31.10.16

educação e emancipação


Numa democracia, quem defende ideais contrários à emancipação, e, portanto, contrários à decisão consciente independente de cada pessoa em particular, é um antidemocrata, até mesmo se as ideias que correspondem a seus desígnios são difundidas no plano formal da democracia. As tendências de apresentação de ideias exteriores que não se originam a partir da própria consciência emancipada, ou melhor, que se legitimam frente a essa consciência, permanecem sendo coletivistas-reacionárias. Elas apontam para uma esfera a que deveríamos nos opor não só exteriormente pela política, mas também em outros planos muito mais profundos.

Theodor W. Adorno
Trad.: Wolfgang L. Maar



29.10.16

a vida ao rés do chão


dois

Minha proposta ética, independente da introspecção, é o inconformismo.


28.10.16

a vida ao rés do chão



A democracia não se estabeleceu a ponto de constatar a experiência das pessoas como assunto próprio da sociedade de modo que fizesse os indivíduos compreender a si mesmos como sujeitos dos processos históricos e dos processos políticos. Falta chão.



deus, um delírio


Lxs muchachxs estan dormindo. Por isso, eu repetirei mais uma vez a fala de um geneticista:

"se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegamos a lugar nenhum ao chamar nossa ignorância de deus."


27.10.16

dialética da escola-prisão


Dezoito

Anteontem de manhã uma diretora despreparada para a educação e para compreender o movimento ocupa dos estudantes "performatizou", apoiado por papais fabricados pela escola sem partido (aposto), uma cena deplorável na rua. Ela tentava a desocupação da escola por meio de berros e ameaças.



É fácil manter a boquinha ao transformar a direção em um mecanismo do aparelho ideológico e em um instrumento da repressão.

Chego a pensar que a escola não precisa dessa relação de poder. Nunca precisou. Não há necessidade disso se estamos em um espaço para exercer a atividade intelectual.

Agora, mais do que nunca, é preciso nacionalizar os ocupas. Por todos os estados. E quem sabe, um dia, ter uma escola gerida apenas por educadores e educandos.

Hasta la victoria!


dialética da escola-prisão


dezessete

Lembro de um ignorantão que "lecionava" em uma escola em Colombo que dizia espumando pelos corredores:

- Machado de Assis na minha escola não!

Posso lhes assegurar que ele tinha orgulho da sua sapiência.


26.10.16

dialética da escola-prisão


dezesseis

Superstição, intolerância e perseguição, eis a tríade administrativa das escolas.


25.10.16

dialética da escola-prisão



The CasualtiesRiot | 1997



Riots in our cities fucking riots at your schools
Riots in this country we fucking riot just for you
Riot, Riot, Riot, Riot
Riots in your city fucking riots at your schools
Riot for the punx, fucking riots everywhere

Riot in the streets, fucking riots of today


quinze

Às vezes é necessário repetir a mesma história para que se possa ter uma compreensão palpável. Uma frase que ouvi com muita frequência, por exemplo, neste último ano como educador foi:

- Eu estou recebendo ordens.

Essa oração - discurso do senso comum - foi dita inúmeras vezes por pedagogas e alguns professores. 

Eu pensava que a escola fosse espaço para questionamentos. Para levantar questões: problematizar.


Mas não.

O espaço está mais para a disseminação de dogmas, produção de cartazes horríveis e reprodução da cultura de massa.

Análise e interpretação de texto? 
A maioria não lê.

Eichmann sorri no inferno.


24.10.16

de la musique

Buenos Aires Hora Cero

Maneras de luchar

Que no me digan
que escriben simplemente,
que dicen el poema
sin pensarlo siquiera.
Que él nace sin más ni más.

Es un arduo trabajo,
un oficio de herreros, un quehacer proletario,
un cansancio que seguirá mañana.

Que no me digan
que se hacen poemas sin sudores,
sin una larga y violenta jornada de trabajo.
Tengo las manos como las de un labrador,
duras, gastadas, llenas de poemas.

Rubén Vela | 1969



23.10.16

aberração


é preciso procurar
precisão em cifras
números
estatísticas
gráficos
até no rabo.

calcula-se tudo:
o homem não deve dormir
nunca.



22.10.16

ópios


Rock farofa, sertanojo, bandinhas promovedoras de álcool, artistas pop drogaditos, merdinhas fabricados pela televisão, patriotismo industrializado, violência comercializada, mercado de dogmas, todo esse lixo cultural não faz parte da minha vida desde os 10 anos.


Tenho dito e fique escrito!

21.10.16

se questo è un uomo


Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem. Num instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão - e, se nos escutarem, não nos compreenderão. Roubarão também o nosso nome, e, se quisermos mantê-lo, deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, sobre alguma coisa de nós, do que éramos.

Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento - pois quem perde tudo, muitas vezes perde também a si mesmo; transformado em algo tão miserável, que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana, na melhor das hipóteses considerando puros critérios de conveniência. Ficará claro, então, o duplo significado da expressão "Campo de extermínio", bem como o que desejo expressar quando digo: chegar no fundo.

