20.7.18

somos contemporâneos de nossa escravidão


... a corrosão do caráter - esse fundo de violência não superado no Brasil, que persiste quando se defende o direito à violência direta em relação aos pobres - nunca permitiu que a profecia de fé racionalizante de Sérgio Buarque se realizasse plenamente aqui. Senão, como explicar a recente e absolutamente escandalosa anulação, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, do julgamento que condenava os policiais assassinos de 111 presos - quase todos negros - no massacre de 1992 no Carandiru? Ou como explicar, então, que os assassinatos cometidos pela polícia paulista de 493 jovens - também negros em sua maioria - nos dias seguintes à revolta do PCC, em maio de 2006, jamais tenham sido esclarecidos, julgados ou punidos? Ou como explicar, ainda, que parte da elite paulistana faça questão de tirar selfies com essa mesma polícia, reafirmando, dessa forma, um vínculo de proteção de classe - vínculo quase particular junto a uma polícia que se privatiza -, mas também legitimando todas as ações de extermínio da PM contra jovens brasileiros pobres e negros? Como explicar o acomodamento geral frente aos nove assassinatos por dia cometidos atualmente pelas polícias do Brasil?


[...]

Oitenta anos de regimes antissociais, antidemocráticos, autoritários ou ditatoriais brasileiros, incluindo-se aí a famigerada República Velha, o Estado Novo getulista e a violenta ditadura civil-militar de 1964-1985. Esse conjunto de obras de elite deformou completa e terrivelmente, em termos humanos, sociais e espirituais, o século XX brasileiro. Apesar do esforço generoso, produtivo e esteticamente brilhante de nosso modernismo artístico e intelectual - uma corrente do espírito que forçou e alterou muitos aspectos do Brasil moderno arcaico -, o que significam estes quase oitenta anos em cento e vinte de regimes autoritários e de altíssima concentração de poder em pleno século XX brasileiro?

Com os olhos livres, ou com algum ajuste de lentes, é possível ver nessa dificuldade democrática o reflexo da elite brasileira, que continuamente tenta limitar o acesso e a integração das massas no espaço da riqueza nacional. Tão indecentemente orientada para o alto, ela é uma verdadeira repetição da estrutura concentracionária, da cisão absoluta entre o mundo do trabalho e o mundo do direito própria de nosso século XIX escravista. Nossos surtos autoritários de poder concentrado, agora revestidos com a máscara neoliberal, não estariam apena repondo a ordem mais séria e constante, a ordem ocidental capitalista escravista periférica, cuja fronteira terrível atravessou a nossa própria nação como uma verdade de força irrecusável? E como ficam os sujeitos não modernos brasileiros, que, apesar de negociarem a produção e a riqueza nacional no mercado mundial e de sempre participarem das benesses da internacionalização do capital, são em geral incapazes de produzir, de modo constante e contínuo ao longo do processo histórico brasileiro, integração social suficiente e adequada aos níveis contemporâneos de desenvolvimento?

O que sabemos bem do Brasil é que o país produz poder, formas sociais e muita riqueza - e o faz geralmente sobre os escombros da reprodução histórica da miséria, da pobreza e da exclusão. Para tanto, a nação militariza fortemente a sua vida pública por meio da transformação de uma ação social, que seria necessária, em uma exclusão tolerada e em caso de polícia - o que produz o verdadeiro veneno subjetivamente político que embala nossos conservadores extremamente medíocres.

[...]

Nossa escravidão nacional, desenvolvida sobretudo durante a mais plena modernidade, marcaria a formação do caráter de muitos como uma neurose principal instalada, gozo perverso, que continuaria a produzir formas brasileiras de violência 

A nação consciente, desejada e produtora de lutas democratizantes, realizada em formas públicas possíveis de maior ou menor integração democrática, teria sempre que conviver com o sujeito originário dos atos de violência escravocrata, de desrespeito absoluto pelo corpo e pelo estatuto legal do outro, de máxima exploração e de felicidade de disposição sádica dos senhores, do gesto de força garantido sobre a vida dos trabalhadores, estrangeiros africanos, alucinadamente forçados para os limites da humanidade dita brasileira. Uma estruturação sádica subjetiva forte, preguiçosa quanto ao valor do próprio trabalho, que atravessa tempos históricos heterogêneos, que resiste - com a simplicidade com que resistem os desejos infantis no modelo psicanalítico dos sonhos - e que insiste em uma nação e em uma cultura que, devendo avançar como progresso, não deve superar a sua violência originária como ordem.

A escravidão é o sonho limite de nossos autoritários, tão constantemente presentes na história brasileira, e o pesadelo real de todos os que sentem e combatem. Ela é a ordem prévia, desejada e imposta na articulação do sadismo e do classismo entre nós, nossa infeliz origem imanente, muito anterior a toda vida pública democrática e includente.

[...]

Não falar, não imaginar, não escrever sobre a escravidão e a estrutura social nacional estabeleceram as condições arcaicas de nosso anti-intelectualismo profundo, lamentável e generalizado.

Tales Ab'Sáber
Agosto 2017


19.7.18

well i'm running police on my back


The Clash | 1980

Eu estou pedalando de volta para casa na canaleta próximo à receita federal - depois de passar praticamente a manhã correndo atrás da produção do meu livro, que será feito na raça - quando cola nas minhas costas um carro da guarda municipal com três brutamontes me intimidando com sirene para eu sair da rua como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada. Um dos trogloditas me xingou e disse que canaleta não era lugar de bicicleta. Pensei em responder que eu também tinha direito a ocupar a rua, visto que a falta de estrutura para pedalar era cultural. Mas ao olhar bem, percebi que os três brutamontes sem cérebro (eles não pensam, estão programados) estavam apenas procurando um pretexto para espancar alguém. Resolvi continuar meu caminho como se nada tivesse acontecido. E não dei bola. 

Literalmente, police on my back.


