6.2.18

a polícia do livro

Matthias Stom | 1650

Ao sobreviver ao duplo escândalo de De l'Esprit e da Encyclopédie, o Iluminismo conseguiu alcançar os leitores no momento mais perigoso de sua existência sob o Antigo Regime. Mas esse episódio, por sua importância, pode parecer tão dramático a ponto de deixar na sombra os aspectos da censura mais generalizados e de longo prazo. Os acontecimentos de 1757-9 não devem ser tomados para tipificar as atividades dos censores ou para fazer a história da censura no século XVIII tomar o aspecto da história de uma luta entre os philosophes e seus inimigos. Seria mais exato entender o trabalho de Malesherber e seus homens como parte do que poderia ser chamado de realidade literária - ou seja, o mundo rotineiro habitado por escritores, livreiros e personalidades influentes da corte e da capital. Esse mundo, como descrito nas Mémoires sur la librairie (1759), de Malesherbes, parecia estar sob elevado controle. No entanto, a exemplo de muitos administradores de alto escalão no antigo Regime, Malesherbes tinha apenas uma vaga noção do que se passava fora de Paris e de Versalhes. Nem ao menos sabia quantas cidades tinham inspetores do comércio de livros (além de Paris, apenas duas: Lyon e Rouen) e quantas possuíam guildas aptas a cumprir as determinações do rei (27 cidades tinham guildas ou comunidades corporativos cujos membros gozavam do privilégio exclusivo de vender livros, mas só quinze delas tinham chambres syndicales incumbidas da responsabilidade de inspecionar todos os carregamentos de livros). Embora ele se desse conta de que, nas províncias, estivesse ocorrendo um próspero negócio com a comercialização de livros ilegais, não tinha a menor ideia de sua extensão.

O sucessor de Malesherbes, Antoine de Sartine, que foi um administrador muito melhor, tentou traçar um quadro da realidade do comércio de livros recrutando supervisores para inspecionar todos os livreiros do reino. O resultado, um censo extraordinário que cobria 167 cidades, concluído em 1764, revelou uma enorme indústria que funcionava sem preocupações com o Estado, o qual tentava regulamentá-la. Essa informação serviu para alimentar novas regulamentações cujo intuito era criar alguma ordem em 1777, mas, a exemplo da maioria dos éditos reais, produziram poucos resultados. Os livreiros de província, tanto em cidades grandes como Lyon, Rouen e Marselha quanto em cidades pequenas - Avenches, Bourg-Saint-Andéol, Châteaudun en Dunois, Forges-les-Eaux, Ganges, Joinville, Loudum, Montargis, Negrepelisse, Tarbes, Valence - tocavam seu comércio fora do alcance de visão de Paris e, em grande parte, fora da lei. Cerca de 3 mil comerciantes de todos os tipos vendiam livros na década de 1770, porém o semioficial Almanach de la librairie de 1781 lista apenas 1004. A maioria deles não tinha autorização. (Para operar legalmente, um livreiro tinha de ser membro de uma guilda ou pelo menos ter obtido um certificado chamado brevet de librairie.) Grande parte de seu estoque provinha de editores estrangeiros, ou diretamente ou por meio de intermédiários, e consistia principalmente de obras pirateadas ou proibidas. Não temos dados suficientes para calcular as proporções, mas, qualquer que tenha sido o balanço estatístico entre os setores legal e ilegal, existia uma grande disparidade entre a literatura que ocupava os censores e a literatura que de fato circulava nos canis do comércio de livro.

As autoridades estavam plenamente conscientes de tal disparidade, apesar de suas informações falhas, pois muitas vezes confiscavam livros ilegais na alfândega parisiense e nas inspeções obrigatórias dos carregamentos que passavam pelas chambres syndicales provinciais. Quando avisadas por informantes, davam batidas em livrarias, apreendiam mercadorias ilegais e interrogavam os comerciantes. Inspetores de polícia com a responsabilidade específica de cuidar do comércio de livros executavam as batidas. O mais atuante deles, Joseph d'Hémery, trabalhava em estreito contato com Malesherbes e Sartine e formou arquivos extraordinariamente ricos sobre todos os aspectos da indústria editorial. Deveria toda essa atividade ser considerada uma forma de censura pós-publicação?

Para os franceses do século XVIII, isso seria visto como trabalho policial. "Polícia", naquela época, era um conceito amplo, que cobria a maioria dos aspectos da administração municipal, inclusive iluminação, higiene e provisão de alimentos. A polícia parisiense gozava de boa reputação pelo aprimoramento dos serviços mais modernos e bem organizados. De fato, sua administração parecia tão avançada que servia como modelo para tratados sobre a polícia, que podem ser considerados contribuições para a literatura do Iluminismo. Voltaire se referia às sociétés policiées como ordens sociais que haviam alcançado o mais elevado estágio da civilização. Nada pode ser mais enganador do que associar a policia da monarquia Bourbon com as forças repressivas de regimes totalitários. Porém, esclarecida ou não, a polícia literária do século XVIII na França confiscava muitas obras dos philosophes com muitas outras que jamais entraram na história literária, mas eram os alvos principais da repressão do Estado.

