas nos observan, compadre.
Estrellas heladas y las putas.


K. P.


22.1.16

biodversidade

Au temps d'Harmonie ou d'Anarchie | Signac | 1894


Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Paulo. H. Britto | Macau
2003


21.1.16

rolling stones

[1933 - 2004]

Jonathan Cott: Acredito que o espírito dos anos setenta tende a se confundir com as ideias ou até desprezar as ideias manifestadas por Nigel Dennis e por uma série de noções que floresceram há uma década. 


Susan Sontag: Vamos falar sobre essa mania de classificar as décadas, porque sinto que há algo terrível em definir os anos cinquenta, sessenta e setenta como grandes construtos. São mitos. Agora precisaremos criar um novo conceito para os anos oitenta, e estou muito curiosa para ver o que as pessoas vão inventar. Esse discurso sobre as décadas é tão ideológico.

A ideia é que tudo que se esperou e se experimentou no anos sessenta não deu e não poderia dar certo. Mas quem diz que não vai dar certo? Quem diz que há algo de errado com as pessoas que se colocam à margem? Acredito que o mundo devia ser um lugar seguro para as pessoas marginais. Uma das principais coisas que deveria definir uma sociedade é permitir que as pessoas sejam marginais. O que mais choca nos países que se intitulam comunistas é o fato de seu ponto de vista não permitir pessoas marginais e não convencionais. Acredito que, de um jeito ou de outro, sempre deveria haver a possibilidade de as pessoas se sentarem na calçada, e uma das coisas interessantes que aconteciam antes era que muitas pessoas escolhiam ser marginais, e as outras pareciam não se importar. Acho que devemos permitir não só pessoas e estados de consciência marginais, mas também o que é incomum ou divergente. Defendo rigorosamente os divergentes. E também penso, é claro, que seria impossível que todos fossem divergentes – é óbvio, a maioria das pessoas tem de escolher uma forma central de existência. Mas em vez de nos tornarmos cada vez mais burocráticos, padronizados, opressivos e autoritários, por que não permitimos que mais e mais pessoas sejam livres?

[...]

O fato de Gritos e Sussurros - para usar o título do filme de Bergman -, em certo sentido, ser há tanto tempo o mundo designado às mulheres, e não o mundo do pensamento dialético, sempre me impressiona.

Na nossa cultura, elas foram designadas ao mundo dos sentimentos, porque o mundo dos homens é definido como o mundo da ação, da força, da capacidade executiva e da capacidade de desprendimento, portanto as mulheres se tornaram o receptáculo do sentimento e da sensibilidade. Na nossa sociedade, as artes são concebidas como atividades principalmente femininas, mas não o eram no passado, isso porque antes os homens não se definiam tanto nos termos da repressão das mulheres.

Uma das minhas campanhas mais antigas é contra a distinção entre pensar e sentir, o que é base de todas as visões anti-intelectuais: cabeça e coração, pensamento e sentimento, fantasia e julgamento... não acredito que isso seja verdade. Temos mais ou menos o mesmo corpo, mas tipos muitos diferentes de pensamento. Acredito que pensamos muito mais com os instrumentos dados pela cultura do que pelo corpo, e disso surge uma diversidade muito maior de pensamento no mundo. Tenho a impressão de que o pensar é uma forma de sentir, e que o sentir é uma forma de pensar.

Por exemplo, o que faço resulta em livros ou filmes, objetos que não são eu, mas são transcrições de algo - sejam palavras, imagens ou qualquer outra coisa -, imagina-se que esse processo seja puramente intelectual. Mas quase tudo que faço parece ter a ver tanto com a intuição quanto com a razão. Não é que o amor pressupõe a compreensão, mas amar alguém é se envolver em todo tipo de pensamento e juízos. Amar é isso - há uma estrutura intelectual de desejo físico, de luxúria. Mas o tipo de pensamento que faz essa distinção entre pensar e sentir é apenas uma das formas de demagogia que causam tantos problemas às pessoas por fazerem-nas desconfiar de coisas das quais não deveriam desconfiar, nem com as quais deveriam ser complacentes.