Primo Levi | 1958
Trad.: Luigi Del Re


20.10.16

dialética da escola-prisão


[Absurdo | 09]
catorze

Outro dia, fui questionado por um colega de profissão, quando ainda não era motivo de perseguição ideológica, quantos anarquistas eu conhecia. Para respondê-lo, o sujeito tinha ares de juiz da lei e da ordem e sustentava um olhar de fanático da moral, remeti a Léauthier:
- Os anarquistas não precisam se conhecer para pensarem a mesma coisa.
Feito, voltei para o livro que estudava e dei por encerrado o interrogatório.


18.10.16

papéis

La clef des songes | 1930
[...]

A doença mental não existe. É uma categoria cômoda para agrupar e afastar os casos em que a identificação não ocorreu de forma apropriada. Aqueles que o poder não pode governar nem matar são rotulados de loucos.

Raoul Vaneigem


14.10.16

s/ título


escola
esfola

mata
desmata

neurose
necrose

e assim vai.


13.10.16

abstração mediatizada e mediação abstrata


[...]

A repressão que se abate sobre o rebelde libertário se abate sobre todos os homens. O sangue de todos os homens corre com o sangue dos Durruti assassinados.

[...]

A meu ver, é muito grande a indiferença das pessoas quando em certas épocas se vê o mundo tomar as formas de metafísica dominante. A crença em Deus e no Diabo, por mais bizarra que seja, faz desses dois fantasmas uma realidade viva logo que uma coletividade os julga presentes o suficiente para inspirar os textos das suas leis. Do mesmo modo, a estúpida distinção entre causa e efeito foi capaz de reger a sociedade na qual os comportamentos humanos e os fenômenos em geral eram analisados em tais termos. E ainda hoje, ninguém pode subestimar a dicotomia aberrante entre pensamento e ação, teoria e prática, real e imaginário... essas são forças da organização. O mundo da mentira é um mundo real: nele se mata e se morre, é melhor que não se esqueça isso. Enquanto ironizamos sem dó o apodrecimento da filosofia, os filósofos contemporâneos se retiram com um sorriso de entendidos por trás da mediocridade do seu pensamento: sabem ao menos que o mundo continua a ser uma construção filosófica, um grande sótão ideológico. Sobrevivemos numa paisagem metafísica. A mediação abstrata e alienante que me afasta de mim mesmo é terrivelmente concreta.

[...]

Julgamos viver no mundo, mas na verdade adotamos uma perspectiva. Não mais a perspectiva simultânea dos pintores primitivos, mas a dos racionalistas do Renascimento. Dificilmente os olhares, os pensamentos, os gestos escapam à atração do longínquo ponto de fuga que os ordena e os altera, situando-os no seu espetáculo. O poder é o maior urbanista. Ele loteia a sobrevivência em partes privada e pública, compra a preço baixo os terrenos roçados, proíbe que se construa sem passar pela suas normas. Ele próprio constrói para expropriar cada um de si mesmo. Os seus construtores de cidades invejam esse estilo monolítico sem graça, e o imitam ao substituir a velha arquitetura confusa da santa hierarquia por regiões de magnatas, bairros de funcionários, blocos de trabalhadores (como em Mourenx).

A reconstrução da vida, a reedificação do mundo: uma única e mesma vontade.

[...]

O poder é a soma das mediações alienadas e alienantes

[...]

A mediação do poder exerce uma chantagem permanente sobre o imediato. É claro que a ideia de que um gesto não pode ser completar na totalidade das suas implicações reflete exatamente a realidade de um mundo empobrecido, de um mundo da não-totalidade, mas ao mesmo tempo reforça o caráter metafísico dos fatos, a sua falsificação oficial. O senso-comum é um compêndio de falsidades como: "Os chefes são sempre necessários", "Sem a autoridade a humanidade se precipitará na barbárie e nos caos" e assim por diante. É verdade que o hábito mutilou de tal modo o homem que ele pensa que, ao mutilar-se, obedece à lei natural. Talvez seja também o esquecimento de sua própria perda que o amarra tão bem ao pelourinho da submissão. Seja como for, condiz à mentalidade do escravo associar o poder à única forma de vida possível: a sobrevivência. E cabe aos desígnios do senhor encorajar esse sentimento.


Raoul Vaneigem | 1967
Trad.: Leo V.


12.10.16

dance of days


[Dead Kennedys | 1985]

Em território americano, o "rock" estava sob ataque. O responsável pelo ataque era o famigerado Parents Music Resource Center (O Parents Music Resource Center foi um comitê americano formado em 1985 com o objetivo inicial de aumentar o controle dos pais sobre o acesso das crianças à música considerada violenta, o uso de drogas ou a conotação sexual através da rotulagem com o selo Parental Advisory). O rosto público mais notório do PMRC era o de Mary Elizabeth "Tipper" Gore, esposa do Senador Al Gore, que estava chocada pelos vídeos de rock e pelas letras de canções como "Darling Nikki", de Prince.

