8.11.17

os limites da utopia



Distopias infestam os relatórios oficiais.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [IPCC, na sigla em inglês] demanda uma redução nas emissões em um terço para que se evite o desastre absoluto. A KPMG, na ladainha blindada de powerpointês corporativo, vê o mesmo horizonte. A NASA participa de um relatório alertando que o colapso civilizatório sistêmico “dificilmente será evitado”.

Podemos discutir as versões da mensagem, mas não seu conteúdo: o fim de todas as coisas está aí, à vista de todos.

O fedor e a cacofonia de cidades envenenadas, lúgubres bunkers subterrâneos, paisagens cinzentas… A degradação é a má consciência da melhora, a rejeição da distopia é parte integral da tradição utópica. Nós ansiamos e alertamos, nossos melhores e piores sonhos lado a lado contra o presente.

Se vacilarmos, teremos uma Terra ressecada, fria, quente, e morta. Se acertarmos? Existem pré-sonhos equivalentes a vidas inteiras de Novos Édens, de le Guin, Piercey, e vários outros, remontando à visão que Lactâncio, quase dois milênios atrás em Instituições Divinas, chamou de “Mundo Renovado”:

“a terra se abrirá em riquezas, oferecendo livremente os mais abundantes frutos; mel verterá das montanhas rochosas; córregos de vinho fluirão, assim como rios de leite; em suma, o mundo em si e toda a natureza regozijar-se-ão, vendo-se resgatados e libertos do domínio do mal e da impiedade, da culpa e do erro.”

Para Lactâncio, assim como para todas as utopias, não se trata apenas do mundo, mas da humanidade. O mundo regozijar-se-á porque finalmente seremos capazes de habitá-lo, livres do mal e da impiedade e da culpa e do erro com os quais o arrasamos. A relação entre a humanidade e o que agora chamamos “meio ambiente” será curada.

Mas uma tradição tão rica não preveniu que incontáveis ambientalismos falhassem, não apenas em suas tentativas de mudar o mundo, mas de mudar a agenda de mudança do mundo.

Nós que queremos outra Terra, uma Terra melhor, nos orgulhamos (o que é compreensível) por manter alternativas vivas nesta época que pune o mero pensamento de mudança. Nós precisamos de utopias. Isso é dado por certo no ativismo. Se uma alternativa a este mundo é inconcebível, como poderíamos mudá-lo?

Mas a utopia tem seus limites, a utopia pode ser tóxica.

O desespero custa caro, é certo. Mas também devemos nos perguntar quanto pagamos pela esperança.

Em 1985 o governo municipal de Los Angeles anunciou a construção de um incinerador na região centro-sul da cidade, um ano depois de a autoridade de administração de lixo da Califórnia ter pago meio milhão de dólares em dinheiro público à firma de consultoria Cerrell Associates para decidir onde construir tão controversa instalação. O Relatório Cerrell é um manual, um guia listando as características do “perfil de menor resistência”. Mire nos menos escolarizados, ele aconselha. Nos idosos. “Comunidades de um estrato socioeconômico médio e superior”, ele recomenda, “não devem estar dentro dos raios de uma a cinco milhas do local sugerido”.

Mire nos pobres.

Não surpreende que essa seja a estratégia. O que espanta é que eles a admitam. A vontade é de responder: “Vocês sabem que a gente está ouvindo, né?”

No caso a comunidade local resistiu, e com sucesso. Mas os chamados “Big Green” – os maiores grupos de ativismo ecológico, como Sierra Club, Friends of the Earth, Natural Resources Defense Council, Wilderness Society, e outros – recusaram o convite para se juntar à campanha. Segundo eles, não se tratava de uma questão ambiental, mas de “saúde comunitária”.

As falácias do Big Green. Partindo de heurísticas como rural e urbano, natural e social, fica fácil se tornar cúmplice (ou pior) de injustiça ambiental, de racismo, quando deparado com o poder opressor. Esse utopianismo urbofóbico simplista pode agregar desde os mais nostálgicos conservadores buscando refúgio em uma área de conservação até os mais extrópicos pós-hippies de alguma eco-startup.

Para Lactâncio, caberia a Deus restaurar a natureza ferida. Mas vivemos em uma era (de certa forma) mais secular. Nem todo mundo deixa de lado o messianismo: alguns o incorporam em uma nova, e novamente vazia, totalidade.

Em 1968, Stewart Brand abriu o primeiro “Whole Earth Catalog” com uma imagem do Planeta Azul, a Espaçonave Terra, um bote salva-vidas que todos nós dividimos. Ao lado da imagem, o texto: “Nós somos como Deuses, e é melhor ficarmos bons nisso”.

Aqui, diz a imagem, há uma bela totalidade: Gaia. Aqui, dizem as palavras, está o sujeito ecológico: “nós”. Que obviamente deixa sem resposta a famosa pergunta de Tonto ao Cavaleiro Solitário: “Nós quem, cara pálida?”

Diante da escala do que se aproxima, há um moralismo vulgar e perverso, um conjunto de boas maneiras ecológicas que é autolimitador. “Qualquer coisa”, diz o argumento, “é melhor do que nada”. Daí as soluções que buscam atrair as empresas, em busca de uma racionalidade econômica que leve em conta fatores ecológicos. O capitalismo, de acordo com o eminente ambientalista britânico Jonathan Porritt, é o único jogo a ser jogado.

E as empresas se adaptam, de acordo com suas prioridades. Apesar de manterem seus detratores do aquecimento global de estimação, as empresas de petróleo têm Divisões de Mudança Climática – menos para evitar as mudanças do que para planejar como continuar lucrando por meio delas. Companhias crescem em direção a territórios recentemente monetizados. Daí o breve boom dos biocombustíveis, e a suposta solução para os problemas do planeta levando à aceleração do desmatamento e a protestos por comida, antes que a indústria e o mercado entrem em declínio. A mão invisível supostamente limpa sua própria sujeira com o Comércio Internacional de Emissões de Carbono. Oportunidades e incentivos para acordos escusos e estimativas inflacionadas aumentam incessantemente, assim como as emissões. O mercado de carbono da UE continua inútil. Novos instrumentos financeiros se proliferam: derivativos climáticos que fazem o caos lucrativo. Os chamados “créditos da catástrofe” mudam de mãos em vastas quantias, porque a vergonha está entre as perdas aceitáveis no capitalismo.

Cidadãos se inquietam com seu próprio lixo – que todos deveríamos minimizar, sem dúvidas. Mas no Reino Unido apenas dez por cento do lixo tem origem domiciliar. Lembre-se que a ideia de remoção adequada do lixo é uma invenção da indústria de embalagens norteamericana, em 1953, em resposta a uma proibição local a garrafas descartáveis. O manto de culpa atomizada e privatizada sob o qual somos encorajados a trabalhar é ardil deliberado.

Numa escala maior, as mais conciliatórias organizações ambientalistas ofuscam o nexo entre degradação ecológica, capitalismo e imperialismo, do qual são parte. Em 2013 a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos deu seu “Prêmio de Liderança Climática Nacional”, por “enfrentar o desafio da mudança climática com pragmatismo, sensatez, e soluções de baixo custo”, para a Raytheon.

Ainda não foi definido se os drones da Raytheon serão gravados com o símbolo do prêmio, para que seu compromisso com a sustentabilidade esteja visível enquanto eles fazem chover morte sobre vilas afegãs.

A serviço do lucro, até o plantio de árvores para reduzir emissões pode se tornar violência. Muito pior do que um mero fracasso, o plano de redução de emissões através de reflorestamento da ONU – conhecido pela sigla REDD, em inglês – legitima a monocultura e a acumulação de terras, em nome do planeta, para que as corporações continuem a poluir. Em Uganda, 22.000 agricultores foram despejados em nome da “New Forests Company”, com o apoio da ONU. E caso precisemos de uma metáfora menos sutil, o projeto de ação climática em Guaraqueçaba, no Brasil, financiado pela Chevron, General Motors e American Electric Power, remove o povo Guarani de sua própria floresta empregando uma guarda armada chamada de “Força Verde”.

Ambientalismo por desapropriação, ou, nos termos da Rede Ambiental Indígena, colonialismo de carbono.

E as ações da indústria pesada sobem. O relatório do IPCC deixa os mercados financeiros intocados: o valor que tais mercados atribuem às reservas de petróleo, carvão e gás natural ignoram as metas internacionais de acordo com as quais tais reservas não apenas ainda estão no solo, mas lá devem permanecer. A bolha do carbono proclama que a escolha é entre uma catástrofe climática ou mais uma catástrofe financeira.

Ou, claro, as duas.