Entender a si próprio dessa maneira parecer ser muito destrutivo, e também muito culpabilizantes. Esses estereótipos de pensar versus sentir, cabeça versus coração, masculino versus feminino, foram inventados numa época em que as pessoas estavam convencidas de que o mundo seguia numa direção específica - ou seja, rumo a tecnocracia, racionalização, ciência, etc. - , mas foram todos inventados como uma defesa contra os valores românticos.

[...]

Você precisa criar seu espaço - um espaço que tenha muito silêncio e muitos livros.

[...]

Penso em mim mesma como alguém que se criou - é uma ilusão que funciona. Também penso em mim mesma como autodidata, apesar de ter tido uma excelente educação - Berkeley, Chicago, Harvard. Mas ainda acho que, em essência, sou autodidata. Nunca fui discípula nem protegida de ninguém, não fui lançada por ninguém, não "fiz minha carreira" por ser amante, esposa ou filha de alguém. Nunca esperei que fosse de outra maneira. Mas, é claro, não acho que seja ruim aceitar ajuda. Se você tiver ajuda, ótimo. Mas gosto do fato de ter feito sozinha. Achei que tinha de fazer sozinha, aceitei como um desafio. E me senti estimulada para fazer dessa maneira.

[...]

No fundo, acho que devemos exterminar interpretações falsas e demagógicas... eu me identifico com essa iniciativa. Em momentos grandiosos, penso que estou envolvida nessa tarefa de arrancar cabeças - como Hércules fez com a Hidra - sabendo muito bem, é claro, que esse mesmo tipo de falsa consciência e de pensamento demagógico vai aparecer em outro lugar. Mas vou continuar fazendo isso o quanto puder, e sei que outras pessoas também vão continuar.

Antes eu disse que a tarefa do escritor é prestar atenção no mundo, mas obviamente acredito que a tarefa do escritor, como a concebo em relação a mim mesma, também é manter uma relação agressiva e antagônica para com todos os tipos de falsidade... e, repetindo, sabendo muito bem que se trata de uma tarefa infinita, pois você nunca vai acabar com a falsidade, com as falsas consciências ou com os falsos sistemas de interpretação. Mas deveria sempre haver um lugar em cada geração que se opusesse a essas coisas, e é isso que me incomoda tanto em algumas partes do mundo onde a única crítica à sociedade vem do próprio Estado. Acho que sempre deveria haver pessoas autônomas que, por mais quixotesco que pareça, tentam arrancar mais algumas cabeças, tentando acabar com a alucinação, a falsidade e a demagogia, tornando as coisas mais complicadas, pois existe um impulso inevitável em tornar as coisas mais simples. Mas, para mim, a coisa mais terrível seria sentir que concordo com as coisas que já disse e escrevi - isso me tornaria ainda mais desconfortável, pois significaria que parei de pensar.

trad.: Rogério Bettoni
outubro de 1979


19.1.16

muro


Caprichos & relaxos
Chiclete com banana
Iogurte com farinha
Caroço de goiaba
Bagaço
Coração de cavalo
Prato feito
Creme de lua
Chá com porrada
Olhos vermelhos
Corações veteranos
Me segura qu'eu vou dar um troço
Os últimos dias de paupéria
Vai fundo


18.1.16

doc


[Reel Injun | 2009]


Eu estava lendo uma entrevista e nela constava a seguinte pergunta: O que você acha de Nietzsche de que a verdade é apenas a solidificação de antigas metáforas? Ele fala de como estereótipos e clichês tornam-se a verdade do mundo. 

Sobre a pergunta, eu contraponho se no documentário Reel Injun tal aplicação do pensamento do filósofo não teria validade.