Mary gore e suas amigas (conhecidas como as "esposas de Washington") tentavam passar uma imagem de que eram contra a censura, mas seus pedidos para classificação e rotulação dos discos diziam exatamente o contrário. Um dos primeiros golpes desferidos por essa campanha aconteceu quando Jello Biafra foi acusado de "distribuição de material prejudicial a menores", uma referência ao pôster Penis Landscape, de HR Giger, que fazia parte do álbum Frankenchrist.

Mark Andersen 
Trad.: Ana Carolina e Marcelo Viegas 



10.10.16

dialética da escola-prisão


treze

Não há neutralidade que possa resistir à corrupção e à destruição do pensamento dentro dos ambientes escolares.


8.10.16

arranjo cultural


Viver sem referência 
a um deus qualquer.



7.10.16

dialética da escola-inquisição


dois

Um amigo me contou sobre a palestra motivacional o ocorrida na semana pedagógica da sua escola. Só que a palestra tinha como vídeo uma pregação evangélica.

O engodo tem dois lado da mesma moeda. A pregação como desculpa de motivação.

Será, me pergunto, estes pseudos-pedagogos estão tirando uma onda da cara dos educadores preocupados com uma educação emancipatória ou as escolas se declararam igrejinhas?

Está ficando fácil trabalhar como professor. A profissão já não está mais preocupada com a pesquisa científica muito menos com a memória histórica.

E o que dizer do pensamento analítico?



6.10.16

dialética da escola-prisão


doze

Eu descubro o nível de cognição do corpo pedagógico em um ensino público quando ouço falas do tipo: 

"Quanto mais eu leio, mas irritada eu fico." 

Sério? Eu pensei que a leitura nos ajudasse na base das argumentações, no esclarecimento dos fatos históricos. Mas partindo da pedagoga, ler é sinônimo de ficar irritado.


5.10.16

dialética da escola-prisão


onze

Como é que se garante ao educando o acesso à escrita e aos discursos sem prática de leitura?


4.10.16

situação nenhuma ambígua


A filosofia original do punk era, para mim, antes de tudo, lutar contra a merda toda qui’taí. Por exemplo: televisão, álcool, carros e ser fodão.

Punk era fazer da vida um protesto.


1.10.16

el sueño de un gran taller

[Joan Miró | 1973]

Miró escribió en 1936:

"Mis contemporáneos saben lo que hay que luchar hoy en día cuando se es pobre. Eso se acaba cuando su cuenta se pone bien. Comparados con esa gente, que comienza su vergozosa decadencia a los treinta años, admiro a artistas como Bonnard o Maillol. Estos lucharán hasta el último aliento. Cada nuevo año de madurez es para ellos un nuevo nacimiento. Los grandes crecen y se desarrollan a cualquier edad."

Obviamente Miró se había autodisciplinado de tal manera, que se convirtió en uno de esos artistas: luchaba, aprendía, evolucionaba mientras vivía, sin traicionar su proprio estilo. Creó un arte fresco y vital hasta una edad avanzada, sin preocuparle el espíritu de los tiempos. El rótulo del tren que Miró encontró en una tienda y que tenía colgado en la puerta de su estudio parisino, porque tanto le gustaba, parecía hacer sido estampado para él:

ESTE TREN NO PARA.

[...]

Una tarde observó a unos niños lanzando cometas desde el tejado del taller. Los movimientos ondulados y serpenteantes de la cola de las cometas le inspiraron de tal manera, que casi sin pensarlo pintó líneas rítmicas en el cuadro, que ya estaba equilibrado y en parte pintado.

Janis Mink
Trad.: Carlos Caramés


30.9.16

a espada e a lâmpada: uma leitura de guernica


[Guernica, de Alain Resnais e Robert Hessens | 1950]


... pintura fundamentalmente antifascista da qual o inimigo fascista está ausente, substituído por uma comunidade de seres humanos e animais ligados pela tragédia e pela morte.

Carlo Ginzburg
Trad.: Júlio C. Guimarães



29.9.16

direito à literatura



[...]

Nas sociedades de extrema desigualdade, o esforço dos governos esclarecidos [...] tenta remediar na medida do possível a falta de oportunidades culturais. Nesse rumo, a obra mais impressionante que conheço no Brasil foi de Mário de Andrade no breve período em que chefiou o Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo, de 1935 a 1938. Pela primeira vez entre nós viu-se uma organização da cultura com vista ao público mais amplo possível. Além da remodelação em larga escala da Biblioteca Municipal, foram criados: parques infantis nas zonas populares; bibliotecas ambulantes, em furgões que estacionavam nos diversos bairros; a discoteca pública; os concertos de ampla difusão, baseados na novidade de conjuntos organizados aqui, como quarteto de cordas, trio instrumental, orquestra sinfônica, corais. A partir de então a cultura musical média alcançou públicos maiores e subiu de nível, como demonstram as fichas de consulta da Discoteca Pública Municipal e os programas de eventos, pelos quais se observa diminuição do gosto até então quase exclusivo pela ópera e o solo de piano, com incremento concomitante do gosto pela música de câmara e a sinfônica. E tudo isso concebido como atividade destinada a todo o povo, não apenas aos grupos restritos de amadores.

