9.2.10
7.2.10
cronopiando

El marfil de la torreEn el año 1959, los Estados Unidos obtuvieron en América Latina 775 millones de dólares de beneficios por concepto de inversiones privadas, de los cuales reinvirtieron 200 y guardaron 575.(De un acta oficial de la UNCTAD,Conferencia de Nueva Delhi, 1968)
SIN EMBARGO
el escritor latinoamericano
debe escribir tan sólo
lo que su vocación le dicte
sin entrar en cuestiones
que son de la exclusiva competencia
de los economistas.
[CORTÁZAR, Julio. Último round. México: siglo veintiuno editores, 1969. p. 149]
Poiésis
Releitura
3.2.10
exercício de composição
[...]
Eu luto. Estou brigando comigo dum modo tão feroz que até às vezes me assusta. E o mais terrível é que pela primeira vez na minha vida não tenho mais aquela bonita certeza de vencer que foi o que sempre me deu todas as minhas vitórias sobre mim e sobre essa danada de vida. Tudo isso afinal significará pra você que a minha felicidade está muito desbaratada agora. Está sim e chegou o momento em que para alguns, por orgulho ou por utilidade prática, sou obrigado a fingir que ela permanece intata. Isso pelo menos me dá uma vitoriosa certeza do passado em que agora sei que fui realmente duma felicidade conquistada que o Manuel Bandeira tanto duvidava possível de mim. Agora ando aprendendo a fingir felicidade, cheguei nisso. Por isso eu te agradeço abraçado o prazer imenso que o seu livro me deu. Você foi o amigo que veio na grande ocasião.
[Mário de Andrade]
Poiésis
Leitura
1.2.10
29.1.10
dos grandes prosadores
[...]
Não se distinguia nenhum ruído fora a cantiga dos sapos do açude da Penha - vozes agudas, graves, lentas, apressadas, e no meio delas o berro do sapo-boi, bicho terrível que morde como cachorro e, se pega um cristão, só o larga quando o sino toca. Foi Rosenda lavadeira quem me explicou isto. Admirável sino. Como seria o sapo-boi? Pelas informações, possuía natureza igual à natureza humana. Esquisito. Se eu pudesse correr, sair de casa, molhar-me, enlamear-me, deitar barquinhos no enxurro e fabricar edifícios na areia, como o Sabiá novo, certamente não pensaria nessas coisas. Seria uma criatura viva, alegre. Só, encolhido, o jeito que tinha era ocupar-me com o sapo-boi, quase gente, sensível aos sinos. Nunca os sinos me haviam impressionado.
[RAMOS, Graciliano. Infância. Círculo do livro. s/d. p. 56-57]
Poiésis
Leitura
28.1.10
minhas criancinhas
eu vou lhes contar uma história e depois chispa!
Cama.
Era uma vez um homem estopa.
Mergulhado num saco junto de outras estopas.
Branquinhas como peles de coelho.
Mas eis que chega levantado do chão imundo todo de graxa o mecânico trejeitão e
RUAO!
Poiésis
Literatura. Poesia. Infantil
4.1.10
O homem que procurava a buceta
Num livro de História proibido na Europa, o autor Kadif Kawthar nos contava que na Mesopotâmia Antiga vivia um egípcio a procura da excepcional buceta filosofal. Diz a lenda que essa buceta milagrosa possuia dotes incomuns e tinha em sua boca a resposta para todos os enigmas do Universo. Os lábios pequenos discorriam sobre filosofia e matemática e os lábios grandes narravam estórias fantásticas. A história ainda nos revela que o homem que a penetrasse fundo, atingindo seu útero dourado, viveria eternamente e seria o rei dos reis; habitaria pirâmides de ouro; possuiria um exército de homens dotados; fertilizaria a terra da qual brotaria tudo quanto é espécie de vegetais e frutos; seria dono do paraíso no qual habitam setenta e duas virgens; e o seu pênis seria caracterizado por uma enorme glande cerebral, além de se assemelhar a uma espada.
Eu não acredito nesta fábula, só queria encontrá-la para meu nome constar nos ANAIS.
Eu não acredito nesta fábula, só queria encontrá-la para meu nome constar nos ANAIS.
Poiésis
Literatura. Conto
3.1.10
Além das duas mulheres sentadas
- O que haveria dentro deste bar que aqui fora não há?
- Tirando a garoa?
Poiésis
Miniconto
2.1.10
por que ver os clássicos
OITO E MEIO
I
Sei de pessoas que julgaram superficial o "8 1/2", de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser superficiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?
II
Em Picasso, em certos Picasso, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amendronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da "Salomé" de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no "8 1/2" de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista - o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.
[QUINTANA, Mário. 80 anos de poesia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1996. p. 101-102]
Poiésis
Cinematógrapho das letras
31.12.09
antes das 24
Amanhece e ainda não é ano novo.
Teu corpo estirado na cama perdeu todas as potencialidades da vida.
Mas você espera o espocar da champagne, o espumante escorrendo doce pela garganta
enquanto no fundo do seu ser, ainda uma nesga de esperança.
Amanhece e ainda não é ano novo.
Teus ouvidos ouvem, os mais apressados, estourarem
(onde?)
rojões, fogos de artifícios.
Amanhece e você resolveu mudar os rumos
no roteiro que escreverá para o próximo ano.
(Os fogos: quem acende o pavio?
Mas está molhado.)
Acendestes o cigarro e antes mesmo você se entorpece
e na hora exata, aonde os ponteiros em forma fálica se encontram,
somente tu, criatura, uivará para a lua.
Poiésis
Literatura. Poesia
29.12.09
cartão-postal

Sabe João,
fazia exatos nove meses que eu não dava no coro. Você sabe como é, né? Ser feminista radical tem seus lances. Sou, de fato, uma diabinha. Quem me comeu na última semana, para total contradição da minha ideologia, foi um cara bem machão. Chupei seu pau, lambi seu saco. Foi preciso ser submissa: dócil. Um pentelho enroscou entre os meus dentes. Mas depois que o macho me pegou de quatro no banheirinho, minhas pernas não pararam de tremer por uns dois dias. O bom foi que consegui cuspir o pelo. Fui enrabada de levitar numa perna só. Isso eu confesso, dói: perder as sete pregas do rabinho. De sair lágrimas.