Para fazer justiça a todos os aspectos desse tipo de trabalho policial, seria necessário um vasto tratado. Mas seu caráter básico pode ser entendido a partir de alguns estudos de caso, que mostram como inspetores do comércio de livros (inspectuers de la librairie) lidavam com a tarefa de policiar a literatura. Durante suas rondas, inspecionavam as grandes editoras e livrarias do Quartier Latin, porém o mais frequente era que as buscas de livros ilegais os levassem a sótãos, aposentos nos fundos, gráficas secretas e depósitos clandestinos, onde "livros ruins" (mauvais livres), como os inspetores os chamavam, eram produzidos e distribuídos. Tais livros eram tão maus, aos olhos das autoridades, que a mera possibilidade de submetê-los à censura era algo fora de questão. Tinham de ser apreendidos e destruídos - ou, em certos casos, mantidos encarcerados na Bastilha, pois existiam inteiramente fora da lei.

Robert Darnton
Trad.: Rubens F.


5.2.18

um homem sem pátria



O que tinha Abraham Lincoln a dizer sobre as guerras imperialistas da América, aquelas que, sob um nobre pretexto ou outro, visam a aumentar os recursos naturais e as redes de mão-de-obra dócil disponíveis aos americanos mais ricos que possuem as melhores conexões políticas?


Nosso governo está em guerra contra as drogas, não é? Por que não investe contra o petróleo? Não existe barato mais destrutivo! Você coloca um pouco desta droga no seu carro e pode correr a mais de cem por hora, atropelar o cachorro do vizinho e estraçalhar toda a atmosfera. Deixa para lá, enquanto formos o tal do homo sapiens, por que nos preocuparmos? Vamos arrebentar todo este barraco. Alguém aí tem uma bomba atômica? Quem não tem uma bomba atômica hoje em dia?

O titulo do Fahrenheit 9/11 de Michael Moore é uma parodia do título do grande romance de ficção científica de Ray Bradbury, Fahrenheit 451. Quatrocentos e cinquenta e um graus Fahrenheit é o ponto de combustão, a propósito, do papel, de que são feitos os livros. O herói do romance de Bradbury é um funcionário municipal encarregado de queimar livros.

Ainda sobre o tema queimar livros, quero congratular-me com os bibliotecários não famosos por sua força física, por suas ligações políticas ou sua grande riqueza - que, por todo este país, resistiram ferrenhamente a valentões antidemocráticos que tentaram remover certos livros de suas estantes, e destruíram os registros para não revelar à polícia do pensamento os nomes das pessoas que haviam tomado emprestado aqueles livros. 

Assim, a América que eu amava ainda existe, embora não na Casa Branca, na Suprema Corte, no Senado, no Congresso ou na mídia. A América que eu amava ainda existe nas mesas de nossas bibliotecas públicas. 

Ainda falando de livros: nossas fontes noticiosas diárias, os jornais e a TV, estão agora tão amedrontadas, tão pouco vigilantes em favor do público americano, tão pouco informativos, que só nos livros podemos saber o que está realmente acontecendo. 

Vou citar um exemplo: As famílias do petróleo, de Craig Unger, publicado no início de 2004, aquele ano humilhante, vergonhoso, banhado em sangue.

Kurt Vonnegut 
Trad.: Roberto M.



1.2.18

marx além de marx


Elektroduendes | 2004

Nos cadernos I e II, o percurso teórico vai do dinheiro diretamente ao valor. O valor se apresenta ao leitor na forma de dinheiro. O valor é, portanto, a mesma merda que o dinheiro. Não se produz aqui o thaumázein filosófico: o assombro, o estupor, a vontade de saber não nos conduz a sínteses cognitivas ideais, a hipóteses fantásticas; mas a imediates prática da crítica, da denúncia, da recusa. Por outro lado, não nos encontramos ante o valor, nos encontramos dentro do valor: estamos dento deste mundo feito de dinheiro. O dinheiro representa a forma das relações sociais - e as representa e sanciona ao organizá-las. Talvez, não seria ingenuidade demais esse movimento imediato da abordagem, não exatamente o valor, mas ao valor na forma do dinheiro - como se o dinheiro contivesse todo o valor possível? Entretanto, o mundo é representado assim, como um mundo de mercadorias que o dinheiro representa tout court, determinando por meio de si a valorização das mercadorias. Darimon realiza uma abordagem exaustiva - imbecil, porém útil - para o "ingênuo" Marx. Por outro lado, o que poderia significar uma teoria do valor que não se achasse subordinada, imediata, íntima e necessariamente, à teoria do dinheiro, à forma com que a organização capitalista da relação social se apresenta, no cotidiano da troca social? É apresentada uma teoria do valor, mas poderia ela ser construída que não fosse com uma imediata redução à teoria do dinheiro, da organização capitalista da troca e, no interior da troca, teoria da exploração/ Começo a considerar útil a "ingenuidade" da abordagem marxiana. Há tantíssimo ódio de classe nessa ordenação da matéria! O dinheiro tem a vantagem de apresentar imediatamente a cara asquerosa da relação social do valor. O dinheiro apresenta o valor, de uma só vez, como troca social submetida ao poder de mando, organizada para a exploração. Desse jeito, não preciso mais afundar as mão no hegelianismo para descobrir a dupla cara da mercadoria e do valor. O dinheiro tem uma só cara: a do patrão.

A teoria do valor enquanto teoria de síntese das categorias - é um legado dos economicistas políticos clássicos e da mistificação burguesa. Poderíamos, portanto, descartar a teoria do valor sem problemas, a fim de nos situarmos no campo da revolução.

A lei do valor se apresenta não como uma mediação, mas imediatamente como lei da exploração.

Situar o dinheiro na posição de representante da forma-valor significa reconhecer que o dinheiro constitui a forma exclusiva de funcionamento da lei do valor. Significa reconhecer que o dinheiro constitui o terreno imediato da crítica. Crítica imediata.

