7.5.16

a caminho de uma ateologia


[...] Os devotos de ontem e de anteontem têm todo o interesse em fazer passar o pior e a negatividade contemporânea por um produto do ateísmo. Persiste a velha ideia do ateu imoral, amoral, sem fé nem lei ética. O lugar-comum para o último ano do colegial segundo o qual "se Deus não existe, então tudo é permitido" - refrão extraído de Os irmãos Karamazov de Dostoiévski - continua produzindo efeitos, e de fato a morte, o ódio e a miséria são associados a indivíduos que invocariam a ausência de Deus para cometer seus crimes. Essa tese equivocada merece ser bem e devidamente desmontada. Pois o inverso me parece mais verdadeiro: "Porque Deus existe, então tudo é permitido...". Eu explico. Três milênios testemunham, dos primeiros textos do Velho Testamento até hoje: a afirmação de um Deus único, violento, ciumento, briguento, intolerante, belicoso gerou mais ódio, sangue, mortes, brutalidade do que paz... A fantasia judaica do povo eleito que legitima o colonialismo, a expropriação, o ódio, a animosidade entre os povos, depois a teocracia autoritária e armada; a referência cristã dos mercadores do Templo ou de um Jesus paulino que afirma vir para trazer a espada, que justifica as Cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas, a Noite de São Bartolomeu, as fogueiras, o Índex, mas também o colonialismo planetário, os etnocídios norte-americanos, o apoio aos fascismos do século XX e a onipotência temporal do Vaticano há séculos nos menores detalhes da vida cotidiana; a reivindicação clara em quase todas as páginas do Corão de um apelo a destruir os infiéis, sua religião, sua cultura, sua civilização mas também os judeus e os cristãos - em nome de um Deus misericordioso! São todas pistas para desvendar a ideia de que, justamente, por causa da existência de Deus tudo é permitido - nele, por ele, em seu nome, sem que os fiéis, nem o clero, nem o populacho, nem as altas esferas tenham o que contestar... 

Michel Onfray 
Trad.: Monica Stahel


6.5.16

chopin na cadeira elétrica


Uart Punk | 1981

Anarchia in Italia

Rivoglio la mia libertà / Questa società me l'ha tolta / Questa società che mi uccide ogni giorno / nel posto di lavoro, nei quartieri / nei ghetti, nella famiglia, nella scuola / Rivoglio la mia libertà / Quello che voglio è / Anarchia In Italia / Loro ci odiano, siamo rifiutati / ma noi sappiamo cosa vogliamo / e sappiamo come averlo / Anarchia In Italia / Disobbedire sempre e dovunque / è questo il nostro messaggio: / sabotaggio. / Possiamo Liberarci. / Anarchia In Italia. / Rifiuta ogni ideologia / Rifiuta le etichette / Dimostra che il punk non morirà mai / Anarchia in Italia.


3.5.16

traité d'athéologie



[...]

Constatei quanto os homens fabulam para evitar olhar o real de frente. A criação de além-mundo não seria muito grave se seu preço não fosse tão alto: o esquecimento do real, portanto a condenável negligência do único mundo que existe. Enquanto crença indispõe com a imanência, portanto com o eu, o ateísmo reconcilia com a terra, outro nome da vida.

[...]

Meu ateísmo se ativa quando a crença privada torna-se assunto público e em nome de uma patologia mental pessoal organiza-se também para os outros o mundo que convém. Pois da angústia existencial pessoal à gestão do corpo e da alma dos outros há um mundo no qual se ativam, emboscados, os aproveitadores dessa miséria espiritual e mental. Desviar a pulsão de morte que os aflige para a totalidade do mundo não salva o atormentado e não muda em nada sua miséria, mas contamina o universo. Querendo evitar a negatividade, ele a estende à sua volta, depois gera uma epidemia mental.

[...]

O império patológico da pulsão de morte não se cura com uma difusão caótica e mágica, mas com um trabalho filosófico consigo mesmo. [...] O ateísmo não é uma terapia mas uma saúde mental recuperada.

Michel Onfray | 2007
Trad.: Monica Stahel


2.5.16

por que sou um destino

Subhumans | 1983

A noção de "Deus" foi inventada como antítese da vida - nela se resume, numa unidade aterradora, tudo o que é nocivo, venenoso, caluniador, todo o ódio da vida. A noção de "além", de "mundo verdadeiro" só foi inventada para depreciar o único mundo que há - a fim de não mais conservar para nossa realidade terrestre nenhum objetivo, nenhuma razão, nenhuma tarefa! A noção de "alma", de "espírito" e, no fim das contas, mesmo de "alma imortal", foi inventada para desprezar o corpo, para torná-lo doente - "sagrado" -, para conferir todas as coisas que merecem seriedade na vida - as questões de alimentação, de moradia, de regime intelectual, os cuidados aos doentes, a limpeza, o clima - a mais aterradora indiferença! Em vez de saúde, "a salvação da alma" - isto é, uma loucura circular que vai das convulsões da penitência à histeria da redenção! A noção de "pecado" foi inventada ao mesmo tempo que o instrumento da tortura que a completa; a noção de "livre-arbítrio", para confundir os instintos, para fazer da desconfiança com relação aos instintos uma segunda natureza.

Nietzsche


30.4.16

homovidens


I

Os sitcoms Friends, Seinfeld, That ‘70s Show e The Fresh Prince of Bel-Air, para ficarmos apenas nesses quatro exemplos, são tão cheios de clichês, são tão insossos que necessitam de risadas mecânicas para funcionar. Fora disso, nós temos o telespectador nada emancipado.


