31.8.17

paris: may 1968


Rua Gay-Lussac
Domingo, 12 de maio

[...]

A propaganda através de inscrições e desenhos em muros e paredes é uma parte integrante da Paris revolucionária de Maio de 1968. Ela se tornou uma atividade de massa, parte e parcela do método de auto-expressão da Revolução. Os muros do Quartier Latin são os depositários de uma nova racionalidade, não mais confinada nos livros, mas sim democraticamente exposta no nível da rua e tornada disponível a todos. O trivial e o profundo, o tradicional e o exótico, o convívio íntimo nessa nova fraternidade, quebrando rapidamente as rígidas barreiras e divisões na cabeça das pessoas.

"Désobéir d'abord: alors écris sur les murs (Loi du 10 Mai 1968)" a tinta ainda está fresca e a mensagem é clara. "Si tout le peuple faisair comme nous" ansiosamente sonha outra, em uma alegre intuição, penso eu, mais do que em um espírito de substitucionismo vindo de uma auto-saciação. A maioria dos slogans é direta, precisa e completamente ortodoxa: "Liberez nos camarades", "Fouchet, Grimaud, demisson", "A bas l'État policier", "Greve Générale Lundi", "Travailleurs, étudiants, solidaires", "Vive les Conseils Ouvrièrs". Outros slogans refletem novas preocupações: "La publicité te manipule", "Examens=hiérarchie", "L'art est mort, ne consommez pas son cadavre", "A bas la societé de consommation", "Debout les damnés de Nanterre. O slogan "Baisses-toi et broute" é obviamente direcionado àquelas pessoas mais conservadoras.

"Contre la fermentation groupusculaire" queixa-se uma grande inscrição escarlate. E está realmente fora de compasso. Em todos os lugares há uma profusão de cartazes e periódicos colados: Voix Ouvrière, Avant-Garde e Révoltes (dos trotskistas), Servir le Peuple e Humanité Nouvelle (dos devotos do líder Mao), Le Libertaire (dos anarquistas), Tribune Socialiste (do PSU - Parti Socialiste Unifié, Partido Socialista Unificado). Até mesmo estranhas edições de l'Humanité estão coladas. É difícil lê-las, de tão cobertas que estão por comentários críticos.

Em um tapume, eu vi um grande anúncio de um novo queijo: uma criança mordendo um enorme sanduíche. O jargão dizia "C'est bon le fromage Soand-So". Alguém cobriu as últimas palavras com tinta vermelha. No cartaz ficou escrito "C'est bon la Révolution". As pessoas passam, olham e sorriem.

Solidarity
Trad.: Leo V.


29.8.17

invertendo os valores


Para o intelectual conformista (aliás, perguntou Gramsci, o intelectual é uma pessoa inteligente?) resistir é sinônimo de opressão, como se a "culpa" da existência dos fascistas fosse os antifascistas.


tentativa de balanço: entrevista com Iumna Maria Simon


O que você acha mais proveitoso para o campo literário: o diálogo ou o embate entre crítica e poesia? O que estaria acontecendo hoje?


Isso depende muito, não é? As pessoas dialogam quando têm algo a trocar, consideram o interlocutor relevante e apostam na possibilidade de que um ponto de vista novo surja dessa troca. Quando todos são iguais, para que conversar? Para o silêncio meio deprê dessa falta de assunto existe Prozac, e não crítica. Embates, noutras ocasiões, são necessários para destruir algo que não quer morrer e ajudar alguma coisa nova a surgir. Acredito nas duas práticas, conforme a ocasião, mas acredito também que nem uma nem outra se ajustam ao quadro em que vivemos hoje, o qual exige estratégias novas capazes
de dar conta de uma complexidade a que não estamos preparados. Repetir esquemas da alta modernidade não resolve, porque vivemos numa barbárie multifuncional. Tudo é velho e razoavelmente inadequado, o novo nunca aparece, o consumo nos tornou banalmente iguais. Proveitoso seria um debate estético empenhado em avançar uma discussão à altura da experiência presente, sem preconceitos e também sem mitologias — mas seria ele possível contra tanto interesse articulado social e editorialmente?

Em suma, confesso que não vejo perspectivas e tendências firmes na direção da radicalidade necessária, pois a radicalidade artística sumiu do horizonte, assim como um pouco antes sumiram a social e a política. 



28.8.17

cultural e valor


A banalização da palavra universitário se concretiza quando ela se refere a uma cervejaria. Uma parte da sociedade está a querer transformar os estudantes do ensino superior em qualquer coisa, menos em pesquisadores sérios.

Desde quando, é preciso salientar, o vocabulário acadêmico passou a fazer parte da indústria do álcool?


24.8.17

“Venham e ajudem-nos”

estêncil: Chomsky | 2017

A inspiradora expressão “cidade no alto de uma montanha” foi cunhada por John Winthrop em 1630, que a tomou de empréstimo do Novo Testamento para delinear o glorioso futuro de uma nova nação ordenada por Deus”. Um ano antes, a Colônia da Baía de Massachusetts – que Winthrop ajudou a fundar – havia estabelecido o seu Grande Selo, que retratava um índio com um pergaminho saindo da boca. No pergaminho estão as palavras “Venham e ajudem-nos”. Os colonos britânicos eram, portanto, humanistas benevolentes, respondendo aos apelos dos miseráveis nativos para serem salvos de seu amargo destino pagão.

O Grande Selo é, a bem da verdade, uma representação gráfica da “ideia de Estados Unidos” desde o seu nascimento. Deveria ser exumado das profundezas da psique norte-americana e exibido nas paredes de todas as salas de aula. Certamente deveria figurar como pano de fundo de toda a adoração ao estilo Kim Il-Sung daquele assassino e torturador selvagem Ronald Reagan, que bem-aventuradamente se descreveu como o líder de uma “cidade reluzente no alto de uma montanha” enquanto orquestrava alguns dos crimes mais hediondos em seus anos na presidência, notoriamente na América Central e também em outros lugares.

O Grande Selo foi uma proclamação precoce de “intervenção humanitária”, para utilizar o termo anualmente em voga. Como tem sido habitual desde então, a “intervenção humanitária” resultou em catástrofe para seus supostos beneficiários. O primeiro secretário da Guerra dos EUA, o general Henry Knox, descreveu “a extirpação total de todos os indígenas nas regiões mais populosas da União” por meios “mais destrutivos para os nativos que a conduta dos conquistadores do México e do Peru”.