Não se poderá falar de valor, se não se falar de exploração; sobretudo, se não se determinar a função da valorização enquanto sobredeterminação dos conteúdos concretos da luta de classes, enquanto pode de mando e dominação de uma classe sobre outra - determinando, consequentemente, a composição de uma e de outra.

O dinheiro enquanto crise da lei do valor (e a sua desmistificação preventiva) [...] O dinheiro enquanto sobredeterminação e tensão do poder, de mãos dadas com a composição das duas classes em luta, foi o segundo elemento.

Criticar a mistificação da transição histórica que o Estado burguÊs realizada na forma de extração do mais-valor.

As crises sempre se apresentarão, doravante, na forma monetária.

O estado é aqui "síntese da sociedade civil", uma definição formulada na Einleitung, e que nos Grundisse encontra seguidas confirmações antes de ser amadurecida em definições mais completas, que vão considerar o estado como o representante direto do capital coletivo, ele próprio (para dizê-lo com as palavras de Engels) um "capitalista coletivo".

O dinheiro é um equivalente, se em ocasiões ele tem a natureza da equivalência, isso indica primariamente uma equivalência da desigualdade social. [...] A crise decorre, na verdade, da desigualdade intrínseca das relações de produção e, em vez de corrigida ou reformada, somente pode ser suprimida, no ato mesmo que se suprime a própria desigualdade. O dinheiro reveste um conteúdo que é, de modo eminente, desigualdade e exploração. A relação de exploração é o verdadeiro conteúdo do equivalente monetário.

Desmistificar o "verdadeiro socialismo", portanto, significa mostrar essa cumplicidade entre o reformismo e o interesse do capital no desenvolvimento. Significa, assim, insistir na centralidade da forma para o funcionamento da exploração. E levar o discurso até o ponto em que a revolução se apresente como libertação do conteúdo da exploração, na medida em que essa é libertação da forma global da circulação do valor, i.e., do valor tout court; onde o valor nada mais é do que fórmula de cálculo da exploração. [...] Não há revolução sem a concomitante destruição da sociedade burguesa, do trabalho assalariado (enquanto produtor de valor), e do dinheiro (enquanto instrumento de circulação do valor e do poder de mando). Todo progresso da socialização da forma da circulação do valor constitui, por isso, um avanço progressivo do conteúdo da exploração. Constitui, por conseguinte, o progresso dessa articulação que deve ser destruída, assim como todas as formas ideológicas e institucionais que o representam e o dinamizam. E tanto mais continuam sendo-o se socialistas foram. O dinheiro, os exercícios reformistas sobre o dinheiro: eis aqui reunida toda a merda. Por outro lado, "a luta de classes como fechamento, nisso se resolve o movimento e a análise de toda a merda.

O dinheiro: o valor enquanto mediação social e equivalente da desigualdade, a teoria do valor enquanto parte da teoria do mais-valor, a teoria do mais-valor enquanto regra social da exploração. É, em definitivo, o nível em que se vai desenvolver a polêmica (o dinheiro, a síntese da sociedade civil na forma do Estado, o aprofundamento da forma social da exploração), o que impõe a qualificação da teoria do valor e a sua definição conjunta, em termos exclusivos de mais-valor e socialização da exploração.

A questão geral seria: as relações de produções existentes e suas correspondentes relações de distribuição podem ser revolucionadas pela mudança no instrumento de circulação - na organização da circulação? Pergunta-se ainda: uma tal transformação da circulação pode ser implementada sem tocar nas relações de produção existentes e nas relações sociais nelas baseadas?

Nenhuma forma do trabalho assalariado, embora uma possa superar os abusos da outra, pode superar os abusos do próprio trabalho assalariado.

O determinante do valor não é o tempo de trabalho incorporado nos produtos, mas o tempo de trabalho necessário num determinado momento.

O valor é dinheiro, é esta merda, para o que não existe outra alternativa senão a sua destruição. A supressão do dinheiro. Estudemo-lo, pois, para destruí-lo.

Marx ressalta [...] a função política do dinheiro enquanto símbolo, enquanto função do poder de mando. O dinheiro como "mero signo", como "símbolo social", como "ideia a priori", em suma, "o dinheiro como sujeito" [...]. O símbolo pode converter-se em sujeito, o valor pode converter-se em poder de mando, a sobredeterminação pode romper a dialética e reger com força e poder de mando. O fascismo, a barbárie e a regressão não são impossíveis. O símbolo pode ser mais forte do que a realidade, porque emerge da cisão consciente da realidade.

Dinheiro e desigualdade

O dinheiro, a forma-valor constitui uma relação de desigualdade, genericamente representada na relação de propriedade, e substancialmente na relação de poder.

Desenvolvimento é luta, ruptura, criação.

O dinheiro como medida e como equivalente geral a de produzir para o dinheiro. Produzir para o dinheiro é concomitantemente um momento de exploração e um momento de socialização. A socialização capitalista exalta a socialidade do dinheiro enquanto exploração; a socialização comunista destrói o dinheiro ao afirmar a imediata socialidade do trabalho.

Tão fundamental quanto a representação do valor na figura do dinheiro, é a recusa do valor, a radicalidade da inversão. O comunismo não é a realização da trocabilidade do valor, nem a operatividade do dinheiro enquanto medida do real. O comunismo é a negação de toda medida, é a afirmação da pluralidade mais exacerbada. Da criatividade.

Dinheiro como meio de circulação. O dinheiro é representado como "poder autonomizado sobre os indivíduos".