Um beijo pra ti,
meu confidente.
Maria.
fazia exatos nove meses que eu não dava no coro. Você sabe como é, né? Ser feminista radical tem seus lances. Sou, de fato, uma diabinha. Quem me comeu na última semana, para total contradição da minha ideologia, foi um cara bem machão. Chupei seu pau, lambi seu saco. Foi preciso ser submissa: dócil. Um pentelho enroscou entre os meus dentes. Mas depois que o macho me pegou de quatro no banheirinho, minhas pernas não pararam de tremer por uns dois dias. O bom foi que consegui cuspir o pelo. Fui enrabada de levitar numa perna só. Isso eu confesso, dói: perder as sete pregas do rabinho. De sair lágrimas.
Um beijo pra ti,
meu confidente.
Maria.
Poiésis
Literatura. Conto
27.12.09
o rocambole
Tudo começou quando da colher escorreu um fio de doce de leite sobre as páginas do falcão maltês.
Poiésis
Literatura. Conto
26.12.09
o peru de natal
1 O dia começa pelo som estridente do telefone. O cliente quer mais. Véspera de Natal. Anoto as gramas. Da mais pura. Mas ele sabe que haverá bastante mistura, principalmente aspirina e bicabornato de sódio.
2 Nem bem acordo e reuno a composição enquanto passo o café, que acabou. Daqui a pouco Bianca liga, pedindo um faz-me rir. Bianca é dona de mãos ossudas. E tem um nariz, o qual visto de perfil, me lembra algumas mulheres de Picasso.
3 Sobre a mesa o material necessário pra elaboração da composição sintética. Uma balancinha herdada do avô. Distribuo em saquinhos de evidências, enfio no cu do Peru e limpo o ambiente.
4 Desço o elevador.
5 Apanho o buzão.
6 O resto é confidencial.
2 Nem bem acordo e reuno a composição enquanto passo o café, que acabou. Daqui a pouco Bianca liga, pedindo um faz-me rir. Bianca é dona de mãos ossudas. E tem um nariz, o qual visto de perfil, me lembra algumas mulheres de Picasso.
3 Sobre a mesa o material necessário pra elaboração da composição sintética. Uma balancinha herdada do avô. Distribuo em saquinhos de evidências, enfio no cu do Peru e limpo o ambiente.
4 Desço o elevador.
5 Apanho o buzão.
6 O resto é confidencial.
Poiésis
Literatura. Conto
25.12.09
cartão-postal
Puxa vida, Ana,
Por que você não veio passar o natal comigo? No aconchego das cobertas, birita, filminho e só a gente como acompanhante, hein. Ai! você jogou duro comigo ontem. Me aparecendo de shortinho branco e regata púrpura. Era púrpura? Não quis nada. Negou um abraço, beijo neca!
Enfim acabou?
Agora desço a serra pra’quela coisa banal de todos os anos.
Com os meus votos de felicidade
pra toda a família
um beijo.
Por que você não veio passar o natal comigo? No aconchego das cobertas, birita, filminho e só a gente como acompanhante, hein. Ai! você jogou duro comigo ontem. Me aparecendo de shortinho branco e regata púrpura. Era púrpura? Não quis nada. Negou um abraço, beijo neca!
Enfim acabou?
Agora desço a serra pra’quela coisa banal de todos os anos.
Com os meus votos de felicidade
pra toda a família
um beijo.
Poiésis
Literatura. Conto
24.12.09
Ô! Ô! Ô!
[Leitura do novo romance
de Rubem Fonseca]
Quem mora pela região do Largo da Ordem atravessando a Saldanha Marinho na qual existe uma sauna gay, cruzando o minhocão até desembocar na São Francisco, a boca do lixo, notará uma semelhança urbana.
- Oxalá.
de Rubem Fonseca]
**
Quem mora pela região do Largo da Ordem atravessando a Saldanha Marinho na qual existe uma sauna gay, cruzando o minhocão até desembocar na São Francisco, a boca do lixo, notará uma semelhança urbana.
- Oxalá.
Poiésis
Cinematógrapho das letras
23.12.09
da contemporaneidade
[...]A senha: "O olho esquerdo de Camões
não vale uma epopéia". (Essa é boa!)
[Paulo Henriques Britto]
[...]
... O rei mandou chamar todos os moços e disse: "Aquele que fizer a bosta mais bonita ganha a mão da minha filha". Camões, homem que conhecia as coisas, um doutor, não ficou correndo às tontas de lá pra cá como os outros. Sabe o que ele fez? Foi a uma plantação de jerimum e comeu jerimum a mais não poder. No dia seguinte todos chegaram diante do Rei carregando a sua bosta dentro de um prato. Era gente a mais não acabar, de formar uma fila que ia das portas do palácio até os cafundós de Pernambuco. Mas a bosta de Camões era a mais bonita, linda, brilhando dentro do prato, vermelha, da cor do jerimum! Ele se apresentou diante do Rei, curvou-se e disse: "Aqui está o que me pediu Senhor meu Reis!" E foi assim que Camões casou com a princesa.
[TAVARES, Zulmira Ribeiro. O nome do Bispo. 2 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991. p. 56-57]
Poiésis
Leitura
21.12.09
fenomenologia
o personagem da ficção possui os cinco sentidos
pois foi quando apanhou com as mãos a esfera, que o protagonista pode observar a cor verde, sentir a lisura do objeto através dos dedos, cheirar o odor industrializado da bola de acrílico, ouvir o nada que dela sonoriza e lamber, para saborear, a coisa, deixando um pequeno rastro úmido; semelhante a de uma lesma.
Poiésis
Literatura + Filosofia
19.12.09
conseguirá ele voltar?
por falta de assunto e de história - com começo meio e fim - o autor enclausurado à moda de angeli resolveu ir ao fundo do imaginário pra resgatar o último macho.
