17.9.18

quantas vezes eu deveria ter sido fuzilado?

1966 

Só com catorze anos vividos à face da terra, eu havia cometido já tantos crimes (no entender dos fascistas) que deveria ter sido fuzilado pelo menos vinte vezes:

1 Não denunciei um judeu – o meu camarada Churka; 
2. Prestei auxílio a um prisioneiro (Vasily); 
3. Tive escondida uma bandeira vermelha; 
4. Transgredi a lei do recolher obrigatório; 
5. Não devolvi tudo o que retirei de uma loja; 
6. Não entreguei o nosso combustível às autoridades; 
7. Não entreguei os nossos excedentes de provisões; 
8. Fui possuidor de um par de botas de feltro; 
9. Afixei um cartaz; 
10. Roubei (beterrabas, lenha, etc.); 
11. Trabalhei ilegalmente, sem licença, para um salsicheiro; 
12. Fugi da Alemanha (em Vychgorod); 
13. Tornei a fugir (na Igreja do Priorado) 
14. Roubei e utilizei uma espingarda; 
15. Estava na posse de munições; 
16. Não obedeci às determinações do decreto sobre ouro (por não ter denunciado Degtyariev); 
17. Acalentava sentimentos antialemães e fomentei tais sentimentos noutras pessoas (também acerca disto havia um decreto); 
18. Não compareci para me registrar, atingidos os catorze anos; 
19. Não denunciei membros da resistência; 
20. Permaneci numa zona proibida durante quarenta dias, e só por isso deveria ter sido fuzilado quarenta vezes. 

E tudo isto sem pertencer ao Partido Comunista, à Liga dos Jovens Comunistas ou ao movimento subterrâneo. Tão-pouco era judeu, cigano ou refém. Não fizera quaisquer discursos nem era possuidor de pombos ou de qualquer aparelho de rádio. Era apenas um rapazito muito vulgar, como tantos outros, sem nada que o distinguisse, e que usava boné. Mas pela regras deles – faça-se o que se fizer, é-se castigado – eu já tinha o direito de viver. 

Se estou vivo, devo-o a um equívoco; apenas porque, em toda aquela pressa e confusão, os alemães não podiam fazer vigorar plenamente as suas leis e regulamentos. 

Se um patife de um fascista aparecia um dia com uma regra arbitrária por ele congeminada, logo no dia seguinte surgia outro com segunda regra, e, mais tarde, um quinto ou um vigésimo. E sabe-se lá quantas mais regras poderiam ser concebidas na amálgama confusa dos cérebros fascistas. 

Mas eu queria viver! 

Queria viver o tempo que me estava destinado e não o tempo que aqueles degenerados houvessem por bem. Como vos atreveis? Que direito tendes de decidir sobre a minha vida, de decidir: 

O TEMPO QUE VIVEREI 
COMO VIVEREI 
ONDE VIVEREI 
QUE DEVO PENSAR 
QUE DEVO SENTIR 
E QUANDO DEVO MORRER 

Quero viver até que tenha desaparecido o vosso último vestígio. 

Detesto-vos, fascistas, inimigos da vida, detesto-vos como a coisa mais nauseabunda que jamais nasceu sobre a terra. Sede malditos, MALDITOS, MALDITOS! 

Anatoly Kuznetsov
Trad.: Jorge Rosa


12.9.18

babi yar


"Vamos embora, entreguem todos os diplomas de distinção", disse o avô. "Todos os retratos, todos os livros soviéticos! Marusya, mãos à obra se queres vive".

Os meus diplomas escolares tinham o retrato de Lenine no lado esquerdo e o de Estaline no lado direito. O avô, que até ali nunca se interessara por livros, pegou ele próprio em braçados inteiros que deitou ao fogão. A princípio, minha mãe resistiu, mas, por fim, resignou-se.

Estava frio, e os livros aqueceram o fogão que era uma beleza.  Lembro-me de que só se salvaram as obras completas de Puchkine. O avô não tinha a certeza acerca dele, pois Puchkine, embora um moskal, um russo, vivera há muito tempo, e nem bolcheviques nem alemães o tinham condenado.

Os livros produziram um montão enorme de cisco e a chaminé entupiu. A minha mãe pegou numa pá, limpou o fogão e retirou as cinzas. Trabalhava concentradamente, o rosto inexpressivo. Eu então disse:

- Não fique desgostosa. Lá virá o dia em que teremos outa vez montes de livros.
- Os néscios nunca os pouparam - disse ela. - Nunca.

A biblioteca de Alexandria foi queimada, a Inquisição teve as suas fogueiras, os livros de Radistchiev foram queimados, Hitler queimou livros nas ruas. Se escapares com vida, lembra-te disto: quando se queimam livros é porque as coisas vão mal, é porque a violência, a ignorância e o medo reinam por toda a parte. E que acontece agora? Quando um bando de degenerados queima livros nas ruas é horrível, sim, mas não o pior que pode acontecer. Mas quando as pessoas começam a queimá-los na sua própria casa, trémulas de pavor...

Jamais esqueci aquelas palavras. É possível que minha mãe se exprimisse de forma ligeiramente diferente, mas a substância reproduzi-a eu com rigor - a biblioteca de Alexandria e a Inquisição, acerca de ambas as quais tive, assim, um ensinamento concreto, pois surgira uma ponte que as ligava discretamente com o nosso fogão.

Na escola instalou-se uma unidade do exército que, durante várias horas, se entreteve a atirar carteiras, equipamento de laboratório, globos e livros pelas janelas. Dirigindo-se à nossa biblioteca de bairro, atiraram com o recheio para o jardim. Viam-se livros caídos nas ruas, espezinhados pelos transeuntes como se fossem lixo.

Quando a unidade foi transferida e deixou a escola devoluta, fui até lá deitar uma espreitadela. Todo o rés-do-chão fora convertido num estábulo. Os meus pés afundaram numa camada de palha e estrume que cobria o soalho da nossa sala de aulas; nas paredes tinham espetado argolas de ferro para prender os cavalos. Nas salas dos outros andares havia bancadas cheias de palha. No chão, por toda a parte, ligaduras de mistura com fotografias de mulheres nuas tiradas de revistas. No pátio tinham aberto uma longa vala com paus adaptados por cima. Era a sua latrina a céu aberto, visível aos olhos de todos.