Antonio Candido | 1988



25.9.16

dialética da escola-prisão

[Sin dios | 2005]

dez

É inexistente o projeto político pedagógico de leitura como eixo do ensino público.

Mesmo a simples prática de leitura de narrativas.

Observações empíricas de um período de oito anos mostraram que não há bibliotecas atualizadas, mas abandonadas. O local é tão inutilizado que se transforma em depósito caótico de livros. Pilhas encaixotadas. E elas ficam lá, por um bom tempo.

A biblioteca é vista como local de castigo.

Não estamos lendo nem para exercer a cidadania. Tome como exemplo, olhe, escute o nível baixo dos candidatos que encabeçam as pesquisas para as prefeituras? São playboys que fazem "cara de nojinho" pra beber pingado. Outros, como o gordo podre e ladrão, são racistas.

O reflexo da falta de leitura do mundo e da palavra bate na sala e ilumina o mundo. E nessa onda, eu me pergunto: a ignorância está gerando fonte de renda para quem?

Isso e mais um pouco fabricam um tipo de cultura. 
O esgoto do complexo químico deságua.

Vão tomar no cu!


24.9.16

vício privado


sou um 

usuário
da língua


20.9.16

medo e ousadia


Não está na hora dos ativistas anarquistas, trotskistas, altermundialistas, neozapatistas, luditas, e tutti quanti se unirem para uma frente única e radical de transformação da sociedade: a começar pelas escolas?


19.9.16

a máquina da lama

[La mentira | Punkora]


Sinto que a democracia está literalmente em perigo. Pode parecer exagero, mas não é. A democracia está em perigo no momento em que, se você se manifesta contra certos poderes, se se apresenta contra o governo, o que o espera é o ataque de uma máquina que lhe cobre de lama: um ataque que parte de sua vida privada, de fatos minúsculos de sua vida privada, que são usados contra você.

A democracia está em perigo na medida em que você, quando liga o computador para escrever seu artigo, pensa ao mesmo tempo: "Amanhã me atacarão dizendo coisas que não têm nada a ver com a vida pública, nada a ver com um crime cometido". Você não fez nada de mau, mas usarão sua privacidade contra você, obrigando-o a se defender. Então, quer seja prefeito, assessor, médico, jornalista, antes de criticar você reflete um pouco. Quando isso acontece, a liberdade de imprensa começa a se deteriorar, a liberdade de expressão começa a se deteriorar. 

A força da democracia é a multiplicidade. Mas, infelizmente, o instinto que está emergindo no país é o que afirma que somos todos iguais, todos idênticos, todos somos a mesma coisa. É aqui que a máquina da lama vence. convém saber enxergar as diferenças. A diferença é aquilo que a máquina da lama não quer que o espectador, o leitor, o cidadão intua. Uma coisa é a debilidade que todos temos, outra é o crime. Uma coisa é o erro, outra a extorsão. Os políticos podem errar, significa que agem. Mas uma pessoa que erra é bem diferente de uma pessoa corrupta.

É necessário dizer: "Nós somos diferentes". É preciso sublinhar a diferença, não lançar tudo no mesmo caldeirão. Assinalar, por exemplo, que a privacidade é sagrada, é um dos pilares da democracia.

O objetivo da máquina da lama é justamente dizer que é tudo a mesma coisa. E, principalmente, baixe o olhar, não critique, deixe que vença o mais esperto e, se criticar, o que o espera é isto: toda a sua privacidade se tornará pública.

A desinformação visa destruir as vítimas no campo dos amigos, é usada como punição, para obrigá-lo a se defender perante seus familiares, a dizer coisas que nada têm a ver com sua atividade pública. Semeia dúvidas e insinua suspeitas que justamente os amigos devem temer. Seja qual for seu estilo de vida, seja qual for seu trabalho, seja qual for seu pensamento, se você se posiciona contra certos poderes, estes sempre responderão com uma única estratégia: deslegitimá-lo.

Roberto Saviano
Trad.: Joana d'Avila


17.9.16

informação, definições, adjetivos


A guerra midiática durante as manifestações [São Paulo, agosto de 2013 até a Copa do Mundo 2014] foi incessante. Pouco a falar sobre os grandes veículos de comunicação que não tenha sido dito já até a saciedade, porém, um fenômeno, talvez mais imperceptível, mas muito mais transformador, nunca deixou de chamar a minha atenção: em cada um dos protestos, além dos veículos formais, havia cidadãos anônimos com smartphones, reproduzindo via streaming, filmando, fotografando, opinando...

Curioso como muitas pessoas não querem aceitar mais ser consumidores dóceis de informação. Querem produzir, criar. Claro que isto é algo extraordinário, avançar do cidadão-consumo ao cidadão-informação, mas nada é sempre cor-de-rosa. Nas manifestações, o jogo sempre é complexo e a informação pode muito bem servir de base tanto para o diálogo quanto para a neurose.

Frequentemente, depois de cada manifestação, depois do enfrentamento na rua, começava o enfrentamento na rede social e a conclusão do dia era uma histeria midiática aumentando a polarização e o clima de tensão. Cenas de violência de manifestantes e de violência de policiais. Essas cenas resumiam tudo, como se não tivesse existido nada mais durante as horas de cada manifestação. Como se tudo pudesse se vulgarizar, rapidamente, sem tempo para a análise, para a sagacidade, para a diversidade dos fatos. O que é complexo parece cansar na rede.