17.12.09
um poema daqueles sem noção
puxa a descarga!
a tentativa de substituir a tinta da caneta
por merda sangue
..............................e milho verde
(no troço marrom
entre tons claros e escuros)
faz
de você
um cabeção.
a tentativa de substituir a tinta da caneta
por merda sangue
..............................e milho verde
(no troço marrom
entre tons claros e escuros)
faz
de você
um cabeção.
Poiésis
Literatura. Poesia
16.12.09
anotações num pequeno bloco
pé na estrada
cheguei na biela da Kombi guinchando a mercadoria dentro da hora e do local marcado: num galpão redondo com telhas enferrujadas e portões imensos. imponentes nos quilos de ferro de aço, às 10 horas de céu gripado no pátio tuberculoso. urubus sobre os muros jaziam indomáveis. estacionei a caranga. puxei o freio de mão. as rodas fizeram um barulinho no atrito com o asfalto.
na beira, a um tanto de metros, um rio contornava o território.
mexi no canivete, guardei as chaves. acendi um cigarro. peguei o pacote embrulhado com fita isolante. dei a volta pela construção. uma porta marrom se abriu.
a mercadoria devia ser entregue
e o dinheiro pego.
Poiésis
Literatura. Conto
14.12.09
a esquina
Olha o beco.
Cuidado com o beco!
Olha o beco.
[duma canção popular]
Cuidado com o beco!
Olha o beco.
[duma canção popular]
numa dobra qualquer pra onde vai o homem
de pito na boca e maria no braço:
- senhor da fumaça espere por mim!
Poiésis
Literatura. Poesia.
13.12.09
será que nós temos alguma coisa pela qual valha a pena morrer?
[...]Quando o intelectual ocidental parte para a ação, sua sereia, vai normalmente para a política, esse simulacro da ação, que substitui a verdadeira ação, que é a guerra, pelos vai-e-vens das conversações e negociações, próprias da classe dos negociantes.
[LEMISNKI, Paulo. Anseios crípticos 2. Curitiba: Criar Edições, 2001. p. 29]
Poiésis
Leitura
12.12.09
pega ladrão
a floresta é amiga quando se entra armado
[Hilda Hilst]
[Hilda Hilst]
Era uma vez um índio, destes em extinção,
que se escafedeu para dentro do mato fechado.
O caçador em seu percalço vinha abrindo brecha com o facão e atirou na mira do calibre doze.
A bala atravessou a nuca do índio:
que caiu sangrando numa poça de lama.
O caçador aproximou pra mexer no matinho que tapava o pau e o cu do índio.
O caçador tinha uma narina aguçada
pra farejar.
O caçador tinha, também, um bom tato pras coisas.
Vasculhando o corpo do índio encontrou cápsulas de um comprimido.
Botou na língua pra conferir:
agora, elas eram da posse do caçador, que tinha um bom paladar.
Mais tarde, ao redor do fogo,
o caçador as revenderia no mercado negro da aldeinha.
que se escafedeu para dentro do mato fechado.
O caçador em seu percalço vinha abrindo brecha com o facão e atirou na mira do calibre doze.
A bala atravessou a nuca do índio:
que caiu sangrando numa poça de lama.
O caçador aproximou pra mexer no matinho que tapava o pau e o cu do índio.
O caçador tinha uma narina aguçada
pra farejar.
O caçador tinha, também, um bom tato pras coisas.
Vasculhando o corpo do índio encontrou cápsulas de um comprimido.
Botou na língua pra conferir:
agora, elas eram da posse do caçador, que tinha um bom paladar.
Mais tarde, ao redor do fogo,
o caçador as revenderia no mercado negro da aldeinha.
Poiésis
Literatura. Poesia
11.12.09
cartão-postal
Meu caro amigo,
você não imagina o que é uma semana. O dia todo trabalhando, algazarra na sala de aula, criança chutando criança, rabiscando criança, beliscando criança, arremessando borracha, papelzinho. Cacilda! Tou ficando maluco com tanta indisciplina, me diz o politicamente correto. O pós moderno e a etiqueta social. Agora veja bem uma mãe, sozinha, cuidando de quarenta e cinco filhos. Multiplica por seis. Pra sobreviver, pra ter o que comer, ao menos o queijo e o café nutritivo, sem nos proibir o cigarro e a cachaça, porque senão a gente surta ou, se quiserem acabar com tudo, pode nos enterrar. Definitivo. Aliás, lacra o caixão e diz adeus.
Além do uísque ser o melhor companheiro, como dizia o conselho do amigo engarrafado, ele anda fazendo milagres e até ressuscita.
Um forte imenso e tudo abraçado
do teu Ulissezinho
Poiésis
Literatura. Conto
10.12.09
cartão-postal
["...Acordei no dia seguinte muito cedo, as roupas em desordem, as cobertas também, e Anne a meu lado, nua naturalmente. O esforço que deve ter feito! Eu continuava a segurar a panela. Olhei para dentro dela. Não me havia servido. Olhei meu sexo. Se ele soubesse falar. Não direi mais nada sobre isso. Foi essa a minha noite de amor."]
Maria,
eu tou triste pra jeca, mas foi assim mesmo, debaixo desse sentimento que me tornei, com o perdão da franqueza, num animal: um cavalo sem égua relinchando pelos becos. Escuros, sim. Ai!
Não é que te conto que ontem, por empréstimo, eu li o Primeiro amor, do Beckett, como você deve ter percebido na epígrafe carinhosamente carinhosa, logo antes em cima abrindo o postal. Mas, ô!, santa mãe de deus, rogai por nós, que homenzinho mais desiludido, não é? Sujeito mentiroso este narrador.
No mais, assim assim eita lasquera, a vida sem mistificação me leva a crer que a sopa rala mal dá pra salgar a língua.
Um beijo do teu Ulissezinho
do fundo do poço.
eu tou triste pra jeca, mas foi assim mesmo, debaixo desse sentimento que me tornei, com o perdão da franqueza, num animal: um cavalo sem égua relinchando pelos becos. Escuros, sim. Ai!