O monte de livros deitados fora sofrera já grandes danos causados pela chuva. Os da camada superior estavam empapados em água, as páginas coladas. Escalei o monte e comecei a escavá-lo. Os livros que se encontravam por baixo estavam úmidos, viscosos e quentes: apodrecidos.

Sentei-me sobre o monturo, encolhidos por causa do vento, e pus-me a remexê-los. Descobri Bug-Jargal, de Hugo, e perdi-me na leitura. Não me conseguia arrancar dali e, quando escureceu, levei o volume comigo.

No dia seguinte, peguei numa saca e comecei a juntar livros. Escolhi os menos danificados, os que tinham a capa mais sólida. acartei-os para casa e amontei-os no telheiro, no canto mais afastado, por detrás do monte de lenha. Imaginei então uma história que impingi ao avô: "Não temos muita lenha; quando os livros estiverem secos podemos utilizá-los como combustível". O avô reflectiu; por um lado, eram livros, de facto, mas, por outro, não nos pertenciam - havíamo-nos limitado a aproveitá-los para servirem de lenha. "Está bem, és um rapaz esperto", disse-me ele à guisa de louvor.

Havia-se esgotado o nosso petróleo, e as lâmpadas elétricas pendiam sem vida do tecto. Cortei então alguns pedaços de madeira, dando-lhes a forma de velas, fixei-os na ponta bifurcada de um pau e acendi um fósforo. O resultado não era mau de todo. Ardiam bem enquanto se lia, necessitando apenas de um ou outro ajustamento com a mão. Quando uma vela se acabava, arrancava-se e acendia-se outra. Produziam um cheiro agradável e davam, até, certo calor. Eu arranjara um lugar para mim em cima do fogão, que se encontrava quase frio, pois a minha avó decidira economizar lenha. O gato Tito, deitava-se ao meu lado e aquecíamos mutuamente enquanto eu lia. E quanto livros li nessa fase! Mas, mal acaba um livro, o avô levava-o para servir de combustível...

Lia até altas horas enquanto durou o molho de velas. A minha mãe saía do quarto dando estalidos com os ossos dos dedos e deitava-me um olhar estranho.

- Porque não dorme? - perguntava eu, irritado.
E ela respondia:
- Está lá fora um carro a buzinar e não consigo dormir.

Anatoly Kuznetsov | 1966
Trad.: Jorge Rosa


23.8.18

changer le monde sans prendre le pouvoir



Não lutamos como classe trabalhadora, lutamos contra ser classe trabalhadora, contra ser classificado [...] Não há nada de bom em sermos membros da classe trabalhadora, em sermos ordenados, comandados, separados do nosso produto e do nosso processo de produção. A luta surge não do fato de sermos classe trabalhadora, mas do fato de "sermos e não sermos" classe trabalhadora, de que existimos "contra e para além" de sermos classe trabalhadora, de que tentam nos ordenar e comandar, mas não queremos ser ordenados e comandados, de que tentam nos separar do nosso produto e nossa produção e de nossa humanidade e de nossas identidades, e não queremos ser separados de tudo isso. Nesse sentido, a identidade de classe trabalhadora não é algo "bom" a ser estimado, e sim algo "ruim", algo a ser combatido, algo que é combatido, algo que está constantemente em questão.

A classe trabalhadora não pode se emancipar na condição de classe trabalhadora. É apenas em nossa condição de não classe trabalhadora que a questão da emancipação pode sequer ser postulada [...] A classe trabalhadora não está situada fora do capital, pelo contrário, é o capital que a define (a nós) como classe trabalhadora. O trabalho se opõe ao capital, mas é uma oposição interna. É somente com o trabalho na condição de algo mais do que trabalho, e o trabalhador, mais do que um vendedor de força de trabalho, que a questão da revolução pode sequer ser colocada.

John Holloway

21.8.18

the future is unwritten


Direção de Julien Temple | 2007

Joe Strummer estaria a completar 66 existências se estivesse vivo. Faz falta este verdadeiro comunicador no meio musical tomado pela ideologia comercial.


16.8.18

revolução e contrarrevolução

1925-1985

A revolução não tem propósitos violentos, ela tem propósitos de vida, sem violência. A velha civilização é a violência do sistema social, a violência do dinheiro, a violência do poder autoritário, exército, polícia... a violência da raiva, a violência de éticas egoístas e mortes absurdas... Não queremos violência. Queremos vida. Queremos ser livres. Ser livre significa ser livre da violência. É por isso que o verdadeiro revolucionário é não violento. É por isso que encontraremos outros meios para mudar o mundo. Queremos ser livres do Estado assassino. Queremos transformar a força da morte em energia de vida, a violência, em criatividade. Cada pessoa deve ser livre para comer. Enquanto você pensar que é lícito matar, não nos libertaremos. Não podemos alimentar os mortos. Não podemos parar a guerra com a guerra. Queremos nos livrar da coerção. Todas as armas coagem. Toda matança é contra-revolucionária, antipoesia, antivida, antiamor e antimatéria. Os pobres ardem de beleza porque não carregam armas como a polícia. Nós somos inteligentes, nós, os revolucionários. Mas nós saberemos, quando tivermos abolido a violência, o dinheiro, o militarismo, a desigualdade... A revolução relegará o capitalismo... A revolução relegará o militarismo ao passado remoto. Este é o caminho:  fora das prisões, fora das favelas, dos guetos negros, fora da vida de trabalhar por um salário... fora da civilização da morte, a morrer e a matar... O fuzil é a lógica do pensamento insensato. Queremos transformar os oponentes da revolução com nossos corpos, brancos e negros. Nós formaremos células, minaremos a estrutura, assaltaremos a cultura, divulgaremos a idade da nova sociedade: a nova sociedade livre. Nós construiremos uma infraestrutura de trabalhadores e organizadores e, um dia, deixaremos de usar dinheiro. Só faremos trabalhos úteis. Planejaremos antecipadamente como levar as maçãs para a cidade. Você virá aos armazéns públicos e levará tudo o que precisar. Nada de dinheiro, nada de escambo, nem contrato. E se você não quiser, não será obrigado a trabalhar. E todas as pessoas envolvidas com dinheiro, governo, burocracia exército e a produção de inúteis mercadorias de merdas todas estarão livres. E se cada pessoa trabalhar cerca de dez horas por semana, o mundo, em revolução, continuará girando. Todas as prisões serão abertas. Não há roubo se não há nada para ser roubado. A violência é falta de sensibilidade. O dinheiro é falta de sensibilidade. Se pararmos de usar dinheiro, os bancos falirão. O exército desaparecerá, se não houver mais pagamento. Não precisamos de governo, precisamos de uma simples administração. A razão de ser do governo é proteger o dinheiro. Uma simples administração irá girar a roda para nós e isso será suficiente. Nos administraremos a nós mesmos e não haverá aluguel, não haverá nada para pagar. O meio para chegar à revolução é a destruição do dinheiro. Tudo é simples assim. Quando abandonarmos o dinheiro e a violência, inverteremos a consciência. Você não pode ter uma sociedade comunitária que inclua a violência. A violência divide. É anti comunidade. Você não pode ter liberdade individual com a violência ao seu redor. A violência tiraniza todo mundo.