18.7.18

cities for people


Somente uma população despolitizada acha que polícia vai resolver os problemas de violência urbana (desigualdade econômica, falta de moradia, desemprego, etc.). Se fôssemos uma população politizada, estaríamos nos reunindo para criar espaços de cultura: ateliers, livrarias independentes, bibliotecas populares, áreas de lazer, espaços de memória. De fato, teríamos uma cidade voltada para as pessoas, para a emancipação social e uma construção livre da vida e não este modelo de cidade que só sabe alimentar a indústria automobilística.


riot radio


We are doing this song, cause it is important to us
To see you get involved and active!

ZSK 

[...]

A polícia, no seio do aparelho governamental, tem a função de assegurar, em última instância, a submissão individual e de produzir a população, como população, como massa despolitizada, impotente e, portanto, governável e, com isso, é lógico que um conflito que exprime a recusa em ser governado começa por se dirigir contra a polícia e adota como seu slogan mais popular: "Todo mundo detesta a polícia". O rebanho que escapa a seu pastor não poderia encontrar melhor grito de guerra.

[...] 

"Todo mundo detesta a polícia" diz mais o que uma simples animosidade em relação aos policiais. Pois a polícia, no começo do século XVII, nos primeiros pensadores da soberania, nada mais era do que a constituição do Estado, sua própria forma. Na época, ela ainda não era um instrumento nas mãos deste e ainda não tinha uma tenência em Paris. Por isso, durante os séculos XVII e XVIII, a "polícia" ainda tem um significado muito amplo: a polícia é, então, "tudo o que pode dar ornamento, forma e esplendor à cidade" (Turquete de Mayerne), "o conjunto de meios que servem ao esplendor de todo o Estado e à felicidade de todos os cidadãos" (Hohenthal). Seu papel, diz-se, é "conduzir o homem à mais perfeita felicidade da qual pode desfrutar nesta vida" (Delamare). A polícia é tanto a manutenção das ruas como o abastecimento dos mercados, tanto a iluminação pública quanto o encarceramento de vagabundos, tanto o preço justo dos grãos quanto a limpeza dos canais, tanto a salubridade do habitat urbano quanto a prisão do bandido. Fouché e Vidocq ainda não deram a ela seu rosto moderno e popular.

Caso se queira compreender o que está em jogo nesta questão eminentemente política da polícia, é preciso entender o truque de prestidigitação que se opera entre a polícia como meio e a polícia como fim. Há, de um lado, a ordem ideal, legal, fictícia do mundo - a polícia como fim - e, do outro, há sua ordem ou, melhor, sua desordem real. A função da polícia como meio é fazer de modo que exteriormente a ordem desejada pareça reinar. A polícia vela pela ordem das coisas por meio das armas da desordem e reina sobre o visível por meio de sua atividade imperceptível. Suas práticas cotidianas - sequestrar, bater, vigiar, violar, forçar, enganar, mentir, matar, estar armada - cobrem o conjunto do registro da ilegalidade. De modo que sua própria existência jamais cesse de ser, no fundo, inconfessável. Por ser a prova de que o legal não é real, de que a ordem não reina, de que a sociedade não se sustenta, posto que não sustenta a si mesma, a polícia se encontra infinitamente afastada em um ponto do mundo cego de pensamento. Pois ela é, para a ordem reinante, como uma marca de nascimento no meio do rosto. [...] a polícia é o que resta do estado de exceção quando essas condições foram restauradas. A polícia, em seu funcionamento cotidiano, é o que persiste do estado de exceção na situação normal. [...] a polícia vela por uma ordem aparente que interiormente não é mais do que desordem. Ela é a verdade de um mundo de mentira e, por isso, a mentira continuada. Ela atesta que a ordem reinante é artificial e cedo ou tarde será destruída.

Não é qualquer coisa viver em uma época na qual essa peça obscena, opaca, que é a polícia, venha à plena luz. Que policiais armados, com roupas especiais e escudos, marchem tranquilamente em formação para o Élysée, como fizeram no outono passado, sob o grito de "sindicatos corruptos" e "franco-maçons na prisão", sem que ninguém ouse falar de maquinação de uma facção.

As operações de polícia são também operações nos afeto. E é em virtude dessa operação que a justiça passa a perseguir, a partir de então, os suspeitos pelo ataque do cais Valmy. Na sequência da violação de Théo, um policial confessava tranquilamente ao Parisien: "Pertencemos a uma gangue. Não importa o que aconteça, somos solidários."

O slogan "Todo mundo detesta a polícia" não exprime uma constatação, que seria falsa, mas um afeto, que é vital. De modo contrário ao que inquieta covardemente governantes e editorialistas, não há um "fosso que cresce ano a ano entre aqueles, inumeráveis, que têm excelentes motivos para detestar a polícia e a massa amedrontada daqueles que abraça a causa dos policiais, isso quando não abraçam um deles. Na realidade, é a uma reviravolta maior na relação entre governo e polícia que assistirmos. Durante muito tempo, as forças da ordem foram marionetes idiotas, desprezadas mas brutais, que se lançavam contra as populações desobedientes. [...] São os governantes que são agora os chocalhos nas mãos da polícia. Eles não têm outra escolha senão correr ao leito de qualquer policial esfolado e ceder a todos os caprichos da corporação. Depois do direito de matar, o anonimato, a impunidade, o último armamento, o que pode ela ainda obter? Por certo, não faltam facções do corpo policial que sentem bater as asas e sonhar em se transformar em força autônoma que tem sua própria agenda política. Nisso a Rússia parece um paraíso, uma vez que os serviços secretos, a polícia e o exército já tomaram o poder e governam o país em seu proveito. Se a polícia certamente não está a altura de se autonomizar de modo material, isso não a impede de manifestar, com todas as barulhentas sirenes, a ameaça de sua autonomia politica.

A polícia se encontra, assim, dividida entre duas tendências contraditórias. Uma, conservadora, funcional, "republicana", gostaria apenas de se manter um simples meio a serviço de uma ordem sem dúvida cada vez menos respeitada. A outra arde em desejos para se desfazer disso, para "limpar a escória" e não obedecer a mais ninguém - para ser em si mesma seu próprio fim. No fundo, apenas a chegada ao poder de um partido decidido a "limpar a escória" e a apoiar incondicionalmente o aparato policial poderia reconciliar essas duas tendências. Mas um tal governo, seria, por sua vez, um governo de guerra civil.

