[...]
Escrevemos nossas cartas, não para vencer a morte, não para vencer o tempo, mas para habitarmos juntos, tanto quanto pudermos, apesar da separação, apesar do espaço, o pouco tempo que nos é dado e comum. Salvo megalomania particular, correspondemo-nos apenas com nossos contemporâneos (quando estelas se dirigiam, antes, aos descendentes), e há nisso, parece-me, algo de essencial à correspondência, que faz sua pobreza e seu valor. Um vivente dirige-se a um vivente, e não para os séculos dos séculos (como certos escritores, nem sempre os melhores, em seus livros), mas para compartilhar alguma coisa, um acontecimento ou um pensamento, uma emoção ou um sorriso, muitas vezes quase nada e esse é o essencial de nossas vidas, para compartilhar essa pobreza que somos, que vivemos, que nos faz e desfaz, antes que a morte nos pegue, para não renunciar, enquanto respiramos e sejam quais forem os quilômetros que nos separam, à doçura de viver juntos, em todo caso ao mesmo tempo, à doçura de compartilhar e de amar. Contemporâenos da mesma eternidade, que é hoje. Passantes na mesma passagem, que é o mundo. Turguiéniev, em seu leito de morte, quis escrever uma derradeira carta a Tolstói: "Senhor, foi uma grande felicidade ter sido seu contemporâneo." Nem todos são Tolstói, nem todos são Turguiéniev. Contudo, é um pouco isso que quereríamos dizer, em nossas cartas, e que dizemos de fato, com nossas cartas, pelo simples fato de escrevê-las, e embora na verdade não digamos. Se deixamos de lado as trocas puramente profissionais ou administrativas, quase sempre é de amor que se escreve, e por amor, seja esse amor de paixão ou de amizade, de família ou de férias, profundo ou superficial, leviano ou sério. Escrevo-te para dizer que te amo, ou que penso em ti, que me alegro, sim, de ser teu contemporâneo, de habitar o mesmo mundo. o mesmo tempo, de só estar separado de ti pelo espaço, não pelo coração, não pelo pensamento, não pela morte. Partir é morrer um pouco. Escrever é viver mais.
[...]
Lembro-me, adolescente, de ter trocado cartas com certa garota de quem estava perto todos os dias, no liceu, com quem falava, e, entretanto, as cartas formavam entre nós um laço mais essencial, mais profundo, mais íntimo. Às vezes elas passavam pelo correio, às vezes de mão para mão, e isso nunca nos pareceu estravagante nem absurdo. Por que se escreve quando se pode falar-se, quando se fala efetivamente? Porque nem sempre se pode falar, nem de tudo, porque a fala pode criar obstáculo para a comunicação, por vezes, ou condená-la à tagarelice, porque é preciso ter tempo de ficar sozinho, porque é doce pensar no outro em sua ausência, ainda que se deva vê-lo no dia seguinte, dizer-lhe o lugar que ocupa em nossa vida, mesmo quando ele não está presente, em nosso coração, em nossa solidão, e é isso que a fala jamais poderá fazer, uma vez que ela a suprime. A fala não nos aproxima de outrem, com muita freqüência, senão nos separando de nós mesmos, e assim nos aproxima do outro apenas ficticiamente, apenas em superfície ou pela vitrina. Numa carta, ao contrário, só atingimos o outro ficando o mais próximo de nós. Mas o atingimos, pelo menos isso acontece, e numa profundidade que as falas só alcançam raramente. A escrita é mais próxima do silêncio, mais próxima da solidão, mais próxima da verdade. Ao menos pode sê-lo, e é isso que a justifica. Que adianta escrever, se é para fingir?
[...]
[COMTE-SPONVILLE, André. Bom dia angústia. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 36-37 e 38]