Julian Beck
Trad.: Llion T.


10.8.18

carpe diem



Cidade para pessoas | Maria de Nazareth Hassen

Grandes esforços devem ser feitos se quisermos tornar as cidades mais habitáveis. Isso inclui decretos visando a diminuição dos ruídos, que proíbam alarmes de carro, limitem sirenes de emergência quando for tarde da noite e restrinjam as horas nas quais é permitido construir. Pequenos parques e outros espaços verdes devem ser planejados e executados. No nível dos bairros, ciclofaixas devem ser construídas, o tráfego deve ser moderado ("traffic calming") e as ruas reconquistadas ("street reclaiming") sempre que possível. Ou seja, o espaço da rua deve ser recuperado física e psicologicamente do domínio dos carros. Um estacionamento pode ser transformado em playground, jardim ou espaço comunitário. Os carros poder ser desacelerados ou mesmo eliminados utilizando-se luzes de sinalização, sinais de parada obrigatória, quebra-molas, barreiras, calçadas e extensões de curva ("bulb-out"). O moderamento do tráfego reduz o ruído, diminui o perigo que os carros representam para os pedestres, e cria espírito comunitário. Mais ruas da cidade devem ser fechadas para os carros e, sempre que possível, carros particulares deveriam ser totalmente proibidos de circular no centro.


Randy Ghent
Trad.: Daniel C.

30.7.18

freigeister


Prefiro um ateu implacável ao fanático em seu infeliz sistema de superstições.


fautes d'impression


Aquilo que o capitalismo oferece se dirige a conjuntos coletivos, mas está formulado de tal maneira que isso o faz explodir. Ao contrário, aquilo que o comunismo oferece é a solidão absoluta. O capitalismo jamais oferece a solidão, mas sempre e apenas o pôr-se em comum. McDonald's é a oferta absoluta da coletividade. Em qualquer lugar do mundo se está sentado sempre no mesmo local; come-se a mesma merda e todos estão contentes. Pois no McDonald's são um coletivo. Inclusive os rostos nos restaurantes McDonald se tornam cada vez mais parecidos. [...] Há o clichê do comunismo como coletivização. Nada disso; o capitalismo é a coletivização [...] O comunismo é o abandono do homem à sua solidão. Diante de seu espelho, o comunismo não lhes dá nada. É sua superioridade. O indivíduo é reduzido à sua existência própria. O capitalismo pode sempre lhes dar algo, na medida em que ele distancia as pessoas delas mesmas.

Heiner Müller | 1929 - 1985


23.7.18

carnificina

Nós deveríamos nos orgulhar
do nosso alto padrão de vida.

Enquanto muitos discutem a qualidade das questões da vida, uma coisa é certa: do ponto de vista do meio ambiente, os carros estão dizimando o planeta. Automóveis são uma das maiores fontes de poluição e de destruição ambiental no planeta. Quase metade de todo o petróleo produzido no mundo é consumido por carros. Metade da poluição atmosférica, da poluição tóxica do ar, um terço da fumaça e praticamente um terço de todos os gases de efeito estuda são emitidos por carros. Essas emissões são, no entanto, somente a ponta do iceberg (derretendo). Nos E.U.A., os carros são responsáveis por pelo menos um quarto dos contaminantes presentes nos córregos, sob forma de chuva ácida, gases poluentes, postos de gasolina, baterias, vazamentos de navios petroleiros, escoamentos e despejo de óleo por pessoas brincando de mecânico nas horas vagas.

Desde a espuma e do plástico presente nos assentos, até o petróleo nos pneus, cada carro é uma pequena fábrica de sujeira. Várias toneladas de resíduo e 918 milhões de metro cúbicos de ar poluídos são gerados somente na produção! Durante seu ciclo de vida, nas ruas, cada carro produz outros 994 milhões de metros cúbicos de ar poluído e dispersa na atmosfera mais 18 kg de partículas de pneu suado, detritos de freio e superfície de estrada gasta. Essa fuligem preta ou "pó de pneu" contamina nossos pulmões e cursos d'água.

Eu os assistia enquanto se acumulavam em minhas janelas e em minha varanda em Oakland. Não é de se espantar que crianças que vivem próximo a estrada em bairros pobres apresentem mais altos índices de asma.

Pilhas crescentes de pneu usado representam um sério problema de resíduo tóxico. Somando hoje em dia quase um bilhão somente nos E.U.A., esses pneus sujam repositórios de águas subterrâneas com zinco e metais pesados, e frequentemente pegam fogo. Consequentemente, o seu descarte e eliminação são muito trabalhosos. Os esforços feitos para recuperar-se óleo a partir deles, reciclá-los em outros produtos, ou adicioná-los ao material usado na construção de estradas, apesar de serem melhor do que nada, vem tendo um impacto mínimo. Em alguns casos, esses esforços têm resultado em impactos ambientais ainda piores. Nos E.U.A., atropelamentos por motoristas matam e mutilam cerca de 400 milhões de animais por ano, mais do que as mortes causadas por caçadores e aventureiros somadas! Somente os consumidores de carne representam parcela maior. Pior, de todos os assassinos, os carros são os que matam de maneira mais indiscriminada. Além de cervos e de inúmeros outros animais mais comuns, os veículos a motor matam também diversas espécies ameaçadas de extinção. Ursos negros e panteras nativas da Flórida, além de caribus ameaçados do Sul de Brtish Columbia e do norte de Idaho, têm sido devastados por carros.

