6.11.17

chomsky na colônia dos alienados


Quando se tem a mídia e o sistema educacional sob controle absoluto e a universidade assume uma postura conformista, é possível vender a versão que se quer da história.

A imagem do mundo que é apresentada à população via mídia capitalista tem apenas uma pálida relação com a realidade. A verdade dos fatos encontra-se enterrada de baixo de montanhas e montanhas de mentiras.


1.11.17

dialética da escola-prisão


vinte e três

Nem todos os alunos têm as mesmas experiências com os professores engajados. Nem ao menos sentem simpatia. Muitos estão acostumados às estruturas burguesas de dominação do ensino panóptico e ao pensamento conformista. Por isso, o estranhamento é caracterizado por esses alunos como boicote.


30.10.17

a livraria

1894 - 1963

Parecia mesmo um lugar estranho para encontrar uma livraria. Todas as outras empresas comerciais da rua destinavam-se a prover as necessidades mínimas da movimentada escória do bairro. Nessa rua, a principal via de circulação, havia um brilho e uma vida especiais, produzidos pela rápida passagem do tráfego. Era quase arejada, quase alegre. Mas por toda a volta grandes trechos de favela pululava em sua úmida clausura. Os habitantes faziam todas as suas compras na rua principal; passavam segurando peças de carne que pareciam viscosas mesmo através do embrulho de papel; pechinchavam linóleo em portas de estofadores; mulheres, de chapéu e xales pretos, passavam arrastando os pés em direção ao mercado com sacolas surradas de palha tecida. Como é que essas pessoas podia, me perguntei, comprar livros? E no entanto aí estava ela, uma loja minúscula; e as vitrinas tinham prateleiras, e havia as lobadas marrons dos livros. À direita um grande empório inundava a rua com sua mobília fabulosamente barata; à esquerda as vitrinas discretas e cobertas de cortinas de um restaurante anunciavam em descascadas letras brancas os méritos das refeições de seis centavos. No meio, tão estreita que mal impedia a junção da comida com a mobília, estava a lojinha. Uma porta de um metro e meio de vitrina escura, era essa toda a extensão da fachada. Via-se aqui que a literatura era um luxo; aqui ela tomava seu lugar proporcional, nesse lugar de necessidade. Mesmo assim, o consolo era que ela sobrevivera, definitivamente sobrevivera.

O proprietário da loja estava parado à porta, um homem pequenino, de barba grisalha e com olhos muito vivos atrás dos óculos que encimavam seu nariz comprido e agudo.

- Os negócios vão bem? – perguntei.

- Eram melhores no tempo do meu avô – ele me respondeu, sacudindo a cabeça com tristeza.

- Nós ficamos cada vez mais filisteus – sugeri.

- É a nossa imprensa barata. O efêmero sobrepuja o permanente, o clássico.

- Esse jornalismo ou, pode-se dizer, esse cotidianismo trivial é a maldição de nossa era – concordei.

- Serve só para... – Ele gesticulou com as mãos, como se procurasse agarrar a palavra.

- Para o fogo.

O velho foi enfático ao dizer, em tom de triunfo:

- Não; para o esgoto.

Sorri, solidário com sua veemência.

- Concordamos agradavelmente em nossa opinião – falei. – Posso dar uma olhada em seus tesouros?

Dentro da loja havia um lusco-fusco marrom, recendendo a couro velho e o cheiro daquela poeira sutil e fina que se agarra às páginas de livros esquecidos, como que preservando seus segredos – como a areia seca dos desertos asiáticos soba a qual, ainda incrivelmente intactos, jazem o tesouro e o lixo de mil anos atrás. Abri o primeiro volume que me caiu nas mãos. Era um livro de estampas de moda, detalhadamente pintadas à mão em magenta e púrpura, marrom, escarlate e castanho e todos aqueles tons diluídos de verde que uma geração ainda anterior tinha denominado Os sofrimentos de Werther. Beldades em saia-balão deslizavam através das páginas com a desenvoltura de navios embandeirados. Representavam-se os pés magros, achatados e pretos, como folhas de chá destacando-se sob suas anáguas. Seus rostos eram ovais, rodeados por cabelos de um negro brilhante, e exprimiam uma pureza imaculada. Pensei em nossos manequins modernos, com seus saltos altos e o arco de seus pés, seus rostos achatados e o sorriso enfadado. Era difícil não preferir o passado. Comovo-me facilmente com símbolos; há algo de Quarles em minha natureza. Não disponho de uma mente filosófica, prefiro ver minhas abstrações concretamente retratadas. E ocorreu-me então que, se quisesse um símbolo para a santidade do casamento e a influência do lar, não poderia escolher melhor do que dois pezinhos escuros como folhas de chá espiando decorosamente sob bainhas de imensas anáguas. Ao passo que saltos altos e pés arqueados deveriam simbolizar – ah, bem, o oposto.

A corrente de meus pensamentos foi desviada pela voz do velho.
- Imagino que você seja amante da música – disse ele.

Ah, sim, eu era um pouco; e ele me ofereceu um volumoso fólio.
- Alguma vez já ouviu isto? – ele perguntou.

Robert, o Demônio; não, eu não tinha ouvido. Eu não duvidava de que era uma lacuna em minha educação musical.