A dominação do dinheiro tem a aparência e a indiferença da mobilidade, da fluidez. O dinheiro exerce a sua dominação na forma paradoxal da evanescência. Está em todas as partes e se dilui na persistência; mas, ao mesmo tempo, é reunido como signo da totalidade. A intermediação do dinheiro é tanto sutil quanto rígida. Mas é aqui que esse paradoxo se materializa. O poder evanescente do dinheiro adere às coisas e as transforma conforme a sua imagem e semelhança. Trata-se de um poder demiúrgico que, por meio do signo, modifica a realidade. É evidente que essa tautologia a respeito do dinheiro é, nesse Marx, tautologia para o poder. Um poder que se projeta por todas as partes. E, na realidade, o dinheiro é representado como relação de produção, "porque a própria relação do dinheiro é uma relação de produção quando a produção é considerada em sua totalidade"

O dinheiro é a demonstração que o movimento do valor é pura precariedade. A sua solidez é apenas tendencial e tão somente consegue determinar-se segundo uma alternância contínua - entre o caráter social do ambiente do trabalho necessário e a sua sobredeterminação coercitiva, pelo poder de mando.

Continua sendo o dinheiro o que revela - ao apresentar-se enquanto dinheiro, enquanto "abstrata sensualidade" - a via que o poder de mando capitalista percorre sobre a sociedade, a fim de sobredeterminar continuamente a oscilação da exploração. O dinheiro nos permitirá compreender como o mais valor se consolida em poder de mando social, ao mostrar o fato que a gestão da crise pelo poder de mando é a situação normal do capital. [...] O poder de mando busca incessantemente uma sobredeterminação política do processo. Portanto, a abertura dos Grundisse com o dinheiro descortina e antecipa o tom geral para a jornada teórica que vai da crítica do dinheiro à crítica do poder.

Toni Negri
Trad.: Bruno C.


31.1.18

das citações

Clifford Harper


Eu tenho colecionado citações, epígrafes, versos, fragmentos de ensaios, de contos e de romances que, modéstia a parte, gostaria de tê-los escrito desde o período do ensino médio conturbado. 

Em um livro que tomo nota, há dois trechos que achei formidáveis em sua simplicidade para refletir o básico do básico, i.e., o óbvio:

Se uma ciclovia não é segura o suficiente para uma criança de oito anos, não é uma ciclovia de verdade.
Quando você constrói uma boa calçada, você está construindo democracia. Se a democracia deve prevalecer, o bem público deve prevalecer sobre interesses privados.

Sem mais para o momento,
Ex.mo Ministro da Informação



plata quemada



O delinquente pensa que o dinheiro o permitirá mudar de vida, mas o que o dinheiro faz é também corrompê-lo e a seu bando.

Ricardo Piglia
1941-2017


29.1.18

diários de bicicleta


[Divide and conquer]

[...]

O livre para todos da blogosfera e a loucura total das coisas que as pessoas postam on-line compartilham uma bela sensação de tanto faz. A sensação de liberdade anárquica permanece e, devo acrescentar, essa turma é legal com as bicicletas.

Uma bicicleta é, por exemplo, um aperfeiçoamento das pernas, então talvez poderíamos sim criar algo melhor do que nós mesmos?

Rabiscar é uma arte melhor quando você tem uma intenção consciente?

Há uma elaborada coreografia envolvida em se passar por um artista profissional. Para começo de conversa, é necessário ocultar o discurso de venda, e esse protocolo, esses passos de dança, precisam ser dominados, como acontece em qualquer outra profissão.

Artistas e escritores são encorajados a mergulhar em seus abismos mais profundos.

Mas para a maioria de nós, o fato de que Ezra Pound fez transmissões de rádio apoiando os fascistas ou que Neil Young era um partidário de Ronald Reagan ou de que alguns compositores e artistas elogiavam Stalin - ou mesmo Hitler - torna seus trabalhos suspeitos, ou mesmo sem valor em alguns casos? Em que ponto a atividade extracriativa da pessoa começa a fazer diferença sobre como avaliamos sua obra? Essa questão pressupõe que aquelas simpatias políticas ou perversões sexuais realmente aparecem no trabalho - e eu nem estou falando sobre obras que são escancaradamente propagandistas. Se optarmos por denegrir a monumental arquitetura de Speer, então existem muitos outros arquitetos que, a julgar pela aparência de seus trabalhos, são igualmente fascistas, e muitos deles estão trabalhando hoje.
Qual é o limite? Nós deveríamos julgar apenas pelo que está à nossa frente?

Byrne, 2009. p. 247-266


26.1.18

fragmentos de um poema inédito

Clifford Harper

[...] corpo não é despejo
diga corpo não é despejo
meu corpo não é teu aterro [...]


do sentimento da natureza nas "sociedades modernas"



Houve um tempo, todos recordam disso, em que se via na extrema divisão do trabalho uma das realizações mais desejáveis de toda grande indústria manufatureira; os economistas pregavam esse uso com um entusiasmo quase religioso e exaltavam-se em descrever a fabricação de um alfinete, obtido pelo trabalho de uma centena de operários tendo cada um durante várias jornadas, meses, anos - durante a vida inteira - feito sempre o mesmo movimento, dado o mesmo golpe de cinzel, lima ou brunidor. Essa especialização absoluta das funções no organismo industrial cessou de parecer tão perfeitamente admirável, e alguns se perguntam se é bem conforme ao respeito devido ao homem transformar um ser humano em um simples instrumento condenado durante toda a sua existência a fazer um único movimento mecânico, deformando o corpo, subjugando, aniquilando o espírito.