Esqueça qualquer totalidade humana espúria: há uma outra realidade moderna muito real e perigosa em posição de liderança, com a qual muitos ambientalismos falharam em lidar. Nas palavras de Jason Moore, “Wall Street é uma maneira de organizar a Natureza”.

O próprio termo “Antropoceno”, que acena com a ideia de seres humanos como os responsáveis pela mudança ecológica, engana com seu “nós” implícito. Afinal, seja no desmatamento do que é hoje o Reino Unido, na extinção da megafauna na América do Norte, ou em inúmeros outros exemplos, o Homo sapiens, anthropos, sempre influenciou seu -ceno, a ecologia da qual é elemento constituinte, mudando o mundo. A mudança que fez desses efeitos relativamente locais eventos planetários, definindo uma época digna de um novo termo geocronológico, também não foi o nascimento (por milagre, em várias versões) da indústria pesada, mas uma mudança na economia política de como nos organizamos, com um ciclo acelerado de lucro e acumulação.

Que é justamente a razão de Moore insistir que esta época de catástrofe potencial não é o “Antropoceno”, mas o “Capitalceno”.

Utopias são necessárias. Mas são insuficientes, e podem, em algumas formas, ser parte da ideologia do sistema, a totalidade ruim que nos organiza, aquece os céus, e condena milhões à peonagem em depósitos de lixo.

A utopia da “união” é uma mentira. Justiça ambiental significa reconhecer que não somos todos simplesmente passageiros do mesmo planeta. Não há um “nós” sem que haja um “eles”. Não estamos todos juntos.

O que significa combater o fato de que as multas por derramamentos tóxicos em áreas predominantemente de população branca são cinco vezes maiores do que em áreas habitadas por minorias. Significa não apenas fornecer meios de vida para as pessoas que sobrevivem revirando dejetos tóxicos, mas também se revoltar contra o imperialismo do lixo que os coloca ali, contra o neoliberalismo que cria uma competição entre países pobres pelo lixo dos ricos.

Significa se opor diretamente ao poder militar e à violência. Os assassinatos de ativistas ambientais e pelo direito à terra triplicou entre 2002 e 2012. Justiça ambiental significa acusar a Shell não apenas por transformar a região da Ogonilândia, na Nigéria, em uma fossa alucinógena, paisagem de um Ragnarok petroquímico, mas também por armar o estado nigeriano por décadas, durante e após o regime de Sani Abacha.

Comércio de armas, ditaduras e assassinato são políticas ambientais.

Os que atacam de cima contam não com a aquiescência, mas com a fraqueza dos que se opõem. O relatório Cerrell é claro: “todos os grupos socioeconômicos tendem a recusar a proximidade de grandes instalações, mas os estratos médios e superiores têm melhores recursos para efetivar sua oposição”.

Ou seja, os pobres são o alvo não porque não lutam, mas porque, sendo pobres, não têm meios para vencer. A luta por justiça ambiental é a luta contra isso.

***

Então, comecemos com a não-totalidade do “nós”. Daí podemos não apenas enxergar a tarefa à frente, mas podemos voltar a nossas utopias e honrar o que há de melhor nelas.

Aqueles rios de leite e vinho podem parar de ser excedente. Não há nada de tolo em tais aspirações: são o brilho dos olhos voltados à liberdade humana, para além da necessidade. Longe de ser meramente oníricos, esses são aspectos de uma utopia que inclui elementos de economia política, uma aspiração dos que lutam sem poder. Em Cockaigne, uma utopia medieval camponesa, chove queijo. Charles Fourier imaginou os mares feitos de limonada. A Grande Montanha de Doces. Esses são sonhos de sustança além do limite dos sonhadores, da redução do trabalho, de um mundo onde a humanidade exaurida descansa.

Podemos dispensar as criticas mais banais da utopia. De que não é convincente como um projeto, como se isso fosse o que se espera dela. Que é monótona, cansativa, insossa e incolor, sempre a mesma. O desdém de que aspiração visionária por coisas melhores sempre as torna piores. Tais mentiras prestam um serviço à estagnação.

Há críticas melhores a se fazer, em prol das próprias utopias e das intervenções cotidianas sem as quais elas correm o risco de se tornar válvulas para aliviar a pressão – e isso já é em si uma das tais críticas.

Utopia, para começo de conversa, nunca foi território exclusivo dos que clamam por emancipação. Colonizadores e expropriadores clamaram seu excelente senso ambiental contra a impotência de nativos preguiçosos por séculos, finalmente realizando o potencial de terras espuriamente declaradas vazias, trazendo “crescimento” a esses “desertos”. Ecotopias já serviram de justificativa para colonização e império muito antes dos programas REDD das Nações Unidas. Já justificaram muitos assassinatos.

Há uma visão de que o mundo é um jardim ameaçado. Sufocado com o crescimento tóxico. Jardinagem, entendida como guerra. E a tarefa é a “eliminação implacável das ervas que disputam por nutrientes, ar, luz e sol com as boas plantas.”

Nesse cenário, as boas plantas são o povo ariano. E as ervas são os judeus.

O SS-Obergrupenfuhrer e Reichminister de Agricltura do Terceiro Reich, Walther Darré, reuniu geologia, nostalgia, crenças pagãs, imperialismos, misticismo agrário e ódio racial em uma visão de renovação verde e administração planetária baseadas em genocídio. Ele era o mais influente teórico de Blut und Boden, “sangue e solo”, uma Ecotopia nazista de fazendas orgânicas e recuperação de florestas nórdicas, protegidas pelos soldados camponeses de puro sangue.

A árvore pode não ter crescido como Darré esperava, mas suas raízes não morreram. Uma ampla variedade de grupos fascistas ao redor do mundo ainda proclama fidelidade à renovação ecológica, a um mundo verde, e se mobilizam ostensivamente contra mudanças climáticas, poluição e desflorestamento, se opondo a estes três venenos em nome de um outro: a lógica da supremacia racial.

É claro que apologistas reacionários de empresas poluidoras chamam ativistas ecológicos de ‘fascistas’ rotineiramente. Isso não significa que tais ativistas não precisam se manter constantemente atentos para buscar e combater aqueles que realmente o são – muito pelo contrário.

Aspectos da má utopia eliminacionista podem ser encontrados muito além da autoproclamada extrema direita. Muito do pensamento ecológico vem de mãos dadas com uma utopia sentimentalista e espiritualista nebulosa, que a ecofeminista Chaia Heller chama de “Eco-la-la”. Misturada com um malthusianismo cru, formam uma variante combativa chamada de “Ecologia Profunda”. O erro dessa visão pode se transformar em uma perspectiva brutal, segundo a qual o problema seria o excesso populacional – ou seja, a própria humanidade. Sua versão mais excêntrica é o Movimento pela Extinção Humana Voluntária, defendendo o fim da reprodução. A mais cruel está nos pronunciamentos de David Foreman, do Earth First!, sobre a fome na Etiópia em 1984: “A pior coisa a se fazer na Etiópia é prestar ajuda – a melhor seria apenas deixar que a natureza busque seu próprio equilíbrio, deixar as pessoas morrerem de fome.”

Essa é uma utopia ecológica genocida. Que também atende pelo nome “apocalipse”.

Apocalipse e utopia: o fim de todas as coisas, e o horizonte da esperança. Longe de opostos, os dois sempre foram inseparáveis. Às vezes, como em Lactâncio, a relação imaginada é cronológica, ou até mesmo de causa e efeito. O primeiro, o apocalipse, o fim dos tempos, abre o caminho para o outro, o que há do outro lado, o recomeço.

Algo aconteceu: agora eles estão mais inseparáveis do que nunca. “Hoje”, anuncia o sinistro filósofo Emil Cioran, “reconciliados com o terrível, assistimos uma contaminação da utopia pelo apocalipse (…). Os dois gêneros (…) que antes nos pareciam tão diferentes, se interpenetram, se misturam, formando um terceiro”. Tal reconciliação com o terrível, tal interpenetração, é vívida em tais devaneios da Ecologia Profunda por um mundo sem humanidade. O flagelo se tornou o sonho.

Não se trata exatamente de uma distopia, mas de uma terceira forma – apocatopia, utopalipse – e está entre nós. Estamos cercados por uma cultura de ruínas, sonhos de cidades em queda, um mundo despovoado explorado por animais. Conhecemos os clichês. Plantas tomam Wall Street como se pertencesse a elas, ao invés do contrário; a vastidão do lixo, dunas de restos; as sobras de alguma ponte vagamente reconhecível mas agora quebrada, um portentoso trampolim para o vazio. Et cetera.