Muito tempo depois que as suas próprias contribuições significativas para o processo ficaram no passado, John Quincy Adams lamentou o destino “dessa raça infeliz de norte-americanos nativos, que estamos exterminando com uma crueldade tão impiedosa e pérfida em meio aos hediondos pecados desta nação, os quais acredito que Deus um dia haverá de julgar”. A “crueldade implacável e pérfida” continuou até que “o Oeste foi conquistado”. Em vez do julgamento de Deus, os tais hediondos pecados hoje rendem apenas elogios pela realização da “ideia” estadunidense.

Houve, por certo, uma versão mais conveniente e convencional da narrativa, expressa, por exemplo, pelo juiz da Suprema Corte Joseph Story, que ponderou que “a sabedoria da Providência” levou os nativos a desaparecer como “as folhas murchas e secas do outono”, embora os colonos os tenham “respeitado constantemente”. 

A conquista e a colonização do Oeste demonstraram de fato “individualismo e iniciativa”; empreendimentos em que há colônias de povoamento, a mais cruel forma de imperialismo, comumente utilizada. Os resultados foram saudados pelo respeitado e influente senador Henry Cabot Lodge, em 1898. Ao exigir uma intervenção em Cuba, Lodge enalteceu o nosso histórico “de incomparáveis conquista, colonização e expansão territorial, inalcançadas por qualquer povo no século XIX”, e insistiu que “não deveria ser refreado agora”, uma vez que os cubanos também estavam nos pedindo, nas palavras do Grande Selo: “Venham e ajudem-nos”. 

O pedidod de Lodge foi atentido. Os Estados Unidos enviaram tropas, impedindo, assim, a libertação de Cuba da Espanha e transformando a ilha numa colônia norte-americana, situação que perdurou até 1959.

Mais adiante, a “ideia estadunidense” foi ilustrada pela extraordinária campanha, iniciada quase que imediatamente pela administração Eisenhower, para recolocar Cuba em seu devido lugar: guerra econômica (com o objetivo claramente articulado de punir a população para que derrubasse o desobediente governo Castro); invasão; dedicação dos irmãos Kennedy no sentido de levar a Cuba “os terrores da Terra” (a expressão do historiador Arthur Schlesinger Jr. em sua biografia de Robert Kennedy, que considerava a tarefa como uma de suas maiores prioridades), e outros crimes, desafiando a opinião pública mundial praticamente unânime.

Volta e meia aponta-se a tomada de Cuba, Porto Rico e Havaí em 1898 como a origem do imperialismo norte-americano. Mas isso é sucumbir ao que o historiador do imperialismo Bernard Porter chama de “falácia da água salgada”, a ideia de que a conquista só se torna imperialismo quando atravessa água salgada. Assim, se o rio Mississippi se assemelhasse ao mar da Irlanda, a expansão rumo ao Oeste teria sido imperialismo. De George Washington a Henry Cabot Lodge, os que estavam empenhados no empreendimento tinham uma compreensão mais clara da verdade.

Depois do sucesso da intervenção humanitária em Cuba em 1898, o passo seguinte na missão atribuída pela Providência foi conceder “as bênçãos da liberdade e da civilização a todas as pessoas salvas” das Filipinas (nas palavras da plataforma do Partido Republicano de Lodge) – pelo menos aos filipinos que sobreviveram ao ataque assassino e à prática da tortura em grande escala e outras atrocidades que acompanharam a investida. Essas almas afortunadas foram deixadas à mercê da polícia filipina instalada pelos EUA conforme um modelo recém-concebido de dominação colonial, calcado em forças de segurança treinadas e equipadas para sofisticadas modalidades de vigilância, intimidação e violência. Modelos similares seriam adotados em muitas outras áreas onde os EUA impuseram guardas nacionais brutais e outras forças clientes com consequência que deveriam ser bem conhecidas.

Noam Chomsky
Trad.: Renato Marques


20.8.17

ensinando a trangredir


[...]

Quando o consumo cultural coletivo da desinformação e o apego à desinformação se aliam às camadas e mais camadas de mentiras que as pessoas contam em sua vida cotidiana, nossa capacidade de enfrentar a realidade diminui severamente, assim como nossa vontade de intervir e mudar as circunstâncias de injustiça.

[...]

Partilhei apaixonadamente minha crença de que, independentemente de classe, raça, gênero ou posição social, sem a capacidade de pensar criticamente sobre nosso ser e nossa vida ninguém seria capaz de progredir, mudar, crescer. Em nossa sociedade tão fundamentalmente anti-intelectual, o pensamento crítico não é encorajado.

[...]

Meu compromisso com a pedagogia engajada é uma expressão de ativismo político. Pelo fato de nossas instituições educacionais investirem tanto no sistema de educação bancária, os professores são mais recompensados quando seu ensino não vai contra a corrente. A opção por nadar contra a corrente, por desafiar o status quo, muitas vezes tem consequências negativas. E é por isso, entre outras coisas, que essa opção não é politicamente neutra. Nas faculdades e universidades, o ensino geralmente é a menos valorizada de nossas muitas ocupações profissionais. Entristece-me o fato de muitos colegas suspeitarem daqueles professores com quem os alunos gostam de estudar. E existe a tendência a solapar o compromisso dos pedagogos engajados com o ensino, afirmando-se que o que fazemos não é tão rigorosamente acadêmico quanto deveria ser. Idealmente, a educação é um lugar onde a necessidade de diversos métodos e estilo de ensino é valorizada, estimulada e vista como essencial para o aprendizado. De vez em quando os alunos se sentem preocupados quando uma turma se afasta do sistema de educação bancária. Lembro-os de que podem passar o resto da vida em turmas que refletem as normas convencionais.

bell hooks
Trad.: Marcelo B. 
1994


17.8.17

valor e cultura


Olha, não é querer exagerar não, mas a indústria cultural do brasil está a se aproximar daquela devastadora técnica de tortura mental desenvolvida pela CIA.


16.8.17

dialética da escola inquisição


Seria mais inteligente ter uma escola sem igreja, mas, eu sei, a inteligência não é o forte do cidadão de bem.


10.8.17

viver na era do capitalismo artista

1982

Da mesma forma que os bens de consumo corrente aparecem como produtos-moda, o mundo da arte também se mistura de maneira íntima com a moda. Essa proximidade não é recente; diferentes artistas já realizaram no decorrer do século passado figurinos para espetáculos, desenharam motivos para vestuário de moda e cartazes para os espetáculos em exibição. Não obstante, os universos da arte e da moda, pensados como heterogêneos, também funcionavam de acordo com lógicas dessemelhantes. Não é mais assim.