Em parte devido às mortes de animais nas estradas, rodovias tem por efeito de dividir efetivamente habitats.

Um anel viário construído em torno de uma cidade costeira tem por resultado que os animais na parte interior do anel não possam sair para se alimentar os acasalar com os de fora. Uma grande estrada que atravessa uma floresta ou área selvagem produz o mesmo efeito. O resultado é uma diminuição do patrimônio genético, o que diminui as chances de uma espécie sobreviver a uma determinada doença, a secas ou mudanças ambientais graves. É precisamente por esta razão que as estradas são consideradas uma grande ameaça ao restante dos pandas gigantes.

Aí vem a poluição proveniente da manutenção das estradas. Sais e agentes de degelo são usados para manter as estradas do norte livres de gelo e neve. Além de corroer carros e enferrujar pontes e infraestruturas, estes sais atingem poços e zonas húmidas, e tem por efeito a salinização de águas subterrâneas e o crestamento das árvores mais antigas e da vegetação autóctone. Herbicidas usados para controlar a vegetação de beira de estrada têm um impacto semelhante, contaminando o solo e sujando águas subterrâneas.

Por fim, a construção de rodovias promoveu o desenvolvimento de subúrbios, trazendo a devastação ambiental causada pelos carros para ainda mais longe, em áreas rurais e selvagens. Mesmo se deixarmos de lado a poluição causada pelos carros, os cientistas acreditam que a expansão suburbana a ela mesma contribui para o aquecimento global, uma vez que a chegada do asfalto desloca árvores e espaços verdes que normalmente absorveriam dióxido de carbono e esfriariam a temperatura da superfície.

Sem dúvida, essa expansão da periferia incentiva o cultivo não-orgânico de tipo agronegócio, concentrando e movendo a produção de alimentos para ainda mais longe do consumidor. Nos E.U.A., uma porção de comida tem agora de viajar em média 2.255 quilômetros para chegar ao prato. As pessoas estão se tornando cada vez mais dependentes do petróleo para poder comer! O "American Farmland Trust" estima que entre 1 e 1,5 milhão de acres de terras agrícolas nos E.U.A. são consumidas anualmente por essa expansão. Se a tendência continuar, essa perda irá prejudicar a capacidade do país de exportar produtos alimentícios e até mesmo de satisfazer o mercado interno.

Como já foi dito acima, podemos debater se carros melhoram ou pioram a nossa qualidade de vida, mas não há como discutir o seguinte fato: se não pararmos de construir mais carros e estradas, nosso meio ambiente, e nós, que dependemos dele para viver, estaremos fritos.

Randy Ghent
Trad.: Daniel C.


20.7.18

somos contemporâneos de nossa escravidão


... a corrosão do caráter - esse fundo de violência não superado no Brasil, que persiste quando se defende o direito à violência direta em relação aos pobres - nunca permitiu que a profecia de fé racionalizante de Sérgio Buarque se realizasse plenamente aqui. Senão, como explicar a recente e absolutamente escandalosa anulação, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, do julgamento que condenava os policiais assassinos de 111 presos - quase todos negros - no massacre de 1992 no Carandiru? Ou como explicar, então, que os assassinatos cometidos pela polícia paulista de 493 jovens - também negros em sua maioria - nos dias seguintes à revolta do PCC, em maio de 2006, jamais tenham sido esclarecidos, julgados ou punidos? Ou como explicar, ainda, que parte da elite paulistana faça questão de tirar selfies com essa mesma polícia, reafirmando, dessa forma, um vínculo de proteção de classe - vínculo quase particular junto a uma polícia que se privatiza -, mas também legitimando todas as ações de extermínio da PM contra jovens brasileiros pobres e negros? Como explicar o acomodamento geral frente aos nove assassinatos por dia cometidos atualmente pelas polícias do Brasil?


[...]

Oitenta anos de regimes antissociais, antidemocráticos, autoritários ou ditatoriais brasileiros, incluindo-se aí a famigerada República Velha, o Estado Novo getulista e a violenta ditadura civil-militar de 1964-1985. Esse conjunto de obras de elite deformou completa e terrivelmente, em termos humanos, sociais e espirituais, o século XX brasileiro. Apesar do esforço generoso, produtivo e esteticamente brilhante de nosso modernismo artístico e intelectual - uma corrente do espírito que forçou e alterou muitos aspectos do Brasil moderno arcaico -, o que significam estes quase oitenta anos em cento e vinte de regimes autoritários e de altíssima concentração de poder em pleno século XX brasileiro?

Com os olhos livres, ou com algum ajuste de lentes, é possível ver nessa dificuldade democrática o reflexo da elite brasileira, que continuamente tenta limitar o acesso e a integração das massas no espaço da riqueza nacional. Tão indecentemente orientada para o alto, ela é uma verdadeira repetição da estrutura concentracionária, da cisão absoluta entre o mundo do trabalho e o mundo do direito própria de nosso século XIX escravista. Nossos surtos autoritários de poder concentrado, agora revestidos com a máscara neoliberal, não estariam apena repondo a ordem mais séria e constante, a ordem ocidental capitalista escravista periférica, cuja fronteira terrível atravessou a nossa própria nação como uma verdade de força irrecusável? E como ficam os sujeitos não modernos brasileiros, que, apesar de negociarem a produção e a riqueza nacional no mercado mundial e de sempre participarem das benesses da internacionalização do capital, são em geral incapazes de produzir, de modo constante e contínuo ao longo do processo histórico brasileiro, integração social suficiente e adequada aos níveis contemporâneos de desenvolvimento?

O que sabemos bem do Brasil é que o país produz poder, formas sociais e muita riqueza - e o faz geralmente sobre os escombros da reprodução histórica da miséria, da pobreza e da exclusão. Para tanto, a nação militariza fortemente a sua vida pública por meio da transformação de uma ação social, que seria necessária, em uma exclusão tolerada e em caso de polícia - o que produz o verdadeiro veneno subjetivamente político que embala nossos conservadores extremamente medíocres.

[...]

