22.5.17

vivam os tomates

por Ouologuem Yambo
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974

Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam 
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados

Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as 
Minhas gengivas
Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates

Ouologuem Yambo nasceu em 1940, em Dogon (Mali), filho de um inspector escolar. Desde 1962 vive em Paris, onde se formou em filosofia, literatura e sociologia. 

20.5.17

deus, um delírio

 
"Se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegamos a lugar nenhum ao chamar nossa ignorância de deus".

deus, um delírio

1856 - 1950

O fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.
B. Shaw


19.5.17

brinquedo absurdo


Singer

Qualquer mecanismo para nos distrair 
é um dispositivo de alienação.

18.5.17

cadeião chocolate

Bomb it

Eu não estou a fim de me tornar o ponto de referência vivo de todas as vidas ilusórias, dos valores místicos.

Sou apenas um cara que gosta do gênero punk, escrever fanzines, deixar uns estêncil pela urbe e praticar a leitura.

Eu gostava de lecionar, mas a coerção, os assédios morais, as arbitrariedades, o fundamentalismo descarado e a repressão jurídica das cadelas do fascismo só vieram consolidar o que eu vinha observando. A escola não passa de uma prisão.

No mais, sou calmo como um bomba.


17.5.17

deus, um delírio


[...]

Dizem que Alfred Hitchcock, o grande cineasta especialista na arte de assustar as pessoas, estava uma vez dirigindo na Suíça quando de repente apontou pela janela do carro e disse: "Essa é a cena mais aterrorizante que já vi". Era um padre conversando com um menininho, a mão dele sobre o ombro do garoto. Hitchcock pôs a cabeça para fora do carro e gritou: "Fuja, menininho! Salve a sua vida!".

Richard Dawkins | 2007
Trad.: Fernanda Ravagnani



a arte de viver para as novas gerações


O senso-comum é um compêndio de falsidades como: os chefes são sempre necessários, sem autoridade a humanidade se precipitará na barbárie e no caos e assim por diante.
Raoul Vaneigem


16.5.17

chopin na cadeira elétrica


Acción Directa

Acción Directa: una banda que supo resistir en los 90
En un momento de crisis, de privatizaciones en los servicios básicos, de desempleo y precarización laboral una de las bandas punk rock que impugno al capitalismo.

Transcurrían los años 90, el imperialismo avanzaba triunfante con la ofensiva neoliberal en el mundo entero. La caída del muro de Berlín y el rechazo a la burocracia gobernante “en bloque” con el rechazo al estado obrero de la unión soviética, pretendía borrar del imaginario colectivo las ideas de la revolución y de la construcción de un sistema socialista como alternativa al capitalismo. Era el momento de una brutal ofensiva ideológica reaccionaria que decretaba “el fin de la historia”, “el fin de las ideologías” y de la clase obrera.

En nuestro país el gobierno de Carlos Menem, con Duhalde en el gobierno de la PBA implemento una política de sistemática persecución y represión contra la juventud. La caída de la dictadura en 1983 y la breve primavera democrática Alfonsinista, no impedía que las policías bravas realizaran violentas razias. Uno de sus blancos favoritos fue la juventud identificada con el rock y en particular, el punk que desde sus sonidos rechinantes y estruendosos, y sus letras combativas se oponía en los hechos a la cultura consumista e individualista en una suerte de resistencia cultural anti neoliberal.

El indulto a genocidas de la dictadura militar como una amenaza a todo tipo de protesta contra el gobierno de turno era el telón de fondo de esta situación. Mientras los empresarios como el actual presidente Mauricio Macri, se enriquecían a costillas del pueblo trabajador con un estado manejado por la burguesía nacional decadente y socia menor del imperialismo. Estaban de fiesta.

Acción Directa una banda de punk rock subversivo
Acción Directa surge luego del compilado punk rock invasión 1988, para que a través de la música, de la mística de los recitales y el grito contenido los jóvenes expresen su bronca. Una forma de agitar la resistencia a través de un punk rock hilarante que incitaba a la violencia colectiva como necesaria para que los pueblos se liberen.

La banda oriunda de La Plata tocó por primera vez en Junio del 92 junto a Chempes 69, la banda en la que cantaba Miguel Bru, un joven de 23 años, estudiante de periodismo, que el 17 de agosto de 1993, seria torturado y asesinado por la policía en la comisaría 9na. Su cuerpo nunca apareció, pero la movilización desatada, logro un triunfo parcial encarcelando a dos de los policías responsables. Era también la década en la que Walter Bulacio, asesinado por la policía en un recital de los redondos, desato la bronca de miles y su rostro se transformó en bandera de lucha contra la represión y la impunidad. 