Podemos considerar Warhol como o primeiro elo e a figura prototípica da subversão que se efetuou. Ao se proclamar "business artist", Warhol passa do modelo da boêmia e do artista "suicidado pela sociedade" (Artaud) ao artista mundano que, obcecado pelo sucesso e pelo dinheiro, extrai inspiração do universo da cultura de massa, da moda, do jet set internacional, das imagens de superstars e de todas as formas de celebridade. Suas telas reproduzem dólares, a garrafa de Coca-Cola, "golden shoes", e também os rostos de Marilyn Monroe, Liz Taylor, Elvis Presley. Em seus autorretratos (realizados com rosto maquiado e peruca loura) e em suas serigrafias seriais de estrelas, Warhol exprime seu gosto pela mise-en-scene teatralizada de si, seu fascínio com a artificialidade e a aura das divas. Seu ateliê, a Factory, se torna o centro da vida in e um local de festas perpétuas em que se encontram estrelas, gente da moda, do rock, das mídias, as subculturas da vanguarda. Warhol gosta dos grandes astros e se dedica a construir sua imagem e sua obra conforme os caminhos espetaculares do star-system e da publicidade. Para "ser tão conhecido quanto as latas de sopa Campbell"(Leo Castelli), ele participa de todos os acontecimentos, atuando em todos os campos capazes de atrair a atenção das mídias: pintura, fotografia, cinema, romance gravado em cassete, telenovelas, rock. Não para de se impor como astro hollywoodiano, sendo produtor e diretor de sua própria imagem supermidiatizada. Postulando uma pintura sem profundidade, mecânica e superficial, introduzindo o glamour e o comercial na arte, sua obra assinala o triunfo das aparências e do mercado, da publicidade e da moda. Podemos considerá-lo como o primeiro artista cuja obra é emblemática das hibridizações do capitalismo artista rematado.

A notoriedade de Warhol é tamanha que em 1965 ele é classificado no "barômetro da moda" de Eugenia Sheppard logo depois de Jacqueline Kennedy. Reatando com a lógica espetacular e artificialista da moda, o mundo da arte se aproxima do show, do produto midiático e hip. Com Warhol, todas as fronteiras se confundem, as da arte e dos negócio, da cópia e do original, do museu e do supermercado, da high e da low art, do artista e do astro, da obra e da publicidade, da arte e da moda.

[...] O tempo do artista maldito passou: estamos no momento da transestética, em que o importante é menos a criação do que a celebridade, em que os artistas renomados têm um status de astros reconhecido na grande imprensa, em que o preço das obras parece ser o sinal do seu valor artístico, em que a notoriedade dos artista se constrói como uma marca. No tempo do capitalismo artista, as mídias se impõem como novas instâncias de consagração de talentos, a notoriedade passa cada vez mais pelo caminho do espetacular, da comunicação, da midiatização: o mesmíssimo caminho da moda.

Gilles Lipovetsky & Jean Serroy
Trad.: Eduardo Brandão
2013


8.8.17

el educador mercenario


Se sostiene la pretensión de educar "en la libertad", "en la critica", o "para la emancipación", desde una Instituición diseñada para inculcar el principio de autoridad, reproducir la dominación social y "sujetar" a la juventud?

No existen los profesores autenticamente contestatarios: hay aquí, una contradicción entre los dos términos. Así como no es imaginable un "militar pacifista", un "cura ateo", un "guardia civil anticapitalista", un "verdugo filantrópico", etc.

El oficio de profesor deberíamos dejarlo para los partidarios del status quo, para los adoradores del sistema, para los autocratas em miniatura, para los déspotas, a tiranos.

Naturalizada, presa de lo que Lukacs denominó el "maleficio de la cosificación", la instituición escolar se ha convertido finalmente en un fetiche, en un ídolo sin crepúsculo, y la exigencia del confinamento educativo aparece hoy como un dogma de toda pedagogia reformista o no; como un credo al que se abrazan sin excepción los Estados, dictatoriales o democraticos.

Em mi opinión, la educación libre se da justamente allí donde acaba la escuela, empieza sólo cuando acaba la escuela.

Ya debeis saber que vais a ser contratados por el poder, por el Capital y por el Estado, para llevar a cabo los cotidianos e terroríficos "trabajos sucios" sobre la subjetividade de los jóvenes.

Las dosis de autoengaño que necesita cada dia un profesor para seguir ejerciendo con la consciencia tranquila es inmensa, excesiva, y tiene también sus próprios efectos secundarios. A mí lo que extraña, y casi me aterra, es que no todos pierdan la razón en el aula; lo que me horroriza y casi me deprime es que haya profesores [...] "felices", a gusto en su empleo, clinicamente sanos. Es lo que no entiendo. Un profesor moderno, con la consciencia en paz, la sonrisa siempre fresca en los labios y el corazón en equilibrio, amante de su oficio, dichoso, realizando, es para mí una imagem de pesadilla. Un tipo así no solo encarna la máxima imbecilidad concebible en este mundo, ha de ser, también, un homúnculo desalmado.

Pedro G. Olivo



5.8.17

arte e anarquismo


Jean Dubuffet | 1901 - 1985

Meus próprios impulsos sempre foram, creio, aqueles que constituem a posição do anarquismo - com um vivo gosto pelas fraternidades calorosas - ainda que eu nunca tivesse tido a oportunidade de frequentar os meios anarquistas e que eu conheça apenas de maneira brumosa o que é com justeza a teoria e o programa do anarquismo...

Dubuffet | 1970


4.8.17

sobre el anarquismo

 
Mario Riffo

Ser un anarquista consciente es una situación de permanente dificultad (bastante parecida a ser, por ejemplo, un ateo en la Europa medieval)

Nicolas Walter


1.8.17

nulidade


Quem transforma o outro em pronome pessoal quer apenas a medida do poder para encaixotá-lo nalgum grupo sujeitado. 

Ele nunca tem nome.
Ele não pensa.
Ele precisa de nós.


31.7.17

Intencionalidade, Anarquismo e Arte


O pintor anarquista não é aquele que representa quadros anarquistas, mas aquele que, sem preocupação com o lucro, sem desejo de recompensa, luta com toda a sua individualidade contra as convenções burguesas oficiais por uma contribuição pessoal.

A intencionalidade pode ser uma chave sedutora de abordagem da arte, mas ainda é preciso colocá-la em perspectiva à luz da teoria da "recepção". Este será o tema de uma outra discussão. Enquanto aguardamos, trata-se de decidir qual seria a atitude desejável do artista anarquista. Sem dúvida, a de um artista independente, heterodoxo, aberto à novidade, sempre pronto a questionar-se.

Pietro Ferrua
Trad.: Plínio A.


sociedade sem escolas


Os livros didáticos são instrumentos de alienação. Eu disse isso milhares de vezes. Só servem para os professores que não têm leitura. Muitos fatos ficam de fora, muita referência bibliográfica esquecida, muito exercício para encher linguiça. São instrumentos feitos para a galera da educação que não sabe pesquisar por si próprio: manipulados por um material pronto, mastigado e fragmentado.