O velho pegou o livro e puxou uma cadeira dos sóbrios recessos da loja. Foi então que percebi um fato surpreendente: o que eu imaginara, a um olhar descuidado, ser um balcão comum, percebia agora ser um estranho piano quadrado. O velho sentou-se diante dele.

- Você deve perdoar qualquer defeito na afinação – disse, voltando-se para mim. – Um antigo Broadwood, georgiano, sabe, e já viu muito trabalho em cem anos.

Abriu a tampa, e as teclas amarelas sorriram para mim no escuro como os dentes de um cavalo antigo.

O velho folheou as páginas até encontrar o trecho desejado.

- O tema do balé – disse. – É lindo. Escute.

Suas mãos ossudas e um tanto trêmulas começaram subitamente a movimentar-se com incrível agilidade, e, fraca e tilintante contra o rugido do tráfego, ergueu-se uma melodia alegre e saltitante. O instrumento sacudia consideravelmente, e o volume de som era fino como o fio d’água de um regato atingido pela seca mais era afinado, e a melodia lá estava, tênue, aérea.

- E agora a canção dos bêbados – exclamou o velho, entusiasmando-se com sua execução. Tocou uma série de acordes que modulavam num crescendo, até o clímax; tão supremamente operístico que era sem dúvida alguma uma paródia daquele momento de tensão e suspense, quando os cantores se preparam para uma explosão de paixão. E então chegou o coro dos bêbados. Imaginavam-se homens envoltos me mantos, rudemente joviais, com o vazio de garrafões de vinho de papelão.

Versiam’a tazza piena
Il generoso umor.

A voz do velho era aguda e rachada, mas seu entusiasmo compensava quaisquer problemas de execução. Eu nunca tinha visto alguém imerso em tão absoluto deleite.
Ela passou mais algumas páginas.

- Ah, a Valse Infernale – disse. – Esta é boa. – Houve um pequeno e melancólico prelúdio e em seguida a melodia, talvez não tão infernal como se era levado a esperar, mas mesmo assim bastante agradável. Olhei por cima do ombro dele e cantei com seu acompanhamento.

Demoni fatali
Fantasmi d’orror,
Dei regni infernal
Plaudite al signor

Um grande caminhão de cerveja, movido a vapor, passou rugindo com seu trovão aniquilador e fez desaparecer por completo a última linha. As mãos do velho ainda se movimentavam sobre as teclas amarelas, eu abria e fechava a boca; mas não havia som de palavras ou de música. Era como se os demônios fatais, os fantasmas de horror, tivessem irrompido subitamente nesse lugar tranquilo e perdido.

Olhei para fora através da porta estreita. O tráfego corria sem cessar; homens e mulheres passavam apressados, com rostos tensos. Fantasmas de horror, todos eles: habitavam reinos infernais. Lá fora, homens vivam sob a tirania das coisas. Todos os seus atos eram determinados por ordens da mera matéria, por dinheiro, e pelas ferramentas de seu ofício e pelas leis irrefletidas do hábito e das convenções. Mas aqui eu parecia a salvo das coisas, vivendo a um passo da realidade; aqui, onde um senhor barbado, improvável sobrevivente de alguma outra era, corajosamente tocava a música da romança, não obstante o fato de que fantasmas de horror pudessem vez por outra abafar o som dela com sua turba.

- E então, vai levar? – A voz do homem invadiu meus pensamentos. – Posso deixar por cinco xelins.

Ele segurava o volume grosso e gasto em minha direção. Seu rosto refletia uma ansiedade tensa. Eu via como ele estava ansioso por meus cinco xelins, como lhe eram – pobre homem! – necessários. Ele tocou, pensei com uma amargura nada razoável, ele tocou simplesmente para mim como um cachorro treinado. Senti-me ofendido. Ele era apenas um dos fantasmas de horror disfarçado em anjo nesse paraíso de contemplação um tanto cômico. Dei-lhe duas moedas, e ele começou a embrulhar o volume me papel.

- Sabe, fico triste em me separar dele – comentou. – Sou muito ligado a meus livros, mas eles sempre têm de ir.

Suspirou com uma emoção tão obviamente genuína que me arrependi da opinião que fizera dele. Era um habitante renitente dos domínios infernais, exatamente como eu.

Lá fora começavam a anunciar os jornais da tarde: um navio afundado, trincheiras capturadas, o novo discurso emocionante de alguém. Olhamos um para o outro – o velho vendedor de livros e eu – em silêncio. Nós nos compreendíamos sem palavras. Ali estávamos nós em particular, e ali estava toda a humanidade em geral, todos enfrentando o horrível triunfo das coisas. Nesse contínuo massacre de homens, no sacrifício forçado desse velho a matéria triunfava igualmente. E caminhando para casa através do Regent’s Park, eu também descobri a matéria triunfando sobre mim. Meu livro era despropositadamente pesado, e eu me perguntei o que poderia fazer com uma partitura de Robert, o Demônio quando chegasse em casa. Seria apenas mais uma coisa a me pesar e me atrapalhar; e naquele momento ela era pesada, ah, abominavelmente pesada. Inclinei-me sobre a grade que rodeia o lago ornamental e, o mais discretamente que pude, deixei cair o livro entre os arbustos.