12.1.16

vacina fuenzalida & palácios


I

Promulgar uma opinião em rede virtual significa expor-se ao teste de raiva dos outros.


10.1.16

prescrição


Olha, eu já disse que gostaria de transformar os inimigos odiados em objetos de amor. Mas sadomasoquismo não é comigo.


7.1.16

Doc


[Escrito e dirigido por Don Letts | 2005]

Observando profundamente, estamos aptos a reconhecer o Punk como parte de um movimento contínuo da contracultura. Foi nesse espírito que eu fiz esse filme. Não como uma lembrança nostálgica, mas sim como forma de seguir em frente. Afinal, se deu certo antes, pode dar certo novamente.

Don  Letts


4.1.16

apocalipse motorizado



Teve um dia que não sei que tipo de animal bateu a porta do carro com tal estrondo que quase rachou a lente do meu óculos.


29.12.15

bolachão


[Fun People | 1996]

Queríamos tanto uma coisa tão diferente.

Deleuze e Parnet

Libre al fin

Te conoci en la escuela nacional / No comiamos mierda de nadie, y al final / El director firmo, la hoja de expulsion / Le dijimos "adios" // Y a la mierda! // Despues de un tiempo la cosa no fue mal / Los fines de semana saliamos, a bailar / Como me hacias reir / Toda la noche en cualquier bar / Jugando al noche al billar... // Y unos petas! // Yo ensayaba en mi habitacion / Y tu preparabas mientras tu proxima accion / En un momento dado, el tipo equivocado, cae empapelado // Y a la carcel!!! / Hice lo que pude pa' escribir / ¿Como la has pasado hoy? ¿Te dieron mucho ahi? / Cuando te vea venir, vamos a convertir / Toda esta ciudad. // En cenizas!!! // Aunque pasen los años y todo haya cambiado, yo me quiero ir de aqui. / Nunca olvidare lo que senti cuando saliste libre al fin. / Nunca olvidare lo que senti, por que sabia donde ibas a ir. / Y si estas hoy alli, echa un trago por mi, desde aqui lo hare por ti / tranquilo / Con cuidado / Libre al fin


27.12.15

bilhete premiado


Qual ser amado não envolve paisagens, continentes e populações mais ou menos conhecidos, mais ou menos imaginários?

Gilles Deleuze

La librería es un territorio con una psicogeografía propia, es un lugar de confluencias de vidas reales e imaginarias, y los libros tienen su propia historia aparte de la que cuentan

Manuel Rivas

**

Fui questionado, certo fim de tarde com relâmpagos e chuva, por simples escarnio ou ironia de Ana, o que eu faria se ganhasse na loteria. Eu não pude responder rapidamente. Ela me pegava entre um meio sono e a digestão de uma leitura. Pensei me virando em sua direção que brincadeira ela jogava como rede para cima de mim? Mas para entrar no jogo e não ser visto como um chato de plástico que não sabe conversar, eu respondi que abriria uma livraria em Buenos Aires. 

Surpresa, Annuska, como eu gostava de lhe chamar, indagou-me: 

- Mas você trabalharia?
- Sim. Também, para complementar e sustentar-se no "sonho", eu compraria o prédio em que habito.
- Cê diz este aqui?
- Claro. 
- Todo ele?
- Todo. E entregaria para cada família. Reformaria outros. E ficaria de boa. Creio que eu teria uma livraria aqui e uma em Buenos Aires. Mas moraria lá. 
- Por que?
- Para andar de bike. E terminar os meus romances.
- Cê ri por quê? 
- Não sei, me deu vontade. Da falsa ilusão sem o problema econômico aparecendo a mim a toda hora como um fantasma.
- Paranóico.
- Lembre-se que estou desempregado e literatura não se troca nem no mercado de tomates.
- Ai, começou. Cê sempre se irrita. Põem-se como vítima.
- Eu, vítima? Vou começar a chamá-la de mano. Tá me tirando?
- Acabou a cena? Cê não viajaria? Não tiraria férias? Sei lá, se mexer.
- Se fala como seu eu fosse uma lagarta. Claro que viajaria e, alem do mais, as viagens teriam como objetivo conhecer "todas" as livrarias e delas alimentar a Noturno Citadino.
- O que é Noturno Citadino?
- Como o que é? É o nome da livraria.
- Ah!