28.4.16

un llamado al Ateísmo Militante



O bule celeste

Bertrand Russell


Muitos ortodoxos falam como se fosse obrigação dos céticos contraprovar dogmas consagrados, e não dos dogmáticos comprová-los. Isso, é claro, um equívoco. Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte há um bule de chá chinês rodando em torno do Sol numa órbita elíptica, ninguém seria capaz de contraprovar minha afirmação, desde que eu tenha tido o cuidado de acrescentar que o bule é pequeno demais para ser revelado até pelos nossos telescópios mais potentes. Mas, se eu prosseguisse dizendo que, como minha afirmação não pode ser contraprovada, é uma presunção intolerável por parte da razão humana duvidar dela, imediatamente achariam que eu estava falando maluquices. Se, porém, a existência do bule tivesse sido declarada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos e instilada na cabeça das crianças na escola, a hesitação em acreditar em sua existência se tornaria um traço de excentricidade e garantiria ao questionador o atendimento por psiquiatras numa era esclarecida ou por um inquisidor em eras anteriores. 


27.4.16

Consumismo versus igualitarismo


O consumo, imposto atualmente à população, é ditado pelo sistema de produção. Controlando os meios de comunicação de massa, esse sistema pode impor uma forma predeterminada de comportamento aos consumidores potenciais - isto é, pode distorcer seu perfil de demanda. Não se pode, portanto, falar de livre escolha.

As firmas que controlam a produção controlam também o consumo, que é uma função de renda e do crédito. Dessa maneira, subir na escala de consumo torna-se, paradoxalmente, um dos objetivos da "expectativa de ascensão", esse novo tipo de ethos imposto ao cidadão comum por aqueles que acumulam cada vez mais, "supranacionalmente", os benefícios do trabalho de todos.

Defender o "consumismo" pode ser uma hábil manobra política ou uma forma de oportunismo sofisticado, com o qual provavelmente se pode conquistar o povo e ganhar o poder, sem contudo mudar fundamentalmente a estrutura do poder - isto é, sem colocar o povo no poder. Como Paulo Freire (1968, p. 61) salientou de forma tão sagaz o problema da pobreza não é uma questão de integrar a população pobre em uma estrutura opressiva, a fim de que possa tornar-se mais parecido com o opressor, mas, sim, de transformar essa estrutura, de maneira que cada indivíduo seja o que é.

Milton Santos | 1978


26.4.16

chopin na cadeira elétrica


Fugazi | 1991


Outro elemento muito bacana do punk: não há frescura de rock star.


25.4.16

chopin na cadeira elétrica


Dead Kennedys | 1984


O bacana do punk rock é isto, rapaz: a liberdade de subir ao palco, fazer a dancinha e mergulhar na piscina humana.


15.4.16

ditadura do automóvel em um planeta poluído

[Singer]

Jean Paul Sartre, em uma de suas peças de teatro, termina enunciando que o inferno são os outros. Porém, os outros agora têm carro. Eles estão com as máquinas assassinas, barulhentas, poluidoras e destruidoras dos espaços urbanos.


14.4.16

minduim


O mundo dos Peanuts é um microcosmo, uma pequena comédia humana para todos os bolsos.

No meio, está Minduim: ingênuo, cabeçudo, sempre inábil e, portanto, votado ao insucesso. Necessitado até à neurose de comunicação e "popularidade", e recebendo em troca, das meninas matriarcais e sabichonas que o rodeiam, o desprezo, as alusões à sua cara de lua-cheia, as acusações de burrice, as pequenas maldades que ferem profundamente. Minduim, impávido, procura ternura e afirmação em toda parte: no baseball, na construção de "papagaios", nas relações com seu cão Xereta, nos contatos de jogo com as meninas. Fracassa sempre. Sua solidão torna-se abissal, seu complexo de inferioridade, esmagador (colorido pela suspeita contínua que também atinge o leitor, de que Minduim não tenha nenhum complexo de inferioridade, mas seja realmente inferior. Pior: é absolutamente normal. É como todos. Por isso, caminha sempre à beira do suicídio ou, na melhor das hipóteses, do colapso: porque busca a salvação segundo fórmulas comodamente propostas pela sociedade em que vive (a arte de fazer amigos, como tornar-se um solicitador animador de reuniões sociais, como conseguir cultura em quatro aulas, a busca da felicidade, como agradar às meninas... obviamente, o Doutor Kinsey, Dale Carnegie e Lin Yutang o arruinaram). Mas como o faz com absoluta pureza de coração, e nenhuma velhacaria, a sociedade está pronta a rejeitá-lo na figura de Lucy, matriarcal, pérfida, segura de si, empresária de lucro certo, pronta a comerciar uma prosopopéia falsa de fio a pavio, mas de indubitável efeito (são as duas aulas de ciências naturais ao irmãozinho Linus, uma mixórdia de idiotices que dão náuseas a Minduim - "I can't stand it", não posso aguentar isso, geme o desgraçado, mas com que armas se pode deter a má-fé impecável, quando se tem a desventura de ser puro de coração?...)

Umberto Eco
Trad.: Pérola de Carvalho


10.4.16

shabat


[...]

A Segunda Guerra Mundial dizimou nossa comunidade judaica em Criclkewood, e a comunidade da Inglaterra como um todo perderia milhares de pessoas nos anos pós-guerra. Muitos judeus, inclusive primos meus, emigraram para Israel; outros foram para Austrália, Canadá ou Estados Unidos; meu irmão mais velho, Marcus, foi para a Austrália em 1950. Muitos dos que permaneceram assimilaram-se e adotaram formas de judaísmo diluídas, atenuadas. Nossa sinagoga, que lotava quando eu era criança, foi se esvaziando anos após ano.

Recitei minha parte do bar mitsvá em 1946 para uma sinagoga relativamente cheia onde estavam várias dezenas dos meus parentes, mas para mim este foi o fim da prática judaica formal. Não passei a seguir as obrigações rituais de um judeu adulto - orar todos os dias, pôr os tefilin antes da oração matinal - e gradualmente me tornei mais indiferente às crenças e aos hábitos dos meus pais, embora não houvesse nenhum momento de ruptura até meus dezoito anos. Foi quando meu pai, ao indagar sobre meus sentimentos sexuais, me impeliu a admitir que eu gostava de rapazes.