Com frequência penso que seria melhor não tentar a solução do problema da vida. Viver já é bastante difícil sem complicar o processo pensando nele. A coisa mais sábia, talvez, é aceitar a “aborrecida condição da humanidade, nascida sob uma só lei, todos uns presos aos outros” e parar por aí, sem tentar reconciliar os incompatíveis. Ah, a absurda dificuldade de tudo isso! E, além do mais, gastei cinco xelins, o que é sério, sabe, nesses tempos difíceis.

Aldous Huxley
Trad.: Eliana Sabino



28.10.17

o pato donald no poder?

Singer

Disney expulsa o setor secundário de seu mundo, de acordo com os desejos utópicos da classe dominante de seu país. Mas, ao fazê-lo, cria um mundo que é uma paródia do mundo do subdesenvolvimento. Só há os setores primários e terciário no universo de Disney.

Isto significa, como já vimos, a divisão do mundo em espírito e matéria, em cidade e campo, em metropolitano e selvagem bonzinho, em monopolistas da força mental e monossofredores da força corporal, em moralmente inflexíveis e moralmente imóveis, em pai e filho, em autoridade e submissão, em riqueza merecida e pobreza igualmente merecida.

Disney expulsa o produtivo e o histórico de seu mundo, assim como o imperialismo proibiu o produtivo e o histórico no mundo do subdesenvolvimento. Disney constrói sua fantasia imitando subconscientemente o modo como o sistema capitalista mundial construiu a realidade, tal como a deseja continuar armando.

A miséria enlatada no vazio, que resgata e libera o polo hegemônico o qual cultiva e consome, e é servida ao dominado como prato único e eterno. Ler Disneylândia é tragar e digerir sua condição de explorado.

Basta de clichês: Avestruzes! para permanecer no mundo animal que carrega a inocência do homem. Cultura hipócrita e classe cínica que diariamente em suas fábricas e emissões comercializa e banaliza o sexo e se erige no censor moralista de uma juventude cuja "crise contemporânea" produz, consome e reprime para produzir, consumir e reprimir mais e melhor.

Disney-Cosmos não é o refúgio na esfera do entretenimento ocasional, é nossa vida cotidiana da dominação e da submissão social.

Colocar o Pato em foco é questionar as diversas formas de cultura autoritária e paternalista que impregnam as relações do homem burguês consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza. É uma interrogação sobre o papel do indivíduo e de sua classe no processo de desenvolvimento histórico, sobre o modo de fabricar uma cultura de massas pelas costas das massas. É também, mas intimamente, uma interrogação sobre a relação social que estabelece o pai com seu filho. Um pai que recusa ser determinado por sua mera condição biológica e ajuíza a solapada manipulação e repressão que realiza com seu próprio reflexo.

Ariel Dorfman e Armand Mattelart
Trad.: Álvaro de Moya


27.10.17

construir um ideal


Este papo de que "tenho de pagar as contas e cuidar da família" não pode justificar o silêncio quando a perseguição política vira uma arma muito perigosa nas mãos dos timoneiros da máquina da lama.

Brasil é uma colônia fascista. E essa desculpa só fode mais com o oprimido. Aumenta a exploração econômica e social e serve para a manutenção da casta cheia de privilégios. A igualdade social está muito longe de ser atingida como uma realidade. É sobre as bases da igualdade que devemos ter em mente para a construção do bem comum, de um bem estar social, mas enquanto "vermos nossos semelhantes como competidores, encararemos a vida como um concurso ou um classificado em que disputamos vagas e salários - meras recompensas por nossa submissão".



24.10.17

a paixão do mundo



[...]

O mundo é assim feito: até mesmo os imbecis têm explicações. Tudo tem um sentido para as pessoas: uma configuração urbana, um rio, um gato. Somos todos dicionários ambulantes; compramos tal calça comprida porque cremos "que ela nos dá um certo look". Cada objeto em nossa casa conta uma história, cada ato tem um sentido, todos os nossos encontros são o objeto de uma leitura afetiva e mental. Vivemos num mundo de definições e narrativas - o livro da vida.

Há, também, as Grandes Narrativas, narrativas explicativas do mundo. Todos nós conhecemos pessoas para quem todos os males de nosso país vêm do pecado original, ou dos imigrantes, segundo a escolha da crença. O homem e a mulher são animais que buscam sentido; nada os preenche mais do que o que se denomina a grande narrativa que pretende decifrar o mundo, a sociedade, a história. Os contos de nossa infância são substituídos por escritos mais ou menos míticos que nos servem de companheiros de caminhada: o marxismo, o muro de Berlim, a guerra das civilizações, o islã, o mercado, o liberalismo, o fim das ideologias, a espera do apocalipse, a emancipação humana são algumas das sagas da humanidade. As crônicas do cotidiano, da vida amorosa, das relações familiais, todas as anedotas e os dramas pessoais formam a trama mais modesta de nossas narrativas individuais.

O anarquismo também repousou sobre uma Grande Narrativa, com variantes. A gesta anarquista inclui figuras heroicas como Malatesta, Makhno, os combatentes da Guerra Civil espanhola ou do antifascismo; acontecimentos como a Insurreição, a Revolução; narrativas como "a guerra de classes", "a exploração econômica", "o colonialismo", "o movimento social".