É como se ainda não enxergássemos nada melhor além dos destroços, porque nos falta força. Ou como se houvesse um esforço para voltar ao “nós”, mas negativamente – “nós” somos justamente o problema, e a ausência de “nós” se torna a solução. A melancolia é dissimulada. Há entusiasmo, um investimento desmentido em tais supostos avisos, nessas catástrofes. Os profetas do apocalipse não enganam ninguém. Muito tempo antes de Shelley imaginar o dia em que “a Abadia de Westminster resistirá, deformada em ruínas sem nome, em meio ao pântano despovoado”, essas já eram cenas de beleza.

Todos já passamos boquiabertos por páginas com imagens de Chernobyl, da ilha deserta de Gunkanjima no Japão, ou das ruínas de Detroit, em páginas clickbait de “Os Dez Lugares Abandonados mais Incríveis”. Isso não deveria gerar culpa. Nosso horror com as tragédias e crimes por trás de tais cenas é real: ele coexiste com nosso fascínio, sem apagá-lo. Não escolhemos o que nos espanta. As imagens que nos fascinam não nos reduzem a uma política em particular. Mas certamente a beleza amoral de nossas apocatopias podem acabar em algo brutal e maléfico, um desgosto eliminacionista.

Não podemos ler tudo isso como mero diagnóstico. O que mais podemos fazer com o dilúvio de filmes sobre dilúvios? Com o empilhamento, como escombros sob as asas do anjo da história de Benjamin, de textos sobre pilhas de escombros.

Os sintomas mudam com o mundo. Uma andorinha só não faz verão, mas não é preciso ser um Žižek para perceber uma mudança cultural quando, no filme Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro, Idris Elba grita “Hoje nós cancelamos o apocalipse!”. Talvez já estejamos fartos do fim, e com essa fala damos início a algo diferente: um apocalipse que falha. Estamos de volta, com esperança reforçada.

Uma mudança parecida acontece com o surgimento da geoengenharia, ideias que já foram ficção e excentricidade. Agora, planos de borrifar ácido na estratosfera em escala planetária para criar uma camada de partículas capazes de espelhar radiação, remover CO2 da atmosfera, trazer água bêntica à superfície para resfriar oceanos, são propostos por cientistas premiados com Nobel, e discutidos no New Yorker e no MIT Technology Review. Uma nova esperança, o retorno da agência humana, mangas arregaçadas resolvendo o problema. Com ciência.

Essa gambiarra planetária, contudo, é altamente especulativa, controversa, e, de acordo com pesquisa recente do Centro Helmholtz, na Alemanha, totalmente inadequada para interromper o caos climático até na mais generosa das projeções. É absurdo que tais planos pareçam mais racionais do que a adoção das medidas sociais para cortar emissões que são inteiramente possíveis de imediato, mas que requerem uma transformação de nosso sistema político.

É um clichê da esquerda dizer que hoje em dia é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo: Andreas Malm lembra que com a mania de geoengenharia é mais fácil imaginar a transformação deliberada do planeta inteiro do que da economia política. O que inicialmente parece um novo Prometeu é na verdade capitulação, a rendição absoluta ao status quo. Utopia se torna a exoneração do poder estabelecido, cujas linhas vermelhas não devem ser cruzadas.

Qual o preço da esperança?

***

Setenta por cento do staff da fábrica da Union Carbide em Bhopal, Índia, tiveram pagamento retido por se recusarem a violar as práticas de segurança. Sem pessoal suficiente, inspeções eram feitas a intervalos insuficientes. Nenhum dos seis sistemas de segurança funcionava devidamente (se é que funcionassem de alguma forma). O sindicato protestou e foi ignorado.

No dia 3 de dezembro de 1984, vinte e sete toneladas de isocianato de metila foi despejado da usina. Entre 8 e 10 mil pessoas morreram naquela noite; mais 25 mil morreram desde então. Meio milhão de feridos, dos quais 70 mil permanentemente desfigurados. A taxa de nascimentos com alguma deformação na área é imensamente alta. A água no solo ainda tem níveis de toxinas muito além do considerado seguro.

Inicialmente, o governo indiano exigiu US$3,3 bilhões em compensação, que a Union Carbide resistiu nos tribunais com um gasto de US$50 milhões. Por fim, em 1989, a companhia aceitou um acordo para pagar uma indenização de US$470 milhões, apenas 15 por cento do valor inicial. Os sobreviventes receberam, como compensação vitalícia, entre US$ 300 e 500 por pessoa. De acordo com Kathy Hunt, relações públicas da Dow-Carbide em 2002, “US$ 500 é bom o bastante para um indiano”.

Por que retomar essa história terrível? Não apenas porque, como se sabe, Warren Anderson, ex-CEO da Carbide, jamais foi extraditado para a Índia, apesar de um mandado de prisão ter sido expedido em seu nome. Nem porque a Carbide, ou a Dow, que a comprou em 2001, negam qualquer responsabilidade e se recusam a recuperar a área ou a responder a intimações de tribunais indianos. Há outra razão.

Em 1989, o Wall Street Journal anunciou que executivos estadunidenses estavam extremamente ansiosos com esse primeiro grande teste da responsabilidade de uma corporação sobre um acidente no Terceiro Mundo. Por fim, em outubro de 1991, veio o momento chave para a discussão: a suprema corte indiana manteve o acordo da Carbide, e rejeitou todos os outros pedidos contra a empresa, conferindo assim proteção legal à companhia. E os preços de suas ações imediatamente dispararam. Porque Wall Street sabia que suas prioridades prevaleceram. Foi o momento de alívio.

Uma interpenetração de apocalipse e utopia no mundo real. Apocalipse para aqueles milhares que se afogaram em seus próprios pulmões. E para as corporações, agora asseguradas que os pobres, diferente dos lucros, são descartáveis? A utopia cotidiana.

Essa é outra das limitações da utopia: nós já estamos em uma, mas não na nossa.

Então, vivemos no apocalipse.

***

Terra: a confirmar. Utopia? Apocalipse? É pior ter esperança ou desespero? Só cabe uma resposta: sim. É pior ter esperança ou desespero.

Má esperança e desespero ruim são mutuamente constitutivos. O capitalismo te pega na ida ou na volta. “Nós” podemos resolver o problema que “nós” criamos. E quando “nós”, os geoengenheiros, falharmos, “nós” podemos sobreviver e lidar com o peso na “nossa” consciência acumulando comida enlatada.

Há um otimismo melhor? Há uma maneira certa de perder a esperança? Depende de quem tem esperança, e em quê, em quem – e contra quem. Nossa esperança precisa ladrar e morder.

Não seremos derrotados pelas demandas de burocratizar nossas próprias propostas. Na verdade, não faltam modelos a ser considerados, mas crítica radical do cotidiano existe, mesmo que faltem alternativas. Podemos ir além: se levarmos a utopia a sério, como uma reformulação total, concluímos que não podemos pensá-la do lado de cá. É o processo de fazê-la que nos permitirá pensá-la. É a fidelidade à utopia que fundamenta nossa recusa em explicá-la ou planejá-la.

Deveríamos ser utópicos com todas as nossas forças. Junto com uma humanidade plena, deveríamos imaginar também ilhas voadoras, bairros de coral autoconstruídos, carros fotossintetizantes criados a partir de amostras de medula óssea. Grandes Montanhas de Doces. Porque assim nunca confundiremos tais sonhos com planos, nem com absurdos.

Utopias são novos Rorschachs. Colocamos nossas preocupações e nossas ideias para fora, e, ao sonhar, dobramos o papel para, abrindo-o, revelar novas formas. Podemos fazê-lo com algum grau de intencionalidade, mas o que realmente criamos está muito além de nossa capacidade de planejar. Nossas utopias devem ser aproveitadas e admiradas, elas são feitas de nossas preocupações e revelam muito sobre nosso presente, sobre nossos egos pré-utópicos. Elas devem ser interpretadas. Assim como as utopias de nossos inimigos.

Entender aquilo a que nos opomos requer respeito. A Terra não está sendo destruída porque os destruidores são estúpidos, irracionais, por erro, ou por falta de informação. Precisamos dar continuidade à nossa luta com toda a urgência, e ganhar discussões, mas não devemos nos enganar: qualquer que seja a auto-ilusão, culpa, ou eventual lástima de um CEO em um mundo de maximização de lucros é perfeitamente racional que as instituições de nosso status quo façam o que fazem. Indivíduos e eventualmente algumas organizações podem resistir em casos específicos, mas só ao recusar a lógica do sistema. O que, logicamente, o próprio sistema não pode fazer.