"É só uma sensação, nunca 'fiz' nada", eu disse, e acrescentei: "não conte para mamãe: ela não aceitaria".

Ele contou, e na manhã seguinte ela desceu com uma expressão horrorizada e gritou para mim: "Você é uma abominação. Quisera que você nunca tivesse nascido". (Sem dúvida ela estava pensando no versículo do Levítico que diz: "O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles".

Nunca mais se falou no assunto, mas suas palavras duras me fizeram odiar a capacidade da religião para a intolerância e a crueldade.

Oliver Sacks
Trad.: Laura T. Motta
2015


9.4.16

deus, um delírio



[¿La raíz de todo mal?: El virus de la fe | Richard Dawkins | 2006]



"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas neles?" 


[...] 

Imagine, junto com John Lennon, um mundo sem religião. Imagine o mundo sem ataques suicidas, sem o 11/9, sem o 7/7 londrino, sem as Cruzadas, sem caça às bruxas, sem a Conspiração da Pólvora, sem a partição da Índia, sem as guerras entre israelenses e palestinos, sem massacres sérvios/croatas/muçulmanos, sem a perseguição de judeus como "assassinos de Cristo", sem os "problemas" da Irlanda do Norte, sem "assassinatos em nome da honra", sem evangélicos televisivos de terno brilhante e cabelo bufante tirando dinheiro dos ingênuos ("Deus quer que você doe até doer"). Imagine o mundo sem o Talibã para explodir estátuas antigas, sem decapitações públicas de blasfemos, sem o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado em um centímetro. Aliás, meu colega Desmond Morris me informa que a magnífica canção de John Lennon às vezes é executada nos Estados Unidos com a frase "and no religion too" expurgada. Uma versão chegou à afronta de trocá-la por "and one religion too". 


Richard Dawkins 
Trad.: Fernanda Ravagnani 
2007


22.3.16

amor nos tempos de fúria

[Kees Van Dongen | 1877-1968]

[...]

Um homem solitário, morando sozinho e ainda vivendo para os alunos, e Annie não parou de visitá-lo, mas no fim ela teve de esquecer, teve de seguir adiante, com as próprias necessidades, e o professor deu a ela um anel de prata com um escaravelho que ela ainda tinha e ainda usava. E além disse ele deu a Annie muito mais, mostrou a ela que o artista é o inimigo perpétuo do Estado, a mosca na sopa do Estado, o inimigo total de todas as forças organizadas que sobrepujam o indivíduo livre em todos os lugares, o artista como portador de Eros, portador da verdadeira força vital, portador do amor, num mundo aparentemente inclinado a destruir tudo isso, Eros versus civilização, vida contra morte. Sim, nas aulas de gravura você aprendia não apenas litografia em pedra e desenho a ponta-seca, você também aprendia que tinha de usar a arte para dizer algo importante, não apenas um monte de inutilidades minimalistas. Você passava a conhecer a tradição radical dos artistas e muralistas da WPA.

Lawrence Ferlinghetti
Trad.: Rodrigo Breunig


19.3.16

os inimigos íntimos da democracia

[Goya | Los desastres de la guerra]

[...]

Por que é perigoso o projeto de impor o Bem? Supondo-se que se conheça a sua natureza, seria preciso declarar guerra a todos os que não compartilham do mesmo ideal, e eles ameaçam ser numerosos. Como escrevia Charles Péguy no início do século XX: "Na declaração dos Direitos Humanos há o suficiente para fazer guerra a todo mundo, durante a duração de todo o mundo"! Vítimas incontáveis seriam necessárias para alcançar o futuro radioso. Mas a natureza desse ideal também é problemática. Basta dizer "liberdade" para ficarmos todos de acordo? Não sabemos que os tiranos do passado invocavam regularmente a liberdade? Além disso, pode-se clamar, como faz o documento presidencial americano, negligenciando milênios de história humana, que “esses valores de liberdade são justos e verdadeiros para toda pessoa, em toda sociedade”? Somos verdadeiramente a favor de toda liberdade, incondicionalmente, inclusive, como se diz, a da raposa no galinheiro? E o que vem fazer a “livre empresa” entre os valores universais, deve-se travar guerra contra todos os países que praticam uma economia estatizada? Quanto à “democracia” e à igual dignidade de todos os membros do gênero humano que ela implica, será que ainda à estamos praticando quando impedimos os outros povos de escolher por eles mesmos seu destino?

[...]

...uma publicação oficial do governo americano, datada de abril de 2009, revelou a regulamentação inacreditavelmente minuciosa da tortura, formulada nos manuais da CIA e retomada por conta própria pelos responsáveis jurídicos do governo. Pois é esta a novidade: a tortura já não é representada como infração - lamentavelmente mas desculpável - à norma: ela é a própria norma.

[...]

O contágio se espalha bem além do círculo limitado dos torturadores: vários outros grupos de profissionais se envolvem na prática de suplícios. Conselheiros jurídicos do governo se mobilizam para assegurar a impunidade legal de seus colegas e fornecer uma legitimação para seus atos. Regularmente estão presentes psicólogos, psiquiatras, médicos, mulheres (os torturadores são homens, mas o aviltamento sob o olhar das mulheres agrava a humilhação). Enquanto isso, professores universitários produzem as justificações morais, legais ou filosóficas da tortura. A tortura marca de maneira indelével o corpo dos torturados, mas também corrompe a mente dos torturadores. Progressivamente, a sociedade inteira se vê atingida por esse câncer insidioso, esse ataque ao pacto fundamental que liga uns aos outros os cidadãos de cada país democrático, pacto segundo o qual o Estado é o fiador da justiça e do respeito por todo o ser humano. Um Estado que legaliza a tortura não é mais uma democracia.