Todos esses episódios avaliados segundo um critério recorrente, a Natureza. São incontáveis os textos libertários que opõem as "leis da natureza" às "leis humanas", que apelam para "o instinto de revolta", para as "luzes da razão humana". Vem naturalmente aos espírito a célebre frase de Élisée Reclus: "O homem é a natureza adquirindo consciência de si mesma". 

Ronald Creagh
Trad.: Plínio A. Coelho


23.10.17

Mulheres libertárias: um roteiro



[...] 


Inteligente, cultíssima, de argumentação fácil, corajosa, desassombrada, anarquista, anticlerical, de convicções firmes e francas, pioneira do Amor no plural e da Procriação consciente, não cabia dentro das dimensões geográficas e intelectuais do Brasil. Maria Lacerda de Moura desagradou a machistas e chauvinistas, a políticos e religiosos de todos os credos, em que nunca acreditou. Por isso foi cercada, asfixiada, silenciada, sua revista sabotada. Suas obras e seu nome continuam esquecidos até hoje, inclusive pelas feministas. E, no entanto, essa mulher libertária, vulcânica, quando vergastava com sua pena e sua palavra a burguesia, o militarismo, a igreja, o Estado e os manipuladores do ensino, transpirava humanitarismo por todos os poros, suavidade e doçura quando escrevia ou falava sobre educação. 

Francisco Correia



22.10.17

cidade


violenta
dividida
poluída
destruída

cidade propaganda
para inglês ver.

cidade campo de concentração
cidade apartheid

sem plano, sem meta, sem ideal:
cidade estacionamento
essa é a real.


20.10.17

para ler o pato donald

[...]

Ninguém trabalha para produzir no mundo de Disney. Todos compram, todos vendem, todos consomem, mas nenhum destes produtos custou, ao aparecer, esforço algum. A grande força de trabalho é a natureza, que produz objetos humanos e sociais como se fossem naturais.

A origem humana do produto: da mesa, da casa, do automóvel, do vestuário, do ouro, do café, do trigo e milho (que vêm dos celeiros, direto dos armazéns e não dos campos.) foi suprimida. O processo de produção desapareceu e toda a referência a uma gênese também: os atores, objetos e acontecimentos do processo jamais existiram. O que se substituiu de fato foi a paternidade do objeto, a possibilidade de liga-lo à sua energia criadora. Aqui é preciso voltar a essa interessante estrutura em que o pai da criança se ausentava. A simetria entre a falta de produção biológica direta e a falta de produção econômica não pode ser casual e deve ser entendida como uma estrutura paralela única que obedece à eliminação deste mundo do proletariado, o verdadeiro gerador dos objetos ou, nas palavras de Gramsci, o elemento viril da história, da luta de classes e do antagonismo de interesses.

Disney exorciza a história: magicamente expele o elemento reprodutor social (e biológico) e fica com seus produtos amorfos, desoriginados e inofensivos; sem suor, sem sangue, sem esforço, sem a miséria que estes produtos criam ineludivelmente na classe proletária. O objeto é na verdade fantástico: não há para que imaginar o desagradável, que acaba relegado ao cotidiano sujo e aos barros marginais.

O imaginário infantil serve a Disney para cercear toda a referência à realidade concreta. Os produtos históricos povoam e enchem o mundo de Disney, são aí vendidos e comprados incessantemente. Disney se apropriou, entretanto, desses produtos e, portanto, do trabalho que os gerou, repetindo o que a burguesia tem feito com a força de trabalho do proletariado. É um mundo ideal para a burguesia; permanece com os objetos e sem os operários, a tal ponto que quando aparece em raras ocasiões uma fábrica (cervejaria), nunca há mais de um trabalhador que geralmente aparece como zelador. É como se fosse apenas um agente policial, o protetor da fabricação autônoma e autômata de seu patrão. É o mundo que sempre sonharam, acumular a riqueza sem enfrentar seu resultado: o proletariado. Eximiram de culpa os objetos. É um mundo de pura mais-valia sem um operário, por menor que fosse, ao qual se pudesse dar uma mínima retribuição. O proletariado que nasce, como fruto das contradições do regime da classe burguesa, como força de trabalho “livre” para se vender ao melhor pagador, que transforma esta força em riqueza para sua própria classe social, é expulso deste mundo que ele criou, e com ele cessa todo o antagonismo, toda luta de classes e contradições de interesse e, portanto, toda a classe social. O mundo de Disney é o mundo dos interesses da burguesia sem suas deslocações, cada uma das quais tem sido reiteradamente encoberta. Disney, em seu reino da fantasia, levou ao auge o sonho publicitário e rosado da burguesia: riquezas sem salários, dólares sem suor do rosto. O ouro é um joguete, e por isso aparecem tão simpáticos esses personagens: porque na realidade, tal como está disposto no mundo, não causam dano a ninguém... dentro desse mundo. O dano consiste em sonhar o sonho particular de uma classe como se fosse o de toda a humanidade.

O único termo que faria saltar o mundo de Disney como um sapo com uma descarga elétrica, como o escapulário a um vampiro, é a palavra classe social. Disney precisa apresentar, por isso, sua criação como universal, sem fronteiras; chega a todos os lugares, a todos os países, o imortal Disney, patrimônio internacional de todas as crianças, todas, todas, todas.