Ana sentada ao meu lado retira os sapatos, as meias e se aconchega. Toca seus pés gelados na minha perna.

- Como cê tá quentinho. 

Ana me abraça.


26.12.15

arte urbana

[Stencil | CWB]


25.12.15

valor e cultura



XXXI

A competição nada mais é do que uma sublimação da guerra.


22.12.15

deformação


eh pomba suja / urubuzinha de metrópole / ratazana / ávida por dejetos / bebedora de água preta / aí está você: / uma chapa / uma pasta / de pena e sangue / milhares de vezes / vai-se repetir sua morte / sob os pneus / eh pomba lerda / viu o que a cidade lhe fez? / bem feito pra você. / viu o que a cidade nos fez?


Donizete Galvão


21.12.15

chopin na cadeira elétrica


[Radio Friendly Unit Shifter | 1993]


Um grande romancista do nosso tempo se perguntou uma vez se a Terra não seria o inferno dos outros planetas.


20.12.15

...


Vai, mano.

Fala de mim,
fala em meu lugar,

sabe tudo!


19.12.15

valor e cultura


XXX

Mandar alguém calar a boca tem a mesma prepotência de cê sabe com quem está falando?


18.12.15

massa conservadora embrutecida pelos meios de comunicação de massa



Chegaram-me as imagens de manifestantes do último domingo – que já viraram piada pronta com o pato de tróia – soltando suas "opiniões", que não passaram de pesados preconceitos. 

"Tudo vagabundo", "vai trabalhar" e "pagar imposto" são exemplos do tipo de mentalidade da horda. Isso em um domingo em que uma senhora apontava a manifestação dos skatistas como se ela fosse um ato violentíssimo. Sanguinário. Infelizmente a pessoa que destilou o verbo trabalhar não sabe o quanto de exploração há por trás dele. E tem mais: são uma palavra e uma ideia que não passam de condicionamento. 

Mas vai falar para esta pessoa - uma cidadã de bem exemplar - sobre o trabalho intelectual e braçal. Vai explicar para esta "brasileira oficial" a etimologia da palavra trabalho. Nesta, quem paga o pato é o trabalhador.

Tentei, com muito esforço, ver mais registros do ridículo de atmosfera fascista. Não deu. Os manifestantes canarinhos reproduziram maneiras mecanicamente hostis. Entre outros clichês que se tornaram dogmas não sei como. Esquemas simplificadores dos quais devemos nos livrar. 

Ao fim, eu que estou mais de saco cheio deste joguinho de adultos folgados e mimados, invoco o direito à preguiça como um último ato de resistência.



16.12.15

o gato por dentro

[1914-1997]

O ambiente mágico está sendo intimidado a desaparecer. Não há mais rena verde no Forest Park. Os anjos estão deixando todas as alcovas no mundo inteiro, o ambiente no qual unicórnios, pés-grandes e renas verdes existem está cada vez mais ameaçado, como as florestas tropicais e as criaturas que nela vivem e respiram. Quando as florestas são derrubadas para dar lugar a motéis, Hiltons e MacDonald's, morre também toda a magia do universo.

William S. Burroughs
Trad.: Edmundo Barreiros


13.12.15

força


Eu preciso escrever
com uma simplicidade enxuta
despretensiosa ternura.


27.11.15

deslocamento


Já as asas enormes
do albatroz de Baudelaire
não têm nenhuma serventia
na grande cidade
que atropela a imaginação
do poeta.