Nossa escravidão nacional, desenvolvida sobretudo durante a mais plena modernidade, marcaria a formação do caráter de muitos como uma neurose principal instalada, gozo perverso, que continuaria a produzir formas brasileiras de violência 

A nação consciente, desejada e produtora de lutas democratizantes, realizada em formas públicas possíveis de maior ou menor integração democrática, teria sempre que conviver com o sujeito originário dos atos de violência escravocrata, de desrespeito absoluto pelo corpo e pelo estatuto legal do outro, de máxima exploração e de felicidade de disposição sádica dos senhores, do gesto de força garantido sobre a vida dos trabalhadores, estrangeiros africanos, alucinadamente forçados para os limites da humanidade dita brasileira. Uma estruturação sádica subjetiva forte, preguiçosa quanto ao valor do próprio trabalho, que atravessa tempos históricos heterogêneos, que resiste - com a simplicidade com que resistem os desejos infantis no modelo psicanalítico dos sonhos - e que insiste em uma nação e em uma cultura que, devendo avançar como progresso, não deve superar a sua violência originária como ordem.

A escravidão é o sonho limite de nossos autoritários, tão constantemente presentes na história brasileira, e o pesadelo real de todos os que sentem e combatem. Ela é a ordem prévia, desejada e imposta na articulação do sadismo e do classismo entre nós, nossa infeliz origem imanente, muito anterior a toda vida pública democrática e includente.

[...]

Não falar, não imaginar, não escrever sobre a escravidão e a estrutura social nacional estabeleceram as condições arcaicas de nosso anti-intelectualismo profundo, lamentável e generalizado.

Tales Ab'Sáber
Agosto 2017


19.7.18

well i'm running police on my back


The Clash | 1980

Eu estou pedalando de volta para casa na canaleta próximo à receita federal - depois de passar praticamente a manhã correndo atrás da produção do meu livro, que será feito na raça - quando cola nas minhas costas um carro da guarda municipal com três brutamontes me intimidando com sirene para eu sair da rua como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada. Um dos trogloditas me xingou e disse que canaleta não era lugar de bicicleta. Pensei em responder que eu também tinha direito a ocupar a rua, visto que a falta de estrutura para pedalar era cultural. Mas ao olhar bem, percebi que os três brutamontes sem cérebro (eles não pensam, estão programados) estavam apenas procurando um pretexto para espancar alguém. Resolvi continuar meu caminho como se nada tivesse acontecido. E não dei bola. 

Literalmente, police on my back.


18.7.18

cities for people


Somente uma população despolitizada acha que polícia vai resolver os problemas de violência urbana (desigualdade econômica, falta de moradia, desemprego, etc.). Se fôssemos uma população politizada, estaríamos nos reunindo para criar espaços de cultura: ateliers, livrarias independentes, bibliotecas populares, áreas de lazer, espaços de memória. De fato, teríamos uma cidade voltada para as pessoas, para a emancipação social e uma construção livre da vida e não este modelo de cidade que só sabe alimentar a indústria automobilística.


riot radio


We are doing this song, cause it is important to us
To see you get involved and active!

ZSK 

[...]

A polícia, no seio do aparelho governamental, tem a função de assegurar, em última instância, a submissão individual e de produzir a população, como população, como massa despolitizada, impotente e, portanto, governável e, com isso, é lógico que um conflito que exprime a recusa em ser governado começa por se dirigir contra a polícia e adota como seu slogan mais popular: "Todo mundo detesta a polícia". O rebanho que escapa a seu pastor não poderia encontrar melhor grito de guerra.

[...] 

"Todo mundo detesta a polícia" diz mais o que uma simples animosidade em relação aos policiais. Pois a polícia, no começo do século XVII, nos primeiros pensadores da soberania, nada mais era do que a constituição do Estado, sua própria forma. Na época, ela ainda não era um instrumento nas mãos deste e ainda não tinha uma tenência em Paris. Por isso, durante os séculos XVII e XVIII, a "polícia" ainda tem um significado muito amplo: a polícia é, então, "tudo o que pode dar ornamento, forma e esplendor à cidade" (Turquete de Mayerne), "o conjunto de meios que servem ao esplendor de todo o Estado e à felicidade de todos os cidadãos" (Hohenthal). Seu papel, diz-se, é "conduzir o homem à mais perfeita felicidade da qual pode desfrutar nesta vida" (Delamare). A polícia é tanto a manutenção das ruas como o abastecimento dos mercados, tanto a iluminação pública quanto o encarceramento de vagabundos, tanto o preço justo dos grãos quanto a limpeza dos canais, tanto a salubridade do habitat urbano quanto a prisão do bandido. Fouché e Vidocq ainda não deram a ela seu rosto moderno e popular.

Caso se queira compreender o que está em jogo nesta questão eminentemente política da polícia, é preciso entender o truque de prestidigitação que se opera entre a polícia como meio e a polícia como fim. Há, de um lado, a ordem ideal, legal, fictícia do mundo - a polícia como fim - e, do outro, há sua ordem ou, melhor, sua desordem real. A função da polícia como meio é fazer de modo que exteriormente a ordem desejada pareça reinar. A polícia vela pela ordem das coisas por meio das armas da desordem e reina sobre o visível por meio de sua atividade imperceptível. Suas práticas cotidianas - sequestrar, bater, vigiar, violar, forçar, enganar, mentir, matar, estar armada - cobrem o conjunto do registro da ilegalidade. De modo que sua própria existência jamais cesse de ser, no fundo, inconfessável. Por ser a prova de que o legal não é real, de que a ordem não reina, de que a sociedade não se sustenta, posto que não sustenta a si mesma, a polícia se encontra infinitamente afastada em um ponto do mundo cego de pensamento. Pois ela é, para a ordem reinante, como uma marca de nascimento no meio do rosto. [...] a polícia é o que resta do estado de exceção quando essas condições foram restauradas. A polícia, em seu funcionamento cotidiano, é o que persiste do estado de exceção na situação normal. [...] a polícia vela por uma ordem aparente que interiormente não é mais do que desordem. Ela é a verdade de um mundo de mentira e, por isso, a mentira continuada. Ela atesta que a ordem reinante é artificial e cedo ou tarde será destruída.

Não é qualquer coisa viver em uma época na qual essa peça obscena, opaca, que é a polícia, venha à plena luz. Que policiais armados, com roupas especiais e escudos, marchem tranquilamente em formação para o Élysée, como fizeram no outono passado, sob o grito de "sindicatos corruptos" e "franco-maçons na prisão", sem que ninguém ouse falar de maquinação de uma facção.