[...]

Uma das mais poderosas ameaças que pairam sobre nossas democracias, escreve o juiz Serge Portelli, "é a de uma sociedade de segurança absoluta, de tolerância zero, de prevenção radical, de prisão preventiva, de desconfiança sistemática em relação ao estrangeiro, de vigilância e de controle generalizado". Assim é que nos tornamos nosso próprio inimigo, e um dos piores que existem.

[...]

Antes de entoar um hino à glória de uma nova conflagração verdadeiramente melhor do que todas as outras, talvez fosse preferível meditar sobre as lições que Goya extraiu, duzentos anos atrás, de outra guerra conduzida em nome do Bem, aquela dos regimentos napoleônicos que traziam a liberdade e o progresso aos espanhóis. Os massacres cometidos em nome da democracia não são mais fáceis de sofrer do que os causados pela fidelidade a Deus ou Alá, ao Guia ou ao Partido. Uns e outros conduzem aos mesmos desastres da guerra.

Tzvetan Todorov | 2012
Trad.: Joana Angélica


16.3.16

fofuras, precisamos esclarecer duas coisas:


Primeiro, esta onda de denominar os conservadores de coxinhas está ocultando três grandes preconceitos. O machismo, o racismo e a homofobia. Machista, racista e homofóbico estão longe de ter a mesma conotação de coxinha. 

E segundo, esta dicotomia terrorista, esta lógica binária redutora e burra de que existe Deus e o Diabo, o Bem e o Mal, eu superei quando tinha dez anos. Dez anos. 

Era isso o que eu tinha a dizer, ou seja, o óbvio.


15.3.16

dialética da escola-prisão


oito

O educador libertário não pode ficar refém de um sistema educacional que tem como meta resultados. Porque o educador com comprometimento real diante dos alunos enxerga a educação como um processo. Uma longa caminhada cheia de palavras: práticas de leitura e práticas de escrita. E também silêncio. 

Mas o sistema educacional vê o aluno como um número. Quer padronizar o modo de pensar, quer notificá-lo como capaz ou incapaz. 

Medo de ousar na escola parece ser uma regra comum. Mas quem ousa quebrar certos paradigmas normalmente é perseguido e, consequentemente, despedido. 

Do jeito que andam as coisas, é mais fácil vender calcinha ou produtos da avon em horário de aula. Para que pensar na "era da sociedade do consumo". Pensar não compra e precisamos a todo custo comprar para sermos sujeitos. 

Sujeitos etiquetas. 


10.3.16

para dar um fim ao juízo


[1925 - 1995]

[...] 

O combate não é de modo algum a guerra. A guerra é somente o combate-contra, uma vontade de destruição, um juízo de Deus que converte a destruição em algo “justo”. O juízo de Deus está a favor da guerra, e de modo algum do combate. Mesmo quando se apodera de outras forças, a força da guerra começa por mutilá-las, por reduzi-las ao estado mais baixo. Na guerra, a vontade de potência significa apenas que a vontade quer a potência como um máximo de poder ou de dominação. Nietzsche e Lawrence verão nisso o mais baixo grau de vontade de potência, sua doença. Artaud começa evocando a relação de guerra EUA-URSS; Lawrence descreve o imperialismo da morte, dos antigos romanos aos fascistas modernos. É para melhor mostrar que o combate não passa por aí. O combate, ao contrário, é essa poderosa vitalidade não orgânica que completa a força com a força e enriquece aquilo de que se apossa. 

[...] 

O combate não é um juízo de deus, mas a maneira de acabar de vez com deus e com o juízo. Ninguém se desenvolve por juízo, mas por combate que não implica juízo algum. 

[...] 

... a vontade de potência contra um querer-dominar, o combate contra a guerra. 

Gilles Deleuze
Trad.: Peter P. Pelbart 
1997 



8.3.16

dialética da escola-prisão


sete 

Eu ainda não entendo uma coisa. Por que submeter o planejamento anual de minha disciplina (que é referente à minha pesquisa e ao complexo bibliográfico) para um corpo pedagógico que não possui a mesma leitura? Às vezes, sequer tem leitura. 

É como se houvesse uma hierarquia de controle: de vigiar o conteúdo e puni-lo por um viés moral lunático.


6.3.16

psicologia da publicidade


[...]

Hoje se lava tudo em plena rua, pobreza como política, sob uma polvaderia tamanha, provocada pelas politiquices em estouro, que tudo inda sai mais sujo que antes da lavação.

Mário de Andrade | 1932


5.3.16

entrevista



Paul Simonon | 1978
[Entrevista originalmente publicada na edição 7 do fanzine Search & Destroy]

O motivo pelo qual eu gosto tanto de Patti Smith Group é que... Bem, se você comparar a Patti Smith com a Debbie Harry do Blondie, quero dizer - a Debbie Harry é meio que "apenas para rapazes" e como as Runaways... Os caras vão aos shows e ficam meio malucos porque tem uma menina no palco cuja atitude é fazer os homens babarem e coisas assim. Enquanto a Patti Smith é muito mais forte e mais honesta. As Slits também... Elas estão fazendo o que querem fazer. Elas não precisam se preocupar com os homens - elas fazem o que gostam.

Alguém como centopéias gigantes? | Seleção de entrevistas do zine Search & Destroy e da Re/Search Publications. V. Vale | Org: Fabio Massari | Trad.: Alexandre Matias


3.3.16

teoria ou teorias


[...]