Depois não sabemos porque tem professor que só pede cópia no caderno para no final da aula carimbar o mickey mouse na testa do aluno prodígio.


La Canción Demoledora


I

Voy a empuñar mi lira, no a pulsarla / para entonar un himno de entusiasmo / que con sus notas vigorosas pueble / de imágenes hermosas, los espacios; / no a pulsarla con lágrimas inútiles / para que broten de sus cuerdas llantos; / voy a empuñarla, sí, com si fuera / un hacha gigante! con mis manos / quiero hacer un deguello que no deje / una sola cabeza de falsario, / una sola cabeza de canalla, / una sola cabeza de tirano! / quiero segar cabezas / como se siega el pasto!

II

Voy a empuñar mi lira / con toda la pujanza de mis brazos, / con el vigor de bronce de mis músculos / con toda la energía de mis años! / Quiero destruir - la destrucción abona - / todo lo que en el mundo sea falso, / todo lo que en el cielo sea impuro, / todo lo que en la tierra sea malo, / todo lo que en el hombre sea infamia!... / quiero ser sanguinario! / quiero abrazar con el calor que es vida, / la sangre de los pueblos desgraciados / para que hechas volcanes, sus miserias / vomiten sobre todos los tiranos!

III

Voy a empuñar mi lira, sí mi lira / forjada con los hierros del esclavo, / fundida sobre el yunque a martillazos! / Voy a empuñarla cual se empuña un hacha / para pulverizar a los peñascos / donde se posee una injusticia, donde / la mentira se alce, y a pedazos / a los abismos arrojarlos quiero / para allanar mi paso / así, con los escombros de esa historia / que escribieron con sangre los humanos!

IV

Voy a empuñar mi lira... / yo quiero descargala como un rayo / que parta las mezquistas, y los templos, / tronche las cruces, hunda campanarios / y en medio de los escombros del derrumbe / los sacerdotes muertos aplastados! / Porque río de Dios, no me amedrenta / su voz atronadora, yo levanto / mi lira de rebelde, como el ángel / Luzbel, y le amenazo. / Cuando el ruje de rabia en las tormentas / pulso mi lira y canto / porque río de Dios; así haga o diga / me río de sua voz e de su mano!

V

Voy a empuñar mi lira / con toda la potencia de mis brazos / para expulsar a Dios de sus dominios / y llamar a los hombres a ocuparlos. / Voy a arrancar las vendas de los ojos / de todos los que nunca vieron los mitos / que para someterlos se inventaron. // Voy a romper de un golpe las cadenas / que privan de luz al presidiario, / para que forje con sus hierros rotos / un formidable tajo / y ajusticie con él a sus verdugos / que son humildes siervos de tiranos. // Voy a llamar a todos los hambrientos / que comem lo que tiran los lacayos / cuando van a pedir a los señores / las sobras del festín a sus palacios. // Voy a llamar a todos los que dejan / palpitantes pedazos / de carne entre los hierros de la máquina; / a todos los que viven sepultados / en las negras entrañas de la tierra / a todos los que mojan con sus llantos / los surcos donde yace la simiente / que será el alimentos de sus amos; / a todas las mujeres prostituídas / escanciadoras de placeres pagos; / a todas esas madres que a sus hijos / no pueden dar el alimento humano, / ni el calor de sus besos y caricias, / ni el refugio sin par de sus regazos; / a todos los pilletes que en las puertas / amanecen helados; / a todos los maltrechos de la vida; / a todos los inválidos / a todos los vencidos en la lucha / por el pan cotidiano; / a todos los que lucen en sus carnes / la indeleble señal del latigazo; / a todos los que ostentan en sus cuerpos / el pus de las heridas, putrefacto...; / a todos los roñosos de las calles / que vagan al azar hechos guiñapos! / a todos los que viven en montones / cual si fueran gusanos! // Voy a llamar la chusma mancillada / con todos los estigmas del pasado, / la que va al hospital, mora en la cárcel, / su cuna es un zaguán, la calle un atrito; / la que tiene por cama / umbrales, por colchón el empedrado / y por lecho de muerte / un perdido rincón en el osario! // Voy a llamarla, sí, quiero con ella / marchar a la conquista de los astros, / para dejar al cielo en tinieblas / y el camino glorioso iluminarnos! / Con cada sol hacermos una antorcha, / mussalchis serán todos los esclavos / e iremos por los mundos / las cosas carcomidas incendiando.

Alejandro Sux
Buenos Aires, 1906

26.7.17

sociedade sem escolas


Se todos nós estivéssemos envolvidos na criação de um coletivo inteligente e heterogêneo dentro da rede virtual não haveria a necessidade das escolas prisões e muito menos das secretarias de educação.

Mas os profissionais da desinformação e os timoneiros da máquina da lama ainda persistem no fomento da imbecilização como prática educacional.


¡Enrabiaos!

Cuando las palabras
son vacinadas de su contenido
nos invade la pasividad de la
sumisión democrática

HAY MUCHOS TIPOS DE VIOLENCIA,

está en todas partes, y nadie, por más que se proclame «no violento/a», es ajeno a ella. Ya sea por activa, ya sea por pasiva, nuestros actos y nuestras costumbres contienen grandes dosis de violencia para satisfacer nuestro estatus, nuestro bienestar, nuestras costumbres y ocios; en definitiva nuestra forma de vida.

La cuestión no es si somos violentos o no, sino si asumimos que nuestra forma de vida genera violencia (directa o indirectamente), o por el contrario nos creemos en un estadio superior de pureza donde sólo vemos lo que queremos ver, ignorando aquellas cosas que nos hacen sentir incómodas. 

Las personas que se consideran «no violentas» deberían plantearse si no están delegando la violencia necesaria para el desarrollo de su vida (cómoda vida en un país occidental, por más que nos encontremos en medio de una crisis endémica) en los especialistas de la violencia: maderos, granjeros, matarifes, seguratas, etc. Delegar nuestras responsabilidades no nos hace menos responsables. De la misma manera que el, mejor dicho la ministra de defensa es responsable de las violaciones, torturas y asesinatos que cometen los soldados que previamente ha enviado a pueblos que padecen guerras y poseen petróleo, nosotros somos responsables cuando hacemos que otros actúen violentamente en nuestro beneficio.