ER
Trad.: PAC


cultura e valor


XXX

Apenas a sede
o silencio 
nenhum encontro 

Pizarnik



Eu não vejo problema em fazer da escrita uma disciplina do pensamento, mas há algumas pessoas que menosprezam a atividade da composição linguística, atividade essa irreprimível de dar forma objetiva as ideias e aos sentimentos.

A dedicação à escrita, em todo o seu rigor de forma e em sua disciplina, estimula o recolhimento e o gosto pelo silêncio: a renúncia à exterioridade. Sem estes elementos básicos o obstáculo aumenta e dificulta a prática de um discurso ecológico.

Como podemos reduzir a integralidade de um texto literário a um corpus de significações perfeitamente claras?

Não se pode sobrepor com exatidão a intimidade de um escritor a uma grade de interpretação, por mais judiciosa que seja. Ditadura de classe em forma de lei?

O meu projeto intelectual e artístico é absolutamente anticomercial.


23.1.18

paris: maio de 68


Três questões levantaram os estudantes em maio de 68: a alienação de trabalho, as relações no modo de produção capitalista independente do nível salarial e a divisão entre dirigentes e dirigidos dentro da hierarquia da organização da classe trabalhadora.

Sempre que se trava uma luta, se é forçado mais cedo ou mais tarde a questionar a totalidade da estrutura social.

Não tem arrego!


dialética da escola-prisão


E, se nalguma ocasião, suceder de sermos macacos, 
seremos macacos: apenas para sermos mais ágeis.

Um dos objetivos da educação é o de formar leitores. Mas que leitores podem ser formados se a classe docente não é leitora? E como se pode intitular de classe se a grande maioria dos docentes não tem consciência de classe?

Como é que podem existir essas duas questões paradoxais e ao mesmo tempo incoerentes?


22.1.18

as verdades nômades

Clifford Harper


[...]

A democracia não pode ser o simples sinônimo de emancipação política, ela tem de incluir a liberação social e econômica. Nenhuma democracia é possível sem que os problemas do trabalho e do comando estejam resolvidos. Qualquer forma de governo democrático tem que ser também uma forma de liberação da escravidão do trabalho, encorajar uma forma nova e livre de organização da coordenação na produção. Não se trata de confiar as fábricas e a organização do trabalho social nas mãos de novos patrões, confiando-lhes à hipócrita liberdade do mercado, entregando-as de volta aos desejos de exploração dos capitalistas e dos burocratas.

Nós devemos reconhecer que não pode haver progresso, no pode haver transição do capitalismo para o comunismo via socialismo.

O socialismo não se atem em derrubar o sistema capitalista e o sistema laboral assalariado, mas tornar-se, acima de tudo, uma alternativa sócio econômica ao capitalismo.

Logo, o comunismo é o programa mínimo essencial. Há apenas uma fase para o desenvolvimento: a retomada da liberdade em nossas próprias mãos e a construção de meios coletivos para controlar a cooperação na produção. Esse estagio único de desenvolvimento põe em evidencia a que ponto o capitalismo e/ou o socialismo fizeram da produção um objeto social, abstrato e compartilhado; ele torna igualmente possível a reorganização da cooperação fora e contra o sistema capitalista de comando, fora e contra o roubo diário do poder e das riquezas perpetrados por uma minoria em detrimento de toda a sociedade.


Toni Negri | 1989
Trad.: Mario A. e Jefferson V.


19.1.18

rede social


Não adianta professores do ensino superior ocuparem a rede social para escrever um pouco melhor que a média ou apresentar análises mais esclarecidas que fogem das opiniões manipuladas.

Os aparelhos ideológicos (leia-se: vermes) costumam fiscalizar as páginas para chafurdarem em rótulos de calunia. O papo é um só nesta rede de idiotas chamado facebook: FOFOCA.

Em uma sociedade infantilizada qualquer assunto sério é motivo de chacota. Por isso a educação é o que é neste país.


16.1.18

rede social


O facebook contribuiu para estupidificar os critérios estéticos da arte e os debates teóricos. Não houve melhoria na criatividade artística e na narrativa. Apenas acesso para o entretenimento do espetáculo capitalista.

Não é difícil de formular uma pergunta: qual intercâmbio de expressões de desejos e informação pode-se encontrar numa plataforma de fofoca?

A delimitação de quem tem legitimidade para dizer o que é arte esta desvanecida. Mas nesse ambiente virtual, encontramos mais pseudostudo preocupados em representar marcas e bundamolice intelectual.

12.1.18

paris: a revolução de maio




Noites Longas e Manhãs Breves, de William Klein | 1978

Paris se transformou em um grande seminário público. Os franceses descobriram há anos que não dirigiam a palavra uns aos outros, e que tinham muito a se dizer. Sem televisão e sem gasolina, sem rádio e sem revistas ilustradas, deram-se conta de que as "diversões" os tinham, realmente, distraído de todo contato humano real.

[...]

Em lugar das "diversões" da sociedade de consumo, renasceu de maneira maravilhosa a arte de as pessoas se reunirem para escutar e falar e reivindicar a liberdade de interrogar e duvidar.

[...]

A revolução substitui o psiquiatra.

[...]

Os paralelepípedos se tornaram nosso meio de comunicação de massa. Saímos às ruas porque não temos outra maneira de nos fazer escutar em uma sociedade onde o mass media foi monopolizado e domesticado. Contra a abundância das comunicações inúteis, enviamos a mensagem imprescindível de nossas pedras e palavras.
E talvez haja outra razão: "Debaixo dos paralelepípedos estão as praias."
E as palavras. Os muros de Paris falam: sonhos, lemas, cóleras, desejos, programas, brincadeiras, desafios e a ressurreição de uma descendência heterogênea reunida em uma espécie de editora permanente de pedra e pintura.