Perguntar-me-ão: qual é a sua teoria? Responderei: nenhuma. E é isto que dá medo: gostariam de saber qual é a minha doutrina, a fé que é preciso abraçar ao longo deste livro. Estejam tranquilos, ou ainda mais preocupados. Eu não tenho fé - o protervus é sem fé e sem lei, é o eterno advogado do diabo, ou o diabo em pessoa: Forse tu non pensavi ch'io loico fossi! Como Dante lhe faz dizer, "Talvez não pensasse que eu fosse um lógico" ("Inferno", canto XXVII, v. 122-123) -, nenhuma doutrina, senão a da dúvida hiperbólica diante de todo discurso sobre a literatura. À teoria da literatura, vejo-a como uma atitude analítica e de aporias, uma aprendizagem cética (crítica), um ponto de vista metacrítico visando interrogar, questionar os pressupostos de todas as práticas críticas (em sentido amplo), um "Que sei eu?" perpétuo.

Antoine Compagnon | O demônio da teoria: literatura e senso comum. Trad.: Cleonice P. B. Mourão e Consuelo F. Santiago
UFMG | 2012


2.3.16

dialética da malandragem


No Brasil o charlatanismo virou profissão. 
E muito bem remunerada.


1.3.16

de la musique




Guía para combatir las causas de la infelicidad
Responsables No Inscriptos

Vamos a empezar la historia después de terminar / porque de principio a fin ya no queda qué contar / todos saben bien de qué va todo esto así / no es lo que quieren vender / sino lo que compremos al fin / y al parecer padecer para ser solo para parecer / y lo que sé, lo que ser, enloquecer para volver a adaptarse // Vamos a ordenar cada cosa en su lugar / porque lo que se hace gris es blanco o negro, nada más / qué parte no entender de todo lo que está ahí / no es lo que pueden mostrar / sino lo que creemos al fin / y solo ver solo lo que se quiere ver / y lo que sé... / no es sano estar adaptado a un mundo enfermo y yo / me multiplico por cero y desparezco / no tiene lógica ni explicación / que otra cosa se podía esperar / lo que está al margen es solo por la aclaración / no para ser marginal / vamos a llevar todo esto hasta el final / para no seguir así, negando lo que va a pasar / todos saben bien para dónde va todo esto así / no es la forma de pensar sino lo que hacemos al fin / y otra vez yo no sé a dónde me llevan mis pies / y lo que sé... / no es sano estar adaptado a un mundo enfermo y yo / me multiplico por cero y desparezco / no tiene lógica ni explicación / qué otra cosa se podía esperar / si estoy al margen es solo por la aclaración / para no ser funcional / no tiene lógica la explicación / mucho más no se podía esperar / no tiene caso buscar resolver la ecuación / entre entrar y ya no entrar / entre estar y ya no estar / de querer la paz mundial / la misma pulsión de no contribuir / la misma tragedia individual / el mismo miedo a lo que va a venir / y a lo que no se puede controlar / la misma química para estar bien / la misma euforia servil y normal / el mismo vacío al no conseguir / y la tortura de la oscuridad / la misma duda para estar peor / mismo motivo para festejar / la misma estúpida contradicción / de no querer pero seguir igual / la misma traición para comprender / el mismo sentimiento terminal / la misma señal para interferir / el mismo ruido que sintonizar / la misma negación intencional / el mismo intento de decir que no / la zanahoria que está frente a mí / y la mentira que tiene razón / la misma estafa subliminal / el mismo ego para destruir / la misma causa de infelicidad / la misma guía para no seguir / siempre alguien nos quiere dar una lección de vida / la culpa es de los demás / tus horas erróneas.


28.2.16

blues de la calle beale


[James Baldwin | 1924 - 1987]

[...] 

Andar com problemas produce a veces un efecto raro. No sé se podré explicarlo. Hay días e que nos parece que vivimos como de costumbre, oyendo a los demás, hablando con ellos, trabajando o, por lo menos, viendo que el trabajo queda hecho. Pero la verdad es que en esos días no vemos ni oímos a nadie; y si alguien nos pregunta qué hemos hecho durante el día, tenemos que pensar un rato antes de contestar. Pero al mismo tiempo, y en esos mismos días - esto es lo más difícil de explicar -, vemos a los demás como nunca los hemos visto. Todos brillan como navajas. Quizá sea porque antes de que empezaran nuestros problemas los mirábamos de otro modo. Quizá sea porque ahora nos interesamos mucho más en ellos, y de manera muy distinta, y eso nos los hace ver como extraños. Quizá sea porque estamos asustados, confundidos, y ya no sabemos con quién podemos contar en el futuro para que nos ayude. 

Trad.: Enrique Pezzoni


18.2.16

los libros de mi vida


¿Como se convierte alguien en escritor - o es convertido en escritor -? No es una vocación, a quién se le ocurre, no es una decisión tampoco, se parece más bien a una manía, un hábito, una adicción, si uno deja de hacerlo es ridículo, y al final se convierte en un modo de vivir (como cualquier otro).


Ricardo Piglia


15.2.16

tenemos que salir de este lugar


[The animals | 1965]

En el aire de esta ciudad / Donde a duras penas se hace ver el sol / La gente repite sin parar / Y dice / Muchacho, no sirve para nada probar / ¿No sabes que nunca cambia nada? // Entonces, ¿me escuchas? / Eres bonita, eres joven / Tienes la suerte de empezar ahora, / ¿Me escuchas? // Mira a mi padre, / Mira a mi padre / Cada noche / Temprano a la cama / Ya todo gris / Como un esclavo / Ha trabajado toda su vida / Y nosotros / Pero mira / Em que trampa estamos. // Eh, pero ¿no ves? / Tenemos de largar de aqui / Antes que lagarnos de aqui / Antes de que nos puedan / Atrapar también a nosotros. // Eh, pero¿no oyes? / Debe existir algo mejor / Para ti y para mí / Si no / A ti, que eres joven y bonita / Te harán morir / Bastante antes de tiempo.