26.11.15

sobre a natureza do homem

[Kurosawa | 1954]

"O garoto está com quatro anos, é esperto, diz que a mãe ficou doente por causa de uns homens do mal que a maltrataram e que quando crescer vai comprar uma espada bem grande e matar todos eles."

25.11.15

tempo


Poetas: este é o tempo de revolta / tempo de língua afiada / tempo de queimar as prisões / tempo de revolução.


18.11.15

civilização e dinheiro

[1890-1954]
[...]

A cidade atual vive sob o signo do que Nietzsche, já em 1870, chamava de "presente indecente". O burguês moderno faz a barba telefonando, fumando charuto e namorando a manicure, tendo aos pés o engraxate esquálido que, em vez de morder-lhe as pernas, com ele discute o futebol.

[...]

Lessing profetizava com otimismo que um breve minuto de consciência faria desaparecer, sem deixar traço, essa espécie problemática em si mesmo de macacos carniceiros, atacados de mania de grandeza, que são os usufruidores do capital.

Oswald de Andrade | 1949


17.11.15

bolachão


[The Adicts | 1981]

Picked up umbrella / Put on my bowler / Looked in mirror / Ready for the tango / I phoned a taxi / For me and Maxine / She looked fantastic / We danced the tango / We drank champagne / We danced again / We had laughter / And then after / Face to face we danced the tango / Cheek to cheek we danced the tango


13.11.15

epístola

[1920-1955]

Há quase vinte anos venho dando o melhor do meu esforço para ajudar a construir em São Paulo um núcleo de estudos universitários digno desse nome. Por grandes que sejam as minhas falhas e por pequena que tenha sido a minha contribuição individual, esse objetivo constitui o principal alvo de minha vida, dando sentido às minhas atividades como professor, como pesquisador e como cientista. Por isso, foi com indisfarçável desencanto e com indignação que vi as escolas e os institutos da Universidade de São Paulo serem incluídos na rede de investigação sumária, de caráter policial-militar, que visa a apurar os antros de corrupção e os centros de agitação subversiva no seio dos serviços públicos mantidos pelo Governo Federal.

Não somos um bando de malfeitores. Nem a ética universitária nos permitiria converter o ensino em fonte de pregação político-partidária. Os que exploram meios ilícitos do enriquecimento e de aumento do poder afastam-se cuidadosa e sabidamente da área de ensino [...]. Em nosso país, o ensino só fornece o ônus e pesados cargos, oferecendo escassos atrativos, mesmo para os honestos, quanto mais para os que manipulam a corrupção como um estilo de vida. De outro lado, quem pretendesse devotar-se à agitação político-partidária seria desavisado se cingisse às limitações insanáveis que as relações pedagógicas impõem ao intercâmbio das gerações.

Carta de Florestan Fernandes ao tenente-coronel que veio detê-lo, em setembro de 1964.


12.11.15

sobre a universidade


O professor não é um mistagogo, que assume tais decisões pelos estudantes. Não é portador de nenhuma "mensagem" ou "profecia" a não ser o empenho no aprofundamento da comunicação e no significado intrínseco do conhecimento, fiel à tradição racionalista e revolucionária, da pesquisa e interrogação ilimitada, da análise fria e clara da verdade, na renúncia à negar-se a si como "sujeito", da própria seriedade e do intrínseco significado do trabalho cotidiano.

Maurício Tragtenberg


10.11.15

no brasil


... é [...] mais complexo o significado da leitura para o brasileiro. Quando se constata que a porcentagem maior de venda de impressos concentra-se em publicações banais, a leitura pode ser tomada como ação que beneficia o leitor?

[...] 

A década de 60 marcou a expansão da TV, o meio de comunicação ao qual se atribui com alguma frequência o poder de desviar o público do livro. [...] Tanto o rádio como a televisão são meios que dispensam a habilidade da leitura. 