As operações de polícia são também operações nos afeto. E é em virtude dessa operação que a justiça passa a perseguir, a partir de então, os suspeitos pelo ataque do cais Valmy. Na sequência da violação de Théo, um policial confessava tranquilamente ao Parisien: "Pertencemos a uma gangue. Não importa o que aconteça, somos solidários."

O slogan "Todo mundo detesta a polícia" não exprime uma constatação, que seria falsa, mas um afeto, que é vital. De modo contrário ao que inquieta covardemente governantes e editorialistas, não há um "fosso que cresce ano a ano entre aqueles, inumeráveis, que têm excelentes motivos para detestar a polícia e a massa amedrontada daqueles que abraça a causa dos policiais, isso quando não abraçam um deles. Na realidade, é a uma reviravolta maior na relação entre governo e polícia que assistirmos. Durante muito tempo, as forças da ordem foram marionetes idiotas, desprezadas mas brutais, que se lançavam contra as populações desobedientes. [...] São os governantes que são agora os chocalhos nas mãos da polícia. Eles não têm outra escolha senão correr ao leito de qualquer policial esfolado e ceder a todos os caprichos da corporação. Depois do direito de matar, o anonimato, a impunidade, o último armamento, o que pode ela ainda obter? Por certo, não faltam facções do corpo policial que sentem bater as asas e sonhar em se transformar em força autônoma que tem sua própria agenda política. Nisso a Rússia parece um paraíso, uma vez que os serviços secretos, a polícia e o exército já tomaram o poder e governam o país em seu proveito. Se a polícia certamente não está a altura de se autonomizar de modo material, isso não a impede de manifestar, com todas as barulhentas sirenes, a ameaça de sua autonomia politica.

A polícia se encontra, assim, dividida entre duas tendências contraditórias. Uma, conservadora, funcional, "republicana", gostaria apenas de se manter um simples meio a serviço de uma ordem sem dúvida cada vez menos respeitada. A outra arde em desejos para se desfazer disso, para "limpar a escória" e não obedecer a mais ninguém - para ser em si mesma seu próprio fim. No fundo, apenas a chegada ao poder de um partido decidido a "limpar a escória" e a apoiar incondicionalmente o aparato policial poderia reconciliar essas duas tendências. Mas um tal governo, seria, por sua vez, um governo de guerra civil.

Em um país como a França, isto é, em um país que pode muito bem ser um Estado policial, com a condição de não o proclamar publicamente, seria insensato procurar uma vitória militar sobre a polícia. Mirar um uniforme com paralelepípedo não é a mesma coisa que entrar em um corpo a corpo com uma força armada. 

Nós, revolucionários, não somos vinculados por nenhuma obediência, nós estamos ligados a todos os tipos de camaradas, amigos, forças, meios, cúmplices, aliados. Isso nos permite fazer com que, sobre certas intervenções policiais, pese a ameaça de que a operação de manutenção da ordem desencadeie, ao contrário, uma desordem não gerenciável. [...] Quando uma intervenção de polícia produz mais desordem do que reestabelece a ordem, é sua razão de ser que está em causa. 


12.7.18

contra a reprodução

Laurence typing, de Fairfield Porter | 1952


As técnicas de policiamento e disciplina do corpo não fazem parte de minha metodologia. Deixo esse mecanismo de domesticação a serviço das escolas-prisões. 

Me agrada mais a prática de uma "leitura desordenada", escrever fanzines: ser o próprio editor de minha existência.


11.7.18

acabar com as obras-primas

1896 - 1948

Trata de saber o que queremos. Se estamos prontos para a guerra, a peste, a fome e o massacre, nem precisamos dizer nada, basta continuar. Continuar nos comportando como esnobes e a nos locomover em massa para ver este ou aquele cantor, este ou aquele espetáculo admirável e que não ultrapassa o domínio da arte [...] esta ou aquela exposição de pintura de cavalete em que explodem aqui e ali algumas formas impressionantes mas casuais e sem uma consciência verídica das forças que poderiam acionar.

Ou trazemos todas as artes de volta a uma atitude e a uma necessidade centrais, encontrando uma analogia entre um gesto feito na pintura ou no teatro e um gesto feito pela lava no desastre de um vulcão, ou devemos parar de pintar, de vociferar e de fazer seja lá o que for.

Não creio que consigamos reavivar o estado de coisas em que vivemos e nem creio que valha a pena aferrar-se a isso; mas proponho alguma coisa para sair do marasmo, em vez de continuar a reclamar desse marasmo e do tédio, da inércia e da imbecilidade de tudo.

A. Artaud


10.7.18

sumak kawsay




No campo ecológico, os temas são igualmente candentes. Apesar dos evidentes problemas provocados pelas mudanças climáticas, exacerbadas pela voracidade capitalista, o sistema busca ampliar espaços de manobra mercantilizando cada vez mais a Natureza, como observa o britânico Larry Lohmann. Os mercados de carbono e serviços ambientais são a mais recente fronteira de expansão do capital. Desloca-se a conservação dos bosques ao âmbito dos negócios: mercantiliza-se e privatiza-se o ar, as florestas e a própria Terra. Parece não importar que a serpente capitalista continue devorando sua própria cauda, colocando em risco sua própria existência e a da Humanidade.

O capitalismo, demonstrando seu assombroso e perverso engenho para buscar e encontrar novos espaços de exploração, está colonizando o clima. Este neoliberalismo extremo, do qual não se libertaram os governos "progressistas" da América Latina, converte a capacidade de uso da Mãe Terra em um negócio para reciclar carbono. E - o que é preocupante - a atmosfera é transformada cada vez mais em uma nova mercadoria, projetada, regulada e administrada pelos mesmos atores que provocaram a crise climática e que recebem agora subsídios dos governos por meio de um complexo sistema financeiro e político. Recordemos que este processo de privatização do clima iniciou-se na época neoliberal impulsionado pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial do Comércio.

O mercado de carbono [...] constitui realmente a possibilidade de fazer negócio com o desastre atmosférico.

Alberto Acosta
Trad.: Tadeu B.


9.7.18

desenhando


Singer resume muito bem a vida sob a ditadura do automóvel.