A luta por justiça ecológica é também uma luta contra tal sistema, porque há imensos lucros na injustiça. A batalha não será sempre sobre mudança climática catastrófica ou expropriação de terra: no neoliberalismo, até disputas locais sobre momentos fugazes de verde são lutas contra o poder. Os protestos que abalaram a Turquia em 2013 começaram com os planos do governo para construir sobre o Parque Gezi, um dos últimos espaços verdes em Istambul.

Ao invés de vociferar união, nós lutamos melhor se aceitarmos que ela não existe. Se aceitarmos que existem lados. Nos aproximamos de um momento crítico. Ao invés de esperar por união, nossa melhor esperança está no conflito. Nosso objetivo, um aspecto da nossa utopia, deveria ser essa estratégia de tensão.

Há um pessimismo ruim, assim como há um otimismo ruim. Contra a rendição grosseira de, digamos, um James Lovelock, há pelo menos razões científicas plausíveis para sugerir que não estamos ainda em um ponto onde não há mais volta. Em todo caso, até um mundo sem conserto é digno de luta. Precisamos de um novo tipo de beco sem saída, uma mudança social irrevogável, que requer um novo tipo de pessimismo, um olhar fixo e determinado a quão ruim a situação está.

O pessimismo tem uma reputação ruim entre ativistas, que morrem de medo de se render. Mas ativismo sem o pessimismo que resulta do rigor é apenas sentimentalismo.

Há esperança. Mas para que seja real, e farpada, para que se torne em uma arma, não podemos nos recostar nela. Precisamos testá-la, sujeitá-la às tensões do quase desespero que é apropriado. Precisamos de utopia, mas tentar pensar em utopia neste mundo, sem raiva, sem fúria, é um luxo que não podemos ter. Diante de tudo que é feito, não podemos pensar em utopia sem ódio.

Até nossos fins-do-mundo são muito aristocráticos. Ponhamos logo um fim ao apocalipse-em-um-só-país. Ao contrário, brindemos à utopia antinômica! Uma esperança que renuncie à esperança dos que estão no poder.

Os críticos supostamente sensatos são os mais profundamente irrealistas. Como diz Joel Kovel, “nós temos a acumulação de capital, e podemos ter a integridade ecológica, mas não podemos ter os dois juntos”. Acreditar no contrário seria excêntrico, se não fosse tão perigoso.

Em 2003, William Stavropoulos, CEO da Dow – que, lembre-se, não tem nenhuma responsabilidade sobre os mutilados químicos de Bhopal – disse em uma nota à imprensa que “responsabilidade ambiental é bom para os negócios”.

E isso, no sentido pejorativo, é a utopia mais absurda de todas.


China Miéville
Trad.: Pedro Salgado

7.11.17

censura-violência

1918-2017

A censura é uma forma eficaz e profunda de violência, e a violência se tornou em nosso tempo horizonte e limite. Não afundemos demais no lugar-comum, mas registremos o fato de que neste fim de século a sua penetração e a sua explosão fazem realmente pensar. sobretudo porque, ao contrário do que ocorreu noutras épocas e noutras civilizações, ninguém gosta de assumi-la francamente; os seus próprios autores e executantes não apenas a renegam ostensivamente, como a condenam. Haja vista na instância suprema os países ricos, que vendem armas aos outros, cultivam os pontos de conflito no mapa-múndi, mas não obstante lançam apelos veementes e patéticos a favor da paz.

Talvez isso venha desde sempre, pelo menos no Brasil, que é um país pacífico, sendo qualquer violência, no dizer das autoridades e respectivos ideólogos, “contrária à índole do nosso povo”.

Quando os homens da minha geração começaram a ler e aprender, reinava na educação caseira e escolar uma concepção tecida sutilmente de violência inculcada, mas logo negada, e que por isso mesmo se incrustava a fundo em nossa consciência burguesa. Esse padrão comportava o que se pode chamar um refinamento estético da violência, com o culto do penacho, do uniforme vistoso, do rompante heroico, do gesto marcial cristalizado no quadro ou na estátua, do movimento coreográfico das batalhas de museu – e uma insensibilidade coletiva em face da maioria esmagada pela miséria, vista como fato natural. Nós entrávamos por aí com soldadinhos de chumbo, espadas e capacetes de folha e a ideia de uma profunda nobreza da força. “Assim nos criam burgueses”, como diz o poeta.

Mas, ao mesmo tempo, impunha-se a ideia de um Brasil pacífico por natureza, cordato e generoso, inimigo desta mesma força, com uma história onde o sangue belicoso só corria derramado no campo da honra para defender o solo invadido ou ameaçado, dos holandeses aos paraguaios. Hoje as modas são outras entre os intelectuais, e talvez até se exagere a brutalidade da nossa história, que apenas não fica devendo nada à de outros países sob este aspecto. No entanto, creio que ainda predomina a velha barragem ideológica, mantida com uma pertinácia que chega a espantar, nessa era de violência desmascarada; e que decerto alcança com eficiência os seus fins mistificadores, como auto-sugestão consciente ou inconsciente.

Se não me engano, o primeiro historiador que mostrou a concatenação da violência na história republicana foi Edgard Carone, não faz muito tempo. Na sua obra, é impressionante a sucessão ininterrupta da ferocidade, numa cadeia de chacinas, conflitos sanguinolentos, intervenções armadas cheias de selvageria. Em outros historiadores isso tudo, quando aparecia, aparecia esbatido ou isolado, facilitando a ideologia da exceção lamentável. Não há dúvida de que a clava do hino nacional, se nem sempre foi justa, é invariavelmente forte. Seja como força física de compressão, seja como pressão sobre a inteligência e a criatividade, que é o caso da censura.

Violência física e violência mental são na verdade violência social, como fica mais evidente neste fim de século especialmente bruto. Ela é fruto da desigualdade econômica, que requer força para se manter, porque sem força a igualdade se imporia como solução melhor, que na verdade é. Hoje, é espantoso ouvir e ler os pronunciamentos das autoridades de todos os níveis, que falam com veemência crescente que a miséria do povo é intolerável, que a concentração da riqueza deve ser mitigada, que a pobreza é um mal a ser urgentemente superado – não raro com estatísticas demonstrativas. É espantoso, porque até pouco tempo tais afirmações eram consideradas coisa de subversivos; e é espantoso porque isso é dito, mas quem diz faz tudo para que as coisas fiquem como estão, e para que os que querem mudar sejam devidamente enquadrados pela força. Não há dúvida de que a censura funciona como retificação, como dolorosa ortopedia feita para lembrar aos incautos a obrigação de não passar da demagogia à luta real pela democracia. A ideia, a palavra, a imagem podem ser instrumentos perigosos aos olhos dos que desejam apenas escamotear, operando conscientemente no plano da ideologia para abafar a verdade. Censura, portanto, e censura como arma para formar com outras o arsenal de manutenção da desigualdade – econômica, política, social. Por isso, mais em nosso tempo do que em outros, nos quais eram menos variados e atuantes os meios de expressão, devemos estar cada vez mais preparados para lutar contra a violência dentro da qual vivemos em todos os níveis. Inclusive a censura.

Há certas expressões significativas: “O fato é homem e a palavra é mulher; um homem vale vinte mulheres”; ou: “Contra fato não há argumento”. Elas querem dizer que, diante da evidência do real, não cabem as argumentações abstratas em contrário, o que em princípio parece estar certo. Mas, na verdade, significam também coisas como “o que vale é a força” ou “ideia não resolve”. Assim, pregam o reconhecimento do fato consumado, a capitulação diante do que se impôs no terreno prático, negando o direito de discutir, de argumentar para mudar a realidade. E então se tornam sinistras.

Sob este aspecto, o papel do intelectual consiste em fazer o contrário do que tais expressões postulam. Em não aceitar o fato como necessidade inelutável, nem considerar inapelável a circunstância que o formou. Em 1973, instigados por Fernando Gasparian, alguns intelectuais se juntaram a ele para fundar uma revista, a que deram o nome de Argumento, para marcar o direito da razão em funcionar contra a força. Os tempos eram bem mais duros do que agora e a censura à imprensa era maciça. Por isso mesmo, a nossa decisão foi não aceitar o fato como inevitável, mas lutar na medida das forças para mudar, sugerir alternativas, abrir. A apresentação foi escrita por Paulo Emilio Salles Gomes e acaba assim:

Nascemos sem ilusões e não está no nosso programa nutri-las. A independência custa caro e não encoraja as subvenções. Não temos propriamente o que vender mas nos achamos em condições de propor um esforço de lucidez. Esta não é artigo de luxo ou de consumo fácil mas em qualquer tempo é alimento indispensável pelo menos para alguns. Sua raridade é, aliás, sempre provisória; tudo que a lucidez revela tende a se transformar em óbvio.Contra fato há argumento.