Carlos Fuentes
Trad.: Ebréia de C. Alves


11.1.18

as verdades nômades


Clifford Harper

[...]

Os incensadores do neoliberalismo gostam de retornar às mitologias do chefe como a única garantia de ordenação racional dos processos produtivos complexos, como único agente possível de "dinamização" da força de trabalho etc. Ao mesmo tempo, eles tentam desacreditar a autogestão como sendo sinônimo de "mediocridade" [...]. Todos esses argumentos decorrem de uma ignorância total dos meios de semiotização coletivos que já atuam em todos os setores da ciência e da tecnologia de ponta. Uma certa concepção de hierarquias arborescentes e de disciplinas opressivas tornou-se incontestavelmente arcaica.

Toni Negri
Trad.: Mario A. e Jefferson V.

10.1.18

los 68


Loin Du Vietnam | 1967

[...] subjacente ao Vietnã, nasceu nos jovens do mundo desenvolvido uma nova consciência: a guerra armada contra um povo desarmado é somente a expressão mais repugnante de uma guerra contínua e desarmada conta todos os países pobres, fonte de mão-de-obra e matérias-primas baratas, objeto de intervenções políticas e de deformações culturais perpétuas, humilhados recipientes do desgaste do desgaste na condição de consumidores marginais das máquinas fatigadas, dos aviões que já não prestam, dos programas de televisão, dos cosméticos e dos brinquedos plásticos do mundo industrial.

Carlos Fuentes
Trad.: Ebréia de C. Alves


3.1.18

1968: a Comuna estudantil e o assalto ao céu


O maio de 1968 foi, ao mesmo tempo que épico, lírico e garantiu os direitos da subjetividade. Contra o mundo sem sonho, sem poesia - de prosa - o maio se fez. 

1968 é o ano matriarcal presente em todos os movimentos que recusam a submissão ao status quo.

Em 68, a palavra liberada expressou todas as esferas da vida - profissional, pessoal e coletiva, ecológica, e sobretudo amorosa: "on ne tombe pas amoureux d'un taux de croissance" (ninguém se apaixona por uma taxa de crescimento), dizia um grafite da Sorbonne.

A experiência democrática de 68 foi o espaço privilegiado de questionamento de todas as figuras do totalitarismo, do exercício de um poder que se funda sobre o terror permanente e a ideologia; esta dominação não se exercendo apenas do exterior mas também do interior da subjetividade forjada para a servidão, contraria à livre faculdade de julgar. Recorde-se que Hannah Arendt, em seu estudo Eichmann em Jerusalém, enfatiza nele não o demônio patológico nazista, mas o homem na sua absoluta incapacidade de pensar por conta própria.

O maio de 68 apontou e destacou, nos bastidores da fachada do conforto e racionalidade, os mitos da vida moderna e sua "multidão" solitária, na qual os indivíduos não pareciam felizes mas vivendo no exterior de si mesmos, sob o domínio das coisas.

O maio de 68, ao questionar a Reforma universitária, o empresariamento da educação, revelava o término de uma sociedade, antes pautada pelas Humanidades, no conhecimento - , e pela qualidade dos serviços públicos, na sociedade. À ideia de educação-formadora do caráter e do cidadão - que cultivava a literatura, a filosofia e as artes, volta-se, agora, clara e integralmente, para a "otimização" do tempo, isto é, a superexploração do trabalho, a ciência e a técnica tornam-se forças produtivas com seu discurso intimidador de autojustificação ideológica.

Olgária Matos


1.1.18

a propriedade

1842-1921

Os altos lucros, as grandes fortunas, a vida nababesca são reservadas aos grandes proprietários, aos grandes acionistas, aos grandes usineiros, aos grandes especuladores que não trabalham mas ocupam os operários às centenas. O que prova que o capital é trabalho acumulado, mas o trabalho dos outros acumulado nas mãos de um único é roubo.

Piotr Kropotkin
Trad.: Plínio Coelho


29.12.17

doc



A sociedade estabelecida dispõe de uma quantidade e uma qualidade determináveis de recursos intelectuais e materiais. Como podem ser esses recursos utilizados para o máximo desenvolvimento e satisfação das necessidades e faculdades individuais com o mínimo de labuta e miséria? Teoria social é teoria histórica, e história é a esfera da possibilidade na esfera da necessidade.

Herbert Marcuse


28.12.17

diário do ano da peste


A escola-prisão transforma a dialética em um monólogo que dita apenas ordens. Substitui o questionamento por imposição agressiva, numa clara demonstração de controle. 

É a fúria por esse controle que deteriora os saberes.


25.12.17

diario do ano da peste


Alguns partidos constituem a maquinaria de submissão: absorvem as energias individuais, se alimentam de diversas forças que convergem e vomitam um discurso estereotipado que permite a promoção de criados que a maquinaria desenha como bons e reais servidores ou empregados cínicos.


24.12.17

viva el punk!


Ratas | Dia del Ruido


21.12.17

documentário


Ni dieu ni maître, histoire de l'anarchisme, de Tancrède Ramonet | 2016


Du manifeste fondateur de Proudhon (1840) à la chute de Barcelone (1939), cette fresque documentaire fait revivre la richesse foisonnante d'un mouvement multiforme, montrant combien l'anarchisme continue d'irriguer tout le champ des luttes sociales et politiques.