Abre aspas
Vinte mil pessoas são mortas, por ano, vítimas de acidentes de trânsito no Brasil, mas números não oficiais apontam quase o dobro. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mais de um milhão de pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente nestes acidentes! As ruas, avenidas e viadutos avançam devastando bairros e expropriando o espaço público da comunidade pelo espaço privado do automóvel. O petróleo polui e altera as condições climáticas das cidades cada vez mais congestionadas...

cities for people


Retomando um velho assunto. Se as cidades estão se transformando em um imenso estacionamento, haja visto a onda de destruição de prédios para a formatação de espaços vazios (reificação do tédio) para guardar carros, por que ainda se estaciona na rua? No lugar desse espaço morto, poderíamos ter ciclovias e calçadas arborizada mais largas.

Pensar a cidade para pessoas e para outras formas de locomoção, sem a imposição de um único meio de transporte urbano, seria uma tarefa bem simples para os administradores, mas parece que os "profissionais" do planejamento urbano costumam deixar o cérebro na soleira da repartição ou no porta luvas do automóvel.

Esse modelo de vida está longe de ser caracterizado de desenvolvimento humano. E a carrocracia é o que melhor define a democracia.

6.7.18

Mc Imundo


As construções precárias no modo de pensar e observar o mundo são frutos de uma monocultura fabricada pela "indústria cultural". Se a educação está visada para ser instrumento da manutenção do status quo, imagina para quem usa as subjetividades para o consumo. A manipulação transforma até mesmo identidades em objetos de mercado.

Nessa maquinaria da anestesia onde as pessoas parecem estar em coma e os afetos circulam em torno da sociedade do consumo é de costume transformar espertalhões em personalidades. Surpreende encontrar em nossos dias estereótipos ficcionais, caricaturas cinematográficas para satisfazer a sociedade do espetáculo. Mas não é preciso ir longe, basta ver as "referências" da audiência para depreendermos o inconsciente colonizado. É um mais tosco e escroto (sem conteúdo algum, portanto ricos) competindo para ver quem ganha o campeonato da imundice. Isso é o resultado de  um capitalismo tardio e periférico.



4.7.18

deus e o estado


[...]

Inventado os deuses tinham agora respostas. E aqueles que vieram depois desses inventores de deuses, não tinham mais conhecimento de que deus era inventado, então passam a temê-lo e a ser seu escravo. Logo mais, por alguns homens com “espírito corrupto”, criam uma casta para fazer intermediário entre deuses e homens, utilizando da religiosidade para seu próprio proveito. Esses deuses se estabelecendo no imaginário coletivo, através da tradição, fazem nascer o clero. O clero monopoliza deus se tornando a autoridade e a hierarquia do conhecimento e da inspiração. 

[...]

Até o século de Galileu e de Copérnico, todo mundo acreditava que o sol girava em torno da Terra. Todo mundo não estava errado? O que há de mais antigo e de mais universal do que a escravidão? [...] Desde a origem da sociedade histórica, até nossos dias, sempre houve, e em todos os lugares, exploração do trabalho forçado das massas, escravos, servos ou assalariados, por alguma minoria dominante, opressão dos povos pela Igreja e pelo Estado. Deve-se concluir que essa exploração e essa opressão sejam necessidades absolutamente inerentes à própria existência da sociedade humana? Eis alguns exemplos que mostram que a argumentação dos advogados do bom Deus nada prova. 

Mikhail Bakunin 



3.7.18

o que está errado não é o nome anarquismo


É a anarcofobia. O medo de ser livre. E isso é que os anarquistas devem focar e estudar. O medo da liberdade é uma síndrome que gera pavor não só do anarquismo, mas de toda liberdade de si e dos outros porque sofre de uma patologia que é a anarcofobia. Em geral os anarcofóbicos gostam muito de sonhar ou lembrar de um fascismo, governos totalitários ou mesmo até nazismo. A utopia deles são essas. Só se sentem tranquilos em ditaduras e substituindo um pai dominador por um grande pai que é o ditador. E isso é bajulado, permitindo fazer o que a maioria dos seres humanos gostam: viver sem trabalhar, explorando os outros e ficando milionários. E o lado sádico, que faz parte dessa patologia, é ver o outro supliciado pelo paizão ditador e isso lhe causa prazer. E mesmo mudando o nome, como já fizemos com o termo libertário, não adianta achar que o anarquismo decepciona as pessoas porque é apresentado com esse nome. O que ocorre é uma patologia que, mesmo em uma democracia, eles manteriam o medo da liberdade de si e dos outros, que os levam a uma paixão por uma ditadura.

Ricardo Liper


2.7.18

Les trois ptits keupons



Ludwig von 88 | 1987



Regarde là bas / Le grand méchant condé / Y avait trois petits keupons / Avec des jolis blousons / Et des docs à coke, des centures cloutées et des chveux décolorés / Le premier petit keupon / Faisait de jolies chansons / Et le samedi soir / Avec sa guitare / Il jouait le rock'n'roll // Refrain: Hahaha je vais t'attraper / Je suis le gros, le méchant condé / Qui a peur du méchant Pasqua? / C'est p'têtre vous / C'est pas nous / Qui a peur du méchant Pasqua? / Tralalalala (hou) / Il ne nous attrapera pas / Surement pas, surement pas / Il ne nous attrapera pas / (Ouais!) / Le deuxième petit keupon / Faitsait pousser du gazon / Et le samedi soir / Broutait dans les square / Avec ses copains canards / Le troisième petit keupon / Avait dl'imagination / Il rentrait du bar / Tous les samedis soir / Avec son ami Babar / Toc, toc, toc / Qui c'est?? / C'est le petit chaperon rouge / Non, non, non, nous ne voyons* pas / Tu t'es trompé d'histoire / Je vais vous attraper / Et alors? / Je vais tous casser / Et alors? / Je vais verbaliser / Et alors? / Et alors? / Et alors? / Et alors? / Il y avait trois petits keupons / À la queue en tire-bouchon / Avec des docs à coke, des centure cloutées et les chveux décolorés / Pour semer leur adversaire / Se déguisèrent en courant d'air / Et tout les agents pas du tout content / Se retournèrent en mogréant


manifestações do irracional


Como alguém pode se dizer amante da liberdade e temer deus ao mesmo tempo?