A internet e especificamente a rede social Facebook exercem um papel fundamental nos protestos. O Facebook não é só a plataforma de convocação, organização e difusão dos eventos, mas atua também como fortalecedora da identidade coletiva Black Bloc. Informações sobre a tática, notícias sobre sua atuação em diversos países, sentimentos, experiências, expectativas pessoais de cada um dos adeptos sobre a situação nas ruas, comentários contra a Polícia Militar... Proximidade, horizontalidade, ampla liberdade de expressão, fatores que disseminam ideias coletivas com rapidez e atuam como estimuladores.

Mas a internet que redemocratiza, onde todos podem ser criadores em vez de meros repetidores, às vezes parece uma selva de sociopatas. Espaço dos lugares-comuns por excelência, onde tudo é trivializado, pouco é debatido. Horas na frente do Facebook e, em vez de questionamentos, só reproduzimos dogmas.

Esther Solano


chopin na cadeira elétrica


[La krudeza no muere | 2013]

Abre aspas

A dinâmica da acumulação leva inexoravelmente ao colapso da biosfera e ao desaparecimento das condições orgânicas da vida humana. Portanto, devemos criar uma sociedade ecológica, em ruptura com o capitalismo, não apenas porque ela é desejável, mas porque é tragicamente necessária.

Fecha aspas


15.9.16

indivíduo e coletivo


[...]

O capitalismo ao transformar em mercadoria todas as sequências da atividade humana, fraciona, "fragmenta" o indivíduo: "Cada uma das suas relações humanas com o mundo, ver, ouvir, cheirar, degustar, sentir, pensar, intuir, perceber, querer, ser ativo, amar, enfim todos os órgãos da sua individualidade" foram alienados pela lei do lucro. Mais tarde, em 1867, em O capital, Karl Marx aprofundou mais essa ideia e opõe o ser do homem completo ao ter do homem "fragmentado" pela alienação capitalista. Este último é cindido pela divisão do trabalho, é despossuído de sua produção pela leio do valor: pelo trabalho, os assalariados transformam matérias-primas em mercadorias, e assim dão a elas um valor suplementar, valor que só retorna muito parcialmente aos produtores em forma de salários. O indivíduo, encurralado entre a dupla natureza do trabalho e os circuitos do capital, é sistematicamente separado de uma parte de si mesmos, de seu tempo social, de sua produção, de seu trabalho: de uma atividade que lhe é própria na origem. O capitalismo não é individualista, ele oprime o indivíduo.


Olivier B.
Michael L.


14.9.16

por uma arte revolucionária independente


Para a criação intelectual, a Revolução deve, desde o começo, estabelecer e assegurar um regime anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coação, nem o menor traço de comando!

Breton y Trotski


12.9.16

as causas psicológicas do nazismo

[1912-1973]

O sadomasoquista moral se traduz numa vontade doentia de poder e dominação, ligada a uma ânsia, igualmente doentia, de submissão e autodiminuição. [...] O sadomasoquista moral só sente bem dentro de uma hierarquia rigorosa, em que sempre há alguém por cima e alguém por baixo dele - posição exata da pequena e da media burguesia.

Entre os múltiplos caminhos de evasão do isolamento e da liberdade oferece-se o do sadomasoquismo como meio de fuga inconsciente para as massas. O sadismo é a tentativa inconsciente do indivíduo de sobrepor-se à solidão e ao sentimento da sua extrema pequenez pelo engrandecimento da própria pessoa a tal ponto que domina e, por assim dizer, engole um ou outros indivíduos. Desta maneira, incorporando outros, ele se sente, inconscientemente, valorizado e fortificado. O impulso masoquístico, ao contrário, é a expressão inconsciente de uma tentativa de aniquilação do próprio "eu", que, assim, pela sujeição a um poder superior, espera libertar-se do isolamento doloroso. Os dois fenômenos são sintomas de um só estado de fraqueza e insegurança. O sadista, embora parecendo "homem forte", é no íntimo um fraco, pois sua vontade de poder é um sinal da sua essencial dependência daqueles que domina. Longe de ser autônomo, capaz de realizações positivas, é ele, ao contrário, nas suas formas excessivas, uma pessoa mórbida, escravizada, apta apenas para ações destrutivas. Esta fraqueza ressalta pelo fato de ele ser igualmente dominado por instintos de submissão.

O futuro da democracia, sistema dentro do qual a liberdade poder-se-á realizar relativamente de maneira melhor, depende da sua capacidade de criar condições econômicas-sociais e o ambiente espiritual que possibilitem a educação de indivíduos relativamente autônomos, seguros de si mesmos num estado de segurança geral em que não podem desenvolver-se o medo, a angústia, a preocupação constante, a solidão insuportável para o espírito médio; a futura democracia depende da sua capacidade de criar condições nas quais possam desenvolver-se indivíduos que não sejam autômatos que sucumbam a qualquer campanha de propaganda, mas que saibam raciocinar com discernimento; que sintam seus próprios sentimentos e não os que poderes anônimos sugerem; que tenham emoções genuínas e não as que convém a patriotas espertos; que ajam de acordo com seus próprios desejos humanos, dentro dos limites sociais e não obedecendo a desejos de alguns que puxam as cordas. Se Sócrates disse "conhece-te a ti mesmo!", devemos dizer hoje: "seja você mesmo! Não seja o que outros querem que você seja!"