También fueron parte de la Coordinadora contra la represión de Zona Oeste, prendiéndose en todo festival contestatario o de resistencia al Menemismo, tocaron en festivales contra los despidos en YPF, acompañando la lucha por memoria, verdad y justicia de los organismos de DDHH, por la libertad de los presos políticos de Neuquén Panario, Chritensen y Estrada, detenidos por luchar con los desocupados.

Sus discos “Con la sangre roja y el corazón a la izquierda”, “Revolución o muerte” son un manifiesto musical de la resistencia en aquellos años.

La banda terminó por separarse en 1997, luego de cinco años de música, lucha y militancia a la par de la izquierda, rescatamos su música contestataria antisistema que fue el grito de desahogo de una juventud que no tenía nada que perder. Este es un humilde homenaje a una banda que supo resistir y rechazar la cooptación del rock.

Ernesto Álvarez


valor e cultura



XXXIV

Em proveito da operacionalidade e da velocidade a verdade é deixada de lado. Torna-se basura.

Uma das razões da pós-modernidade é o fim da preocupação com a verdade. Mesmo que, embora, toda verdade carregue seus conflitos de interesses, a modernidade tardia menospreza o pensamento analítico.

E isso é tão perceptível dentro das escolas.



15.5.17

advis pour dresser une bibliothèque


Conselhos para formar uma biblioteca
Objetivo de organizar uma razão política

Gabriel Naudé | 1644

"Seu objetivo consistia em contrabalançar, e mesmo anular, o poder da igreja, que, por meio da Bíblia interpretada por uma casta ou estamento com poder de monopólio nesse domínio, apresentava-se como fonte exclusiva de 'conselhos' políticos para os soberanos. Naudé esposava um projeto político que, em suas palavras, procurava substituir a autoridade espiritual da Igreja pela Máquina Cultural que era a biblioteca."

Teixeira Coelho
Dicionário Crítico de Política Cultural


11.5.17

fuck off!


Luis Ruffato, em seu artigo intitulado Sobre o vandalismo, chamou os Black Blocs de "desagradáveis e irritantes" e escreveu ainda que eles se infiltram em manifestações pacíficas reduzindo a tática à vazão de adolescentes.

A desonestidade intelectual está alcançando até mesmos os escritores ditos originais.


10.5.17

valor e cultura


Neste falatório interminável e infernal cada pessoa exprime sua opinião de acordo com seus sentimentos ou seus preconceitos.


7.5.17

a gênese do proibicionismo moderno e o ponto de inflexão atual

[...]

O proibicionismo tem em si um natureza anti-republicana, é um despotismo sobre os direitos de escolha fundamentais, aqueles que dizem respeito a si próprio.

[...]

Submeter esta relação entre o real molecular, o imaginário psicológico e o simbolismo social a uma polícia de conduta é querer policiar o próprio corpo, monitorar seus trânsitos e estabelecer interditos coercitivos de comportamentos e estilos de vida.

Essa coerção, fundada pelo puritanismo ianque, associada ao despotismo tártaro manchu e tornada doutrina oficial do eugenismo industrialista fordista fascista erigido em biopoder global, se tornou uma megaindústria de acumulação financeira hipertrofiada, lucro mercantil exorbitante, máquina repressiva bilionária, despesas de endoregulação disfuncional com aprisionamento privatizado e burocracias policiais e jurídicas multiplicadas.

H.C.


6.5.17

Um conto sobre como a indústria da música ativamente cria e alimenta doenças mentais


"A indústria musical é como um boteco dentro de uma cervejaria que ajuda a criar e manter doenças mentais na cabeça de seus clientes; tudo isso atrelado a uma sinuca, projetada para atrair quem já sofre destes males."

5.5.17

cultura e valor


A indústria da música no Brasil é análoga a um ladrão. Ela rouba o silêncio criativo, o pensamento crítico, o corpo e a temperança e os transforma num pacote mercantil para alimentar outra indústria: a do álcool.


3.5.17

cultura e valor


A geral tem de saber que um escritor e um artista compromissados (que não fazem concessões ou representam marcas, e que, muito menos, não almoçam com o rei, e por isso fica mais difícil o seu reconhecimento e suas relações sociais) cobram pelo escrito e pela arte.

O sujeito que deseja um Gramsci na parede do seu escritório ou uma resenha de seu novo livro de graça pensa o quê da vida, que o escritor e o artista vivem em uma sociedade que se paga o aluguel com abraço?

Tempo para ler e escrever não consta na contabilidade? E tinta do spray, cês acham que dá na árvore da praça mais próxima?