12.2.16

los libros de mi vida

[Buenos Aires]

Páginas de una autobiografia futura

En esa ciudad los nombres de las calles remiten a los mártires muertos en defensa de su fe en el cristianismo primitivo, y mientras andaba por sus callejuelas, imaginé de pronto una ciudad, esa misma quizá, cuyas calles llevaran el nombre de los activistas que han muerto luchando por el socialismo...

Ricardo Piglia


11.2.16

somos un pueblo


En Buenos Aires
mi corazón
es una guerrilla.


4.2.16

bolachão


Nunca sere policia

Hoy me encuentro solo / sentado en un rincon / pensando en muchas cosas / buscando una razon / Mirando al pasado / los dias que yo vivi / trate de buscar en vano / el modo de ser feliz / Tuve mil mujeres / y mil gente conoci / pero igual estoy vacio / y no puedo ya fingir / Quitense la mascara / y vean la realidad / el que nunca estuvo solo / no conoce la amistad / Todos sabemos / que los amigos de verdad / nunca te mandaran preso / y nunca lo haran / Y lo que rescato / despues de tanto sufrir / que solo una cosa / no voy a elegir // Nunca sere policia / de provincia ni de capital / Nunca sere policia / de provincia ni de capital.


3.2.16

un colegio en la esquina


La hierba de la tumba nos cubrirá el año próximo.
Ahora estamos de pie y reímos;
mirando pasar a las muchachas;
apostando a caballos lerdos; bebiendo ginebra barata.
Nada tenemos que hacer; ningún sitio adonde ir; nadie.

El año pasado fue un año; nada más.
No fuimos más jóvenes entonces; ni más viejos ahora.
Nos arreglamos para lucir como jóvenes:
nada sentimos detrás de nuestros rostros, de un lado u otro.

Probablemente no estaremos del todo muertos al morir.
Jamás fuimos algo a lo largo del camino; ni siquiera soldados.

Somos los insultados, hermano, los muchachos desolados.
Sonãmbulos en una tierra oscura y terrible,
donde la soledad es un cuchillo roñoso contra nuestras gargantas.
Estrellas heladas nos observan, compadre.
Estrellas heladas y las putas.


K. P.


22.1.16

biodversidade

Au temps d'Harmonie ou d'Anarchie | Signac | 1894


Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Paulo. H. Britto | Macau
2003


21.1.16

rolling stones

[1933 - 2004]

Jonathan Cott: Acredito que o espírito dos anos setenta tende a se confundir com as ideias ou até desprezar as ideias manifestadas por Nigel Dennis e por uma série de noções que floresceram há uma década. 


Susan Sontag: Vamos falar sobre essa mania de classificar as décadas, porque sinto que há algo terrível em definir os anos cinquenta, sessenta e setenta como grandes construtos. São mitos. Agora precisaremos criar um novo conceito para os anos oitenta, e estou muito curiosa para ver o que as pessoas vão inventar. Esse discurso sobre as décadas é tão ideológico.

A ideia é que tudo que se esperou e se experimentou no anos sessenta não deu e não poderia dar certo. Mas quem diz que não vai dar certo? Quem diz que há algo de errado com as pessoas que se colocam à margem? Acredito que o mundo devia ser um lugar seguro para as pessoas marginais. Uma das principais coisas que deveria definir uma sociedade é permitir que as pessoas sejam marginais. O que mais choca nos países que se intitulam comunistas é o fato de seu ponto de vista não permitir pessoas marginais e não convencionais. Acredito que, de um jeito ou de outro, sempre deveria haver a possibilidade de as pessoas se sentarem na calçada, e uma das coisas interessantes que aconteciam antes era que muitas pessoas escolhiam ser marginais, e as outras pareciam não se importar. Acho que devemos permitir não só pessoas e estados de consciência marginais, mas também o que é incomum ou divergente. Defendo rigorosamente os divergentes. E também penso, é claro, que seria impossível que todos fossem divergentes – é óbvio, a maioria das pessoas tem de escolher uma forma central de existência. Mas em vez de nos tornarmos cada vez mais burocráticos, padronizados, opressivos e autoritários, por que não permitimos que mais e mais pessoas sejam livres?

[...]

O fato de Gritos e Sussurros - para usar o título do filme de Bergman -, em certo sentido, ser há tanto tempo o mundo designado às mulheres, e não o mundo do pensamento dialético, sempre me impressiona.

Na nossa cultura, elas foram designadas ao mundo dos sentimentos, porque o mundo dos homens é definido como o mundo da ação, da força, da capacidade executiva e da capacidade de desprendimento, portanto as mulheres se tornaram o receptáculo do sentimento e da sensibilidade. Na nossa sociedade, as artes são concebidas como atividades principalmente femininas, mas não o eram no passado, isso porque antes os homens não se definiam tanto nos termos da repressão das mulheres.

Uma das minhas campanhas mais antigas é contra a distinção entre pensar e sentir, o que é base de todas as visões anti-intelectuais: cabeça e coração, pensamento e sentimento, fantasia e julgamento... não acredito que isso seja verdade. Temos mais ou menos o mesmo corpo, mas tipos muitos diferentes de pensamento. Acredito que pensamos muito mais com os instrumentos dados pela cultura do que pelo corpo, e disso surge uma diversidade muito maior de pensamento no mundo. Tenho a impressão de que o pensar é uma forma de sentir, e que o sentir é uma forma de pensar.