Anatol Rosenfeld


31.8.16

sonho pirata ou realidade 2.0?


“Jolly Roger” usada por Stede Bonnet. 
Bandeira dos anarquistas russos 
1918 - 1920

Compartilhar, colaborar 
e se comunicar livremente...

Localizada em um paraíso tropical e habitada por gente amiga, Libertália era também perfeita por estar próxima as principais rotas marítimas. Para Daniel Defoe (1724), Libertália foi a maior expressão da Utopia pirata por uma terra livre. [...] Lá não havia lugar de privilégios de nobreza, inquisição religiosa, exploração colonial ou comerciantes de escravos. Era o único local onde se ostentava em terra firme a bandeira preto e branca, conhecida como "jolly roger" - cuja origem vem do francês jolie rouge ("bela vermelha"). Seu uso significava a disposição de uma embarcação lutar até a morte.

[...]

Libertália foi a origem de uma série de ataques a navios negreiros. Estes eram saqueados e tinham seus cativos libertados.

[...]

O reduto tornou-se um símbolo do humanismo comunitarista pirata.
Uma terra onde todos são livres. Onde não há exploradores ou explorados; nem senhores, nem escravos; nem proprietários, nem servos. Onde sequer há nacionalidades e fronteiras de qualquer espécie. Onde o dinheiro não é centro da vida, mas sim a solidariedade e o bem estar comum.

[...]

Em tempos de regimes absolutistas, dominação colonial, escravidão, inquisição - tudo ao mesmo tempo, os barcos piratas podiam ser considerados ilhas de democracia em meio a um oceano de tirania.

[...]

A estratégia pirata consistia em explorar as fraquezas do sistema organizado de roubo, baseado em uma política colonial, onde uma monarquia ávida por riquezas, cercada por uma nobreza corrupta contrastava com o povo miserável.

[...]

Os barcos piratas eram uma ameaça a todo o sistema de exploração colonial: à manutenção das colônias, ao comércio marítimo, aos navios negreiros e a própria estrutura social vigente, baseada na divisão de classes, nacionalidades e raças.

[...]

Por suas tendência antiautoritárias, a mera existência dos piratas representava um risco às autoridades. Qualquer igualitarismo ou ideologia libertária era incompatível com regimes monárquicos, elites rurais, senhores de escravos, exploração mercantilista e colonial. E essa forma de vida contrariava a moral e costumes da época.

[...]

Pirata significa também que está "fora do lugar". Identifica os que se opõem à sociedade em suas práticas sociais, especialmente no campo da cultura, da arte, da política e da informação.

[...]

Os piratas de hoje não aceitam o bloqueio ao fluxo da informação, controles sobre os meios de comunicação e ataques à privacidade e direitos fundamentais sob a escusa de garantir a "segurança". Também não aceitam que a infraestrutura de informação e comunicação se preste ao monitoramento e ao vigilantismo, ao mesmo tempo em que o Estado esteja sob o controle de pessoas que defendam com unhas e dentes o segredo. A manipulação de informação e a concentração de poder pelas corporações também é o contrário ao espírito libertário pirata.

Jorge Machado



25.8.16

cuidar la cabeza

167 cascos + 97 libros - 7,5 x 4,3 mts | 2016

La obra, y sus elementos, simbolizan la rebelión popular del año 69 en la Ciudad de Córdoba conocida como El Cordobazo. El artista resalta de dicho momento histórico, la unión entre el movimiento estudiantil y el movimiento obrero. Algo inédito y fundamental de tal movilización. La relación del artista con la calle y la intervención artística de la misma, tiene sus orígenes en que varios integrantes de su familia participaron del “Cordobazo”. Esto, según Tec, hizo que su forma de hacer arte tome la calle como espacio central en su obra. 

El estallido social de 2001 en Argentina, encontró a Tec viviendo en Buenos Aires, hecho que marcó la dirección en su proyección artística. La búsqueda del material bibliográfico de la época fue muy difícil debido a que muchos de estos libros tuvieron que ser ocultos, quemados o hasta inclusive enterrados. Son los libros prohibidos, los libros sobrevivientes de nuestra tragedia. Todos los libros que conforman la obra fueron editados antes del año 1969.

Dejamos aqui nuestro profundo deseo de que nunca mas nada ni nadie nos persiga por lo que leemos, escribimos o pensamos.

Los pueblos que olvidan su historia están condenados a repetirla.