Em um país como a França, isto é, em um país que pode muito bem ser um Estado policial, com a condição de não o proclamar publicamente, seria insensato procurar uma vitória militar sobre a polícia. Mirar um uniforme com paralelepípedo não é a mesma coisa que entrar em um corpo a corpo com uma força armada. 

Nós, revolucionários, não somos vinculados por nenhuma obediência, nós estamos ligados a todos os tipos de camaradas, amigos, forças, meios, cúmplices, aliados. Isso nos permite fazer com que, sobre certas intervenções policiais, pese a ameaça de que a operação de manutenção da ordem desencadeie, ao contrário, uma desordem não gerenciável. [...] Quando uma intervenção de polícia produz mais desordem do que reestabelece a ordem, é sua razão de ser que está em causa. 


12.7.18

contra a reprodução

Laurence typing, de Fairfield Porter | 1952


As técnicas de policiamento e disciplina do corpo não fazem parte de minha metodologia. Deixo esse mecanismo de domesticação a serviço das escolas-prisões. 

Me agrada mais a prática de uma "leitura desordenada", escrever fanzines: ser o próprio editor de minha existência.


11.7.18

acabar com as obras-primas

1896 - 1948

Trata de saber o que queremos. Se estamos prontos para a guerra, a peste, a fome e o massacre, nem precisamos dizer nada, basta continuar. Continuar nos comportando como esnobes e a nos locomover em massa para ver este ou aquele cantor, este ou aquele espetáculo admirável e que não ultrapassa o domínio da arte [...] esta ou aquela exposição de pintura de cavalete em que explodem aqui e ali algumas formas impressionantes mas casuais e sem uma consciência verídica das forças que poderiam acionar.

Ou trazemos todas as artes de volta a uma atitude e a uma necessidade centrais, encontrando uma analogia entre um gesto feito na pintura ou no teatro e um gesto feito pela lava no desastre de um vulcão, ou devemos parar de pintar, de vociferar e de fazer seja lá o que for.

Não creio que consigamos reavivar o estado de coisas em que vivemos e nem creio que valha a pena aferrar-se a isso; mas proponho alguma coisa para sair do marasmo, em vez de continuar a reclamar desse marasmo e do tédio, da inércia e da imbecilidade de tudo.

A. Artaud


10.7.18

sumak kawsay




No campo ecológico, os temas são igualmente candentes. Apesar dos evidentes problemas provocados pelas mudanças climáticas, exacerbadas pela voracidade capitalista, o sistema busca ampliar espaços de manobra mercantilizando cada vez mais a Natureza, como observa o britânico Larry Lohmann. Os mercados de carbono e serviços ambientais são a mais recente fronteira de expansão do capital. Desloca-se a conservação dos bosques ao âmbito dos negócios: mercantiliza-se e privatiza-se o ar, as florestas e a própria Terra. Parece não importar que a serpente capitalista continue devorando sua própria cauda, colocando em risco sua própria existência e a da Humanidade.

O capitalismo, demonstrando seu assombroso e perverso engenho para buscar e encontrar novos espaços de exploração, está colonizando o clima. Este neoliberalismo extremo, do qual não se libertaram os governos "progressistas" da América Latina, converte a capacidade de uso da Mãe Terra em um negócio para reciclar carbono. E - o que é preocupante - a atmosfera é transformada cada vez mais em uma nova mercadoria, projetada, regulada e administrada pelos mesmos atores que provocaram a crise climática e que recebem agora subsídios dos governos por meio de um complexo sistema financeiro e político. Recordemos que este processo de privatização do clima iniciou-se na época neoliberal impulsionado pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial do Comércio.

O mercado de carbono [...] constitui realmente a possibilidade de fazer negócio com o desastre atmosférico.

Alberto Acosta
Trad.: Tadeu B.


9.7.18

desenhando


Singer resume muito bem a vida sob a ditadura do automóvel.

Abre aspas
Vinte mil pessoas são mortas, por ano, vítimas de acidentes de trânsito no Brasil, mas números não oficiais apontam quase o dobro. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mais de um milhão de pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente nestes acidentes! As ruas, avenidas e viadutos avançam devastando bairros e expropriando o espaço público da comunidade pelo espaço privado do automóvel. O petróleo polui e altera as condições climáticas das cidades cada vez mais congestionadas...

cities for people


Retomando um velho assunto. Se as cidades estão se transformando em um imenso estacionamento, haja visto a onda de destruição de prédios para a formatação de espaços vazios (reificação do tédio) para guardar carros, por que ainda se estaciona na rua? No lugar desse espaço morto, poderíamos ter ciclovias e calçadas arborizada mais largas.

Pensar a cidade para pessoas e para outras formas de locomoção, sem a imposição de um único meio de transporte urbano, seria uma tarefa bem simples para os administradores, mas parece que os "profissionais" do planejamento urbano costumam deixar o cérebro na soleira da repartição ou no porta luvas do automóvel.

Esse modelo de vida está longe de ser caracterizado de desenvolvimento humano. E a carrocracia é o que melhor define a democracia.

6.7.18

Mc Imundo


As construções precárias no modo de pensar e observar o mundo são frutos de uma monocultura fabricada pela "indústria cultural". Se a educação está visada para ser instrumento da manutenção do status quo, imagina para quem usa as subjetividades para o consumo. A manipulação transforma até mesmo identidades em objetos de mercado.

Nessa maquinaria da anestesia onde as pessoas parecem estar em coma e os afetos circulam em torno da sociedade do consumo é de costume transformar espertalhões em personalidades. Surpreende encontrar em nossos dias estereótipos ficcionais, caricaturas cinematográficas para satisfazer a sociedade do espetáculo. Mas não é preciso ir longe, basta ver as "referências" da audiência para depreendermos o inconsciente colonizado. É um mais tosco e escroto (sem conteúdo algum, portanto ricos) competindo para ver quem ganha o campeonato da imundice. Isso é o resultado de  um capitalismo tardio e periférico.