Algunos ejemplos cotidianos de violencia:

VIOLENCIA es consumir productos de origen animal, especialmente cuando estos productos se «fabrican» de manera intensiva, haciendo entonces que los animales padezcan desde que nacen mutilaciones, violaciones, secuestros a cadena perpetua, engordes forzados, amontonamiento, torturas, desnutrición y maltratos varios hasta la lenta y dolorosa muerte.

VIOLENCIA es llamar a la policía cuando tenemos un problema que no sabemos resolver, por lo que éste se resolverá mediante el miedo que generan a gran parte de la población (por la amenaza de las armas que llevan o de lo que te puede caer en forma de multa o prisión) o mediante la fuerza, como hacen en numerosas ocasiones (¡muchas de ellas sin provocación previa!).

VIOLENCIA es gritarle a alguien para evitar que grite e insulte a la policía. ¿O es que se merece más respeto un antidisturbios que está apalizando a alguien que alguien que sencillamente grita de impotencia? ¿o es que tiene más derecho a gritar alguien de la Organización o de cualquier Comisión de vete a saber que, que el resto de los mortales?

VIOLENCIA es, sencillamente, consumir cosas que no sabemos ni de donde vienen, ni cómo se fabrican, ni de qué país en guerra provienen sus materiales, pero sobretodo, lo más violento es no querer saberlo para no sentirnos cómplices, creyendo que ignorancia es lo mismo que inocencia.

VIOLENCIA es ver una paliza de los seguratas del metro a alguno que se ha colado y no decir nada, mirar al suelo, seguir caminando y justificar nuestra pasividad con el «si hubiese pagado como yo eso no le sucedería...»

VIOLENCIA es ir a trabajar cada día, pero sobre todo el día después de que han despedido a algún o algunas compañeras y pasar a su lado sin mirarle a la cara pensando que «es la ley del mercado».

VIOLENCIA es ver una redada donde cuatro chavales de cara a la pared están siendo humillados por la prepotencia xenófoba-machista-policial, por la sencilla razón de parecer «moros». Y más violento es ver la indiferencia a su alrededor, como si eso no estuviese sucediendo, quizás por miedo a los cuerpos policiales, quizás por el racismo de gran parte de la sociedad, o quizás por que hay prisa porque hoy juega el Barça.

VIOLENCIA es buscar trabajo y tener que humillarte, rebajarte, desnudarte moralmente y comerte la dignidad para mendigar una mierda de trabajo mal pagado del que seguramente te echarán cuando quieran, o cuando oses quejarte de que haces más horas de las que cobras o de que hace dos meses que no te pagan.

VIOLENCIA es sentir los gritos de la vecina cada noche cuando su marido llega a casa medio borracho y descarga la impotencia por la mierda de vida que lleva; y más violento es subir el volumen de la tele para no escucharlos y no tener que ir a llamar a la puerta de delante.

VIOLENCIA es consumir energía sin ser capaces de generarla a pequeña escala, fomentando las centrales nucleares con sus «accidentes», o la inundación de pueblos enteros para hacer centrales hidráulicas , o las mareas negras que de tanto en tanto nos visitan «por culpa de un temporal», o la contaminación de las térmicas, o que planten decenas de «molinos sostenibles» delante de casa (de la gente campesina).

VIOLENCIA es vivir en una cuidad haciendo que nos traigan todas nuestras necesidades de fuera y, paradójicamente, mientras más lejano sea el origen más barato es el producto, fomentando monocultivos intensivos que destrozan tierras lejanas, porque las de aquí quizás ya nos las hemos cargado.

VIOLENCIA es, como decía un cartel después de la huelga del 29S, esta normalidad en la que vivimos, esta democracia en la que, mientras no intentes cambiar nada, siempre podrás quejarte, indignarte y patalear.

VIOLENCIA es creer que antes de la spanishtwitterrevolution no había habido luchas mucho más dignas, pero más violento es ver como se rebajan y asimilan discursos y puntos mínimos pseudo reformistas, personas con una larga trayectoria de lucha seria contra la dominación, pensando que eso puede ser el embrión de alguna cosa. Violencia es comparar esta pantomima con las revueltas nord-africanas que han dejado decenas de muertos y heridos. Violento es ser enemigo de una multitud (de derechas y de izquierdas, que más da) y verla mover las manos al viento para aprobar pedir una reforma electoral que, aunque somos apartidistas, sólo beneficia a los partidos políticos; aunque ninguno nos represente, sería una herramienta para nuestros futuros representantes. Violencia es, en todo caso, la ley de partidos que excluye a gran parte de la sociedad vasca, y más violento es que a la # spanish revolution no se le haya ocurrido exigir su derogación. Violencia es decirle revolución a algo que no pretende revolucionar nada, que ni tan siquiera tiene algún objetivo pragmático ni lo puede tener porque las revoluciones nunca han sido de derechas y de izquierdas a la vez, de empresarios y parados, de ricos y pobres...quien tense más la cuerda se llevara el pastel, podrá marcar la línea a seguir y arrastrar a los ingenuos, perdón, a los indignados que queden. Pero es evidente que las acampadas están siendo unas buenas plataformas para los trepadores y líderes de los pequeños partidos y organizaciones que ven como, por primera vez miles de personas les escuchan mientras dejan ir sus discursos, miles de personas que no saben que están escuchando a los cabecillas de listas de algún partido, asistiendo sin darse cuenta a un mega-mitting-poli-partidista.

VIOLENCIA es... un montón de cosas, muchas de las cuales formamos parte o somos directamente responsables, pero no podemos negar que el ser humano es el animal más violento del planeta, somos extremadamente violentos, y a menudo, gratuitamente violentos. La cosa es: ¿Quien está libre de violencia para imponerle a alguien una No-Violencia parcial? ¿Donde está la frontera entre violencia y no-violencia? ¿Es posible que, con los años y la interiorización del civismo esta frontera haya avanzado, logrando cada vez más situaciones y maneras de hacer? ¿Serían hoy violentos los objetores e insumisos que hace veinte años se enfrentaban a penas de prisión por luchar contra los ejércitos?


24.7.17

a poesia

Atelier Populaire || 1968

A poesia - O que é a poesia? A poesia é a organização da espontaneidade criadora, a exploração do qualitativo segundo as leis internas de coerência, aquilo a que os gregos chamavam poiein, que é o "fazer", mas o "fazer" devolvido à pureza do seu momento original, em outras palavras, à totalidade.

Onde faltar o qualitativo, nenhuma poesia será possível. No vazio deixado pela poesia instala-se o oposto do qualitativo: a informação, o programa de transição, a especialização, o reformismo, em suma, o fragmentário sob suas diversas formas. Contudo, a presença do qualitativo não garante a poesia. Pode acontecer que uma grande riqueza de signos e de possibilidades se perca na confusão por falta de coerência, ou se destrua por interferências mútuas. O critério de eficácia deve predominar sempre. A poesia portanto é também a teoria radical digerida pela ação, o coroamento da tática e da estratégia revolucionária, o apogeu do grande jogo da vida cotidiana.