23.8.16

tabus acerca do magistério


O pathos da escola hoje, a sua seriedade moral, está em que, no âmbito do existente, somente ela pode apontar para a desbarbarização da humanidade, na medida em que se conscientiza disto. Com barbárie não me refiro aos Beatles, embora o culto aos mesmos faça parte dela, mas sim ao extremismo: o preconceito delirante, a opressão, o genocídio e a tortura; não deve haver dúvidas quanto a isto. Na situação mundial vigente, em que ao menos por hora não se vislumbram outras possibilidades mais abrangentes, é preciso contrapor-se à barbárie principalmente na escola.


Theodor W. Adorno | 1965
Trad.: Wolfgang L. Maar


16.8.16

para o livro de Literatura de segundo grau



Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

HANS MAGNUS ENZENSBERGER 
Trad.: Kurt Scharf e Armindo Trevisan



13.8.16

dialética da escola-prisão


Eles: robôs

Numa manhã fria de lascar minha aula fora interrompida pela pedagoga que apareceu para fiscalizar os eventuais alunos que não estavam uniformizados. Ela começou a recolher aqueles que vestiam blusas cinzas, vermelhas e verdes ameaçando-lhes que voltariam para casa para uma lição. 

No alto de tamanha arbitrariedade a questionei se não estaria muito frio. Estava um puta frio. Ela me respondeu que apenas recebia ordens. 

A falta de bom senso fabrica essas relações medíocres de poder.



10.8.16

1968: a Comuna estudantil e o assalto ao céu


O maio de 1968 foi, ao mesmo tempo que épico, lírico e garantiu os direitos da subjetividade. Contra o mundo sem sonho, sem poesia - de prosa - o maio se fez.

1968 é o ano matriarcal presente em todos os movimentos que recusam a submissão ao status quo.

Em 68, a palavra liberada expressou todas as esferas da vida - profissional, pessoal e coletiva, ecológica, e sobretudo amorosa: "on ne tombe pas amoureux d'un taux de croissance" (ninguém se apaixona por uma taxa de crescimento), dizia um grafite da Sorbonne.

A experiência democrática de 68 foi o espaço privilegiado de questionamento de todas as figuras do totalitarismo, do exercício de um poder que se funda sobre o terror permanente e a ideologia; esta dominação não se exercendo apenas do exterior mas também do interior da subjetividade forjada para a servidão, contraria à livre faculdade de julgar. Recorde-se que Hannah Arendt, em seu estudo Eichmann em Jerusalém, enfatiza nele não o demônio patológico nazista, mas o homem na sua absoluta incapacidade de pensar por conta própria.

O maio de 68 apontou e destacou, nos bastidores da fachada do conforto e racionalidade, os mitos da vida moderna e sua "multidão" solitária, na qual os indivíduos não pareciam felizes mas vivendo no exterior de si mesmos, sob o domínio das coisas.

O maio de 68, ao questionar a Reforma universitária, o empresariamento da educação, revelava o término de uma sociedade, antes pautada pelas Humanidades, no conhecimento - , e pela qualidade dos serviços públicos, na sociedade. À ideia de educação-formadora do caráter e do cidadão - que cultivava a literatura, a filosofia e as artes, volta-se, agora, clara e integralmente, para a "otimização" do tempo, isto é, a superexploração do trabalho, a ciência e a técnica tornam-se forças produtivas com seu discurso intimidador de autojustificação ideológica.

Olgária Matos



9.8.16

transmission


Fragmento da palestra do pensador frankfurtiano no Instituto de Pesquisas Educacionais de Berlim em 21 de maio de 1965 e transmitido pela rádio de Hessen em 9 de agosto de 1965:

[...]

Seria preciso atentar especialmente até que ponto o conceito de "necessidade da escola" oprime a liberdade intelectual e a formação do espírito. Isto revela na hostilidade em relação aos espírito desenvolvido por parte de muitas administrações escolares, que sistematicamente impedem o trabalho científico dos professores, permanentemente mantendo-os down to earth, desconfiados em relação àqueles que, como afirmam, pretendem ir mais além ou a outra parte. Uma tal hostilidade, dirigida aos próprios professores, facilmente prossegue na relação da escola com alunos.

Theodor W. Adorno
Trad.: Wolfgang L. Maar


6.8.16

problemática sociológica sob a lente de Bauman:


A ética é possível num mundo de consumidores?
Capitalismo parasitário: danos colaterais.
A sociedade individualizada.
Vida: a crédito, em fragmentos, líquida, para o consumo, desperdiçada.
A riqueza de poucos beneficia todos nós?
Cegueira moral sobre educação e juventude.

5.8.16

dialética da escola-prisão


nove

Somente será possível alguma mudança no complexo educacional (na educação formal) quando o último resquício de punição tiver desaparecido das práticas escolares.

Quem se atreve a desmascarar as condutas autoritárias que prejudicam o objetivo educacional?


22.7.16

ciberativismo


A importância do midiativismo e dos cyberpunks numa rede capitalista como o facebook é de fundamental necessidade.

Para quem acha que a internet não tem fronteiras, muito se engana.

Quem pesquisa e faz o trabalho de filtragem percebe como o google e outras redes promovem pré-censuras. Um exemplo cabal são os artigos que analisam o massacre da Praça da Paz Celestial. As informações disponíveis correspondem apenas as interpretações governamentais.