No terceiro número a revista recebeu o aviso de que deveria ser submetida à censura prévia, e, como não quisemos aceitar, ficamos impedidos de publicá-la e ela acabou, afinal, depois de uma luta que obrigou o presidente da República a baixar decreto, cortando a nossa possibilidade de recorrer à Justiça. Portanto, o resultado final parece ter sido – que contra fato não há argumento. Mas talvez seja possível interpretar de outro modo, dizendo que tanto há argumento contra fato, que os zeladores do fato consumado, da situação intolerável, usam toda a força contra a lucidez da razão, para apagarem o argumento correto e manterem o fato distorcido. De certo modo, isso é o resumo das aventuras da cultura em face da censura, no Brasil de hoje.

O que esta vem representando como sufocação é incrível. Nem é possível avaliar o que significa na deformação da mentalidade de toda uma geração, crescida em regime de censura drástica de rádio, televisão, teatro, jornal. Censura acompanhada de medidas coercitivas, que vão até a morte, como foi o caso de Vladimir Herzog.

Vlado foi a maior vítima da liberdade de opinião e o seu sacrifício representa simbolicamente da maneira mais nobre a luta por ela. Representa a atuação da inteligência em frente da força bruta que se arma para esmaga-la. E até a sua fragilidade física faz pensar no texto famoso de Pascal:

O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmaga-lo: um vapor, uma gota d’água bastam para mata-lo. Mas, ainda que o universo o esmagasse, o homem seria mais nobre do que aquilo que o mata, porque ele sabe que morre e sabe a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso.

A diferença é que os agentes da tortura em que se prolongou a censura sabem que matam, na sua força enorme em relação ao intelectual frágil – e isso agrava infinitamente a sua culpa. Mas permanece a imagem do homem isolado, débil, armado da inteligência e da razão, sabendo que elas são mais nobres, mais fortes na escala de valores do que a força que se armou para destruí-lo. Vlado foi, por isso, o eixo em torno do qual a violência de um certo momento girou e declinou. Um frágil caniço pensante que encarnava toda a dignidade e alcance do pensamento.


Reagir e lutar, portanto, sem ilusões excessivas, como diz a nota de Paulo Emilio. Nesta reta de chegada do século, as contradições sociais são tão evidentes, que as soluções de igualdade se impõem. Daí o esforço redobrado dos que as querem esmagar, desviar ou desfigurar, mesmo quando as usam demagogicamente nos seus pronunciamentos. Assim, a perspectiva é de luta, não de tranquilidade. Haverá alguns oásis no vasto deserto e momentos de miragem, antes de se atingir o alvo, que é distante. Por isso, é preciso afirmar a razão, condenar a repressão que no campo da inteligência é censura e, como vimos, vai até a morte dos discrepantes. Estamos no fim de um passado que começou a ser dissolvido com a revolução industrial e no começo de um futuro assinalado pela liberação da energia atômica. É urgente pensar segundo esta escala, enfrentando a violência, que é o esforço desesperado para desviar o futuro, mediante os salvados indesejáveis de um passado moribundo. Para o intelectuais, a luta começa pela oposição à censura, que é a sua mordaça aviltante.

Antonio Candido


6.11.17

chomsky na colônia dos alienados


Quando se tem a mídia e o sistema educacional sob controle absoluto e a universidade assume uma postura conformista, é possível vender a versão que se quer da história.

A imagem do mundo que é apresentada à população via mídia capitalista tem apenas uma pálida relação com a realidade. A verdade dos fatos encontra-se enterrada de baixo de montanhas e montanhas de mentiras.


1.11.17

dialética da escola-prisão


vinte e três

Nem todos os alunos têm as mesmas experiências com os professores engajados. Nem ao menos sentem simpatia. Muitos estão acostumados às estruturas burguesas de dominação do ensino panóptico e ao pensamento conformista. Por isso, o estranhamento é caracterizado por esses alunos como boicote.


30.10.17

a livraria

1894 - 1963

Parecia mesmo um lugar estranho para encontrar uma livraria. Todas as outras empresas comerciais da rua destinavam-se a prover as necessidades mínimas da movimentada escória do bairro. Nessa rua, a principal via de circulação, havia um brilho e uma vida especiais, produzidos pela rápida passagem do tráfego. Era quase arejada, quase alegre. Mas por toda a volta grandes trechos de favela pululava em sua úmida clausura. Os habitantes faziam todas as suas compras na rua principal; passavam segurando peças de carne que pareciam viscosas mesmo através do embrulho de papel; pechinchavam linóleo em portas de estofadores; mulheres, de chapéu e xales pretos, passavam arrastando os pés em direção ao mercado com sacolas surradas de palha tecida. Como é que essas pessoas podia, me perguntei, comprar livros? E no entanto aí estava ela, uma loja minúscula; e as vitrinas tinham prateleiras, e havia as lobadas marrons dos livros. À direita um grande empório inundava a rua com sua mobília fabulosamente barata; à esquerda as vitrinas discretas e cobertas de cortinas de um restaurante anunciavam em descascadas letras brancas os méritos das refeições de seis centavos. No meio, tão estreita que mal impedia a junção da comida com a mobília, estava a lojinha. Uma porta de um metro e meio de vitrina escura, era essa toda a extensão da fachada. Via-se aqui que a literatura era um luxo; aqui ela tomava seu lugar proporcional, nesse lugar de necessidade. Mesmo assim, o consolo era que ela sobrevivera, definitivamente sobrevivera.

O proprietário da loja estava parado à porta, um homem pequenino, de barba grisalha e com olhos muito vivos atrás dos óculos que encimavam seu nariz comprido e agudo.

- Os negócios vão bem? – perguntei.

- Eram melhores no tempo do meu avô – ele me respondeu, sacudindo a cabeça com tristeza.

- Nós ficamos cada vez mais filisteus – sugeri.

- É a nossa imprensa barata. O efêmero sobrepuja o permanente, o clássico.

- Esse jornalismo ou, pode-se dizer, esse cotidianismo trivial é a maldição de nossa era – concordei.

- Serve só para... – Ele gesticulou com as mãos, como se procurasse agarrar a palavra.

- Para o fogo.

O velho foi enfático ao dizer, em tom de triunfo:

- Não; para o esgoto.

Sorri, solidário com sua veemência.

- Concordamos agradavelmente em nossa opinião – falei. – Posso dar uma olhada em seus tesouros?

Dentro da loja havia um lusco-fusco marrom, recendendo a couro velho e o cheiro daquela poeira sutil e fina que se agarra às páginas de livros esquecidos, como que preservando seus segredos – como a areia seca dos desertos asiáticos soba a qual, ainda incrivelmente intactos, jazem o tesouro e o lixo de mil anos atrás. Abri o primeiro volume que me caiu nas mãos. Era um livro de estampas de moda, detalhadamente pintadas à mão em magenta e púrpura, marrom, escarlate e castanho e todos aqueles tons diluídos de verde que uma geração ainda anterior tinha denominado Os sofrimentos de Werther. Beldades em saia-balão deslizavam através das páginas com a desenvoltura de navios embandeirados. Representavam-se os pés magros, achatados e pretos, como folhas de chá destacando-se sob suas anáguas. Seus rostos eram ovais, rodeados por cabelos de um negro brilhante, e exprimiam uma pureza imaculada. Pensei em nossos manequins modernos, com seus saltos altos e o arco de seus pés, seus rostos achatados e o sorriso enfadado. Era difícil não preferir o passado. Comovo-me facilmente com símbolos; há algo de Quarles em minha natureza. Não disponho de uma mente filosófica, prefiro ver minhas abstrações concretamente retratadas. E ocorreu-me então que, se quisesse um símbolo para a santidade do casamento e a influência do lar, não poderia escolher melhor do que dois pezinhos escuros como folhas de chá espiando decorosamente sob bainhas de imensas anáguas. Ao passo que saltos altos e pés arqueados deveriam simbolizar – ah, bem, o oposto.

A corrente de meus pensamentos foi desviada pela voz do velho.
- Imagino que você seja amante da música – disse ele.

Ah, sim, eu era um pouco; e ele me ofereceu um volumoso fólio.
- Alguma vez já ouviu isto? – ele perguntou.

Robert, o Demônio; não, eu não tinha ouvido. Eu não duvidava de que era uma lacuna em minha educação musical.

O velho pegou o livro e puxou uma cadeira dos sóbrios recessos da loja. Foi então que percebi um fato surpreendente: o que eu imaginara, a um olhar descuidado, ser um balcão comum, percebia agora ser um estranho piano quadrado. O velho sentou-se diante dele.