Milanesi | 1983


4.11.15

papo reto


II

Eu não gosto de brucutu fantasiado de gente civilizada.


3.11.15

educação brasileira: diagnóstico e perspectivas


[...]

Quanto menos os corpos docente e discente participam das decisões na universidade, mais o estamento burocrático ocupa lugar. Constitui-se numa figura sem rosto, serve a qualquer poder, a qualquer política, coberta pela ética da irresponsabilidade burocrática: "recebi ordens". Essa ética, levada ao limite, converte o próprio mal numa banalidade e origina os Eichmann da existência.

Tragtenberg | 1979


1.11.15

criança de domingo



[Chico Science & Nação Zumbi | 1996]


Não me atribua dotes, 
autoridades e gostos que eu esteja bem longe de ter. 

Não sou herói 
muito menos mártir.

Xô!


30.10.15

o fim do mundo

[1942-1945]

No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

João Cabral | O engenheiro


28.10.15

minifesto

[Meninos | V. Bogdanov | 1989]

Aos movimentos ditos revolucionários é preciso se opor:


A. Aos hábitos repressivos;
B. Ao burocratismo;
C. Ao maniqueísmo moralizante.

Passo a passo. Sem lograr os múltiplos desejos.



27.10.15

parece que sei lá

[Guido Pigni]

Tirar con indirectas eso no es de hombres
El que me tire a mi tiene que mencionar mi nombre

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar



22.10.15

...

[Kikuo]


21.10.15

l’atelier populaire


[1968]

EPÍLOGO

Finda a leitura, o livro está completo

em sua solidão mais-que-perfeita
de couro falso e íntimo papel.

Lá fora, o mundo segue, arquitetando
as mesmas contingências costumeiras
que nunca esbarram numa irrefutável

conclusão que se possa resumir
em três letras letais, inalienáveis.
Que paz será possível nessa selva

sem índices, prefácios, rodapés?
indaga, da estante mais excelsa,
o livro. Porém nada disso importa,

se todas as dúvidas se dissipam,
com tudo o mais, quando o bibliotecário
apaga as luzes, sai e tranca a porta.

Paulo Henriques Britto | Tarde
2007


20.10.15

enredo


E quando o menino ou a menina abrir o cofre do artista da fome e descobrir, para a sua decepção, apenas livros guardados?


19.10.15

de la musique


[B-Negão & Seletores de Frequência | Transmutação | 2015]


16.10.15

quem policia a polícia?


Foi tarde e sem ser julgado pelos crimes cometidos o major Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na fase mais sanguinária das torturas e dos assassinatos, foi este elemento da escória fardada quem mobilizava o DOI-CODI. Suas atividades de "coice de mula" foram exercidas durante três anos. De 1970 – 1974. 

Este senhorzinho era daqueles que estava fazendo hora extra no mundo.


7.10.15

dialética da escola-prisão


seis

"Parte do desespero dos professores, agora, é que a educação está sendo um dos setores mais depreciados desta sociedade. Ela foi marginalizada depois dos anos 60, para diminuir a contestação igualitária que se desenvolvia nos campi. Assim, da noite para o dia, os dias de esperança se transformaram em cortes de orçamento, demissões, e programas repressivos de retorno ao básico. Os professores que trabalham pela transformação, nas escolas ou nas faculdades, quase sempre se sentem ali isolados, perguntando-se o que significa seu trabalho numa área tão depreciada da economia. A educação foi marginalizada pela reação conservadora aos anos 60, precisamente devido a seu potencial político."



6.10.15

dialética da escola-prisão


cinco

"A ação burocrática resume-se em alterações superficiais na organização da educação, de forma e de denominação, gerando novas evasões de alunos, humilhando professores, desviando-os de sua prática docente e colocando-os em competição de cunho empresarial."


1.10.15

coração veterano


No capitalismo a democracia é um mero fetiche e estão incrustados nela valores não de homens mas de canalhas.