Isso não nos lembra a manipulação de informações destacada no romance 1984?


19.7.16

o mundo está dividido em:


informados
seminformados
desinformados
e os ignorantes.

No entanto, no Brasil é muito pior.


14.7.16

a trilogia dos dólares


MDC | John Wayne Was a Nazi 

A trilogia dos dólares, de Sergio Leone: "Por um punhado de dólares"; "Por uns dólares a mais" e "Três homens em conflito ou O bom, o mau e o feio" 

O neoliberalismo é o "modelo" econômico mais perverso que o capitalismo já ofereceu à humanidade. Tal qual o mito da caverna de Platão, o capital no século XXI nos arremessa para um mundo de aparente prosperidade, sustentado por um consumo sombrio e pela obscuridade da exploração. Os instrumentos que projetam as sombras na caverna são os arautos da nova economia: jornalistas, economistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e políticos profissionais. Gente interesseira e interessada. Gente que ganha a vida em manter dominados e explorados obedientes e aprisionados na escuridão da caverna, sem perceber que eles próprios não são a luz em si, mas apenas instrumentos de projeções sombrias. Seres tão dominados quanto aqueles que vivem no interior mais profundo da caverna. Apenas um pouco menos explorados. Até que chega o dia em que a casa cai. E são sumariamente descartados. Para os que tentam sair da caverna, uma esperança de luz. Uma ponta de sol. Mas tão logo regressam para reencontrar seus antigos companheiros de caverna, e tentam convencê-los de que há uma luz alternativa a esse mundo de trevas do capital financeiro e da ideologia neoliberal, no qual são prisioneiros, passam a ser tratados como arruaceiros e são imediatamente excluídos, julgados e condenados. Pelo mercado e pela sociedade. Por dominantes e dominados. Condenados à obsolescência. Condenados à irrelevância. Condenados à inviabilidade. Descobrem, na própria pele, que na sociedade de hoje tudo é escuridão. Frieza. Cálculo. Cinismo. Na caverna não há prisioneiros ou libertos. Apenas cavernas escuras. As cavernas somos nós. Deixamos escapar toda a luz do mundo e nos deixamos aprisionar por tão pouco. Por um punhado de dólares. Vivemos em conflito. Ridicularizamos o bom. Admiramos o mau. E nos tornamos os feios. Por uns dólares a mais. 

Ulisses F.


10.7.16

analfabeto secundário

Mafalda | Quino 


Termos relacionados: indústria cultural, lazer, distinção cultural, público. 

Indivíduo alfabetizado com um grau de informação que pode variar do mais baixo ao mais especializado, capaz de decodificar informação visual e de servir-se de terminais eletrônicos, familiarizado, em suma, com as condições de existência num grande centro urbano contemporâneo, mas desprovido de uma visão cultural mais ampla de sua própria vida e do contexto social. É o produto de uma economia que não tem mais problemas de produção e sim de vendas, que não mais necessita de reservas de mão-de-obra pouco ou nada qualificadas e analfabetas, mas de consumidores qualificados a movimentar-se pela parafernália contemporânea. Caracteriza-se o analfabeto secundário por ter sua atenção desviada por trivialidades (os pseudos-eventos criados pela televisão, como as novelas, competições esportivas, etc.), orientar-se por uma sucessão de entretenimentos vazios e receber informações políticas sob a forma de comunicação espetacularizada. Próprio dos períodos em que o povo se transforma em público, o analfabeto secundário é contemporâneo de uma época cuja cultura perdeu quase todo o traço distintivo e deixou de ser prioridade pública. O analfabeto secundário não se encontra apenas nas camadas mais desfavorecidas da população: longe disso, integra também, em proporção amplamente majoritária, os quadros da elite econômica e política. Sua mídia ideal é a televisão. 

Teixeira Coelho



8.7.16

história da indústria e do trabalho no brasil

[...]

Na grande indústria têxtil, violências sexuais contra meninas e mulheres por parte de mestres e contramestres eram denunciadas rotineiramente na imprensa operária. As prepotências e agressões físicas dos chefes e mestres contra menores eram a norma também no caso da indústria de vidros, de pequeno e médio porte. Um retrato em detalhe das miseráveis condições de trabalho no setor de vidreiros foi feito por um antigo operário do ramo, o memorialista Jacob Penteado. Além da violência física contra os menores, eram comuns as punições, o alcoolismo e doenças como tuberculose e sífilis. Inexistia qualquer higiene nos locais de trabalho. As águas eram insalubres e a temperatura da fornalha chegava a um grau insuportável, dentro de um barracão de zinco sem janelas e nem ventilação. O ar era totalmente poluído pela poeira de vidro, além dos cacos espalhados pelo chão. O autor comparou o interior de uma fábrica de vidro a um dos "círculos do inferno".


7.7.16

o escritor e o estado

Nuits Debout | 2016

Os escritores se encontram, não por "dever do ofício", mas por sua própria condição social, do lado da barricada em que se luta por uma forma política real de Estado democrático e pela revolução democrática permanente.

Florestan Fernandes