- Você deve perdoar qualquer defeito na afinação – disse, voltando-se para mim. – Um antigo Broadwood, georgiano, sabe, e já viu muito trabalho em cem anos.

Abriu a tampa, e as teclas amarelas sorriram para mim no escuro como os dentes de um cavalo antigo.

O velho folheou as páginas até encontrar o trecho desejado.

- O tema do balé – disse. – É lindo. Escute.

Suas mãos ossudas e um tanto trêmulas começaram subitamente a movimentar-se com incrível agilidade, e, fraca e tilintante contra o rugido do tráfego, ergueu-se uma melodia alegre e saltitante. O instrumento sacudia consideravelmente, e o volume de som era fino como o fio d’água de um regato atingido pela seca mais era afinado, e a melodia lá estava, tênue, aérea.

- E agora a canção dos bêbados – exclamou o velho, entusiasmando-se com sua execução. Tocou uma série de acordes que modulavam num crescendo, até o clímax; tão supremamente operístico que era sem dúvida alguma uma paródia daquele momento de tensão e suspense, quando os cantores se preparam para uma explosão de paixão. E então chegou o coro dos bêbados. Imaginavam-se homens envoltos me mantos, rudemente joviais, com o vazio de garrafões de vinho de papelão.

Versiam’a tazza piena
Il generoso umor.

A voz do velho era aguda e rachada, mas seu entusiasmo compensava quaisquer problemas de execução. Eu nunca tinha visto alguém imerso em tão absoluto deleite.
Ela passou mais algumas páginas.

- Ah, a Valse Infernale – disse. – Esta é boa. – Houve um pequeno e melancólico prelúdio e em seguida a melodia, talvez não tão infernal como se era levado a esperar, mas mesmo assim bastante agradável. Olhei por cima do ombro dele e cantei com seu acompanhamento.

Demoni fatali
Fantasmi d’orror,
Dei regni infernal
Plaudite al signor

Um grande caminhão de cerveja, movido a vapor, passou rugindo com seu trovão aniquilador e fez desaparecer por completo a última linha. As mãos do velho ainda se movimentavam sobre as teclas amarelas, eu abria e fechava a boca; mas não havia som de palavras ou de música. Era como se os demônios fatais, os fantasmas de horror, tivessem irrompido subitamente nesse lugar tranquilo e perdido.

Olhei para fora através da porta estreita. O tráfego corria sem cessar; homens e mulheres passavam apressados, com rostos tensos. Fantasmas de horror, todos eles: habitavam reinos infernais. Lá fora, homens vivam sob a tirania das coisas. Todos os seus atos eram determinados por ordens da mera matéria, por dinheiro, e pelas ferramentas de seu ofício e pelas leis irrefletidas do hábito e das convenções. Mas aqui eu parecia a salvo das coisas, vivendo a um passo da realidade; aqui, onde um senhor barbado, improvável sobrevivente de alguma outra era, corajosamente tocava a música da romança, não obstante o fato de que fantasmas de horror pudessem vez por outra abafar o som dela com sua turba.

- E então, vai levar? – A voz do homem invadiu meus pensamentos. – Posso deixar por cinco xelins.

Ele segurava o volume grosso e gasto em minha direção. Seu rosto refletia uma ansiedade tensa. Eu via como ele estava ansioso por meus cinco xelins, como lhe eram – pobre homem! – necessários. Ele tocou, pensei com uma amargura nada razoável, ele tocou simplesmente para mim como um cachorro treinado. Senti-me ofendido. Ele era apenas um dos fantasmas de horror disfarçado em anjo nesse paraíso de contemplação um tanto cômico. Dei-lhe duas moedas, e ele começou a embrulhar o volume me papel.

- Sabe, fico triste em me separar dele – comentou. – Sou muito ligado a meus livros, mas eles sempre têm de ir.

Suspirou com uma emoção tão obviamente genuína que me arrependi da opinião que fizera dele. Era um habitante renitente dos domínios infernais, exatamente como eu.

Lá fora começavam a anunciar os jornais da tarde: um navio afundado, trincheiras capturadas, o novo discurso emocionante de alguém. Olhamos um para o outro – o velho vendedor de livros e eu – em silêncio. Nós nos compreendíamos sem palavras. Ali estávamos nós em particular, e ali estava toda a humanidade em geral, todos enfrentando o horrível triunfo das coisas. Nesse contínuo massacre de homens, no sacrifício forçado desse velho a matéria triunfava igualmente. E caminhando para casa através do Regent’s Park, eu também descobri a matéria triunfando sobre mim. Meu livro era despropositadamente pesado, e eu me perguntei o que poderia fazer com uma partitura de Robert, o Demônio quando chegasse em casa. Seria apenas mais uma coisa a me pesar e me atrapalhar; e naquele momento ela era pesada, ah, abominavelmente pesada. Inclinei-me sobre a grade que rodeia o lago ornamental e, o mais discretamente que pude, deixei cair o livro entre os arbustos.

Com frequência penso que seria melhor não tentar a solução do problema da vida. Viver já é bastante difícil sem complicar o processo pensando nele. A coisa mais sábia, talvez, é aceitar a “aborrecida condição da humanidade, nascida sob uma só lei, todos uns presos aos outros” e parar por aí, sem tentar reconciliar os incompatíveis. Ah, a absurda dificuldade de tudo isso! E, além do mais, gastei cinco xelins, o que é sério, sabe, nesses tempos difíceis.

Aldous Huxley
Trad.: Eliana Sabino



28.10.17

o pato donald no poder?

Singer

Disney expulsa o setor secundário de seu mundo, de acordo com os desejos utópicos da classe dominante de seu país. Mas, ao fazê-lo, cria um mundo que é uma paródia do mundo do subdesenvolvimento. Só há os setores primários e terciário no universo de Disney.

Isto significa, como já vimos, a divisão do mundo em espírito e matéria, em cidade e campo, em metropolitano e selvagem bonzinho, em monopolistas da força mental e monossofredores da força corporal, em moralmente inflexíveis e moralmente imóveis, em pai e filho, em autoridade e submissão, em riqueza merecida e pobreza igualmente merecida.

Disney expulsa o produtivo e o histórico de seu mundo, assim como o imperialismo proibiu o produtivo e o histórico no mundo do subdesenvolvimento. Disney constrói sua fantasia imitando subconscientemente o modo como o sistema capitalista mundial construiu a realidade, tal como a deseja continuar armando.

A miséria enlatada no vazio, que resgata e libera o polo hegemônico o qual cultiva e consome, e é servida ao dominado como prato único e eterno. Ler Disneylândia é tragar e digerir sua condição de explorado.

Basta de clichês: Avestruzes! para permanecer no mundo animal que carrega a inocência do homem. Cultura hipócrita e classe cínica que diariamente em suas fábricas e emissões comercializa e banaliza o sexo e se erige no censor moralista de uma juventude cuja "crise contemporânea" produz, consome e reprime para produzir, consumir e reprimir mais e melhor.

Disney-Cosmos não é o refúgio na esfera do entretenimento ocasional, é nossa vida cotidiana da dominação e da submissão social.

Colocar o Pato em foco é questionar as diversas formas de cultura autoritária e paternalista que impregnam as relações do homem burguês consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza. É uma interrogação sobre o papel do indivíduo e de sua classe no processo de desenvolvimento histórico, sobre o modo de fabricar uma cultura de massas pelas costas das massas. É também, mas intimamente, uma interrogação sobre a relação social que estabelece o pai com seu filho. Um pai que recusa ser determinado por sua mera condição biológica e ajuíza a solapada manipulação e repressão que realiza com seu próprio reflexo.

Ariel Dorfman e Armand Mattelart
Trad.: Álvaro de Moya


27.10.17

construir um ideal


Este papo de que "tenho de pagar as contas e cuidar da família" não pode justificar o silêncio quando a perseguição política vira uma arma muito perigosa nas mãos dos timoneiros da máquina da lama.

Brasil é uma colônia fascista. E essa desculpa só fode mais com o oprimido. Aumenta a exploração econômica e social e serve para a manutenção da casta cheia de privilégios. A igualdade social está muito longe de ser atingida como uma realidade. É sobre as bases da igualdade que devemos ter em mente para a construção do bem comum, de um bem estar social, mas enquanto "vermos nossos semelhantes como competidores, encararemos a vida como um concurso ou um classificado em que disputamos vagas e salários - meras recompensas por nossa submissão".



24.10.17

a paixão do mundo



[...]

O mundo é assim feito: até mesmo os imbecis têm explicações. Tudo tem um sentido para as pessoas: uma configuração urbana, um rio, um gato. Somos todos dicionários ambulantes; compramos tal calça comprida porque cremos "que ela nos dá um certo look". Cada objeto em nossa casa conta uma história, cada ato tem um sentido, todos os nossos encontros são o objeto de uma leitura afetiva e mental. Vivemos num mundo de definições e narrativas - o livro da vida.