2.5.17

limitar o limite: modos de subsistência

Tim Noble & Sue Webster

[...]

Segundo um boato dos anos 1990, havia, além da Muralha da China, uma outra "construção" humana visível do espaço: o Aterro Sanitário de Fresh Kills, em Nova York; sintomaticamente, um limite e uma wasteland. Esse boato trazia consigo uma profunda verdade: depositado no fundo do mar, deslocado para as periferias, o lixo é a grande produção da modernidade - e sua maior realização como obra é a ilha de Lixo do Pacífico. O mundo foi contaminado pela indigestão consumista, fazendo da Terra um "planeta doente". Nesse processo, ignorou-se a reciprocidade da transformação envolvida em toda digestão, a sua via de mão dupla: a transformação daquilo que se consome. Mas, como sugerem as obras de Tim Noble e Sue Webster, o "projeto humano" se tornou a sombra de seu lixo - e não apenas o contrário. Não é um acaso, portanto, as cidades destruídas por catástrofes "naturais" se parecerem muito mais com lixões do que com ruínas. Vivemos em um cenário de terra devastada, em um mundo esvaziado de sentido e repleto de montanhas de lixo, que continuarão aqui mesmo que cessemos imediata e totalmente de gastar as coisas do mundo. Não é que teremos que nos virar com pouco, como alertava Benjamin: teremos que nos virar com restos.

Alexandre N.


1.5.17

definição de poesia


Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado.
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

1917
Boris Pasternak
Trad.: Haroldo de Campos


29.4.17

nota de solidariedade


Nota de Solidariedade e Pedido de Providências da Faculdade de Ciências Sociais da UFG 


A Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás reafirma o seu compromisso com a ordem jurídica vigente neste país e repudia a violência criminosamente perpetrada pela Polícia Militar do Estado de Goiás que, em desrespeito à lei e à sensatez, cometeu um bárbaro ato de agressão contra o estudante Mateus Ferreira da Silva, aluno do curso de graduação em Ciências Sociais- Habilitação Políticas Públicas desta unidade acadêmica.

Mateus Ferreira da Silva é um exemplar estudante que, no dia 28 de abril de 2017, somou-se pacificamente à manifestação realizada no contexto da greve geral deflagrada contra as reformas previdenciária e trabalhista propostas pelo Governo Federal. Exercia, na ocasião, o seu direito fundamental de manifestação e de reunião, garantido no artigo 5o, incisos IV e XVI, da Constituição da República.

Como se infere de material audiovisual amplamente divulgado nos veículos de comunicação, Mateus sofreu uma agressão unilateral, criminosa e irracional por parte de um profissional que, investido em suas funções segundo o regime artigo 144, parágrafo 5o, da Constituição da República para manter a ordem, promoveu a ilicitude e a barbárie na manhã do dia 28 de abril, incorrendo arbitrária e imotivadamente contra os direitos fundamentais e a integridade físico-corporal de um cidadão.

Esta unidade acadêmica solidariza-se com os familiares e amigos de Mateus, esperando uma breve e plena recuperação de sua saúde.

Adicionalmente, diante deste repudiável episódio – cuja natureza de arbítrio e de desrespeito por agentes públicos às garantias fundamentais de cidadania soma-se à longa relação de casos similares no Estado de Goiás - exige-se a mais célere, contundente e efetiva apuração do crime que vitimou o nosso estudante, punindo-se o policial militar que o perpetrou e responsabilizando-se o Poder Público por esse bárbaro ato de desrespeito ao direito e aos mais basilares princípios civilizatórios.

Goiânia, 29 de abril de 2017.


28.4.17

Introdução

T. U.

[...]

Capaz de aumentar as riquezas, de produzir e difundir em abundância bens de todo tipo, o capitalismo só consegue isso gerando crises econômicas e sociais profundas, exacerbando as desigualdades, provocando catástrofes ecológicas de grandes proporções, reduzindo a proteção social, aniquilando as capacidades intelectuais e morais, afetivas e estéticas dos indivíduos. Abraçando unicamente a rentabilidade e o reinado do dinheiro, o capitalismo aparece como um rolo compressor que não respeita nenhuma tradição, não venera nenhum princípio superior, seja ele ético, cultural ou ecológico. Sistema comandado por um imperativo de lucro que não tem outra finalidade senão ele próprio, a economia liberal apresenta um aspecto niilista cujas consequências não são apenas o desemprego e a precarização do trabalho, as desigualdades sociais e os dramas humanos, mas também o desaparecimento das formas harmoniosas de vida, o desvanecimento do encanto e da graça da vida em sociedade: um processo que Bertrand de Jouvenel chamava de "a perda de amenidade". Riqueza do mundo, empobrecimento das existências; triunfo do capital, liquidação do saber viver; superpoder das finanças, "proletarização" dos modos de vida.