Ao processo que aparta o produto (trabalho acumulado) de sua origem e o expressa em ouro, abstraindo-o das condições reais com homens concretos que presidiram sua produção, Marx chama de fetichismo. 

[...]

O universo de Disney é uma prova da coerência interna do mundo arregimentado por este outro, e resulta assim numa réplica calcada neste projeto político. 

[...]

No mundo de Disney dos polos do processo capitalista produção-consumo só está presente o segundo. E o consumo perdeu o pecado original da produção, tal como o filho perdeu o pecado original que representava seu pai, tal como a história perdeu o pecado original da classe e portanto da troca.

[...]

O ato que os personagens estão repetindo a todo o momento é o da compra. Esta relação mercantil não se modela apenas no nível dos objetos. A linguagem contratual domina o trato humano mais cotidiano. As pessoas se veem comprando os serviços de outro ou vendendo a si mesmo. É como se não tivessem segurança senão por meio das formas linguísticas monetárias. Todo o intercâmbio humano toma a forma mercantil. Todos os seres deste mundo são uma bilheteria ou um objeto detrás de uma vitrina, assim são todos moedas que se movem incessantemente. 

[...]

Vive-se neste mundo de Walt, em que cada palavra é a publicidade de uma coisa ou de um personagem, a compulsão do consumo intenso. 

[...] 

A solidariedade dentro desse mundo é intromissão. 
Não podemos entender como esta obsessão pela compra pode fazer bem a uma criança, a quem subrepticiamente se impõe a lei de consumir e continuar consumindo, sem que os artefatos façam falta. Esse é o único código ético de Disney: comprar para que o sistema se mantenha, jogar fora os objetos (porque nunca se os aproveita dentro da história em quadrinhos) e comprar os mesmos objetos, levemente diferenciados, amanhã. Que circule o dinheiro e que vá ao bolso da classe da qual Disney é membro e engrosse seu próprio.

[...] 

Disney é o carrossel do consumo. O dinheiro é o fim último a que tendem os personagens porque concentra em si todas as qualidades do mundo.

[...]

O verdadeiro rival do dono das riquezas não é o ladrão. Queria ele que só houvesse ladrões cercando-o para converter a história numa luta entre proprietários legítimos e delinquentes, que seriam julgados segundo a lei da propriedade que ele mesmo estabeleceu. Mas não é assim. Quem de verdade pode destruir esse monopólio, e questionar de verdade sua legitimidade e sua necessidade, é o proletariado, cuja única via de libertação é terminar com as bases da economia burguesa e abolir a propriedade privada. Desde os albores da oposição burguesia-proletariado, esta quis reduzir toda ameaça de seu adversário explorado, e portanto da luta de classes, a uma luta entre bons e maus, como provou Marx analisando os folhetins de Eugéne Sue na “A Sagrada Família”.

Esta etiqueta moral encobre a diferença fundamental que é econômica e exerce o papel de censura das ações de uma classe.
O proletariado foi, para tanto, omitido: na cidade é criminoso, no campo é o selvagem bonzinho. Como a visão de Disney é emascular a violência e os conflitos sociais, inclusive malandros são enfocados como crianças travessas (na América Latina, os Irmão Metralha são “chicos malos”); como o antimodelo em que sempre perdem, recebem surras, celebram suas estúpidas ideias dando-se as mãos e dançando em rodas. Sua manada dispersa sintomatiza o desejo da burguesia de substituir o aglutinamento de quatro gatos loucos pelas organizações da classe operária. (Assim, quando Donald aparece como um possível bandido, a reação de Tio Patinhas: “Meu sobrinho, um assaltante? Diante de meus próprios olhos? Terei de chamar a polícia e o hospício. Deve ter enlouquecido”, é similar à redução de toda subversão política a uma enfermidade psicopática para apagar a solidariedade de classe que explica o fenômeno). Convertem os defeitos do proletariado, produto da exploração burguesa, em taras, objeto de riso e argúcias para não perturbar a exploração.Não lhes permite sequer serem originais em suas aspirações: a burguesia coloniza em última análise esses ladrões, impedindo-lhes as mesmas aspirações. Eles desejam o dinheiro para serem burgueses, para se converterem nos exploradores, e não para abolir a propriedade. A caricatura do proletariado, torcendo cada característica que poderia fazê-lo temível e digno e, portanto, identificá-lo como classe social, serve para oferecê-lo em público como um espetáculo de burla e escárnio. Paradoxalmente, na era da tecnologia do mundo que os burgueses chamam de moderno, a cultura massificada recorre e propala cotidianamente os mitos renovados da era da máquina. 

[...]

O imaginário infantil, como projeto de Disney, permite apropriar-se de coordenadas reais e da angústia do homem atual, mas priva-os de sua denúncia, das contradições efetivas e das formas de superá-las. Justamente aqui radica a diferença entre o absurdo da novela contemporânea e o teatro, em que o homem-vítima vive a degradação contínua de seus limites e a flutuação expressiva da linguagem que o comunica, emascarando somente as causas ao propor uma humanidade metafísica, e o absurdo de Disney, em que a inocência encobre a perversidade indigna do sistema e o prêmio providencial reassegura à vítima que não deve questionar nem corroer os fundamentos de sua própria desgraça.