Não é que te conto que ontem, por empréstimo, eu li o Primeiro amor, do Beckett, como você deve ter percebido na epígrafe carinhosamente carinhosa, logo antes em cima abrindo o postal. Mas, ô!, santa mãe de deus, rogai por nós, que homenzinho mais desiludido, não é? Sujeito mentiroso este narrador.
No mais, assim assim eita lasquera, a vida sem mistificação me leva a crer que a sopa rala mal dá pra salgar a língua.
Um beijo do teu Ulissezinho
do fundo do poço.
Poiésis
Literatura. Conto
8.12.09
tio Mário
Em idos de uns anos atrás na distância da lembrança de mim ainda pivete, tive um tio que era apontado na rua como o bonitão, isto é, trocando em miúdos: o pegador, conforme cochichava a prima com certo apetite para minha irmã. Neste tempo, sabia que papai sentia uma ponta de inveja só pelo olhar lançado ao tio e que mamãe não aprovava a postura dele excomungando as mulheres, dizendo isto e aquilo até o fim do discurso arrematando que todas eram umas lambisgóias.
Garanhão de bigodinho fino, cigarro no canto da boca, sapato branco e gravata borboleta, meu tio era muito o máximo não porque ele me dava umas moedinhas ou comprava paçoca no bar do Magrão me fazendo uma gracinha na cabeça, mas simplesmente pelo fato dele atiçar a curiosidade das mulheres da vizinhança quando chegava no seu Chevette amarelo todo posudo com o braço esquerdo estendido pra fora na visita habitual de fim de semana em nossa casa.
As mulheres, quando ouviam o estampido da caranga, corriam à janela, estendiam os bracinhos brancos como se fossem pinturas ou retratos antigos; outras sentavam na cadeira da varanda enfeitadas, cheias de cores. Vestidinho do qual podíamos vislumbrar um pedaço do tornozelo. Isso tudo me arrepiava. E as luvas enfeitavam as mãos naquela época belle.
Eu me divertia vendo o tipo desse meu tio da cidade grande e queria, quando crescesse, ser como ele: um tiozão!
Garanhão de bigodinho fino, cigarro no canto da boca, sapato branco e gravata borboleta, meu tio era muito o máximo não porque ele me dava umas moedinhas ou comprava paçoca no bar do Magrão me fazendo uma gracinha na cabeça, mas simplesmente pelo fato dele atiçar a curiosidade das mulheres da vizinhança quando chegava no seu Chevette amarelo todo posudo com o braço esquerdo estendido pra fora na visita habitual de fim de semana em nossa casa.
As mulheres, quando ouviam o estampido da caranga, corriam à janela, estendiam os bracinhos brancos como se fossem pinturas ou retratos antigos; outras sentavam na cadeira da varanda enfeitadas, cheias de cores. Vestidinho do qual podíamos vislumbrar um pedaço do tornozelo. Isso tudo me arrepiava. E as luvas enfeitavam as mãos naquela época belle.
Eu me divertia vendo o tipo desse meu tio da cidade grande e queria, quando crescesse, ser como ele: um tiozão!
Poiésis
Literatura. Conto
7.12.09
6.12.09
o canoeiro o autor e o menino
[para montar mesmo uma estória é preciso ter uma terceira pessoa para a qual narraríamos (o autor e o menino) a história do canoeiro metafísico que construiu um muro sobre as águas do rio]
pousou na ideia
Era no distante de tantas léguas na ponta do cume da montanha onde desaguava a nascente que vivia um canoeiro. Outro dia, ninguém tem noção da data, o canoeiro tomou o rumo errado na asa do urubu e se engosmou com a escama do peixe. Chispou! Lá em cima, mas não se sabe se na montanha ou no céu, talvez no fundo do mar, onde o rio desova um passado, o autor desiludido riscou no traço o voo torto e cego de tal modo que quem voava era um peixe, e peixe fora d'água, filho de peixe peixinho é, diante do poste do fio elétrico descuidou-se, não percebeu, desatento bateu e tombou. Um galo enorme brotou no cuco do personagem protagonista.
pulando o meio fio
Um menino de rua, eis, ouviu o ocorrido assim que avistou no rés do chão o animal morto. Com a boca mordeu o bicho sujo de terra e como caroço de manga cuspiu longe a cabecinha que perpendiculou uma curvatura plac! certeiro na lata de lixo.
O menino era muito bom de pontaria e mocava no matinho debaixo do viaduto o seu estilingue pra matar passarinho e quebrar vidraça de casa abandonada.
O menino faminto do umbigo saltado juntou uma quantia de gravetos e tascou fogo.
O menino tinha fósforos.
Uma panelinha amassada cheia de água ferveu pra fazer sopinha. O menino tomou todinha ao ponto de lamber a vasilha e foi dormir pois já era alta da noite e ele nunca bebeu biotônico fontoura.
quem quiser que conte outra
Assim, meus leitores mirins, se foi o canoeiro fora da asa. Da casa e da narrativa.
Poiésis
Literatura. Conto
3.12.09
ao pé da letra
bola murcha
Aquiles em meu imaginário jogava futebol. O semi-deus tenta um lance, salta, corre, voa. Todavia, ao passar a bola de calcanhar para Pátroclo, que infiltrava pela meia direita na direção ao gol de Heitor em posição legal, num lance cheio de firulas com direito a chapéus, canetas e parará, Aquiles esqueceu-se da flecha atravessada: a bola furou e o heróizinho acabou com o contra ataque dos gregos.
segundo tempo
O filho de Tétis, substituído por Ajax, saiu sob uma saraivada de vaias curvando-se para não ser atingido pela chuva de miolo de pão atirada pela plebe que tinha pago o espetáculo circense.
2x1
Tróia reverte o placar e celebra a vitória com a manjada volta olímpica.