20.12.17

fatalidade da revolução


Não se cria nem se improvisa a revolução, ela é um fato incontestável para os anarquistas; para eles, é um fato matemático, decorrendo da má organização social atual; seu objetivo é que os trabalhadores sejam bem instruídos sobre as causas de sua miséria para que saibam aproveitar a revolução que fatalmente realizarão, e que evitem ter os frutos arrancados pelos provocadores de intrigas que buscarão substituir os governantes atuais, a fim de trocar, sob diferentes nomes, um poder que seria apenas a continuação daquele que o povo viria a derrubar.

Não adianta o Estado aumentar sua polícia, seu exército, seus empregos; os aperfeiçoamentos proporcionados pela ciência, o desenvolvimento do instrumental mecânico jogam todos os dias um novo contingente de trabalhadores desocupados nas ruas, e o exército dos famintos cresce cada vez mais, a vida torna-se a cada dia mais difícil, maior o número de desempregados e cada vez mais longos os períodos de desemprego.

Não está distante o tempo em que aqueles que temem a revolução começarão a encará-la com menos temor e a desejá-la com todo ardor. E, nesse dia, a revolução estará no ar, e bastará pouca coisa para que ecloda, provocando, em seu turbilhão, o assalto do poder e a destruição dos privilégios por aqueles que atualmente só a encaram com temor e desconfiança.

Para nós, a revolução social a ser feita apresenta-se sob o aspecto de uma longa sequência de lutas, de transformações incessantes que poderão durar longos anos, em que os trabalhadores, derrotados num lado, vencedores no outro, chegarão gradualmente a eliminar todos os preconceitos, todas as instituições que os esmagam, e em que a luta, uma vez começada, só poderá chegar ao fim quando, tendo finalmente destruído todos os obstáculos, a humanidade puder evoluir livremente.

Os trabalhadores de uma nacionalidade só poderão triunfar e emancipar-se em seu país se os trabalhadores vizinhos também se emancipem. Só conseguirão livrar-se de seus senhores se os senhores de seus irmãos vizinhos não puderem socorrer outros senhores. A solidariedade internacional de todos os trabalhadores é condição sine qua non do triunfo da revolução.

Piotr Alekseievitch Kropotkin
Trad.: Plínio Coelho

19.12.17

quem é violento?


Há uma vertente da pseudo-esquerda de mãos dadas com a direita doidinha para ver a classe operária combativa reconvertida em classe de consumo: passiva como a democracia de telespectadores descerebrados.

Diante da máquina da lama, costumam surgir comentários símbolos da esquerda institucional, resultados da incapacidade de compreender os atos políticos:

No es posible que tengamos que elegir entre Pato Bullrich sedienta de sangre y un grupo de inadaptados y estúpidos que cree que una manifestación se hace a los piedrazos y rompiendo veredas. ¡Dejen a la gente marchar en paz y expresarse democráticamente! La alternativa no es gasear y disparar balas de goma contra todo el mundo (inclusive los manifestantes pacíficos, que son la mayoría, y la prensa) o dejar que un grupito incendie la ciudad. Hay un medio razonable y profesional entre esos extremos, y el Estado debería ser capaz de encontrarlo.

Exemplo mais do que claro da bundamolice intelectual a serviço da manipulação das palavras. A bundamolice intelectual costuma dicotomizar os atos políticos entre tolerantes e intolerantes, violentos e não violentos.

Essa miopia em ver no levante popular "un grupo de inadaptados y estúpidos" é fruto da perspectiva de um centralismo pseudodemocrático. É como deixar propositalmente de enxergar as características repressivas do Estado e o ódio à classe trabalhadora.

18.12.17

as verdades nômades


mai 68

Abre aspas

"Outro", "diferente", "novo". Sempre as mesmas palavras, tão pobres para indexar os vetores de felicidade e de imaginação capazes de transformar o mundo esclerótico onde a política não é mais que frustração e paranoia, onde a sociedade não passa do triunfo do conformismo, onde o movimento operário se atola no corporativismo, o movimento das mulheres na introjeção da subordinação, o movimento dos jovens nas drogas de todo tipo e onde, enfim, o limite entre a reivindicação de poder e o terrorismo não para de diminuir.

Fecha aspas


15.12.17

class war


O artista é uma personalidade singular cujo trabalho sincero é incorruptível.

Ao menos deveria ser assim. Porque existem "artistas de sucessos" que apenas contribuem para os dispositivos de poder. Meros reprodutores dos meios de comunicação de massa.

Em contraponto, existem os artistas inconformistas, os quais desdém as convenções e a expressão padronizada e uniformizada da sociedade de consumo.

Para o artista inconformista há antes de tudo uma concepção de arte laboriosamente pensada: a criação de uma contracultura.


14.12.17

abre aspas


A manutenção do péssimo modelo de educação pública interessa, e muito, aos desonestos e corruptos, que formam a grande maioria dos nossos dirigentes. É a forma mais fácil de a elite – seja ela política, econômica ou intelectual – garantir seus privilégios, que não são poucos.

Fecha aspas


13.12.17

ni dieu ni maitre


Sabemos que a educação pode suceder em qualquer lugar e em qualquer momento. Mas se quisermos ter uma educação que visa a transformação do ser histórico será preciso despojá-la dos conceitos religiosos, pois sabemos que a concepção teológica do cotidiano é mistificadora.


12.12.17

as palavras


Um dos pontos de reflexão de minhas leituras são as modalidades de violência: a miséria, a pobreza, a exploração, a submissão, a servidão, a dominação e a alienação.

Pois nunca podemos esquecer que para existir um capitalista deve haver um trabalhador sobre o qual se impõe a exploração. Assim vale para a existência de um "soberano": a quem impor um comando?