O capitalismo aparece assim como um sistema incompatível com uma vida estética digna desse nome, com a harmonia, a beleza, o bem viver. A economia liberal arruína os elementos poéticos da vida social;  ela dispõe, em todo o planeta, as mesmas paisagens urbanas frias, monótonas e sem alma, estabelece por toda a parte as mesmas franquias comerciais, homogeneizando os modelos dos shopping centers, dos loteamentos, cadeias de hotéis, redes rodoviárias, bairros residenciais, balneários, aeroportos: de leste a oeste, de norte a sul, tem-se a sensaçao de que aqui é como em qualquer lugar. A indústria cria uma pacotilha kitsch e não cessa de lançar produtos descartáveis, substituíves, insignificantes; a publicidade gera a "poluição visual" dos espaços públicos; as mídias vendem programas dominados pela tolice, a vulgaridade, o sexo, a violência - em outras palavras, "tempo de cérebro humano disponível". Construindo megalópoles caóticas e asfixiantes, pondo em risco o ecossistema, tornando insípidas as sensações, condenando os seres humanos a viver como rebanhos padronizados num mundo insulso, o modo de produção capitalista é estigmatizado como barbárie moderna que empobrece o sensível, como ordem econômica responsável pela devastação do mundo: ele "enfeia toda a terra", tornando-a inabitável de todos os pontos de vista. Esse juízo é amplamente compartilhado: a dimensão da beleza se estreita, a da feiura se amplia. O processo iniciado com a Revolução Industrial prossegue inexoravelmente: é um mundo mais desgracioso que dia após dia se desenha.

Um quadro tão implacável assim não tem falhas? Estamos condenados a aceitá-lo em bloco? Se o reinado do dinheiro e da cupidez tem efeitos inegavelmente calamitosos no plano moral, social e econômico, dá-se o mesmo no plano propriamente estético? O capitalismo se reduz a essa máquina de decadência estética e de enfeamento do mundo? A hipertrofia das mercadorias vai de par com a atrofia da vida sensível e das experiências estéticas? Como pensar o domínio estético no tempo da expansão mundial da economia de mercado? 

LIPOVETSKY, G. SERROY, Jean. L'Esthétisation du monde: vivre à l'âge du capitalisme artiste. Trad.: Eduardo B. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


25.4.17

a linguagem do parquinho


I

Desde que os anarquistas sentem no fim da sala e fiquem de bico calado, tudo bem para a classe.


24.4.17

mil platôs

Greve Selvagem || 2017


23.4.17

entrevista


Ethiopiques ||1969-1974

com João Gilberto Noll
 E. S.
[...]
Muitas vezes o estilo do escritor vem do erro, da insuficiência, disso que você pode chamar de idiossincrático. Exponho muito as vísceras da minha luta sintática. Às vezes, a sintaxe é uma camisa de força brutal. A voragem mental nem sempre pode ser traduzida dentro do espartilho sintático vigente. Uma das funções do escritor é mostrar a coisa linguística na dor da expressão, mostrar o feio, o mal ajambrado. A beleza vem da insuficiência brutal querendo ser lúcida.


22.4.17

il mondo invisibile


Entrei (inopinadamente) no mundo da escrita com dois livros sobre os campos de concentração; não cabe a mim julgar-lhes o valor, mas eram sem dúvida livros sérios, dedicados a um público sério. Propor a esse mesmo público um volume de contos-entretenimento, de armadilhas morais talvez divertidas, mas distanciadas e frias, não seria o mesmo que praticar uma fraude comercial, como quem vendesse vinho em garrafas de azeite? São perguntas que me fiz ao escrever e publicar estas "histórias naturais". Pois bem, eu não as publicaria se não estivesse convencido (não imediatamente, para ser sincero) de que entre o Lager e essas invenções existe uma ponte, uma continuidade. 

Primo Levi
Trad.: Maurício S. Dias


21.4.17

ecologia cognitiva



O punk é um exercício de explosão de códigos estabelecidos, especialmente no que se refere aos gêneros.
Virginie D.


20.4.17

estilo de controle


NERVO
           S
           S
           O


ecologia cognitiva


[Cartaz plágio]

Pierre Lévy, em As tecnologias da inteligência, de 1990, na tradução de Irineu, escreveu o seguinte:

[...]