Aquiles em meu imaginário jogava futebol. O semi-deus tenta um lance, salta, corre, voa. Todavia, ao passar a bola de calcanhar para Pátroclo, que infiltrava pela meia direita na direção ao gol de Heitor em posição legal, num lance cheio de firulas com direito a chapéus, canetas e parará, Aquiles esqueceu-se da flecha atravessada: a bola furou e o heróizinho acabou com o contra ataque dos gregos.
segundo tempo
O filho de Tétis, substituído por Ajax, saiu sob uma saraivada de vaias curvando-se para não ser atingido pela chuva de miolo de pão atirada pela plebe que tinha pago o espetáculo circense.
2x1
Tróia reverte o placar e celebra a vitória com a manjada volta olímpica.
Poiésis
Literatura. Conto
2.12.09
diga lá poeta
simples assim, não tem nem que vem: só pra degustar dois pedacinhos da entrevista que Paulo Leminski cedeu ao Caderno 2, do Estadão, nos idos de oitenta e seis:
[...]
Seu primeiro livro, Catatau, já chegou provocando, dinamitando os limites. Não é conto, não é romance, não é poesia. Nele, o personagem central é nada menos que Descartes. E ele tem uma luneta em uma mão e um cachimbo de maconha em outra. São dois símbolos?
leminski É, são dois símbolos elementares. Um, de distanciamento crítico e outro de integração. A luneta é o distanciamento. E o cachimbo de maconha é a integração. A maconha gera integração. Numa roda de gente queimando fumo gera-se um tipo de comunicação diferente daquele gerado em um simpósio, por exemplo, sobre metafísica e a psicologia de Jung. É uma comunicação via substância, não via palavra.
[...]
É tudo aqui e agora?
leminski É. Tudo é milagre. Não precisa curar leprosos. Não preciso de milagres desse tipo. A cor amarela, para mim, é um milagre. A percepção é um grande milagre. Poder ouvir um som, mi bemol, é um milagre. O azul, as experiências biológicas, o gosto da batata frita, são milagres. Dar três trepadas numa noite é um milagre. O mundo é cheio de milagres. E as pessoas ficam procurando... As pessoas querem circo. Não preciso de circo, o zen não precisa de circo. O zen diz: "é aqui e agora".
[Um poeta além do porquê, outubro de 86 - arquivo particular]
Poiésis
Releitura
1.12.09
sobre o cotidiano
tirar o corpo da cama, calçar os chinelos, tomar o café com açúcar, provar um afeto, lamber a colher de mel, aguçar a úlcera lendo as manchetes de jornal, rir da coluna de política, travestir-se para o mundo, enfrentar o trânsito, estacionar o carro, entrar em cena, a performance do trabalho, os risos, os silêncios, as palavras comedidas, o almoço com sobremesa, o café sem aspartame, as reuniões da tarde, os chinelos nos pés à noite, as saudades, o chá mate quente, o barulho dos carros, as árvores dobrando-se na noite de ventos e trovoadas, a cabeça sobre o travesseiro que cochicha sonhos e a vida no ponto a partir do qual, realmente, começa.
Poiésis
Leitura musicada
24.11.09
cartão-postal
Maria,
a grana tá curta e o exílio mais foda que comer cu de grilo. Do lado de cá rola uma insatisfação muito grande no meu peito. Choro, choro muito mas nem por isso deixo de ser homem. Também tenho saído muito à noite, vou ao boteco mais próximo. Bebo. Você não imagina a minha conta como anda. Durmo com algumas mulheres, mas todas elas me parecem estúpidas quando os dedos róseos da aurora despertam a manhã. E acordo mais vazio que saco de papai noel em noite de véspera natalina numa região menos favorecida.
Agorinha mesmo, andei pensando no retorno, porém o teu silêncio, Maria, o teu silêncio... Fique sabendo que um homem sozinho não é o mais forte, não. Ibsen cagou no final da peça.
Promete me escrever uma resposta?
Um beijo do fundo do poço sem canto do teu sempre
Ulissezinho.
Poiésis
Literatura. Conto
21.11.09
valor e cultura
tudo o que perde a função vira arte
[Ferreira Gullar]
[Ferreira Gullar]
XIV
As palavras arte e artista entraram em desuso, ou melhor, tornaram-se banais na boca dos estudantes de design. O que estes acadêmicos fazem é, no pior dos sentidos, utilizar ideias alheias para rechear um discurso vazio em prol de um canudo e, por fim, incrementar seus futuros produtos de venda.
Como podemos apreender, o símbolo anárquico vira broche de mochila e a língua dos stones sintetiza, no mínimo, a liberdade sonhada pelos jovens estudantes.
Poiésis
Aforismas
19.11.09
descanonizando
[...]
O narrador provém de uma família de latifundiários e donos de escravos: automaticamente é o dono da palavra. O seu direito não é questionado. Ele é o senhor do dinheiro, dos destinos, do discurso. Embora se procure, atendendo a recomendações da teoria literária, não confundir o autor com o narrador e a postura de um com a posição do outro, o fato de Machado não desmontar a fala senhorial é algo que pode levar o establishment a tentar provar o contrário. Este exige que o escritor seja visto como supraclasse e porta-voz de todos, para que melhor se repasse a ideologia e a postura política postuladas em sua obra. Não se pode separar um do outro, como se nada tivessem entre si. Aí se mostra de modo representativo o gesto semântico do cânone brasileiro, a sua coesa perspectiva senhorial. Não é um momento ocasional de um romance, mas condição também para a obra ser consagrada, ser ensinada nas escolas como grande literatura: é amostra de uma estrutura judicativa. Aqui se tem uma convergência do autor com o narrador. O próprio Machado - assim como os narradores por ele criados - não negou que queria fazer parte da elite oligárquica. Pelo contrário, dedicou a sua vida a isso.
[KOTHE, Flávio R. O cânone imperial. UNB, 2000.
p. 473]
p. 473]
Poiésis
Leitura
18.11.09
16.11.09
limpando a cabeça de velhos preconceitos
"Um erro irreparável cometido na idade da ignorância.""Sim."
"É a idade em que casamos, em que temos nosso primeiro filho, em que escolhemos nossa profissão. Um dia saberemos e compreenderemos muitas coisas...
[Milan Kundera - A ignorância]
[...]