4.7.18

deus e o estado


[...]

Inventado os deuses tinham agora respostas. E aqueles que vieram depois desses inventores de deuses, não tinham mais conhecimento de que deus era inventado, então passam a temê-lo e a ser seu escravo. Logo mais, por alguns homens com “espírito corrupto”, criam uma casta para fazer intermediário entre deuses e homens, utilizando da religiosidade para seu próprio proveito. Esses deuses se estabelecendo no imaginário coletivo, através da tradição, fazem nascer o clero. O clero monopoliza deus se tornando a autoridade e a hierarquia do conhecimento e da inspiração. 

[...]

Até o século de Galileu e de Copérnico, todo mundo acreditava que o sol girava em torno da Terra. Todo mundo não estava errado? O que há de mais antigo e de mais universal do que a escravidão? [...] Desde a origem da sociedade histórica, até nossos dias, sempre houve, e em todos os lugares, exploração do trabalho forçado das massas, escravos, servos ou assalariados, por alguma minoria dominante, opressão dos povos pela Igreja e pelo Estado. Deve-se concluir que essa exploração e essa opressão sejam necessidades absolutamente inerentes à própria existência da sociedade humana? Eis alguns exemplos que mostram que a argumentação dos advogados do bom Deus nada prova. 

Mikhail Bakunin 



3.7.18

o que está errado não é o nome anarquismo


É a anarcofobia. O medo de ser livre. E isso é que os anarquistas devem focar e estudar. O medo da liberdade é uma síndrome que gera pavor não só do anarquismo, mas de toda liberdade de si e dos outros porque sofre de uma patologia que é a anarcofobia. Em geral os anarcofóbicos gostam muito de sonhar ou lembrar de um fascismo, governos totalitários ou mesmo até nazismo. A utopia deles são essas. Só se sentem tranquilos em ditaduras e substituindo um pai dominador por um grande pai que é o ditador. E isso é bajulado, permitindo fazer o que a maioria dos seres humanos gostam: viver sem trabalhar, explorando os outros e ficando milionários. E o lado sádico, que faz parte dessa patologia, é ver o outro supliciado pelo paizão ditador e isso lhe causa prazer. E mesmo mudando o nome, como já fizemos com o termo libertário, não adianta achar que o anarquismo decepciona as pessoas porque é apresentado com esse nome. O que ocorre é uma patologia que, mesmo em uma democracia, eles manteriam o medo da liberdade de si e dos outros, que os levam a uma paixão por uma ditadura.

Ricardo Liper


2.7.18

Les trois ptits keupons



Ludwig von 88 | 1987



Regarde là bas / Le grand méchant condé / Y avait trois petits keupons / Avec des jolis blousons / Et des docs à coke, des centures cloutées et des chveux décolorés / Le premier petit keupon / Faisait de jolies chansons / Et le samedi soir / Avec sa guitare / Il jouait le rock'n'roll // Refrain: Hahaha je vais t'attraper / Je suis le gros, le méchant condé / Qui a peur du méchant Pasqua? / C'est p'têtre vous / C'est pas nous / Qui a peur du méchant Pasqua? / Tralalalala (hou) / Il ne nous attrapera pas / Surement pas, surement pas / Il ne nous attrapera pas / (Ouais!) / Le deuxième petit keupon / Faitsait pousser du gazon / Et le samedi soir / Broutait dans les square / Avec ses copains canards / Le troisième petit keupon / Avait dl'imagination / Il rentrait du bar / Tous les samedis soir / Avec son ami Babar / Toc, toc, toc / Qui c'est?? / C'est le petit chaperon rouge / Non, non, non, nous ne voyons* pas / Tu t'es trompé d'histoire / Je vais vous attraper / Et alors? / Je vais tous casser / Et alors? / Je vais verbaliser / Et alors? / Et alors? / Et alors? / Et alors? / Il y avait trois petits keupons / À la queue en tire-bouchon / Avec des docs à coke, des centure cloutées et les chveux décolorés / Pour semer leur adversaire / Se déguisèrent en courant d'air / Et tout les agents pas du tout content / Se retournèrent en mogréant


manifestações do irracional


Como alguém pode se dizer amante da liberdade e temer deus ao mesmo tempo?


29.6.18

o espírito esportivo

Quino

Fico sempre espantado quando ouço gente dizendo que o esporte cria boa vontade entre as nações, e que se as pessoas comuns do mundo pudessem se encontrar num jogo de futebol ou críquete, não teriam nenhuma inclinação para se encontrar no campo de batalha. Mesmo que não soubéssemos, a partir de exemplos concretos (as Olimpíadas de 1936, por exemplo), que as disputas esportivas internacionais levam a orgias de ódio, isso poderia ser deduzido de princípios gerais.

Quase todos os esportes praticados hoje em dia são competitivos. Joga-se para ganhar, e o jogo faz pouco sentido se não fizermos o máximo para vencer. No campo da aldeia, onde você escolha lados e não há nenhum sentimento de patriotismo local envolvido, é possível jogar simplesmente pelo divertimento e pelo exercício; mas assim que surge a questão do prestígio, assim que você sente que você e uma unidade maior serão execrados se perderem, despertam-se os instintos combativos mais selvagens. Quem já participou de um jogo de futebol, nem que seja na escola, sabe disso. No cenário internacional, o esporte é francamente um arremedo de guerra. Porém, o mais significativo não é o comportamento dos jogadores, mas a atitude dos espectadores, das nações que ficam furiosas em relação a essas disputas absurdas e acreditam seriamente - ao menos por períodos curtos - que correr, saltar e chutar uma bola são testes de virtude nacional.

[...]