A inteligência ou a cognição são o resultado de redes complexas onde interagem um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos. Não sou "eu" que sou inteligente, mas "eu"com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda uma herança de métodos e tecnologias intelectuais (dentre as quais, o uso da escrita). [...] Fora da coletividade, desprovido de tecnologias intelectuais, "eu" não pensaria. O pretenso sujeito inteligente nada mais é que um dos micro atores de uma ecologia cognitiva que o engloba e restringe.

[...] 

Quem pensa? Não há um sujeito ou substância pensante, nem "material", nem "espiritual". O pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e traduzem as representações. 




19.4.17

de la musique


Portishead || NYC || 1997


18.4.17


Noturno Citadino 
recebe a produção de fanzine

Literárias & subversivas /
Poéticas & anárquicas /
Arte iconoclasta /
Pensamento selvagem /
Cyberpunk /



17.4.17

o timoneiro


"Não sou o timoneiro?" - exclamei. "Você?" - disse um homem alto e escuro e esfregou as mãos nos olhos como se espantasse um sonho. Eu estivera ao leme na noite escura, a lanterna ardendo fraca sobre minha cabeça, e agora vinha esse homem e queria me pôr de lado. E já que eu não me afastava, ele calcou o pé no meu peito e me empurrou para baixo devagar enquanto eu continuava agarrado aos raios do leme e na queda o tirava completamente do lugar. Mas o homem pegou-o, colocou-o em ordem e me empurrou dali com um tranco. Eu porém me recompus logo, corri até a escotilha que dava para o alojamento da tripulação e gritei: "Tripulantes! Camaradas! Venham logo! Um estranho me expulsou do leme!". Eles vieram lentamente, subindo pela escada do navio, figuras possantes que cambaleavam de cansaço. "Não sou o timoneiro?" - perguntei. Eles assentiram com a cabeça, mas seus olhares só se dirigiam ao estranho; ficaram em semicírculo ao redor dele e, quando ele disse em voz de comando: "Não me atrapalhem", eles se juntaram, acenaram para mim com a cabeça e voltaram a descer pela escada do navio. Que tipo de gente é essa? Será que realmente pensam ou só se arrastam sem saber para onde sobre a Terra?

Franz Kafka
Trad.: Modesto Carone


15.4.17

bibliografia



Chimamanda já tem lugar certo na biblioteca. Em seu manifesto recém lançado pela Cia das Letras, a autora de Meio sol amarelo resolveu escrever uma carta a sua amiga de infância, que lhe havia perguntado como criar sua filha, Chizalum Adaora, como feminista.

Das quinze sugestões, eu destaco a quinta:


Ensine Chizalum a ler. Ensine-lhe o gosto pelos livros. A melhor maneira é pelo exemplo informal. Se ela vê você lendo, vai entender que a leitura tem valor. Se ela não frequentasse a escola e simplesmente lesse livros, provavelmente se instruiria mais do que uma criança com educação convencional. Os livros vão ajuda-la a entender a se expressar, vão ajuda-la em tudo o que ela quiser ser – chefs, cientistas, artistas, todo mundo se beneficia das habilidades que a leitura traz. Não falo de livros escolares. Falo de livros que não têm nada que ver com a escola: autobiografias, romances, histórias. [...]


de la musique



Stan Getz & Bill Evans is an album by jazz saxophonist Stan Getz and pianist Bill Evans recorded in 1964 for the Verve Label.


14.4.17

o intelectual e a universidade estagnada

Félix Vallotton


Milton Santos publicou este pronunciamento em Outubro de 1997 e continua tão atual como se tivesse escrito ontem.

Separo três fragmentos que me chamaram a atenção.

O intelectual e a Universidade estagnada
Revista Adusp

[...]

Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é à morte, pois seu destino é falar.

[...]

Ser intelectual é exercer diariamente rebeldia contra conceitos assentados, tornados respeitáveis, mas falsos. É, também, aceitar o papel de criador e propagador do desassossego e o papel de produtor do escândalo, se necessário. É preciso, para esse desiderato, ter a boa medida entre a modéstia e a coragem, essas condições do “homem só”, já que o intelectual não é o “nós”, ele não espera o apoio do colega ou do vizinho para avançar. Aliás, na maioria das vezes não avança se a cada passo tem que pedir, solicitar o apoio do colega ou do vizinho. Daí a sua solidão e seu entendimento das chamadas derrotas. O intelectual tem de saber, e a professora Maria Adélia de Souza já o lembrou, que a nossa meta não é o poder, mas o prestígio, que são coisas diferentes.

[...]