Por exemplo, o que faço resulta em livros ou filmes, objetos que não são eu, mas são transcrições de algo - sejam palavras, imagens ou qualquer outra coisa -, imagina-se que esse processo seja puramente intelectual. Mas quase tudo que faço parece ter a ver tanto com a intuição quanto com a razão. Não é que o amor pressupõe a compreensão, mas amar alguém é se envolver em todo tipo de pensamento e juízos. Amar é isso - há uma estrutura intelectual de desejo físico, de luxúria. Mas o tipo de pensamento que faz essa distinção entre pensar e sentir é apenas uma das formas de demagogia que causam tantos problemas às pessoas por fazerem-nas desconfiar de coisas das quais não deveriam desconfiar, nem com as quais deveriam ser complacentes.

Entender a si próprio dessa maneira parecer ser muito destrutivo, e também muito culpabilizantes. Esses estereótipos de pensar versus sentir, cabeça versus coração, masculino versus feminino, foram inventados numa época em que as pessoas estavam convencidas de que o mundo seguia numa direção específica - ou seja, rumo a tecnocracia, racionalização, ciência, etc. - , mas foram todos inventados como uma defesa contra os valores românticos.

[...]

Você precisa criar seu espaço - um espaço que tenha muito silêncio e muitos livros.

[...]

Penso em mim mesma como alguém que se criou - é uma ilusão que funciona. Também penso em mim mesma como autodidata, apesar de ter tido uma excelente educação - Berkeley, Chicago, Harvard. Mas ainda acho que, em essência, sou autodidata. Nunca fui discípula nem protegida de ninguém, não fui lançada por ninguém, não "fiz minha carreira" por ser amante, esposa ou filha de alguém. Nunca esperei que fosse de outra maneira. Mas, é claro, não acho que seja ruim aceitar ajuda. Se você tiver ajuda, ótimo. Mas gosto do fato de ter feito sozinha. Achei que tinha de fazer sozinha, aceitei como um desafio. E me senti estimulada para fazer dessa maneira.

[...]

No fundo, acho que devemos exterminar interpretações falsas e demagógicas... eu me identifico com essa iniciativa. Em momentos grandiosos, penso que estou envolvida nessa tarefa de arrancar cabeças - como Hércules fez com a Hidra - sabendo muito bem, é claro, que esse mesmo tipo de falsa consciência e de pensamento demagógico vai aparecer em outro lugar. Mas vou continuar fazendo isso o quanto puder, e sei que outras pessoas também vão continuar.

Antes eu disse que a tarefa do escritor é prestar atenção no mundo, mas obviamente acredito que a tarefa do escritor, como a concebo em relação a mim mesma, também é manter uma relação agressiva e antagônica para com todos os tipos de falsidade... e, repetindo, sabendo muito bem que se trata de uma tarefa infinita, pois você nunca vai acabar com a falsidade, com as falsas consciências ou com os falsos sistemas de interpretação. Mas deveria sempre haver um lugar em cada geração que se opusesse a essas coisas, e é isso que me incomoda tanto em algumas partes do mundo onde a única crítica à sociedade vem do próprio Estado. Acho que sempre deveria haver pessoas autônomas que, por mais quixotesco que pareça, tentam arrancar mais algumas cabeças, tentando acabar com a alucinação, a falsidade e a demagogia, tornando as coisas mais complicadas, pois existe um impulso inevitável em tornar as coisas mais simples. Mas, para mim, a coisa mais terrível seria sentir que concordo com as coisas que já disse e escrevi - isso me tornaria ainda mais desconfortável, pois significaria que parei de pensar.

trad.: Rogério Bettoni
outubro de 1979


19.1.16

muro


Caprichos & relaxos
Chiclete com banana
Iogurte com farinha
Caroço de goiaba
Bagaço
Coração de cavalo
Prato feito
Creme de lua
Chá com porrada
Olhos vermelhos
Corações veteranos
Me segura qu'eu vou dar um troço
Os últimos dias de paupéria
Vai fundo


18.1.16

doc


[Reel Injun | 2009]


Eu estava lendo uma entrevista e nela constava a seguinte pergunta: O que você acha de Nietzsche de que a verdade é apenas a solidificação de antigas metáforas? Ele fala de como estereótipos e clichês tornam-se a verdade do mundo. 

Sobre a pergunta, eu contraponho se no documentário Reel Injun tal aplicação do pensamento do filósofo não teria validade.


12.1.16

vacina fuenzalida & palácios


I

Promulgar uma opinião em rede virtual significa expor-se ao teste de raiva dos outros.


10.1.16

prescrição


Olha, eu já disse que gostaria de transformar os inimigos odiados em objetos de amor. Mas sadomasoquismo não é comigo.


7.1.16

Doc


[Escrito e dirigido por Don Letts | 2005]

Observando profundamente, estamos aptos a reconhecer o Punk como parte de um movimento contínuo da contracultura. Foi nesse espírito que eu fiz esse filme. Não como uma lembrança nostálgica, mas sim como forma de seguir em frente. Afinal, se deu certo antes, pode dar certo novamente.

Don  Letts


4.1.16

apocalipse motorizado



Teve um dia que não sei que tipo de animal bateu a porta do carro com tal estrondo que quase rachou a lente do meu óculos.


29.12.15

bolachão


[Fun People | 1996]

Queríamos tanto uma coisa tão diferente.

Deleuze e Parnet

Libre al fin

Te conoci en la escuela nacional / No comiamos mierda de nadie, y al final / El director firmo, la hoja de expulsion / Le dijimos "adios" // Y a la mierda! // Despues de un tiempo la cosa no fue mal / Los fines de semana saliamos, a bailar / Como me hacias reir / Toda la noche en cualquier bar / Jugando al noche al billar... // Y unos petas! // Yo ensayaba en mi habitacion / Y tu preparabas mientras tu proxima accion / En un momento dado, el tipo equivocado, cae empapelado // Y a la carcel!!! / Hice lo que pude pa' escribir / ¿Como la has pasado hoy? ¿Te dieron mucho ahi? / Cuando te vea venir, vamos a convertir / Toda esta ciudad. // En cenizas!!! // Aunque pasen los años y todo haya cambiado, yo me quiero ir de aqui. / Nunca olvidare lo que senti cuando saliste libre al fin. / Nunca olvidare lo que senti, por que sabia donde ibas a ir. / Y si estas hoy alli, echa un trago por mi, desde aqui lo hare por ti / tranquilo / Con cuidado / Libre al fin


27.12.15

bilhete premiado


Qual ser amado não envolve paisagens, continentes e populações mais ou menos conhecidos, mais ou menos imaginários?