O que é a poesia? Em 1895, durante uma greve mal começada e que parecia votada ao fracasso, um militante do Sindicato das Estradas de Ferro tomou a palavra e mencionou um processo engenhoso e barato para fazer avançar os objetivos da greve. "Com 2 centavos de um determinado material utilizado corretamente podemos impossibilitar o funcionamento de uma locomotiva". O governo e os capitalistas imediatamente cederam. Aqui a poesia é claramente a ação que gera novas realidades, a ação de inversão de perspectiva. A matéria-prima está ao alcance de todos. São poetas aqueles que sabem como usá-la, que material qualquer não é nada se comparado com a profusão de energia sem igual disponibilizada pela vida cotidiana: a energia da vontade de viver, do desejo desenfreado, da paixão do amor, do amor das paixões, a força do medo e da angústia, o furacão do ódio e o ímpeto selvagem da fúria de destruir. Que transformações poéticas não poderemos esperar de sentimentos tão universais experimentados como aqueles associados à morte, à velhice e à doença? É dessa consciência ainda marginal que deve partir a longa revolução da vida cotidiana, a única poesia feita por todos, e não por um.

"O que é a poesia?", perguntam os estetas. E é então preciso lembrar-lhes esta evidência: a poesia raramente tem a ver com poema. A maior parte das obras de arte trai a poesia. Como poderia ser de outra forma já que a poesia e o poder são inconciliáveis? Quando muito, a criatividade do artista prende-se a si mesma, enclausura-se esperando a sua hora numa obra inacabada, aguardando o dia de dar a última palavra. Mas, mesmo que o autor espere muito dela, essa última palavra - aquela que precede a comunicação perfeita - nunca será pronunciada enquanto a revolta da criatividade não tiver levado a arte à sua realização.

A obra de arte africana, quer se trate de um poema ou de uma música, de uma escultura ou de uma máscara, só é considerada acabada quando é verbo criador, palavra atuante: só quando é um elemento criativo que funciona. Ora, isso não é válido só para a arte africana. Não existe arte alguma no mundo que não se esforce por funcionar; e por funcionar, mesmo no âmbito das recuperações ulteriores, com exatamente a mesma vontade que a gerou: uma vontade de viver na exuberância do momento de criação. Compreende-se por que razão as melhores obras não têm fim? É que elas exigem de todas as formas o direito de se realizar, de entrar no mundo da experiência vivida. A decomposição da arte atual é o arco idealmente retesado para tal flecha.

Nada pode salvar da cultura do passado o passado da cultura, com exceção dos quadros, da literatura, das arquiteturas musicais ou líricas que nos atingem pelo qualitativo, livre da sua forma - de todas as formas de arte. Isso ocorre com Sade, Lautreamónt, e também com Villon, Lucrécio, Rabelais, Pascal, Fourier, Bosch, Dante, Bach, Swfit, Shakespeare, Uccello. Eles se livram do seu envoltório cultural, saem dos museus nos quais a história os tinha colocado e se tornam dinamite para as bombas dos futuros realizadores da arte. O valor de uma obra antiga deve ser avaliado pela parte de teoria radical que contém, pelo núcleo de espontaneidade criadora que os novos criadores se prontificam a libertar para e por uma poesia inédita.

A teoria radical é exímia em dilatar a ação iniciada pela espontaneidade criadora, sem alterá-la nem desencaminhá-la de seu curso. Do mesmo modo, em seus melhores momentos, o processo artístico tenta imprimir ao mundo o movimento de uma subjetividade tentacular, sempre sequiosa de criar e de se criar. Mas, enquanto a teoria radical se gruda à realidade poética (a realidade que se faz), ao mundo que se transforma, a arte adota um processo idêntico com um risco muito mais elevado de se perder e corromper. Só a arte armada contra si mesma, contra aquilo que tem de mais fraco - de mais estético - resiste à recuperação.

É sabido que a sociedade de consumo reduz a arte a uma variedade de produtos de consumo. E quanto mais se vulgariza essa redução, mais a decomposição se acelera, mais crescem as possibilidades de uma superação. A comunicação tão imperativamente desejada pelo artista é impedida e proibida mesmo nas relações mais simples da vida cotidiana. De tal modo que a busca de novos modos de comunicação, longe de estar reservada aos pintores ou aos poetas, é parte hoje de um esforço coletivo. Assim acaba a velha especialização da arte. Já não existem artistas uma vez que todos o são. A futura obra de arte é a construção de uma vida apaixonante.

A criação importa menos que o processo que gera a obra, que o ato de criar. O que faz de alguém um artista é o estado de criação, e não o museu. Infelizmente, o artista raramente se reconhece como criador. Na maior parte do tempo, faz pose diante de um público, se exibe. A atitude contemplativa diante de uma obra de arte foi a primeira pedra lançada no criador. Inicialmente ele provocou essa atitude, mas agora tenta desfazê-la uma vez que, imperativos econômicos. É por isso que não existe mais obra de arte no sentido clássico do termo. Já não pode haver obra de arte, e ainda bem. A poesia reside em outro lugar, nos fatos, nos acontecimentos que criamos. A poesia dos fatos, que sempre foi tratada marginalmente, reintegra hoje o centro dos interesses de todos, o centro da vida cotidiana, que na verdade ela nunca abandonou.

A verdadeira poesia não dá a mínima para poemas. Na sua busca do livro, Mallarmé nada mais desejava do que abolir o poema, e como abolir um poema senão realizando-o? E essa nova poesia foi usada com fulgor por alguns contemporâneos de Mallarmé. Quando o autor de Hérodiade lhes chamou "anjos da pureza", teria ele tomado consciência de que os agitadores anarquistas com suas bombas ofereciam ao poeta uma chave que, encurralado na sua linguagem, ele não podia usar?

A poesia está sempre em algum lugar. O seu recente abandono das artes torna mais fácil ver que ela reside antes de tudo nos gestos, num estilo de vida, numa busca desse estilo. Reprimida em toda parte, essa poesia por toda parte floresce. Brutalmente recalcada, reaparece na violência. Consagra motins, casa-se com a revolta, anima os grandes carnavais revolucionários antes que os burocratas lhe fixem residência na cultural hagiográfica.