Ser intelectual hoje, na fase da globalização, encontra dificuldades oferecidas pela própria definição do que, atualmente, é conhecimento. Neste momento da história e do mundo, o papel do conhecimento como força produtiva direta acaba por atrapalhar o trabalho e complicar o papel do intelectual, ameaçado todos os dias de corrupção.


12.4.17

The 5 Filters of the Mass Media Machine




O consentimento 
está sendo manufaturado 
ao seu redor 
o tempo todo.



10.4.17

atitude no coração da cibercultura


O poder está nas mãos dos cyberpunks: você pode fazer a sua própria literatura, sua própria música, sua própria televisão, sua própria vida - e mais importante de tudo - sua própria realidade.

Queremos a internet, mas não a vigilância eletrônica e spamsqueremos informação livre, mas não sites inseguros que possam ferir a nossa privacidade...

André L.


7.4.17

as tecnologias da inteligência



  • fanzine-se
    [...] 


    Na Idade Média os livros eram enormes, acorrentados nas bibliotecas, lidos em voz alta no atril. Graças a uma modificação na dobradura, o livro torna-se portátil e difunde-se maciçamente. Em vez de dobrar as folhas em dois (in folio), começou-se a dobrá-las em oito (in octavo). Mas para que o Timeu ou Eneida coubessem em um volume tão pequeno, Aldus Manutius, o editor veneziano que promoveu o in-octavo, inventou o estreito caractere itálico e decidiu livrar os textos do aparelho crítico e dos comentários que os acompanhavam a séculos... Foi assim que o livro tornou-se fácil de manejar, cotidiano, móvel, e disponível para a apropriação pessoal. Como o computador, o livro só se tornou uma mídia de massa quando as variáveis de interface "tamanho" e "massa" atingiram um valor suficientemente baixo. O projeto político-cultural de colocar os clássicos ao alcance de todos os leitores em latim não pode ser dissociado de uma infinidade de decisões, reorganizações e invenções relativas à rede de interfaces "livro". 

    Pierre Lévy 
    Trad.: Carlos Irineu 


6.4.17

o intelectual e a universidade estagnada


Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é à morte, pois seu destino é falar. 

[...] 

Ser intelectual é exercer diariamente rebeldia contra conceitos assentados, tornados respeitáveis, mas falsos. É, também, aceitar o papel de criador e propagador do desassossego e o papel de produtor do escândalo, se necessário. É preciso, para esse desiderato, ter a boa medida entre a modéstia e a coragem, essas condições do “homem só”, já que o intelectual não é o “nós”, ele não espera o apoio do colega ou do vizinho para avançar. Aliás, na maioria das vezes não avança se a cada passo tem que pedir, solicitar o apoio do colega ou do vizinho. Daí a sua solidão e seu entendimento das chamadas derrotas. O intelectual tem de saber, e a professora Maria Adélia de Souza já o lembrou, que a nossa meta não é o poder, mas o prestígio, que são coisas diferentes.

[...]

Ser intelectual hoje, na fase da globalização, encontra dificuldades oferecidas pela própria definição do que, atualmente, é conhecimento. Neste momento da história e do mundo, o papel do conhecimento como força produtiva direta acaba por atrapalhar o trabalho e complicar o papel do intelectual, ameaçado todos os dias de corrupção.

Milton Santos
Outubro, 1997


5.4.17

banalidades básicas


Seria tentador explicar o fascismo - como uma entre outras explicações - como um ato de fé, o auto-da-fé de uma burguesia assombrada pelo assassinato de deus e pela distribuição do grande espetáculo sagrado, que se devotou ao diabo, a uma mística invertida, uma mística obscura com seus rituais e seus holocaustos. Mística e grande capital.


4.4.17

dialética da escola-prisão


Vinte e dois

É uma mentira dizer que a escola democratiza algo, ela reproduz uma sociedade de classes que a mantém para isso.


3.4.17

dialética da escola-prisão


vinte e um

Quem trabalha com ensino - em qualquer nível - e não leu Tragtenberg, Paulo Freire e Ivan Illicht não sabe em que se meteu. Nós temos instituições disciplinares, instituições que não atraem os professores contestatários. A fabricação final é um aluno despolitizado e um professor desmobilizado.


1.4.17

Xarpi



Daniel Mittman em seu trabalho sobre o sujeito-pixador pergunta: 

abre aspas:

o
que
leva
diversos
sujeitos 
a, 
ainda proibida, 
praticarem
tal
forma
de
escrita?

fecha aspas.