A literatura contemporânea mostra o homem dignificando-se no conhecimento abstrato e doloroso de sua própria alienação, e a imaginação procede muitas vezes ao indagar todo o sofrimento e a emoção que a sociedade atual quer perfumar com publicidade. [...] A destruição efetiva do mundo social que possibilita a Disney, e que o nutre de suas representações, é simultaneamente a liberação do trabalhador da cultura, que se integraria aos meios maciços de comunicação em uma nova sociedade.


19.10.17

pesquisa de campo


Dá para estudar o povo da República de Curitiba a partir das músicas de baixa qualidade que tocam em alguns pontos comerciais do centro.


18.10.17

o grifo é meu


Não há por que se preocuparem, meninos. Mickey nem pensa em se referir à morte de milhões por falta de alimento, nem tampouco dos efeitos no desenvolvimento corporal e mental nos seres humanos. Conta uma aventura pré-histórica, onde ele e Pateta repetem as tramas típicas da Disneylândia contemporânea. É evidente que a época atual não tem esses problemas: vive-se numa sociedade perfeita, na pós-história.


14.10.17

Listen, Marxist!



[...]

El anarquismo es un movimiento libidinal de la humanidad contra la opresión en cualquiera de sus formas: sus orígenes se remontan a la misma emergencia de la apropiación, la dominación clasista y el Estado. De este período en adelante, los oprimidos han resistido a todas las formas que tienden a contener el desarrollo espontáneo del orden social. El anarquismo irrumpe en el trasfondo social durante todos los períodos de transición histórica. La declinación del mundo feudal coincidió con diversos movimientos de masas, en algunos casos de inspiración salvajemente dionisíaca, que exigían la abolición de todos los sistemas de autoridad, privilegio y opresión.

Murray Bookchin
Trad.: de Rolando H.
1971


12.10.17

cointelpro is watching you

R. Crumb


Mano / não deixe a maquinaria do mass media / misturar o seu cérebro como uma mayonnaise.


11.10.17

lobby


O que fica comprovado com a atual situação política do país é que essa é a melhor democracia que o dinheiro pode comprar.

A interpretação que os golpistas fazem do conceito democracia é igual ao slogan que podemos encontrar numa loja de armas dos Estados Unidos:

Democracy, 
locked and loaded


Le chat


Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu'en son appartement,
Un beau chat, fort, doux et charmant.
Quand il miaule, on l'entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret;
Mais que sa voix s'apaise ou gronde,
Elle est toujour riche et profonde.
C'est là son charme et son secret.

Cette voix qui perle et qui filtre
Dans mon fonds les plus ténébreux,
Me remplit comme un vers nombreux
Et me réjouit comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux
et contient toutes les extases;
Pour dire les plus longues phrases,
Elle n'a pas besion de mots.

Non, il n'est pas d'archet qui morde
Sur mon coeur, parfait instrument,
Et fasse plus royalement
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux,
Chat séraphique, chat étrange,
En qui tout est, comme en un ange,
Assi subtil qu'harmonieux!

9.10.17

poems from prison


tall / skinny / plain // tal / skinny / plain i am / ericka, 22, / droopy eyes / long feet // i love people / love nature / love love / i am a revolutionary / nothing special / one soul / one life willing / to give it / ready to die... // noises / sounds / unspoken words / feelings repressed because / the prison walls are also / sou walls / barries / if only all barriers could be removed / and we could walk/ talk/ sing / be... / free of all psychological, spiritual / political, economic / boundaries / all of us all the freedom lovers of / the world but specially / right now - prisioners.

Ericka H.


8.10.17

o grifo é meu


Os agentes vão circular no ciberespaço em busca de informação personalizada, transformando-o num imenso ecossistema. Como os cachorros que vão procurar o chinelo dos seus mestres, os agentes, a partir de instruções dadas pelo usuário, realizam diversas tarefas, como buscar um artigo em um banco de dados, passar pedidos de compras, ordenar informação nos jornais eletrônicos, filtrar discussões nas conferencias eletrônicas, procurar uma música, guiar em um serviço eletrônico.


7.10.17

o grifo é meu



[...]
A multiplicidade das significações é o índice que faz de uma palavra uma palavra.

[...]

Ser civilizado no significa haber cursado estudios superiores o haber leído muchos libros, o poseer una gran sabiduría: todos sabemos que ciertos individuos de esas características fueron capaces de cometer actos de absoluta perfecta barbarie. Ser civilizado significa ser capaz de reconocer plenamente la humanidad de los otros, aunque tengan rostros y hábitos distintos a los nuestros; saber ponerse en su lugar y mirarmos a nostros mismos como desde fuera.


o grifo é meu

[...]

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua.

O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra "diálogo" num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja. 

O livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento da comunicação verbal. Ele é objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado e criticado no quadro do discurso interior, sem contar as reações impressas, institucionalizadas, que se encontram nas diferentes esferas da comunicação verbal (críticas, resenhas, que exercem influência sobre os trabalhos posteriores, etc.) Além disso, o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as da outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária. Assim, o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc. 

[...]

A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes.


3.10.17

dialética


A escassa formação intelectual deixa o indivíduo sem meios de descobrir o contrabando ideológico a que está submetido com o governo ilegítimo.