Há, também, as Grandes Narrativas, narrativas explicativas do mundo. Todos nós conhecemos pessoas para quem todos os males de nosso país vêm do pecado original, ou dos imigrantes, segundo a escolha da crença. O homem e a mulher são animais que buscam sentido; nada os preenche mais do que o que se denomina a grande narrativa que pretende decifrar o mundo, a sociedade, a história. Os contos de nossa infância são substituídos por escritos mais ou menos míticos que nos servem de companheiros de caminhada: o marxismo, o muro de Berlim, a guerra das civilizações, o islã, o mercado, o liberalismo, o fim das ideologias, a espera do apocalipse, a emancipação humana são algumas das sagas da humanidade. As crônicas do cotidiano, da vida amorosa, das relações familiais, todas as anedotas e os dramas pessoais formam a trama mais modesta de nossas narrativas individuais.

O anarquismo também repousou sobre uma Grande Narrativa, com variantes. A gesta anarquista inclui figuras heroicas como Malatesta, Makhno, os combatentes da Guerra Civil espanhola ou do antifascismo; acontecimentos como a Insurreição, a Revolução; narrativas como "a guerra de classes", "a exploração econômica", "o colonialismo", "o movimento social".

Todos esses episódios avaliados segundo um critério recorrente, a Natureza. São incontáveis os textos libertários que opõem as "leis da natureza" às "leis humanas", que apelam para "o instinto de revolta", para as "luzes da razão humana". Vem naturalmente aos espírito a célebre frase de Élisée Reclus: "O homem é a natureza adquirindo consciência de si mesma". 

Ronald Creagh
Trad.: Plínio A. Coelho


23.10.17

Mulheres libertárias: um roteiro



[...] 


Inteligente, cultíssima, de argumentação fácil, corajosa, desassombrada, anarquista, anticlerical, de convicções firmes e francas, pioneira do Amor no plural e da Procriação consciente, não cabia dentro das dimensões geográficas e intelectuais do Brasil. Maria Lacerda de Moura desagradou a machistas e chauvinistas, a políticos e religiosos de todos os credos, em que nunca acreditou. Por isso foi cercada, asfixiada, silenciada, sua revista sabotada. Suas obras e seu nome continuam esquecidos até hoje, inclusive pelas feministas. E, no entanto, essa mulher libertária, vulcânica, quando vergastava com sua pena e sua palavra a burguesia, o militarismo, a igreja, o Estado e os manipuladores do ensino, transpirava humanitarismo por todos os poros, suavidade e doçura quando escrevia ou falava sobre educação. 

Francisco Correia



22.10.17

cidade


violenta
dividida
poluída
destruída

cidade propaganda
para inglês ver.

cidade campo de concentração
cidade apartheid

sem plano, sem meta, sem ideal:
cidade estacionamento
essa é a real.


20.10.17

para ler o pato donald

[...]

Ninguém trabalha para produzir no mundo de Disney. Todos compram, todos vendem, todos consomem, mas nenhum destes produtos custou, ao aparecer, esforço algum. A grande força de trabalho é a natureza, que produz objetos humanos e sociais como se fossem naturais.

A origem humana do produto: da mesa, da casa, do automóvel, do vestuário, do ouro, do café, do trigo e milho (que vêm dos celeiros, direto dos armazéns e não dos campos.) foi suprimida. O processo de produção desapareceu e toda a referência a uma gênese também: os atores, objetos e acontecimentos do processo jamais existiram. O que se substituiu de fato foi a paternidade do objeto, a possibilidade de liga-lo à sua energia criadora. Aqui é preciso voltar a essa interessante estrutura em que o pai da criança se ausentava. A simetria entre a falta de produção biológica direta e a falta de produção econômica não pode ser casual e deve ser entendida como uma estrutura paralela única que obedece à eliminação deste mundo do proletariado, o verdadeiro gerador dos objetos ou, nas palavras de Gramsci, o elemento viril da história, da luta de classes e do antagonismo de interesses.

Disney exorciza a história: magicamente expele o elemento reprodutor social (e biológico) e fica com seus produtos amorfos, desoriginados e inofensivos; sem suor, sem sangue, sem esforço, sem a miséria que estes produtos criam ineludivelmente na classe proletária. O objeto é na verdade fantástico: não há para que imaginar o desagradável, que acaba relegado ao cotidiano sujo e aos barros marginais.

O imaginário infantil serve a Disney para cercear toda a referência à realidade concreta. Os produtos históricos povoam e enchem o mundo de Disney, são aí vendidos e comprados incessantemente. Disney se apropriou, entretanto, desses produtos e, portanto, do trabalho que os gerou, repetindo o que a burguesia tem feito com a força de trabalho do proletariado. É um mundo ideal para a burguesia; permanece com os objetos e sem os operários, a tal ponto que quando aparece em raras ocasiões uma fábrica (cervejaria), nunca há mais de um trabalhador que geralmente aparece como zelador. É como se fosse apenas um agente policial, o protetor da fabricação autônoma e autômata de seu patrão. É o mundo que sempre sonharam, acumular a riqueza sem enfrentar seu resultado: o proletariado. Eximiram de culpa os objetos. É um mundo de pura mais-valia sem um operário, por menor que fosse, ao qual se pudesse dar uma mínima retribuição. O proletariado que nasce, como fruto das contradições do regime da classe burguesa, como força de trabalho “livre” para se vender ao melhor pagador, que transforma esta força em riqueza para sua própria classe social, é expulso deste mundo que ele criou, e com ele cessa todo o antagonismo, toda luta de classes e contradições de interesse e, portanto, toda a classe social. O mundo de Disney é o mundo dos interesses da burguesia sem suas deslocações, cada uma das quais tem sido reiteradamente encoberta. Disney, em seu reino da fantasia, levou ao auge o sonho publicitário e rosado da burguesia: riquezas sem salários, dólares sem suor do rosto. O ouro é um joguete, e por isso aparecem tão simpáticos esses personagens: porque na realidade, tal como está disposto no mundo, não causam dano a ninguém... dentro desse mundo. O dano consiste em sonhar o sonho particular de uma classe como se fosse o de toda a humanidade.

O único termo que faria saltar o mundo de Disney como um sapo com uma descarga elétrica, como o escapulário a um vampiro, é a palavra classe social. Disney precisa apresentar, por isso, sua criação como universal, sem fronteiras; chega a todos os lugares, a todos os países, o imortal Disney, patrimônio internacional de todas as crianças, todas, todas, todas.

Ao processo que aparta o produto (trabalho acumulado) de sua origem e o expressa em ouro, abstraindo-o das condições reais com homens concretos que presidiram sua produção, Marx chama de fetichismo. 

[...]

O universo de Disney é uma prova da coerência interna do mundo arregimentado por este outro, e resulta assim numa réplica calcada neste projeto político. 

[...]

No mundo de Disney dos polos do processo capitalista produção-consumo só está presente o segundo. E o consumo perdeu o pecado original da produção, tal como o filho perdeu o pecado original que representava seu pai, tal como a história perdeu o pecado original da classe e portanto da troca.

[...]

O ato que os personagens estão repetindo a todo o momento é o da compra. Esta relação mercantil não se modela apenas no nível dos objetos. A linguagem contratual domina o trato humano mais cotidiano. As pessoas se veem comprando os serviços de outro ou vendendo a si mesmo. É como se não tivessem segurança senão por meio das formas linguísticas monetárias. Todo o intercâmbio humano toma a forma mercantil. Todos os seres deste mundo são uma bilheteria ou um objeto detrás de uma vitrina, assim são todos moedas que se movem incessantemente. 

[...]

Vive-se neste mundo de Walt, em que cada palavra é a publicidade de uma coisa ou de um personagem, a compulsão do consumo intenso. 

[...] 

A solidariedade dentro desse mundo é intromissão. 
Não podemos entender como esta obsessão pela compra pode fazer bem a uma criança, a quem subrepticiamente se impõe a lei de consumir e continuar consumindo, sem que os artefatos façam falta. Esse é o único código ético de Disney: comprar para que o sistema se mantenha, jogar fora os objetos (porque nunca se os aproveita dentro da história em quadrinhos) e comprar os mesmos objetos, levemente diferenciados, amanhã. Que circule o dinheiro e que vá ao bolso da classe da qual Disney é membro e engrosse seu próprio.

[...] 

Disney é o carrossel do consumo. O dinheiro é o fim último a que tendem os personagens porque concentra em si todas as qualidades do mundo.