Gilles Deleuze

La librería es un territorio con una psicogeografía propia, es un lugar de confluencias de vidas reales e imaginarias, y los libros tienen su propia historia aparte de la que cuentan

Manuel Rivas

**

Fui questionado, certo fim de tarde com relâmpagos e chuva, por simples escarnio ou ironia de Ana, o que eu faria se ganhasse na loteria. Eu não pude responder rapidamente. Ela me pegava entre um meio sono e a digestão de uma leitura. Pensei me virando em sua direção que brincadeira ela jogava como rede para cima de mim? Mas para entrar no jogo e não ser visto como um chato de plástico que não sabe conversar, eu respondi que abriria uma livraria em Buenos Aires. 

Surpresa, Annuska, como eu gostava de lhe chamar, indagou-me: 

- Mas você trabalharia?
- Sim. Também, para complementar e sustentar-se no "sonho", eu compraria o prédio em que habito.
- Cê diz este aqui?
- Claro. 
- Todo ele?
- Todo. E entregaria para cada família. Reformaria outros. E ficaria de boa. Creio que eu teria uma livraria aqui e uma em Buenos Aires. Mas moraria lá. 
- Por que?
- Para andar de bike. E terminar os meus romances.
- Cê ri por quê? 
- Não sei, me deu vontade. Da falsa ilusão sem o problema econômico aparecendo a mim a toda hora como um fantasma.
- Paranóico.
- Lembre-se que estou desempregado e literatura não se troca nem no mercado de tomates.
- Ai, começou. Cê sempre se irrita. Põem-se como vítima.
- Eu, vítima? Vou começar a chamá-la de mano. Tá me tirando?
- Acabou a cena? Cê não viajaria? Não tiraria férias? Sei lá, se mexer.
- Se fala como seu eu fosse uma lagarta. Claro que viajaria e, alem do mais, as viagens teriam como objetivo conhecer "todas" as livrarias e delas alimentar a Noturno Citadino.
- O que é Noturno Citadino?
- Como o que é? É o nome da livraria.
- Ah!

Ana sentada ao meu lado retira os sapatos, as meias e se aconchega. Toca seus pés gelados na minha perna.

- Como cê tá quentinho. 

Ana me abraça.


26.12.15

arte urbana

[Stencil | CWB]


25.12.15

valor e cultura



XXXI

A competição nada mais é do que uma sublimação da guerra.


22.12.15

deformação


eh pomba suja / urubuzinha de metrópole / ratazana / ávida por dejetos / bebedora de água preta / aí está você: / uma chapa / uma pasta / de pena e sangue / milhares de vezes / vai-se repetir sua morte / sob os pneus / eh pomba lerda / viu o que a cidade lhe fez? / bem feito pra você. / viu o que a cidade nos fez?


Donizete Galvão


21.12.15

chopin na cadeira elétrica


[Radio Friendly Unit Shifter | 1993]


Um grande romancista do nosso tempo se perguntou uma vez se a Terra não seria o inferno dos outros planetas.


20.12.15

...


Vai, mano.

Fala de mim,
fala em meu lugar,

sabe tudo!


19.12.15

valor e cultura


XXX

Mandar alguém calar a boca tem a mesma prepotência de cê sabe com quem está falando?


18.12.15

massa conservadora embrutecida pelos meios de comunicação de massa



Chegaram-me as imagens de manifestantes do último domingo – que já viraram piada pronta com o pato de tróia – soltando suas "opiniões", que não passaram de pesados preconceitos. 

"Tudo vagabundo", "vai trabalhar" e "pagar imposto" são exemplos do tipo de mentalidade da horda. Isso em um domingo em que uma senhora apontava a manifestação dos skatistas como se ela fosse um ato violentíssimo. Sanguinário. Infelizmente a pessoa que destilou o verbo trabalhar não sabe o quanto de exploração há por trás dele. E tem mais: são uma palavra e uma ideia que não passam de condicionamento. 

Mas vai falar para esta pessoa - uma cidadã de bem exemplar - sobre o trabalho intelectual e braçal. Vai explicar para esta "brasileira oficial" a etimologia da palavra trabalho. Nesta, quem paga o pato é o trabalhador.

Tentei, com muito esforço, ver mais registros do ridículo de atmosfera fascista. Não deu. Os manifestantes canarinhos reproduziram maneiras mecanicamente hostis. Entre outros clichês que se tornaram dogmas não sei como. Esquemas simplificadores dos quais devemos nos livrar. 

Ao fim, eu que estou mais de saco cheio deste joguinho de adultos folgados e mimados, invoco o direito à preguiça como um último ato de resistência.



16.12.15

o gato por dentro

[1914-1997]

O ambiente mágico está sendo intimidado a desaparecer. Não há mais rena verde no Forest Park. Os anjos estão deixando todas as alcovas no mundo inteiro, o ambiente no qual unicórnios, pés-grandes e renas verdes existem está cada vez mais ameaçado, como as florestas tropicais e as criaturas que nela vivem e respiram. Quando as florestas são derrubadas para dar lugar a motéis, Hiltons e MacDonald's, morre também toda a magia do universo.

William S. Burroughs
Trad.: Edmundo Barreiros


13.12.15

força


Eu preciso escrever
com uma simplicidade enxuta
despretensiosa ternura.