Assim que sentimentos fortes de rivalidade são incitados, desaparece a noção de jogar o jogo conforme as regras. As pessoas querem ver um lado por cima e outro humilhado, e esquecem que a vitória obtida pela trapaça ou pela intervenção da torcida não faz sentido. Até mesmo quando não intervêm fisicamente, os espectadores tentam influenciar o jogo, incentivando seu time e envenenando o adversário com vaias e insultos. O esporte sério nada tem a ver com o jogo limpo. Ele está vinculado a ódio, ciúme, jactância, desconsideração de todas as regras e prazer sádico de testemunhar violência: em outras palavras, é uma guerra sem os tiros.

[...]

São os esportes mais violentamente combativos, futebol e boxe, os que mais se difundiram. Não pode haver muitas dúvidas de que a coisa toda está vinculada à ascensão do nacionalismo - isto é, com o inconsequente hábito moderno de se identificar com unidades de poder maiores e ver tudo em termos de prestígio competitivo.

[...] 

Na Idade Média, eram jogados, tudo indica que com muita brutalidade física, mas não estavam misturados à política nem causavam ódios entre grupos.

Se quiséssemos aumentar o vasto fundo de má vontade existente no mundo neste momento, dificilmente poderíamos fazer melhor do que promover uma série de jogos de futebol. [...] tornamos as coisas piores por mandar um time de onze homens, rotulados de campeões nacionais, lutar contra um time rival e deixar que todos os envolvidos sintam que a nação que for derrotada vai "perder a dignidade".

[...] Já existem muitas causas reais para problemas e não precisamos aumentá-las estimulando homens jovens a se chutar mutuamente nas canelas, em meio a rugidos de espectadores enfurecidos.


George Orwell
Tribune, 14 de dezembro de 1945
Trad.: Pedro Soares


28.6.18

logofobia


Brasileiro médio sofre de logofobia. Pode passar o dia todo em frente a televisão mas entra em coma ao ler dois parágrafos de um livro de história.


poesia e microfone



[...]

é mais difícil obter cinco minutos no ar para transmitir um poema do que doze horas para disseminar propaganda mentirosa, música enlatada, piadas velhas, "discussões" fingidas ou o que mais você quiser saber.

George Orwell
Trad.: Pedro Soares


26.6.18

náusea


I

Não se transforma a sociedade sem questionar a natureza do ensino.

II

Dentro dos apartamentos de concreto a anestesia educa a indiferença.

III

De habitantes privilegiados da modernidade a consumidos desmiolados em uma planeta poluído.


25.6.18

informe-se

La police vous parle tous les soirs à 20h

Mayo de 68 es la revuelta colectiva de la inteligencia

Mayo fue algo más que el intento de derrocar a un gobierno desgastado, fue algo más que el deseo de reformar la Universidad y mejorar las condiciones laborales. Mayo representa el único y el último momento en que una sociedad, casi por completo, detuvo la maquinaria de su vida cotidiana, salió a la calle y liberó la palabra que llevaba prisionera en su seno, aplastada por décadas de silencio y rutina.

Explosão de Maio planteou de súbito, perante toda a sociedade francesa, a questão social da nossa época nos países imperialistas. Quem mandará nas máquinas? Quem mandará nos homens? Quem decidirá dos investimentos, da sua orientação e da sua localização? Quem determinará o ritmo de trabalho? Quem escolherá o leque de produtos a fabricar? Quem estabelecerá a prioridade na utilização dos recursos produtivos de que a sociedade dispõe? Apesar da tentativa de se reduzir a greve geral a um problema de retribuição da força de trabalho, a realidade econômica e social obriga e obrigará toda a gente a discutir acerca do problema fundamental, tal como Marx o tinha formulado: não apenas quanto aos aumentos dos salários, mas quanto à supressão do salariato. 


24.6.18

À bas l'État policier



Puisque la provocation / Celle qu’on a pas dénoncée / Ce fut de nous envoyer / En réponse à nos questions // Vos hommes bien lunettés / Bien casqués, bien boucliés / Bien grenadés, bien soldés / Nous nous sommes mis à crier // À bas l’Etat policier! / Parce que vous avez posté / Dans les cafés, dans les gares / Vos hommes aux allures bizarres / Pour ficher, pour arrêter // Les Krivine, les Joshua / Au nom de je n’sais qu’elle loi / Et beaucoup d’autres encore / Nous avons crié plus fort // À bas l’Etat policier! // Mais ce n’était pas assez / Pour venir à bout de nous / Dans les facs à la rentrée / Vous frappez un nouveau coup // Face aux barbouzes, aux sportifs / Face à ce dispositif / Nous crions assis par terre / Des Beaux-Arts jusqu’à Nanterre // À bas l’Etat policier! // Vous êtes reconnaissables / Vous les flics du monde entier / Les mêmes imperméables / La même mentalité // Mais nous sommes de Paris / De Prague et de Mexico / Et de Berlin à Tokyo / Des millions à vous crier.

Dominique Grange


22.6.18

mayo de 68: debut d'une lutte prolongee

affiche

As trincheiras levantadas pelas disputas ideológicas do movimento de 1968 foram uma revolta bem sucedida ou uma revolução fracassada? Qual a dimensão histórica deste período que se espalhou pelo mundo?

Há autores, com os quais eu concordo, dizerem que a grande e verdadeira revolução da revolta estudantil foram os affiches e os graffitis.

Frente a realidade desvirtuada pelos meios de comunicação de massa fortemente controlados pelo governo, eram os jovens rebeldes que davam a conhecer a autêntica realidade dos acontecimentos do período.


21.6.18

A reprodução: elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino


Obra recenseada por Ana R.: Pierre Bourdieu; Jean-Claude Passeron, A reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino. Tradução de C. Perdigão da Silva. Editora Vega: Lisboa, s/d.

Nos parece importante refletir sobre o conceito de acção pedagógica como um exercício de violência simbólica de inculcação de arbítrios culturais, assim como sobre a necessidade que as relações de força têm de se ocultarem sob a forma de relações simbólicas. 

Todo o poder de violência simbólica impões significações como legítimas dissimulando as relações de força que lhe subjazem.