A poesia vivida soube provar no decorrer da história, mesmo nas revoltas parciais, mesmo no crime - essa revolta de um só, como disse Coeurderoy - , que ele protegia acima de tudo aquilo que há de irredutível no homem: a espontaneidade criadora. A vontade de criar a unidade do homem e do social, não na base da ficção comunitária, mas a partir da subjetividade, é o que faz da nova poesia uma arma que todos devem saber manejar por si mesmos. A temporada de caça à experiência poética já começou. A organização da espontaneidade será obra da própria espontaneidade.

Raoul Vaneigem
Trad.: Leo V.
1967



23.7.17

el educador mercenario


La Polla Records || 1984


Se preguntaba por la ‘posibilidad’, después de Auschwitz, de una Educación que nunca ha existido - o ha existido sólo como «falsa consciencia», como mito, como componente esencial de la «ideología escolar». Esa Educación de Adorno tampoco fue posible «antes» de Auschwitz. Más aún: los campos de concentración y de exterminio fueron concebidos y realizados gracias, en parte, a la educación «real», «concreta», que teníamos y que tenemos - la educación obligatoria de la juventud ‘recluida’ en Escuelas; la educación que segrega socialmente, que aniquila la curiosidad intelectual, que modela el carácter de los estudiantes en la aceptación de la Jerarquía, de la Autoridad y de la Norma, etc., ésta es la única «educación» que conocemos - a la cual las democracias contemporáneas pretenden meramente lavarle la cara. Esta educación ‘efectiva’, de cada día en todas las aulas, habiendo coadyuvado al horror de Auschwitz, sigue siendo perfectamente posible después...

Has hablado de “anti-pedagogía”... ¿A qué te refieres con ese concepto? ¿Qué recriminas al ‘pedagogismo’ moderno?

En esencia, entiendo por “anti-pedagogía” la negación del dogma fundacional de ese taimado saber: el prejuicio de que hay algo que corregir y algo que forjar en la subjetividad de los jóvenes. Como anti-pedagogo, yo niego ese supuesto; y, para el ejercicio de la Corrosión que sugiero, y que durante dos años llevé a cabo, propongo justamente lo contrario: no pretender hacer nada “por” los estudiantes, dejar en paz a la juventud, no inmiscuirnos en “sus” asuntos, permitir que cada cual decida dónde reside su propio ‘bien’... Luchar contra la máquina escolar, obstruir sus movimientos característicos, dificultar su funcionamiento coercitivo. Luchar contra la máquina, mas ya no por los alumnos. Contra la máquina y, accidentalmente, con los alumnos (ya que la resistencia estudiantil puede ‘converger’ con la práctica corrosiva de los antiprofesores; y cabe cierta complicidad en el fraude, cierta solidaridad en la transgresión); pero nada más.

Al no situarse “por encima” de los demás, al no incurrir en la infamia de usurpar la voz del otro (infamia de hablar ‘por’ los estudiantes, de transformar los método en su nombre, etc.), el anti-profesor aún en ejercicio, en pleno ‘recorrido’, no pretende salvar a nadie, no procura ayudar a nadie -¿cómo, si apenas está seguro de saber ayudarse a sí mismo? No le interesa, en absoluto, la cabeza del estudiante: lo suyo es desguazar la maquinaria escolar, desescolarizarse. A esto se refiere el término “anti-pedagogía”, que está en mi punto de partida. La Polla Records, en “Gurú”, tema de su álbum Salve, centró muy bien esta cuestión: 

“Has venido a salvarme, de la otra parte del mundo; 
me traes la salvación, pero eso es por tu cuenta y riesgo. 
¿Quién cojones te ha mandado? 
¡Gurú! Una patada en los huevos es lo que te pueden dar... 
¡Vete a salvar a tu viejo, sólo pretendes cobrar! 


Lo mismo que Marx, lo mismo que Nietzsche, lo mismo que Illich y Reimer, yo no ‘venero’ el ídolo del Confinamiento Educativo, no hago mío ese dogma. Considero, además, que, desde el punto de vista de la “resistencia”, de la “contestación”, de la “oposición” al Sistema, lo más coherente sería negar esa exigencia del Encierro, del Enclaustramiento; y trabajar para que, fuera de la Escuela, en la sociedad civil, en el extrarradio de las instituciones estatales, los jóvenes vean multiplicados los medios (los recursos, los instrumentos) de su auto-educación: colaborar, p. ej., en la creación y en el funcionamiento de ateneos, bibliotecas alternativas, asociaciones culturales, foros de discusión, revistas, galerías independientes, editoriales, colectivos de un signo o de otro, talleres de creación, etc., etc. 

Pedro G. Olivo



19.7.17

devir


Ser terno
na modernidade corrosiva.

Ser corajoso
em tempos difíceis.

17.7.17

pensar por nosotros mismos




Quien niega Auschwitz es el mismo que estaría dispuesto a rehacerlo.
Primo Levi

Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzem, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam-se os músculos, soltam a fibra. O homem deixa-se invadir por modelos de comportamento que não representam a sua energia, mas que o transformam em um uniforme a mais.

Silviano Santiago


16.7.17

das passagen-werk

estêncil: Anarcrítica || 2017

Se se comparar a obra em desenvolvimento na história à uma fogueira em chamas, o comentador está diante dela como o químico, o crítico como o alquimista. Enquanto para aquele madeira e cinza permanecem os únicos objetos de sua análise, para este a chama guarda um enigma: o do vivo. Assim, o crítico se interroga sobre a verdade cuja chama viva continua a arder por cima das achas pesadas do que foi e das cinzas leves do vivido.


Walter Benjamin
Trad.: Graciela Calderón e Griselda Mársico

Desbravar os domínios onde apenas a loucura, até agora, cresceu em abundância. Avançar com o machado afiado da razão e sem olhar nem à direita nem à esquerda, para não sucumbir ao horror que, do fundo da floresta virgem, procura nos seduzir. Toda terra deverá um dia ser desbravada pela razão, ser desembaraçada das brenhas do delírio e do mito.


Walter Benjamin
Trad.: Jean Lacoste


equilibrio


Kortatu || 1986


O Brasil nos obriga a beber é uma falácia do sistema capitalista. O Brasil, praticamente, nos obriga a desistir, se não nos deixa doente. A burrice é distribuída de várias maneiras, por meio da televisão, por meio da música e por meio da imprensa, sistematicamente, para não deixar sequer espaço para o uso do bom senso. E isso triplica enormemente para o lado negativo quando é ajudado pelos intelectuais conformistas.


15.7.17

hip hop & esqueleto cafeinado



Soy la ironía de Bukowski, la rebeldía de Gramsci 
y escupo a los medios de la burguesía como Chomsky 

A responsabilidade dos intelectuais
Noam Chomsky
Trad.: Renato M.