[...]

O verdadeiro rival do dono das riquezas não é o ladrão. Queria ele que só houvesse ladrões cercando-o para converter a história numa luta entre proprietários legítimos e delinquentes, que seriam julgados segundo a lei da propriedade que ele mesmo estabeleceu. Mas não é assim. Quem de verdade pode destruir esse monopólio, e questionar de verdade sua legitimidade e sua necessidade, é o proletariado, cuja única via de libertação é terminar com as bases da economia burguesa e abolir a propriedade privada. Desde os albores da oposição burguesia-proletariado, esta quis reduzir toda ameaça de seu adversário explorado, e portanto da luta de classes, a uma luta entre bons e maus, como provou Marx analisando os folhetins de Eugéne Sue na “A Sagrada Família”.

Esta etiqueta moral encobre a diferença fundamental que é econômica e exerce o papel de censura das ações de uma classe.
O proletariado foi, para tanto, omitido: na cidade é criminoso, no campo é o selvagem bonzinho. Como a visão de Disney é emascular a violência e os conflitos sociais, inclusive malandros são enfocados como crianças travessas (na América Latina, os Irmão Metralha são “chicos malos”); como o antimodelo em que sempre perdem, recebem surras, celebram suas estúpidas ideias dando-se as mãos e dançando em rodas. Sua manada dispersa sintomatiza o desejo da burguesia de substituir o aglutinamento de quatro gatos loucos pelas organizações da classe operária. (Assim, quando Donald aparece como um possível bandido, a reação de Tio Patinhas: “Meu sobrinho, um assaltante? Diante de meus próprios olhos? Terei de chamar a polícia e o hospício. Deve ter enlouquecido”, é similar à redução de toda subversão política a uma enfermidade psicopática para apagar a solidariedade de classe que explica o fenômeno). Convertem os defeitos do proletariado, produto da exploração burguesa, em taras, objeto de riso e argúcias para não perturbar a exploração.Não lhes permite sequer serem originais em suas aspirações: a burguesia coloniza em última análise esses ladrões, impedindo-lhes as mesmas aspirações. Eles desejam o dinheiro para serem burgueses, para se converterem nos exploradores, e não para abolir a propriedade. A caricatura do proletariado, torcendo cada característica que poderia fazê-lo temível e digno e, portanto, identificá-lo como classe social, serve para oferecê-lo em público como um espetáculo de burla e escárnio. Paradoxalmente, na era da tecnologia do mundo que os burgueses chamam de moderno, a cultura massificada recorre e propala cotidianamente os mitos renovados da era da máquina. 

[...]

O imaginário infantil, como projeto de Disney, permite apropriar-se de coordenadas reais e da angústia do homem atual, mas priva-os de sua denúncia, das contradições efetivas e das formas de superá-las. Justamente aqui radica a diferença entre o absurdo da novela contemporânea e o teatro, em que o homem-vítima vive a degradação contínua de seus limites e a flutuação expressiva da linguagem que o comunica, emascarando somente as causas ao propor uma humanidade metafísica, e o absurdo de Disney, em que a inocência encobre a perversidade indigna do sistema e o prêmio providencial reassegura à vítima que não deve questionar nem corroer os fundamentos de sua própria desgraça.

A literatura contemporânea mostra o homem dignificando-se no conhecimento abstrato e doloroso de sua própria alienação, e a imaginação procede muitas vezes ao indagar todo o sofrimento e a emoção que a sociedade atual quer perfumar com publicidade. [...] A destruição efetiva do mundo social que possibilita a Disney, e que o nutre de suas representações, é simultaneamente a liberação do trabalhador da cultura, que se integraria aos meios maciços de comunicação em uma nova sociedade.


19.10.17

pesquisa de campo


Dá para estudar o povo da República de Curitiba a partir das músicas de baixa qualidade que tocam em alguns pontos comerciais do centro.


18.10.17

o grifo é meu


Não há por que se preocuparem, meninos. Mickey nem pensa em se referir à morte de milhões por falta de alimento, nem tampouco dos efeitos no desenvolvimento corporal e mental nos seres humanos. Conta uma aventura pré-histórica, onde ele e Pateta repetem as tramas típicas da Disneylândia contemporânea. É evidente que a época atual não tem esses problemas: vive-se numa sociedade perfeita, na pós-história.


14.10.17

Listen, Marxist!



[...]

El anarquismo es un movimiento libidinal de la humanidad contra la opresión en cualquiera de sus formas: sus orígenes se remontan a la misma emergencia de la apropiación, la dominación clasista y el Estado. De este período en adelante, los oprimidos han resistido a todas las formas que tienden a contener el desarrollo espontáneo del orden social. El anarquismo irrumpe en el trasfondo social durante todos los períodos de transición histórica. La declinación del mundo feudal coincidió con diversos movimientos de masas, en algunos casos de inspiración salvajemente dionisíaca, que exigían la abolición de todos los sistemas de autoridad, privilegio y opresión.

Murray Bookchin
Trad.: de Rolando H.
1971


12.10.17

cointelpro is watching you

R. Crumb


Mano / não deixe a maquinaria do mass media / misturar o seu cérebro como uma mayonnaise.


11.10.17

lobby


O que fica comprovado com a atual situação política do país é que essa é a melhor democracia que o dinheiro pode comprar.

A interpretação que os golpistas fazem do conceito democracia é igual ao slogan que podemos encontrar numa loja de armas dos Estados Unidos:

Democracy, 
locked and loaded


Le chat


Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu'en son appartement,
Un beau chat, fort, doux et charmant.
Quand il miaule, on l'entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret;
Mais que sa voix s'apaise ou gronde,
Elle est toujour riche et profonde.
C'est là son charme et son secret.

Cette voix qui perle et qui filtre
Dans mon fonds les plus ténébreux,
Me remplit comme un vers nombreux
Et me réjouit comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux
et contient toutes les extases;
Pour dire les plus longues phrases,
Elle n'a pas besion de mots.

Non, il n'est pas d'archet qui morde
Sur mon coeur, parfait instrument,
Et fasse plus royalement
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux,
Chat séraphique, chat étrange,
En qui tout est, comme en un ange,
Assi subtil qu'harmonieux!

9.10.17

poems from prison


tall / skinny / plain // tal / skinny / plain i am / ericka, 22, / droopy eyes / long feet // i love people / love nature / love love / i am a revolutionary / nothing special / one soul / one life willing / to give it / ready to die... // noises / sounds / unspoken words / feelings repressed because / the prison walls are also / sou walls / barries / if only all barriers could be removed / and we could walk/ talk/ sing / be... / free of all psychological, spiritual / political, economic / boundaries / all of us all the freedom lovers of / the world but specially / right now - prisioners.

Ericka H.


8.10.17

o grifo é meu


Os agentes vão circular no ciberespaço em busca de informação personalizada, transformando-o num imenso ecossistema. Como os cachorros que vão procurar o chinelo dos seus mestres, os agentes, a partir de instruções dadas pelo usuário, realizam diversas tarefas, como buscar um artigo em um banco de dados, passar pedidos de compras, ordenar informação nos jornais eletrônicos, filtrar discussões nas conferencias eletrônicas, procurar uma música, guiar em um serviço eletrônico.


7.10.17

o grifo é meu



[...]
A multiplicidade das significações é o índice que faz de uma palavra uma palavra.

[...]

Ser civilizado no significa haber cursado estudios superiores o haber leído muchos libros, o poseer una gran sabiduría: todos sabemos que ciertos individuos de esas características fueron capaces de cometer actos de absoluta perfecta barbarie. Ser civilizado significa ser capaz de reconocer plenamente la humanidad de los otros, aunque tengan rostros y hábitos distintos a los nuestros; saber ponerse en su lugar y mirarmos a nostros mismos como desde fuera.


o grifo é meu

[...]

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua.

O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra "diálogo" num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja. 

O livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento da comunicação verbal. Ele é objeto de discussões ativas sob a forma de diálogo e, além disso, é feito para ser apreendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado e criticado no quadro do discurso interior, sem contar as reações impressas, institucionalizadas, que se encontram nas diferentes esferas da comunicação verbal (críticas, resenhas, que exercem influência sobre os trabalhos posteriores, etc.) Além disso, o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as da outros autores: ele decorre portanto da situação particular de um problema científico ou de um estilo de produção literária. Assim, o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc. 

[...]

A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes.


3.10.17

dialética


A escassa formação intelectual deixa o indivíduo sem meios de descobrir o contrabando ideológico a que está submetido com o governo ilegítimo.

Por exemplo, 
o que você chama de lucro, 
nós chamamos de exploração.