29.6.18

o espírito esportivo

Quino

Fico sempre espantado quando ouço gente dizendo que o esporte cria boa vontade entre as nações, e que se as pessoas comuns do mundo pudessem se encontrar num jogo de futebol ou críquete, não teriam nenhuma inclinação para se encontrar no campo de batalha. Mesmo que não soubéssemos, a partir de exemplos concretos (as Olimpíadas de 1936, por exemplo), que as disputas esportivas internacionais levam a orgias de ódio, isso poderia ser deduzido de princípios gerais.

Quase todos os esportes praticados hoje em dia são competitivos. Joga-se para ganhar, e o jogo faz pouco sentido se não fizermos o máximo para vencer. No campo da aldeia, onde você escolha lados e não há nenhum sentimento de patriotismo local envolvido, é possível jogar simplesmente pelo divertimento e pelo exercício; mas assim que surge a questão do prestígio, assim que você sente que você e uma unidade maior serão execrados se perderem, despertam-se os instintos combativos mais selvagens. Quem já participou de um jogo de futebol, nem que seja na escola, sabe disso. No cenário internacional, o esporte é francamente um arremedo de guerra. Porém, o mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude dos espectadores, das nações que ficam furiosas em relação a essas disputas absurdas e acreditam seriamente - ao menos por períodos curtos - que correr, saltar e chutar uma bola são testes de virtude nacional.

[...]

Assim que sentimentos fortes de rivalidade são incitados, desaparece a noção de jogar o jogo conforme as regras. As pessoas querem ver um lado por cima e outro humilhado, e esquecem que a vitória obtida pela trapaça ou pela intervenção da torcida não faz sentido. Até mesmo quando não intervêm fisicamente, os espectadores tentam influenciar o jogo, incentivando seu time e envenenando o adversário com vaias e insultos. O esporte sério nada tem a ver com o jogo limpo. Ele está vinculado a ódio, ciúme, jactância, desconsideração de todas as regras e prazer sádico de testemunhar violência: em outras palavras, é uma guerra sem os tiros.

[...]

São os esportes mais violentamente combativos, futebol e boxe, os que mais se difundiram. Não pode haver muitas dúvidas de que a coisa toda está vinculada à ascensão do nacionalismo - isto é, com o inconsequente hábito moderno de se identificar com unidades de poder maiores e ver tudo em termos de prestígio competitivo.

[...] 

Na Idade Média, eram jogados, tudo indica que com muita brutalidade física, mas não estavam misturados à política nem causavam ódios entre grupos.

Se quiséssemos aumentar o vasto fundo de má vontade existente no mundo neste momento, dificilmente poderíamos fazer melhor do que promover uma série de jogos de futebol. [...] tornamos as coisas piores por mandar um time de onze homens, rotulados de campeões nacionais, lutar contra um time rival e deixar que todos os envolvidos sintam que a nação que for derrotada vai "perder a dignidade".

[...] Já existem muitas causas reais para problemas e não precisamos aumentá-las estimulando homens jovens a se chutar mutuamente nas canelas, em meio a rugidos de espectadores enfurecidos.


George Orwell
Tribune, 14 de dezembro de 1945
Trad.: Pedro Soares


28.6.18

logofobia


Brasileiro médio sofre de logofobia. Pode passar o dia todo em frente a televisão mas entra em coma ao ler dois parágrafos de um livro de história.


poesia e microfone



[...]

é mais difícil obter cinco minutos no ar para transmitir um poema do que doze horas para disseminar propaganda mentirosa, música enlatada, piadas velhas, "discussões" fingidas ou o que mais você quiser saber.

George Orwell
Trad.: Pedro Soares


26.6.18

náusea


I

Não se transforma a sociedade sem questionar a natureza do ensino.

II

Dentro dos apartamentos de concreto a anestesia educa a indiferença.

III

De habitantes privilegiados da modernidade a consumidos desmiolados em uma planeta poluído.


25.6.18

informe-se

La police vous parle tous les soirs à 20h

Mayo de 68 es la revuelta colectiva de la inteligencia

Mayo fue algo más que el intento de derrocar a un gobierno desgastado, fue algo más que el deseo de reformar la Universidad y mejorar las condiciones laborales. Mayo representa el único y el último momento en que una sociedad, casi por completo, detuvo la maquinaria de su vida cotidiana, salió a la calle y liberó la palabra que llevaba prisionera en su seno, aplastada por décadas de silencio y rutina.

Explosão de Maio planteou de súbito, perante toda a sociedade francesa, a questão social da nossa época nos países imperialistas. Quem mandará nas máquinas? Quem mandará nos homens? Quem decidirá dos investimentos, da sua orientação e da sua localização? Quem determinará o ritmo de trabalho? Quem escolherá o leque de produtos a fabricar? Quem estabelecerá a prioridade na utilização dos recursos produtivos de que a sociedade dispõe? Apesar da tentativa de se reduzir a greve geral a um problema de retribuição da força de trabalho, a realidade econômica e social obriga e obrigará toda a gente a discutir acerca do problema fundamental, tal como Marx o tinha formulado: não apenas quanto aos aumentos dos salários, mas quanto à supressão do salariato. 


24.6.18

À bas l'État policier



Puisque la provocation / Celle qu’on a pas dénoncée / Ce fut de nous envoyer / En réponse à nos questions // Vos hommes bien lunettés / Bien casqués, bien boucliés / Bien grenadés, bien soldés / Nous nous sommes mis à crier // À bas l’Etat policier! / Parce que vous avez posté / Dans les cafés, dans les gares / Vos hommes aux allures bizarres / Pour ficher, pour arrêter // Les Krivine, les Joshua / Au nom de je n’sais qu’elle loi / Et beaucoup d’autres encore / Nous avons crié plus fort // À bas l’Etat policier! // Mais ce n’était pas assez / Pour venir à bout de nous / Dans les facs à la rentrée / Vous frappez un nouveau coup // Face aux barbouzes, aux sportifs / Face à ce dispositif / Nous crions assis par terre / Des Beaux-Arts jusqu’à Nanterre // À bas l’Etat policier! // Vous êtes reconnaissables / Vous les flics du monde entier / Les mêmes imperméables / La même mentalité // Mais nous sommes de Paris / De Prague et de Mexico / Et de Berlin à Tokyo / Des millions à vous crier.

Dominique Grange