A instituição do casamento pressupõe uma certa estabilidade, uma certa rotina no desempenho dos papéis convencionais de marido e mulher, ou pai e mãe, esvaziando afetivamente as relações dentro dela.
Na maioria das vezes, as pessoas envolvidas, em lugar de reagirem a isso, acabam encontrando na reprodução da "família tradicional" um recanto para sua inércia ou parasitismo afetivo...
Os casais costumam objetivamente encarnar este parasitismo. Um bom exemplo é o descuido dos homens e mulheres casados com o seu próprio corpo e com o ato físico do amor.
[...]
A família existe não só para garantir a reprodução da sociedade burguesa através da difusão do autoritarismo, mas também como correria de transmissão de um dos suportes do capitalismo: a propriedade privada.
O papel da família é tão forte neste sentido que seus membros acabam por se julgar proprietários uns dos outros. Adquire-se o mesmo medo compulsivo de perder o outro, menos pela necessidade do amor e mais pela "tranqulidade psicológica" que ser proprietário (ou a propriedade) lhe dá. Esconder um do outro (ou até de si mesmo) algo novo e transformador, com o receio do risco da mudança, é a prática mais comum dos casais.
[...]
Muitas pessoas valorizam o casamento como um sistema de "concessões mútuas" ou de sacrifícios recíprocos". Ceder ou "fazer sem gostar" geralmente acabam se transformando em cobranças futuras, estimuladas por mágoas e ressentimentos. Entretanto o fundamental do acasalamento é a solidariedade, a cumplicidade, isto é, dar e receber prazerosamente segundo as necessidades, e, sobretudo, com originalidade. Coisa difícil e, por isso mesmo, fascinante. Como o amor.
[...]
Há um estímulo muito grande por parte da sociedade, não só para sermos autoritários, mas também para nos subordinarmos cegamente a algum tipo de autoridade. Começamos com uma fé para o Estado e, muitas vezes, reproduzimos esta mitificação nas nossas relações pessoais e afetivas. Endeusamos, colocamos no altar e, depois, a convivência vai ser a ferramenta que usaremos para destruir a imagem e fazer do ídolo um monstro indestrutível.
... os problemas das relações familiares funcionam como um bueiro enxugando nossa energia vital e provocando desempenhos insatisfatórios em outras atividades.
[...]
As rupturas afetivas com a familia são causadas mais pelos ressentimentos e mágoas atuais por coisas vividas no passado junto a ela, do que por razões ideológicas.
[...]
Sem uma familia nova, o exercício da nossa originalidade fica comprometido. Mas não é fácil construir experiências novas, são muitos os obstáculos impostos pela sociedade burguesa. Alguns são óbvios: a sobrevivência econômica no capitalismo limita muito os grande voos inovadores. Entretanto, a maioria dos obstáculos a novas experiências familiares seria derrubada se os movimentos de libertação da mulher alcançassem êxito.
A instituição do casamento pressupõe uma certa estabilidade, uma certa rotina no desempenho dos papéis convencionais de marido e mulher, ou pai e mãe, esvaziando afetivamente as relações dentro dela.
Na maioria das vezes, as pessoas envolvidas, em lugar de reagirem a isso, acabam encontrando na reprodução da "família tradicional" um recanto para sua inércia ou parasitismo afetivo...
Os casais costumam objetivamente encarnar este parasitismo. Um bom exemplo é o descuido dos homens e mulheres casados com o seu próprio corpo e com o ato físico do amor.
[...]
A família existe não só para garantir a reprodução da sociedade burguesa através da difusão do autoritarismo, mas também como correria de transmissão de um dos suportes do capitalismo: a propriedade privada.
O papel da família é tão forte neste sentido que seus membros acabam por se julgar proprietários uns dos outros. Adquire-se o mesmo medo compulsivo de perder o outro, menos pela necessidade do amor e mais pela "tranqulidade psicológica" que ser proprietário (ou a propriedade) lhe dá. Esconder um do outro (ou até de si mesmo) algo novo e transformador, com o receio do risco da mudança, é a prática mais comum dos casais.
[...]
Muitas pessoas valorizam o casamento como um sistema de "concessões mútuas" ou de sacrifícios recíprocos". Ceder ou "fazer sem gostar" geralmente acabam se transformando em cobranças futuras, estimuladas por mágoas e ressentimentos. Entretanto o fundamental do acasalamento é a solidariedade, a cumplicidade, isto é, dar e receber prazerosamente segundo as necessidades, e, sobretudo, com originalidade. Coisa difícil e, por isso mesmo, fascinante. Como o amor.
[...]
Há um estímulo muito grande por parte da sociedade, não só para sermos autoritários, mas também para nos subordinarmos cegamente a algum tipo de autoridade. Começamos com uma fé para o Estado e, muitas vezes, reproduzimos esta mitificação nas nossas relações pessoais e afetivas. Endeusamos, colocamos no altar e, depois, a convivência vai ser a ferramenta que usaremos para destruir a imagem e fazer do ídolo um monstro indestrutível.
... os problemas das relações familiares funcionam como um bueiro enxugando nossa energia vital e provocando desempenhos insatisfatórios em outras atividades.
[...]
As rupturas afetivas com a familia são causadas mais pelos ressentimentos e mágoas atuais por coisas vividas no passado junto a ela, do que por razões ideológicas.
[...]
Sem uma familia nova, o exercício da nossa originalidade fica comprometido. Mas não é fácil construir experiências novas, são muitos os obstáculos impostos pela sociedade burguesa. Alguns são óbvios: a sobrevivência econômica no capitalismo limita muito os grande voos inovadores. Entretanto, a maioria dos obstáculos a novas experiências familiares seria derrubada se os movimentos de libertação da mulher alcançassem êxito.
[FREIRE, Roberto e BRITO, Fausto. Utopia e paixão - a política do cotidiano. 9 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan SA, 1991. p. 82-89]
Poiésis
Releitura
15.11.09
do que eu gosto?