Toda a acção pedagógica deverá ser considerada como uma violência simbólica.

A acção pedagógica reproduz a cultura dominante, reproduzindo também as relações de poder de um determinado grupo social.

O ensino encarnado na acção pedagógica tende a assegurar o monopólio da violência simbólica legítima. Assim, toda a ação pedagógica deverá ser considerada como violência simbólica, na medida em que impões e inculca arbítrios culturais de um modo, também ele, arbitrário.

É importante referir que a acção pedagógica se exerce sempre numa relação de comunicação. A inculcação (acto de sugerir significações deduzidas de um princípio universal lógico ou biológico) e a imposição (poder arbitrário de impor um arbítrio cultural) são conceitos presentes na acção pedagógica e que não pertencem ao conceito de comunicação, pois esta pressupõe uma relação de igualdade entre os interlocutores que não se encontra presente na relação pedagógica.

A acção pedagógica é "força pura e pura razão" que recorre a meios directos de constrangimento na imposição de significações

A acção pedagógica tem a função de reproduzir de forma mediatizada (autoridade pedagógica e sistema de ensino), os interesses dos grupos dominantes.

As significações que a acção pedagógica inculca são deduzidas de um princípio universal lógico ou biológico e é pelas relações de força e sua reprodução que o arbítrio cultural dominante fica sempre numa posição dominante.

As formas de representação da legitimidade da acção pedagógica variam historicamente e a escola é fruto da representação da legitimidade simbólica das democracias burguesas que, contrariamente ao feudalismo, enfatizam o papel da escola como mecanismo de reprodução social. [...] Eficaz sobre a classe que está mais ajustada ao modelo cultural inculcada.

A concorrência institucional pelo exercício da acção pedagógica também é sociologicamente necessária; notemos a importância da concorrência permanente entre instâncias como a Igreja, o Exército ou a Escola do Estado.

A comunicação pedagógica não se faz em plano de igualdade pois, deste modo, não haveria autoridade pedagógica.

O monopólio da legitimidade cultural dominante é sempre o resultado da concorrência entre os vários agentes sociais. A instância que se conseguir impor passa a ser aquela que impõe a cultura legítima e a autoridade pedagógica é exercida pelos mandatários dos grupos ou classes que se impuseram, inculcando o seu arbítrio.

Os veredictos escolares estão sempre carregados de implicações económicas e simbólicas.

A educação é um instrumento fundamental para haver continuidade histórica, tendendo a ser uma pura reprodutora de arbítrios culturais pela mediação do hábito.

O trabalho pedagógico é considerado muito eficaz porque é capaz de perpetuar mais duravelmente uma atitude do que qualquer coerção política.

A função de um trabalho pedagógico eficaz é a de inculcar habitus que façam esquecer os fundamentos arbitrários da cultura dominante. Também, e não menos importante, visa manter a ordem e reproduzir as estruturas das relações de força dos grupos dominantes.

Bourdieu e Passeron consideram a escolaridade obrigatória como o reconhecimento legítimo da cultura dominante pela dominada.

As diferentes instâncias de violência simbólica são:  a família, a escola e a comunicação social, mas a importância do habitus inculcado pela família é, segundo os autores, fundamental.

A função social do trabalho pedagógico secundário é a de eliminação, dissimulada sob a forma de selecção.

A meritocracia ou "ideologia do dom" justifica a apropriação legítima da reprodução social levada a cabo pelo trabalho pedagógico secundário. Portanto, o arbítrio cultural exercido sobre determinados grupos ou classes irá privar os seus membros dos benefício materiais e simbólicos de uma educação completa. É claro que, a mobilidade controlada de um número controlado de indivíduos poderá servir para perpetuar a estrutura das relações de classe.

Uma das principais características da instituição escolar é a existência de um corpo de especialistas permanentes, cuja formação e carreira é regulada por uma organização especializada, que detém com sucesso a inculcação legítima da cultura.

O trabalho pedagógico visa produzir um habitus conforme com os princípios de arbítrio cultural que tem o mandato para reproduzir.

O trabalho escolar é a forma institucionalizada do trabalho pedagógico secundário, é homogéneo e detém instrumentos de controle tendentes a garantir a ortodoxia, contra a individualidade.

Bourdieu e Passeron consideram que, o trabalho escolar tende a condenar os criadores, assim com tende a valorizar a cultura homogénea tradicional em detrimento da criação individual.

Deste modo, toda a cultura escolar é necessariamente rotinizada, homogeneizada e ritualizada. Os exercícios repetidores são estereotipados e têm como finalidade a criação do habitus. Todo habius a inculcar engendra um trabalho escolar que visa a institucionalização. Tem que haver sempre um programa, isto é, um consenso sobre o modo de programar os espíritos.

É por este motivo que a cultura escolar anda sempre mais atrasada do que as transformações culturais em outras áreas.

O mais curioso é o facto de o sistema de ensino viver na ilusão de que a violência simbólica que exerce não tem qualquer relação com as forças dos outros grupos ou classes.

O sistema de ensino reforça a ilusão de independência, o que é conveniente na ocultação da arbitrariedade dos seus fundamentos.

O exercício da autoridade escolar desconhece as condições de violência simbólica que exerce, considerando-se como uma instituição autónoma e detentora do monopólio do exercício da violência simbólica.

O verdadeiro objetco de pesquisa de Bourdieu e de Passeron são os princípios segundo os quais o sistema escolar selecciona uma população, cujas propriedades pertinentes servem melhor o seu fito.

O professor vive na ilusão de ser compreendido e de compreender. A acção dos professores e de alunos não faz mais do que obedecer às leis do universo escolar como um sistema de regras e de sanções.

A linguagem burguesa tende para o formalismo abstracto.

As condições institucionais da comunicação pedagógica favorecem o carisma professoral e os intelectuais assim como os aspirantes ao ofício, manifestam a sua conformidade com o modelo. Os intelectuais mais amplamente reconhecidos são os que, na maior parte das vezes, tendem a depreciar "os modos" puramente escolares.