O padrão de enaltecimento e punição é conhecido e familiar ao longo da história: os que se engajam e se alinham a serviço do Estado são geralmente exaltados pela comunidade intelectual geral, ao passo que os que se recusam a se mobilizar a serviço do Estado são punidos.

A distinção entre as duas categorias de intelectuais fornece o arcabouço para a determinação da "responsabilidade dos intelectuais". A expressão é ambigua: ela se refere à responsabilidade moral dos intelectuais como seres humanos decentes, numa posição para usar seu privilégio e status a fim de promover as causas de liberdade, justiça, misericórdia, paz e outras inquietações sentimentais? Ou se refere ao papel que se espera que ele desempenham na condição de "intelectuais tecnocráticos e orientados pela política", não depreciando, mas servindo à liderança e às instituições estabelecidas? Uma vez que o poder geralmente tende a triunfar e preponderar, os da última categoria são considerados os "intelectuais responsáveis", enquanto os primeiros são descartados ou denegridos - em seu próprio território.



14.7.17

em liberdade


O escritor é o guardião do repertório das histórias que o povo conta e vive, mas é antes de tudo o guardião da língua de que se serve este povo para contar as histórias do passado e as histórias que os acontecimentos de hoje (em todo o território nacional) fabricam. Numa sociedade complexa como a nossa, seria muito simples se o escritor fosse só o contador de histórias. Ele deve preservá-las, passá-las adiante, mas é responsável pela língua que as gravou. Para isso, é preciso que alargue as suas próprias possibilidades de fabricar uma linguagem, entrando por formas linguísticas que não possui, que não comanda. É assim que acaba por ter acesso ao coletivo da língua e à ficção do outro. Abrindo fronteiras, desbravando território estranho. Ganha, passa, recupera.

Não é exagero dizer que o escritor brasileiro tem a obrigação de traduzir o seu português (língua aprendida na escola, exercida através da função individual dentro da classe dominante, uniformizada pelo convívio, aprimorada e conscientizada através dos nossos bons autores daqui e de além-mar) para o brasileiro falado por pessoas de diferentes estratos sociais, que não tiveram acesso às instâncias de purificação da língua.

[...]

Assim como o escritor se interessa pelo alargamento das suas fronteiras linguísticas, também o leitor tem de trabalhar nesse sentido se quiser acompanhar o romancista, lendo a sua obra. Dessa forma terá acesso a um pensamento diferente do seu. Terá um melhor conhecimento do outro, do intricado funcionamento da sua cabeça e da maneira como fabrica soluções e problemas. Tudo isso sem a interferência de uma única subjetividade individual ou de classe. Não concebo uma intriga - num país de tantos falares quanto o nosso - sem antes fazer uma investigação minuciosa da língua em que esta intriga foi vivenciada. Saio à cata do falar dos meus personagens, encontrando por aí uma série de línguas menores que precisam ser dicionarizadas.

Dizem que os meus livros são construídos demais. Existe nesse tipo de frase um elogio implícito à espontaneidade na execução da obra de arte que me incomoda. Quanto mais espontâneo o discurso de um semelhante, mais fácil a sua compreensão por um outro semelhante, pois ficam ambos dentro de um circuito tautológico. O discurso ficcional não tem obrigação de seguir o circuito a que chamo de jornalístico (de semelhantes para semelhantes). Pode segui-lo - e será uma opção do romancista, condizente com a história que quer narrar. De modo geral, o nosso romance do Nordeste é, básica e intrinsecamente, feito por não-semelhantes para não-semelhantes. Ele tem de, como obrigação, criar um curto-circuito emocional no momento da leitura.

O leitor de jornal (ou de romance espontâneo) não quer fazer esforço algum quando lê. Contenta-se em absorver a escrita de um outro como se fosse um papale mata-borrão. Deixa-se guiar apenas pelas faculdades da memória e não pelas reflexão. Este leitor tem uma visão fascista da literatura. Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzem, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam-se os músculos, soltam a fibra. O homem deixa-se invadir por modelos de comportamento que não representam a sua energia, mas que o transformam em um uniforme a mais. Chega a uma triste conclusão: quanto mais semelhante sou ao meu semelhante, mais sei a respeito do mundo, da sociedade e das pessoas.

A verdadeira leitura é uma luta entre subjetividades que afirmam e não abrem mão do que afirmam, sem as cores da intransigência. O conflito romanesco é, em forma de intriga, uma cópia do conflito da leitura. Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. Encontrar no romance o que já se espera encontrar, o que já se sabe, é o triste caminho de uma arte fascista, onde até mesmo os meandros e os labirintos da imaginação são programados para que não haja a dissidência de pensamento. A arte fascista é "realista", no mau sentido da palavra. Não percebe que o seu "real" é apenas a forma consentida para representar a complexidade do cotidiano. 

O romancista ocupa, por isso, uma posição difícil dentro da sociedade e do seu grupo. Ele traz problemas sem solução para os seus semelhantes. Incomoda-os, não os deixando quietos e tranquilos com a vida que estão levando. Todas as vezes em que percebe que uma norma está sendo criada e seguida como modelo ideal por um grupo considerável de cidadão, é o momento em que entra em cena com as suas armas críticas. Esta crítica, no entanto, não aparece de forma explícita. Seria preferível, neste caso, escrever um ensaio. A crítica na ficção joga com a ambiguidade: reproduz a norma (momento em que o leitor, tendo encontrado um semelhante, simpatiza com ele), mas ao reproduzi-la, começa a instilar gotas de insatisfação que perturbam o mesmo leitor (tendo simpatizado inicialmente com os personagens, o leitor começa a achar o seu/dele comportamento estranho, deixando, enfim, de simpatizar com o livro).

Silviano Santiago
1994


12.7.17

la universidad desconocida

Santiago | 2017


Llegará el día en que desde la calle te llamarán: / chileno. / Y tú bajarás las escaleras de tres en tres. / Será de noche / y tus ojos por fin habrán encontrado el color / que deseaban. / Estarás preparando la comida o leyendo. / Estarás solo y bajarás de inmediato. / Un grito una palabra / que será como el viento empujándote de improviso / hacia le sueño. / Tú bajarás las escaleras de tres en tres / con un cuchillo en la mano. / La calle estará vacía.

Roberto Bolaño


11.7.17

formação continuada


A educação formal não passa de uma mentira. E essa mentira não possui disfarce. O que ela vem tentando fazer é só instigar um fervor patriótico. Em poucos momentos o sistema educacional promove o pensamento criativo ou algum tipo de estrutura conceitual para a análise independente ou de empoderamento. Fabrica-se uma mentalidade automatizada e robotizada de alguém que segue ordens para o "bem da nação".