Por exemplo, 
o que você chama de lucro, 
nós chamamos de exploração.


30.9.17

...


E aí, camarada, seria o racismo toda forma de exploração econômica?

O discurso religioso apaga aquilo que realmente importa.

Parar por um momento a produção cultural para ver o que produzimos tem ainda vínculo conosco.


A corrupção é um veneno inerente às sociedades divididas em classes.

Conteúdo por conteúdo para onde foi aquele fermento artístico que contraria os interesses dominantes?

Sociedade punitiva, estou com três olhos sobre você.


29.9.17

...


A criatividade recebe as pauladas da censura quando a urbe está cheia de sentimentos de dominação e pensamentos autoritários. 

(O músculo 
do cérebro
desceu aos
testículos?)

Não importa o caráter sagrado do autoritarismo, o pensamento criativo continuará reescrevendo utopias.


(Cabeça de repolho.)

E nesse cenário nasce a necessidade de formular novas correntes ideológicas para dar a palavra sua carga verdadeiramente existencial.



27.9.17

conformistas


Os intelectuais conformistas são aqueles que fazem o jogo da direita. É como culpar a esquerda (que não sabe dialogar (sic!)) pela censura da exposição artística. Quem não sabe dialogar, porque tem a consciência bancária, é a direita.

Os intelectuais conformistas têm de parar de responsabilizar a esquerda pelas cagadas da parcela da população brasileira fabricada pela comunicação de massa que está pronta a servir qualquer interesse da direita.

A direita faz aquele jogo de provocar sistematicamente para desestabilizar os militantes contestatários. É praticamente igual às perseguições metodológicas, os assédios morais, os constrangimentos ilegais exercidos pelos aparelhos ideológicos do sistema educacional sobre os educadores críticos.

E daí, rotula-se facilmente quando algum militante perde a razão, como é costume dizer.

Ninguém "perde a razão" quando os vermes estão cavando o buraco ao seu lado. Ninguém "perde a razão" quando os parasitas estão chupando o seu sangue. Ninguém "perde a razão" quando os abutres ficam em cima do seu ombro. Ninguém "perde a razão" quando as cadelas do fascismo estão a querer um pedaço da sua carne.

"Perder a razão" é o corpo respondendo a brutal violência psicológica e social.


26.9.17

de la economía

Pawel Kuczynski

[...] 

se da a entender con toda claridad que la miseria, la pobreza, la explotación, la esclavitud de los obreros, el estado de decrepitud en el que se hallan los proletarios y la pauperización, todo eso es necesario en la producción final de una obra armoniosa: la sociedad industrial del momento y el capitalismo deben poder funcionar sin trabas metafísicas, ontológicas ni, por tanto, políticas. Es extraño el fin al que aspira la mecánica que Adam Smith ensalza, pues supone trabajo permanente para los obreros y beneficios ilimitados para los proprietarios. Curiosa distribución de los papeles, con el infierno del trabajo perpetuo para unos y el paraíso de los intereses en chorro continuo para los otros, la explotación de los primeiros como condición de posibilida de la felicidad de los otros.


Michel Onfray
Trad.: Marco A. Galmarini


24.9.17

na cretinolândia


Vai cuidar da sua vida nunca foi tão imprescindível. Depois da escola sem pensamento, censura à exposição, quadros apreendidos e a "cura gay" é o dito popular que mais ganhou sentido nas duas últimas semanas, pois o que mais estes cretinos querem: legislar a punheta alheia?


22.9.17

informe-se


[...]

Son tiránicas las sociedades que fiscalizan, exigen, obtienen, legislan, extraen, retienen, sustraen, imponen y fijan impuestos; que en caso de desobediencia persiguen, detienen, reprimen y encarcelan, y que además dicen no estar en condiciones de ofrecer el mínimo al ciudadano al que han desvalijado, desposeído, desvestido, desnudado. Sobre todo en materia de empleo, de mínimo vital, de decencia y dignidad. Son esclavos los que sufren el yugo de estas sociedades y no tienen más alternativa que somoterse de buen grado o por la fuerza a la autoridad indiscutible de una supuesta justicia que pone su policía, sus masgistrados, cuando no su ejercito, al servicio de esa vasta empresa de expolación de los indivíduos en provecho de una máquina económica, social y política desbocada, furiosa y autófaga. Y son tiranos los que se convierten en administradores, funcionarios, preceptores o brazo armado de esta lógica perversa.


20.9.17

quando o fascismo se tornava cada vez mais forte

estêncil | agosto de 2017

Quando o fascismo se tornava cada vez mais forte na Alemanha / e mesmo trabalhadores o apoiavam em massa / dissemos a nós mesmos: nossa luta não foi correta. / Pela nossa Berlim vermelha andavam em pequenos grupos / nazistas em novos uniformes, abatendo / nossos camaradas. / Mas caiu gente nossa e gente da bandeira do Reich. / Então dissemos aos camaradas do SPD: / Devemos aceitar que matem nossos camaradas? / Lutem conosco numa união anti-fascista! / Recebemos como resposta: / Poderíamos talvez lutar ao seu lado, mas nosso líderes / nos advertem para não usar o terror vermelho contra o branco. / Diariamente, dissemos, nosso jornal combateu os atos de terror / mas diariamente também escreveu que só venceremos / através de uma Frente Unida Vermelha. / Camaradas, reconheçam agora que esse "mal menor" / que ano após ano foi usado para afastá-los de qualquer luta / logo significará ter que aceitar os nazistas. / Mas nas fábricas e nas filas de desempregados / vimos a vontade de lutar dos proletários. / Também na zona leste de Berlim os social-democratas / saudaram-nos com as palavras "Frente Vermelha!" e já usavam o emblema / do movimento antifascista. Os bares / ficavam cheios nas noites de debates. / E então nenhum nazista mais ousou / andar sozinho por nossas ruas / pois as ruas pelo menos são nossas / depois que eles nos roubaram as casas.