A função do ensino é a de legitimar a cultura dominante e o docente serve-se da instituição com a finalidade de conservação social de perpetuação das relações de classe.

As classes que detêm o monopólio de uma relação com a cultura estão dispostas a tirarem pleno proveito da certificação.

Mesmo nas sociedades democráticas as escolas continuam a contribuir para a reprodução social, através da dissimulação das suas funções.

Conservação pedagógica e conservação social são indissociáveis. É por se considerar autónoma e neutra que a escola ainda desempenha melhor o seu papel de reprodutora das relações de classe. Segundo os autores, é uma "obra-prima" da mecânica social, pois consegue esconder a sua função de inculcação e de integração intelectual e moral, assim como manter a sua função de conservação das relações de classe de uma sociedade. O sistema escolar privilegia o aristocratismo mundano do dom, do brilhantismo a par da ascese laboriosa, fundindo os ideais aristocratas do dom à moral laboriosa do pequeno burguês. Há uma aliança antagónica entre a ideologia das classes altas e da pequena burguesia, pois ambas visam servir a manutenção da ordem cultural, moral e política.

A relação entre a escola e as classes é perfeita porque as estruturas objectivas da mesma produzem o habitus de classe, as disposições e predisposições que engendram as práticas. Bem vistas as coisas, o seu papel tende a reproduzir as estruturas de classe. O sistema de ensino, sobretudo o tradicional, cria a ilusão de que a sua ação de inculcação é inteiramente responsável pelo habitus e de que este não depende da classe de origem. A escola dissimula a reprodução do habitus de classe, a sua função é a de conservação social e nada favorece mais os interesses das classes dominantes do que este laisser faire pedagógico. Os autores dizem que não há nada de mais ingênuo do que reduzir todas as funções ideológicas do sistema de ensino ao endoutrinamento ideológico e político. A aparência de neutralidade, de que a escola se reveste, é um conceito demagógico que visa ocultar as suas verdadeiras funções de legitimação da ordem estabelecida.

As classes mais baixas tendem a ter comportamentos como a depreciação de si, a desvalorização da escola e a resignação ao insucesso ou à exclusão. Estas atitudes constituem-se, na maior parte das vezes, como antecipações às sanções que a escola reserva às classes dominadas. O tribunal escolar condena e faz esquecer o efeito das suas condenações, para que o destino social seja transformado em vocação da liberdade ou mérito da pessoa. A escola deve conseguir convencer os indivíduos de que foram eles a escolherem o seu próprio destino, sem alertar para a necessidade social que se lhes designou antecipadamente. Melhor do que as religiões políticas, as soteriologias do além ou a doutrina do kharma, a escola consegue, através da ideologia dos dons naturais, reproduzir hierarquias sociais. A função do sistema de ensino é, assim, a de mascarar a verdade objectiva da sua relação com a estrutura da relação de classes.

As democracias actuais também ocultam os seus critérios de selecção. Em democracia a eliminação faz-se de forma "doce" porque condena a depreciar em alguns, aquilo que encoraja em outros. Em democracia a exclusão já não é legitimável. Portanto, o sistema escolar é para as sociedades democráticas burguesas actuais o que outras formas de legitimação foram noutras épocas, ex. a transmisão hereditária. A escola contribui para convencer o indivíduo a permanecer no seu lugar, o seu lugar natural. Como já não se podem invocar os direitos de sangue ou de natureza (negados historicamente), a certificação escolar atestará, nas sociedades burguesas, os dons e os méritos individuais. 

Covilhã | 2009


20.6.18

vigilance épistémologique

1964

Em Les Héritiers, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron apresentam a escola (isto é, o conjunto das instituições escolares universitárias) não como um aparelho neutro ao serviço da cultura e da República. Os professores contribuem inconscientemente, a maior parte das vezes, para a transmissão de valores e normas das classes dominantes: a escola limita-se a avaliar as clivagens sociais existentes e a reproduzi-las.


18.6.18

rumo ao apocalipse com uma catraca na porta de entrada

no te olvides grita todavia
este mundo es injusto

Benedetti

Se há um assunto que não se pode negar é a de que Paulino Júnior já integra o time dos bons cronistas armando as letras para o contra-ataque. 

Sem ignorar os problemas da esfera pública (leia-se por exemplo: Paisagem infestada) e muito longe de relatar as ações dos paladinos da justiça, Paulino lida com as vicissitudes mais pessoais. Na labutaria crônica do ficcionista, o miúdo da vida ganha ares de ironia, leveza e humor. Mas atenção, onde “cada pessoa com um carro na rua é como um revólver na mão de macaco”: a fantasia do folião é “uma bala perdida no meio da multidão”. Neste universo ninguém quer nem mesmo um Papai Noel humano. 

A exemplo de divertimento, veja-se O ponto e o ônibus e Economia de energia. Divertidíssimos.

Lembrando Antonio Candido, em A vida ao rés-do-chão, tudo é motivo de experiência e reflexão. Para este último requisito, valem as observações do espaço urbano que tiraniza o sujeito amoroso. 

Tomando o automóvel como objeto de estudo, podemos pensar na organização da vida nos países capitalistas em torno desse fetiche.  

Consciência e autocrítica aparecem em Errada demais. Orora seríamos nós? 

Das narrativas mais cruéis, Solução Final representa o mundo cão que faz da crônica, a princípio comprometida com um instante fugaz, perdurar na cabeça do leitor como um alerta: “Vivemos em tempos perigosamente cínicos.” Tão cínico que o cartão-postal da Ilha da Magia exibe a natureza em estado de exploração e descarte. Mas o que seria esta sujeira para as pessoas de bem que só querem ver mansão? A ironia, neste ponto, reside na utilização da linguagem publicitária em forma de protesto. 

Descartando a possibilidade do autor estar com os pés na lua, Antonio Candido sintetiza a importância da literatura como sensibilização: 

fica perto de nós. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição. [...] Sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava.