Uma possível resposta, sinteticamente falando, vem do fato de que esse código-território fechado é uma prática tão convencional que nos remete a Pompéia, cidade esta que foi destruída pelo vulcão Vesúvio, em 76 d.c. como todos sabem.


sobre educação, política e sindicalismo


[...]

a maior doença não é a loucura, é a miséria. O chamado "louco" em 90% dos casos é um homem carente de formação profissional, afeto e atenção. Seu confinamento não resolve, mas agrava o problema, torna-o um doente crônico. Ele é necessário para manter os hospitais psiquiátricos, a equipe de burocratas e para dar a impressão de que aquele que está alem dos muros do hospício é "normal". Na realidade, o que está fora do hospício ainda é produtivo para a reprodução do capital, o que está dentro tornou-se improdutivo à reprodução do capital, em função de doenças sociais contraídas na maioria por péssimas condições de trabalho: ruído industrial, jornada extensa de trabalho, aumento da ansiedade e tensão nervosa em consequência de um urbanismo a serviço do capital. Essa é a razão pela qual Basaglia abriu os manicômios italianos, terminou com o confinamento dos "loucos" e se preocupa hoje em mobilizá-los na luta contra a pobreza, causa primeira da pretensa "loucura". O diagnóstico médico psquiátrico tem função ideológica, ele individualiza a doença tornando o doente culpável da doença social e, ao mesmo tempo, tranquiliza as "boas almas" que detêm o poder econômico e político que aquele doente não irá perturbá-los. É o exemplo do célebre caso "Galdino", um camponês do interior paulista que curtiu oito anos de internação no depósito de doentes chamado "Hospital Psiquiátrico de Franco Rocha", no Estado de São Paulo, sob o diagnóstico de "atitude paranóide". Na realidade, era um camponês que possuía liderança na sua região e atemorizava os donos do poder, que conseguiram "interná-lo" como "doente mental". Como se vê, no Brasil também a internação psiquiátrica cumpre fins repressivos cobertos de aparência "médica" ou "científica". No mesmo sentido, constatou Moffat em sua Psicoterapia del oprimido estudando casos em Buenos Aires.

Uma real educação deve ser fundada num princípio básico: 
sem prêmios ou castigos.

Maurício Tragtenberg
Caxias do Sul, 1979


31.3.17

a televisão brasileira banaliza a realidade


A relação entre a comunicação de massas e o poder se dá na medida em que a televisão se transforma num grande instrumento de "desconversa" dos problemas centrais da realidade nacional e de um novo narcótico para iludir e oprimir um povo já suficientemente explorado nesses quinze anos de "milagre brasileiro".

A televisão brasileira se constitui num grande elemento de banalização da realidade, onde a guerra civil da Nicarágua é tratada da mesma forma que uma notícia sobre o campeonato de futebol ou a corrida de Fórmula 1. Tudo no mesmo nível, sem diferenciar significados. Por outro lado, ela forma uma falsa imagem do ator e atriz de televisão, na maioria escravos da máquina televisiva, que os transforma em marionetes. De igual maneira, participam de uma novela sem maior significado, como de um anúncio comercial que prova que o homem de ação fuma cigarro de tal marca. No fundo, atores, atrizes e técnicos de televisão são novos mitos impingidos ao povo pelos donos dos meios de comunicação, que são os mesmos que cobram juros junto aos grandes bancos, exploram o trabalho operário nas fábricas ou do campesinato no latifúndio.

Por isso, a comunicação televisiva é uma falsa comunicação, é uma comunicação de mão única, onde a mensagem que interessa ao anunciante de um produto qualquer ou ao dono da TV é que aparece ao povo e esse povo não é ouvido, não tem voz, só conta como índice de audiência dos Ibopes da vida. Por isso, digo que a comunicação de massa é repressiva, ela se traduz por uma ordem dos donos do poder econômico e político fantasiada de programa recreativo. Ao mostrar os "enlatados" norte-americanos, ela reduz o mercado de trabalho do ator brasileiro e transmite ao brasileiro miserável do terceiro mundo imagens do mundo desenvolvido que ele nunca chegará a conhecer na sua realidade. Neste sentido, se constitui num acinte ao pobres.

Poderia a TV tornar-se um poderoso instrumento de conscientização e mobilização da maioria da população, mas para isso muita coisa necessária ser mudada na ordem econômica e social e isso não interessa aos detentores do poder econômico e político dominante. A eles interessa um público televisivo que consuma os produtos anunciados e fique embasbacado com o baixo nível dos programas que lhes são oferecidos e ainda aja como uma espécie de o "escravo contente" que acha que tem opção como espectador, que na realidade consiste em mudar de canal de uma besteira a outra. Na medida em que isso narcotiza o povo, reforça o poder de quem o explora: nenhuma classe dominante dispensou o ópio para legitimar seu poder. Hoje, a TV atua como ópio do povo. Em suma, quem contribui para iludir o povo, engabelá-lo, fazê-los esquecer de seus problemas reais é um antipovo, está a serviço dos donos do poder.