Bertolt Brecht
Trad.: Paulo C. 


18.9.17

a necessidade da arte

banksy

Ernst Fischer e Banksy resumem o Brasil contemporâneo que, nas palavras de Millor, tem um grande passado pela frente.
abres aspas 
Numa sociedade em decadência, a arte, para ser verdadeira, precisa refletir também a decadência. 
fecha aspas

experiência ácrata

Hora de construir!

Ainda sobre a experiência ácrata, Felipe Del Solar e Andrés Pérez escrevem que os anarquistas "son absolutamente contrarios a la idea de Dios, por ser esta generadora de sumisión y esclavitud. Por ende, es inaceptable la institucionalización de la religión, sobre todo la católica-apostólica y romana. Por cierto, entre anarquistas han existido algunas excepciones como León Tolstoi, pero en su mayoría prima el ateísmo o un férreo laicismo.


Consideran a la religión como fuente de males y cómplices de la propiedad y la autoridad. Los ácratas presentan a Dios como una mentira inventada por la Iglesia, a la que acusan de ser una de las instituciones encargada de la explotación del pueblo. Del mismo modo, rechazan la caridad por considerarla un camino populista que utilizan los burgueses para el enaltecimiento personal y el hundimiento aún más profundo de los trabajadores, a quienes convierten en sus esclavos dependientes.


15.9.17

paris: maio de 68



Este foi sem dúvida o maior levantamento revolucionário na Europa Ocidental desde a Comuna de Paris.

[...]

Sob a influência dos estudantes revolucionários, milhares de pessoas começaram a questionar todo o princípio hierárquico. Os estudantes o questionaram onde ele parecia ser mais "natural": nos domínios do ensino e do saber. Afirmaram que a autogestão democrática era possível - e para provar começaram eles mesmos a pô-la em prática. Denunciaram o monopólio da informação e produziram milhões de panfletos para rompê-lo. Atacaram algum dos principais pilares da "civilização" contemporânea: as fronteiras entre os trabalhadores manuais e intelectuais, a sociedade do consumo, o caráter "divino" da Universidade e de outras fontes da cultura e da ciência capitalista.
Em questão de dias o enorme potencial criativo das pessoas rapidamente veio à tona. As ideias mais audaciosas e realistas - normalmente são ambas as mesmas - foram defendidas, discutidas, aplicadas. A linguagem, destituída de vida pelas décadas de baboseiras burocráticas, estripada por aqueles que a manipularam para fins publicitário, subitamente reapareceu como algo novo e alegre. As pessoas se reapropriaram dela em toda a sua plenitude. Slogans magnificamente adequados e poéticos emergiram da multidão anônima.

[...]

Ela modificou tantos as relações de força na sociedade, quanto a imagem, na cabeça das pessoas, das instituições estabelecidas e dos dirigentes estabelecidos. Ela obrigou o Estado a revelar sua natureza opressiva e sua essência contraditória. Estudantes desarmados forçaram os poderes estabelecidos a tirar sua máscara, a suar de medo, a recorrer ao cassetete da polícia e à bomba de gás. Os estudantes por fim obrigaram os dirigentes burocráticos das "organizações da classe trabalhadora" a se revelarem como os últimos guardiões da ordem estabelecida.

[...]

"Não foi a fome que levou os estudantes à revolta. Não havia uma "crise econômica" nem mesmo no sentido mais amplo da palavra. Essa revolta não teve nada a ver com o "sub-consumo" ou com "super-produção". A "queda da taxa de lucro" simplesmente não entrou em cena. Além do mais, o movimento estudantil não era baseado em reivindicações econômicas 

[...]

O movimento atual mostrou que a contradição fundamental do capitalismo burocrático moderno não é a "anarquia de mercado". Não é a "contradição entre as forças produtivas e as relações de propriedade". O conflito central ao qual todos os outros conflitos estão relacionados é o conflito entre os que dão ordens (dirigentes) e os que obedecem ordens (executores). A contradição insolúvel que atravessa o âmago da sociedade capitalista moderna é a contradição entre a sua necessidade de excluir as pessoas da gestão de suas próprias atividades e ao mesmo tempo requerer a participação delas, sem a qual ela ruiria. Essas tendências se expressam por um lado na tentativa dos burocratas de converter homens em objetos (pela violência, pela mistificação, por novas técnicas de manipulação - ou "sonhos materiais") e, por outro lado, na recusa humana de permitir que sejam tratados dessa forma. 

[...]

Sempre que se trava uma luta, se é forçado mais cedo ou mais tarde a questionar a totalidade da estrutura social.

Grupo Solidarity
Trad.: Leo V.