Porém, precisa da urgência de um Joe Strummer. Aliás, o cronista continua incisivo, artista deve ter mais de Cólera e menos de Paralamas do Sucesso.

Contra a maquinação reacionária do esquecimento, a reunião das crônicas não nos deixa esquecer a lama tóxica expelida pela mineradora Samarco. Sua crítica é severa e contundente. Cito: 

defender interesses de grandes empresários como se eles fossem as galinhas dos ovos de ouro, é a maneira mais direta para se chegar a catástrofes deste nível. Ruim sem eles, pior com eles. A única sustentabilidade que interessa à iniciativa privada é a do lucro – make Money. Ou será que, numa reunião de cúpula, a planilha discutida é sobre a qualidade de vida dos trabalhadores e a preservação do meio ambiente? 

Mas se os grandes empresários só têm olhos para o lucro, é o Dr. Bakunin, na excelente paródia de Pneumotórax, de Manuel Bandeira, que paradoxalmente cirúrgico diagnostica o problema do proletariado alçado ao poder nas condições burguesas:

deixa de ser trabalhador para se tornar homem de Estado e, por essa via, torna-se burguês e corre o risco de ser mais burguês que o próprio burguês.

A vida infernizada pela maquinaria barulhenta, administrada por gestores, onde as pessoas são reconhecidas pela marca do carro orbita na lógica do sistema de transformar a existência em negócio.  Parafraseando o autor, qual será a próxima etapa da evolução humana? Matar uns aos outros por uma ocupação no mercado de trabalho? 

Nesta antologia, camarada, não há espaço para virtudes.



17.6.18

el anarquismo en nuestro tiempo

1921 - 2006

Open Road. Qué clase de actividades sugeriría que los anarquistas conscientes deberían realizar?

Bookchin. En este aspecto en Norteamérica la labor más importante que pueden hacer es la de educarse a sí mismos, desarrolar mecanismos de propaganda en forma de libros y periódicos, una literatura concentrada en grupos de discusión conectados a la comunidad, discutir y desarrollar sus ideas y desenvolver una red. Creo que son sumamente importantes esas redes de anarquistas establecidas por ellos mismos con la visión enfocada hacia la educación popular.

Trad.: Ismael V.
1981


15.6.18

greve de aluguel


Washington, D.C.

Eu já disse em uma outra oportunidade: política não é sorte de religião, não; e muito menos uma estratégia de marketing. Política é luta cotidiana para a construção de um bem viver. Sem isso em mente, não se transforma sociedade alguma.

Democracia tem de ser outra coisa que ainda não experimentamos na real.


14.6.18

cidade linda & amorosa


Nada melhor para descrever
a era do vazio 
do que a renovação urbana 
por meio da demolição.


modo de transición


No estamos luchando solamente para mejorar nuestras relaciones humanas. Al igual que el sistema de mercado, también el sistema capitalista continúa simplificando no sólo la compleja obra de milliones de años, sino también el espíritu humano. Está modificando el espíritu mismo de la humanidad; está privándolo de la complejidad y de la plenitud que contribuyen a formar la personalidad creativa. Por eso nuestra nueva política no debe plantearse como único objetivo salvar al planeta sino crear una sociedad verde, ecológica, con carácter libertário y una alternativa política a nível de base.

Existe asimismo otro punto en juego: si no se pone fin a la simplificación del planeta, de la comunidad y de la sociedad, arriesgamos simplificar con el espíritu humano a tal punto (con inmundicias tipo Dallas y Dinastía y otros programas de televisión) que también se producirá la disminución del "espíritu de rebellión", el único capaz de promover un cambio social y de "reverdecer" el planeta. Hoy vivimos en un momento de transición, no sólo de una sociedade a otra, sino de una personalidad a otra.

Murray Bookchin


el anarquismo no es una idea "congelada"


Comienzo pues a irme hacia el movimiento anti-nuclear, dejando el movimiento sindical que desde un punto de vista revolucionario, está actualmente completamente moribundo, y desde siempre he estado interesado por todo lo que concierne a la ecologia. Comienzo igualmente a examinar el papel de la jerarquía, y no solamente la de clases, ya que estoy convencido de que la revolución debe igualmente hacerse en la cocina, la cama, en el seno mismo de la sensibilidad individual, y no solamente en las fábricas.

[...]

Si mis cincuenta años de vida me han enseñado alguna cosa, es primero, que el mundo ha cambiado profundamente desde la época histórica del movimiento obrero; segundo, que el anarquismo no es solamente un cuerpo de ideas, una ideologia "congelada" definida una vez por todas por sus susodichos "fundadores", sino ante todo un movimiento social que tiene su vida en la acción real de las gentes; y, en fin, que debemos buscar las raíces del anarquismo en las tradiciones específicas de cada pueblo, y no en las ideas inventadas en las academias e impuetas por los lastres de culturas completamente diferentes o por situaciones sociales ajenas. Esta sensibilidad en vez de lo único, la variedad y la diversidad es, a mi modo de ver, la forma de internacionalismo revolucionario más elevada, porque ella permite la creatividad cultural, social e histórica, y no deja lugar a la homogeneidad y la uniformidad totalitaria.

Murray Bookchin


13.6.18

Es hora de una tercer vía



dialética da escola-prisão


Ao mirarmos para trás, mais maduros e com uma outra bagagem cultural, notamos o quanto o ensino superior está cheio de falhas. Para não chamá-lo de fraco. No âmbito da licenciatura, saímos formados sem ter entrado em contato com algumas teorias de pedagogia crítica. E isso, em um momento da docência, fará falta. Só não sente falta os marqueteiros da educação, os lobistas de salão universitário. 

No mais, quem sofre retaliação no meio dos espaços tradicionais de educação são os educadores contestatários, isto é, os intelectuais dissidentes. O resto, faz silêncio de burocrata cujo cérebro derreteu e ficou grudado no copo de plástico de café.


brasil 2018


Não podemos esperar qualquer coisa 
de cidadãos ignorantes.

Exceto
uma
democracia
canalha.