Maurício Tragtenberg | 1979


30.3.17

chopin na cadeira elétrica


[Accidente | 2012]

Enamorado de la muerte

Yo ya tengo novia / ya encontré mi amor. / La otra noche la bese / en un callejón / es alta y morena / siempre esta en mi mente / su nombre me volvió loco / su nombre es la muerte. // Un día la muerte se acerco hasta mi / cuando me dio un beso la reconocí / y vi que era bella, me dijo "vámonos" / yo no tenia fuerza y se marcho // Enamorado de la muerte / su belleza me atrapo / día y noche esta en mi mente / condenado a su amor / Enamorado de la muerte / desde el dia que la vi / día y noche esta en mi mente / y es el fin.


29.3.17

onze de setembro

Chomsky

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Nos anos 1980, a Nicarágua foi vítima de um violento ataque conduzido pelos EUA. Dezenas de milhares de pessoas morreram. O país sofreu uma substancial devastação e jamais pôde se recuperar. O ataque terrorista internacional foi acompanhado por uma arrasadora guerra econômica, que um pequeno país, isolado do mundo por uma vingativa e cruel superpotência, dificilmente poderia enfrentar, como revelaram em detalhes os principais historiadores que estudam a Nicarágua, como Thomas Walker, por exemplo. Os efeitos sobre o país foram muito mais severos do que a tragédia ocorrida recentemente em Nova York. E eles não retaliaram bombardeando Washington. Eles recorreram à Corte Mundial, que deliberou em seu favor, ordenando os EUA que voltassem atrás e pagassem uma reparação substancial. Os EUA desdenharam da Corte Mundial e de sua sentença, respondendo com uma nova onde de intensificação dos ataques à Nicarágua. O país, então, recorreu ao Conselho de Segurança, que em consequência passou a discutir uma resolução determinando aos Estados que observassem as leis internacionais. Os EUA, e tão somente eles, vetaram a resolução. A Nicarágua foi então à Assembléia-Geral, que discutiu uma resolução similar, com a oposição, por dois anos seguidos, apenas dos EUA e de Israel (tendo certa vez adesão de El Salvador). [...] Se a Nicarágua fosse suficientemente poderosa, poderia ter convocado uma outra corte criminal.

Noam Chomsky
Trad.: Luiz A. Aguiar

28.3.17

24.3.17

o que resta da ditadura

Dia Nacional de Luta, 1977

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As perdas e as transformações inimagináveis, produzidas pela violenta cesura que a ditadura efetuou na experiência sociopolítica e cultural em curso no país nas décadas de 1950-1960, não foram de todo assimiladas e elaboradas pela sociedade brasileira, uma vez que o luto social requerido torna-se ainda mais difícil nesta cultura que tende à carnavalização e à autoidentificação pela alegria.


10.3.17

George Orwell: a busca da decência


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A educação proporcionada pelas public schools é em parte um treinamento em preconceito de classe, em parte uma espécie de imposto que as classes médias pagam para entrar em certas profissões. Como solução seria necessária uma grande reforma do sistema educacional visando sua democratização, é um passo que passou a achar para cortar o esnobismo pela raiz seria enviar todas as crianças para o mesmo tipo de escola até os dez, doze anos. Ele gostaria de conciliar da melhor maneira possível o aproveitamento das crianças que se revelassem mais bem dotadas com a possibilidade de oferecer uma chance igual a todas elas. Durante algum tempo no começo da década de 30 Orwell chegou a trabalhar como professor em pequenas private schools e seu conhecimento do assunto levou-o a crer que a maioria dessas escolas particulares devia ser suprimida, pois não passava de empreendimentos comerciais, sem o menor respeito pela educação das crianças. Em um de seus livros, A Clergyman's Daughter, ele retrata o tipo de ensino oferecido nessas arapucas, e muito do que o personagem principal vive é retirado de sua experiência. No livro, as tentativas da professora de dar aulas mais interessantes são frustrada pela diretora da escola e pelos pais dos alunos, pessoas ignorantes a quem era fácil iludir com vernizes de conhecimento. A educação de Orwell, numa escola mais cara, foi semelhante - história era decorar datas e frases célebres, geografia era decorar as capitais  dos condados ingleses. Numa carta a uma amiga, logo após parar de dar aulas, ele se mostra contente por abandonar aquele ensino "abominável".

Ricardo B. Neto