Foi o que uma tia de Minas Gerais me perguntou ontem na festa de aniversário de outra tia, que completava meio século de existência. Respondi pelo simples gostar de conversar com as outras pessoas, mesmo que tal resposta nos leve a especulações inimagináveis, da seguinte maneira. Como estou num processo de muita leitura, tia, debruçado obssessivamente sobre um tema (o ser enamorado), o que mais anda me chamando a atenção, além de outros autores, é o pensamento selvagem do poeta do Pilarzinho. O pensamento, a prosa, os ensaios, os voos transparentes e não o lado sem margem do universo poético no qual seu fim é a palavra. Me identifico com o pensador feroz, utópico e apaixonado, que nos leva não só a pensar, mas agir de forma diferente, como neste trecho filosófico de Poesia: a paixão da linguagem, o qual tentarei aplicar a minha vida:
"Por que a palavra paixão está na moda? Acho que não é a paixão que está na moda, é a palavra paixão que está na moda. Como detetive, cheguei à conclusão, às avessas, de que não é que a nossa época seja muito apaixonada. Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltando."
Questionando a época da sensação na qual estamos vivendo, embora o texto tenha sido escrito no fim da década de oitenta, a paixão para Leminski "parece incompatível com o tempo urbano-industrial", pois,
"a nível de performance profissional, imaginem, por exemplo, um programador de computadores apaixonado. Isso só pode conduzir a erros incríveis. Já se o sujeito trabalhar na construção civil e estiver apaixonado, arrisca-se a cair do oitava andar. É bem mais grave do que um erro contábil. Enfim, erros contábeis e cair do oitavo andar são coisas que podem acontecer a um trabalhador apaixonado dentro da sociedade urbano-industrial."
Assim, inserido em tal sociedade, cujo fim é enriquecer e pensar conforme o dinheiro depositado na nossa inteligência bancária, talvez, para efeito de entendimento, o turbilhão da cidade, de seus signos em rotações, apontem novos caminhos (os quais refazem o trajeto perdido na memória) calculados no taxímetro do automóvel, visto que tem gente que não sabe dirigir um veículo, mas sabe conduzir a sua vida.
Acho que a tia ficou perplexa.
Poiésis
Literatura. Crônica
13.11.09
o esquema é o seguinte
p/ felipe, vulgo nero
primeiras letras vernáculas
Interessante pensar como adquirimos uma educação humana e o quanto ela aparenta um palco de teatro na prática. Ilusão dogmática da escrita, só pode ser. Se a palavra não nos levar para a ação, restaremos, fisicamente falando, uns pernetas de paus, o que pressupõe todo um time comandado por um caolho. E o sãopaulão, hein, lá nas cabeça!
- Vê esta mosca?, se eu esmagá-la, serei um ditador?
onde está o erro?
Somos comprados facilmentes pelas instituições particulares em troca de qualquer viagenzinha pro exterior, assim como garoto propaganda? De qual homem a imgem do Boné Positivo na cabeça? Abandonamos a aldeia sem saber conviver socialmente e depois saciados de nada lá fora, voltamos inspirados por um ar coletivo? Políticos, administradores, professores e mais uma carrada de zé ninguéns diplomados os quais, em todo o conjunto, pegando cada qual da sua área específica, seriam nada mais nada menos um bando de asno de ouro? Sem contar o restinho das pessoas, sombras de outros destaques. Mas nem vou começar a me estender porque elas estão seduzidas pelo sucesso de um futuro jabuti, cagando de tão devagar.
É fato que, veja bem, segundo meu empirismo, costuma sair uma leva de bonequinhos de barros para a rede privada do Liceu Sem Ofícios aqui da região. E eu te pergunto, companheiro de guerra, quero ver se você está por dentro: quem era o trio parada dura do Medianeira que estampava o autdoor publicitário e mamava na teta? Ética mais colocação social: uma questão cheia de dúvidas que tenho. E cê manja que rola por aí um dito não popular: Faça propaganda e não reclame. Esta frase só pode soar como tédio e uma acomodação cheia de convenções e tapinhas nas costas. É bicho, a macacada está velha.
bem frito!
Meu irmão costuma recitar um ditado que é um barato: camarão que dorme a onda leva. Se ficarmos obcecados pela ideia de que é somente a religião abocanhadora de fiéis, olha meu camarada, estaremos vendidos. Tomemos cuidado, meu chapa, pois a cada esquina, qualquer instituição aponta-lhe uma faca. E a seleção desse camarão é feita por quilos de merda saindo dos olhinhos negros sem derramento de lágrimas.
Viu?
O erro está na própria cabeça intelectualizada, mas sem ação! Portanto, uma última deixa, não se martirize por nenhum mito feminino que lhe algemar, pois a revolução tende a acontecer, o que é outra balela.
Poiésis
Crítica social
12.11.09
elaboração
[...]
Quem, no entanto, haveria de definir o certo ou o errado? Nem mesmo o artista poderia explicar para si o porquê de suas ações e decisões, ou talvez defini-los em conceitos (é claro que não há necessidade de fazê-lo, pois na obra do artista se define inteiramente). Propondo, optando, prosseguindo, ele parece impulsionado por alguma força interior a induzi-lo e a guiá-lo, como se dentro dele existisse uma bússola. Esta lhe diz: vá adiante, revise, ajunte, tire, acentue, diminua, interrompa! São ordens que, ao recebê-las, o artista sente como imperativas, às quais deve irrestrita obediência, tão absolutamente essenciais se revelam ao seu próprio ser. Trabalhando, ele continuará até um dado momento que a bússola interna possa indicar-lhe: pare, as alternativas se abreviaram, as coisas não são possíveis apenas; ao contrário, tornaram-se necessárias.
É o momento final do trabalho. Somente a própria pessoa pode estabelecê-lo para si, momento crítico este onde o indivíduo sente ter logrado aproximar-se de uma resolução inequívoca, sem reduções e sem redundâncias. A resolução refletirá em tudo o seu equilíbrio interno pois a bússola não era senão ele mesmo. É um momento de entendimento de si. No processo de trabalho, entre a abertura e o fechamento da obra, o indivíduo se determinou e veio a reconhecer-se. E, se o caminho muitas vezes foi acompanhado de ansiedade, de impaciências e de conflitos interiores que pareciam nunca mais querer resolver-se, vivenciar esse momento de determinação é viver um momento de profunda felicidade.
[OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1978. p. 71-72]
Poiésis
Leitura
10.11.09
a vida de carlos em um dois três quatro pedacinhos

a partida
Carlos tinha emagrecido, a pele sobre ossos, depois da separação, sem ter para onde ir. A princípio perdidaço, comeu o pão que o diabo amassou pelos três meses que vieram a seguir: janeiro, fevereiro e março. Para voltar no tempo da história, caro leitor, era sua mulher quem não aguentava mais. E, portanto, os dois não se bicavam. A barba mal feita, a preguiça como companheiro de cama, o sorriso engolido não davam mais para ela e tampouco para ele. Para sorte do homem no auge dos seus quarenta anos, ele mantinha, a muito custo, uma lojinha de discos e livros usados onde poderia, ao menos, dormir e ver o que fazer dali pra frente. Até o fim do ano, o contrato de locação com a imobiliária, lhe dava a garantia de se estabelecer sob um teto, cuja semântica nós conhecemos como casa. No mesanino da lojinha, Carlos jogou umas almofadas, trouxe a televisão portátil - na casa da esposa, o casal tinha adquirido dois desses aparelhos domésticos -, uma mala de roupas e algumas fotografias de tempos outrora: simulação de uma antiga felicidade. Quem sorria na foto, era ele mesmo?
a fisionomia
Meio que indo acostumando ao ambiente, a barba cresceu como uma floresta romântica, vá lá, como diria o bruxo do Cosme Velho, cansado da busca por uma imagem melhor. Mas voltando a Carlos, que vivia este novo período, ele obteve, contra o desejo do autor, o aspecto de um bom selvagem. Porém, o medo que lhe havia comido o rosto no começo dessa sua nova trajetória estava substituido: espinhas pipocaram ao longo das horas de dedicação onanista.
Os pêlos surgidos nas mãos espantavam a clientela.
o esquecimento
Carlos agora outro homem só cor de solidão e meio animalesco, abandonou os amigos, esqueceu dos dois filhos e mais o resto da família: um tio louco, pelo qual era assaz apegado e a avó paterna, para a qual contava-lhe seus projetos e ideias jamais consumados. A avó, no entanto, era surda e há mais de uma década vivia num asilo lá nos cafundós de Pinhais. O cachorro, seu fiel companheiro, comeu o próprio rabo até a morte ao cheirar - instintivamente - a partida do seu dono. Carlos não chorou. Carlos, na verdade, desde os seus trinta anos, não chorava mais.
bau bau
As horas foram passando tic-tac tic-tac pelo cuco habitante da cabecinha desse personagem, os dias somaram-se no calendário riscado com x em tons vermelhos e os anos, por fim, aleluia, completaram-se até que, diferentão, outro, nem aí pra nada, resolveu se enforcar utilizando os cadarços dos sapatos. Obra sem efeito, por causa da força máscula, os cordões de algodão arrebentaram e deixaram um risco na carne viva do seu pescoço. Carlos ficou mais puto, fudido, enfezado, espumando pelos cantos da boca a raiva do fracasso. Porém, mesmo assim, consciente da grande cagada de ter se transformado no homem atual, uma coisa entre nada, apático e bunda mole, espetou nos olhos dois parafusos desparafusados da porta de alumínio da lojinha (doeu pacas!); tomou raticida misturado ao resto de guaraná sem gás da garrafa de dois litros e meio; cortou os pulsos com uma serrinha que trouxera da oficina do tio maluco e, morrendo morrendo, para terminar a história, graças a deus!, bateu as botas.
Mas Carlos não tinha botas.
a fisionomia
Meio que indo acostumando ao ambiente, a barba cresceu como uma floresta romântica, vá lá, como diria o bruxo do Cosme Velho, cansado da busca por uma imagem melhor. Mas voltando a Carlos, que vivia este novo período, ele obteve, contra o desejo do autor, o aspecto de um bom selvagem. Porém, o medo que lhe havia comido o rosto no começo dessa sua nova trajetória estava substituido: espinhas pipocaram ao longo das horas de dedicação onanista.
Os pêlos surgidos nas mãos espantavam a clientela.
o esquecimento
Carlos agora outro homem só cor de solidão e meio animalesco, abandonou os amigos, esqueceu dos dois filhos e mais o resto da família: um tio louco, pelo qual era assaz apegado e a avó paterna, para a qual contava-lhe seus projetos e ideias jamais consumados. A avó, no entanto, era surda e há mais de uma década vivia num asilo lá nos cafundós de Pinhais. O cachorro, seu fiel companheiro, comeu o próprio rabo até a morte ao cheirar - instintivamente - a partida do seu dono. Carlos não chorou. Carlos, na verdade, desde os seus trinta anos, não chorava mais.
bau bau
As horas foram passando tic-tac tic-tac pelo cuco habitante da cabecinha desse personagem, os dias somaram-se no calendário riscado com x em tons vermelhos e os anos, por fim, aleluia, completaram-se até que, diferentão, outro, nem aí pra nada, resolveu se enforcar utilizando os cadarços dos sapatos. Obra sem efeito, por causa da força máscula, os cordões de algodão arrebentaram e deixaram um risco na carne viva do seu pescoço. Carlos ficou mais puto, fudido, enfezado, espumando pelos cantos da boca a raiva do fracasso. Porém, mesmo assim, consciente da grande cagada de ter se transformado no homem atual, uma coisa entre nada, apático e bunda mole, espetou nos olhos dois parafusos desparafusados da porta de alumínio da lojinha (doeu pacas!); tomou raticida misturado ao resto de guaraná sem gás da garrafa de dois litros e meio; cortou os pulsos com uma serrinha que trouxera da oficina do tio maluco e, morrendo morrendo, para terminar a história, graças a deus!, bateu as botas.
Mas Carlos não tinha botas.
Poiésis
Literatura. Conto
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