Sartre, em sua história de formação, sintetizou, como uma forma de saída, o que eu penso:

"Não sou chefe, nem aspiro a vir a sê-lo. Comandar e obedecer dão no mesmo. O mais autoritário comanda em nome do outro, de um parasita sagrado e transmite as abstratas violências de que padece. Jamais em minha vida dei ordens sem rir, sem fazer rir; é porque não estou roído pelo cancro do poder: não me ensinaram a obediência."

11.12.17

o princípio anarquista




[...]

A anarquia foi compreendida por seus fundadores como uma grande ideia filosófica. Ela é, com efeito, mais do que uma simples causa de tal ou qual ação. Ela é um importante princípio filosófico.

[...]

Ela é um princípio de luta de todos os dias. E se é um princípio nessa luta, é porque as aspirações profundas das massas, um princípio, falseado pela ciência estatista e pisoteado pelos opressores, mas sempre vivo e ativo, sempre criando o progresso, malgrado e contra todos os opressores.

[...]

Já não é uma simples luta contra camaradas de oficina que se arrogaram uma autoridade qualquer num agrupamento operário. Não é mais uma simples luta contra chefes de outrora, nem mesmo uma simples luta contra patrão, um juiz ou um oficial.

É tudo isso, sem dúvida, pois sem a luta de todos os dias, para que chamar-se revolucionário? A ideia e a ação são inseparáveis, se a ideia tem ascendência sobre o indivíduo; e, sem ação, a própria ideia atrofia-se.


É ainda bem mais do que isso. É a luta entre dois grandes princípios que, em todos os tempos, encontraram-se em oposição na sociedade: o princípio de liberdade e aquele de coerção.

Piotr Alekseievitch Kropotkin
Trad.: Plínio Coelho


8.12.17

el objetivo de la educación



¿Queremos tener una sociedad de individuos libres, creativos e independientes, capaces de apreciar los logros culturales del pasado, de aprovecharlos y de engrandecerlos? ¿Es eso lo que queremos? ¿O queremos personas que incrementen el PIB? Porque esas dos cosas no son necesariamente las mismas.


dialética da escola-prisão


É fato que algumas escolas inculcam nos alunos ideias religiosas estritamente individualistas e autoritárias. E o curioso é que essas ideias não são apontadas como doutrina.


7.12.17

dialética da escola-prisão


Hoje se um professor entrar em sala de aula e a primeira coisa a fazer for escrever no quadro negro as seguintes palavas: QUESTIONE TUDO, com uma exclamação bem grande no fim da frase, é bem capaz de alguns alunos, de alguns colegas de profissão, da equipe pedagógica e da direção taxar esse professor de comunista: essa espécie de anticristo sob olhos da sociedade carolinha.

Como a alienação passou a ser a característica nacional, problematizar e duvidar tornaram-se objetos de perseguição histérica e delirante por parte dessa mesma sociedade.


4.12.17

contra a sociedade fechada


A inscrição do islã numa história que nega a História gera uma sociedade fechada, estática, encerrada em si mesma, fascinada pela imobilidade dos mortos. Como em outros tempos o marxismo pretendia realizar a História abolindo-a, devota-lhe um culto quase religioso para melhor cumpri-la, a pretensão mulçumana a governar o planeta visa, in fine, uma ordenação fixa, a-histórica, deixando a dinâmica do real e do mundo pela cristalização fora do tempo de um universo pensado e concebido ao modo de além-mundo. Uma sociedade que aplicasse os princípios do Corão resultaria num acampamento nômade universal que ressoaria com alguns tremores básicos, apenas o barulho das esferas que giram no vazio em torno de si mesmas celebrando o nada, a vacuidade e a falta de sentido da História morta.

Toda teocracia que remete ao modelo de um universo de ficção fora do tempo, fora do espaço, visa no tempo de uma história concreta e na geografia de um espaço imanente a reprodução a modo de decalque do arquétipo conceitual. Pois os mapas da cidade dos homens estão arquivados na cidade de Deus. A ideia platônica, tão similar a Deus, sem data de nascimento, sem falecimento previsto, sem imputação de qualquer maneira que seja, nem temporal, nem entrópica, sem falha, perfeita, gera a fábula de uma sociedade fechada, também ela dotada dos atributos do Conceito.

A democracia vive de movimentos, de mudanças, de ajustes contratuais, de tempos fluidos, de dinâmicas permanentes, de jogos dialéticos. Ela se cria, vive, muda, se transforma, se constrói em face de um querer resultantes de forças vivas. recorre ao uso da razão, ao diálogo das partes participantes, ao agir comunicacional, à diplomacia assim como à negociação. A teocracia funciona ao contrário: nasce, vive e usufrui da imobilidade, da morte e do irracional. A teocracia é a inimiga mais temível da democracia, anteontem em Paris antes de 1789, ontem em Teerã em 1978, e hoje cada vez que a Al-Qaeda dá voz à pólvora.

Michel Onfray 
Trad.: Monica S.
2005


cultura & valor


Seria mais inteligente se deixássemos de hipocrisia e assumíssemos a nossa condição individualista, ainda mais neste mundo em que a maioria só se preocupa com o que lhe permite uma carreira, um status social.


2.12.17

benjamim revisitado


O passado é visto como um acúmulo de estacionamentos pela falsa tempestade do progresso que impele ao vazio cultural.


1.12.17

tratado de resistencia e insumisión


El imperio absoluto de uno sobre otro, en nombre de un universal que niega al individuo: esto es lo que define el microfascismo.
Onfray