23.6.17

formação continuada


A geral não estuda daí nós temos de ouvir certas aberrações no espaço de conhecimento: 

A aluna, pensando que o tema levantado é sobre ela: Se eu sofrer um estupro, professor, ia ter mesmo assim a criança. Ela não pode pagar os pecados dos outros. 

No intervalo, chega a professora, com a ideia de que para ser uma boa profissional basta ser mãe: Ah, eu não vejo problema algum em rezar nas escolas. 

E quando a pedagoga casca grossa solta esta: Quanto mais leio mais irritada eu fico. 

Imagina se o livro virasse uma casa de bonecas. 


22.6.17

formação continuada




Lembro de uma vez que fui chamado na direção de uma escola (bonitinha mas ordinária) para ser interrogado o do por que eu não descia à quadra de esportes para cantar o Hino Nacional.

Estávamos passando por um golpe jurídico e midiático e o corpo que administrava a escola estava preocupado com certas, vamos chamar assim, artificialidades.

A direção e o corpo docente não se preocupavam com a bibliografia dos alunos e eu estava a ser questionado pelo simples fato de não presenciar o Hino Nacional.

Pensei isso e falei: vocês estão de brincadeira?

À pedagoga que não levantava a cabeça da ata como se o caderno de capa preta fosse sagrado, perguntei:

- Vocês irão ensinar os adolescentes a cantar outros hinos, como o da Internacional?

A pedagoga que não levantava a cabeça do livro, engasgou, tossiu e ficou perdida:

- Como? A Internacional de futebol?

A vice-diretora ficava olhando o celular a espera de alguma mensagem de um possível seu senhor e superior. Ela não sabia o que estava fazendo ali.

Aliás, se teve uma coisa muito interessante de analisar (aí entra uma variedade de "agentes" da educação) é o que os outros funcionários sempre tinham como resposta pronta: estavam recebendo ordens.

Saí muito impaciente diante de mais uma postura de assédio da pseudo direção da escolinha que ia se acumulando. Os outros professores calavam-se como se estivessem carregando uma submissão secular nas costas. Resignados e impotentes.

Nesta escola, eu comecei a perceber que os funcionários se qualificavam para ver quem conseguia ser o mais punitivo.


21.6.17

dez fragmentos sobre a literatura contemporânea no brasil e na argentina ou de como os patetas sempre adoram o discurso do poder




Ressalto que até hoje, 45 anos depois do golpe, até onde sei, não existe nenhum romance de peso que analise a vida de caserna brasileira. Não vá alguém dizer que nossos militares não se prestam à sátira: as recentes declarações de um deles, de patente elevadíssima, chamando atenção para o perigo de que os índios que moram na reserva Raposa Serra do Sol representam para a unidade nacional são um prato cheio para nossos ficcionistas, mas aposto que ninguém vai aproveitar. Aqui, citando ainda os romances argentinos Villa, de Luis Gusman, e Duas vezes junho, de Martín Kohan, chamo a atenção para uma diferença entre as duas literaturas em questão: na Argentina, um esforço para criticar as instituições. No Brasil, as instituições continuam intocáveis, talvez com exceção da corrupção policial.

Os argentinos [...] não aguardaram as memórias para fazer ficção. A literatura no Brasil, porém, simplesmente esqueceu a ditadura militar, deixando-a relegada a poucos textos, no mais das vezes de fôlego estético reduzido. Ao contrário, o que surgiu aqui foi a recriação ficcional da chamada violência urbana, uma espécie de assombração das classes médias e altas e um problema real para as classes baixas. [...] A história, por sua vez, via entre nós a confirmação de que nem os militares e nem a força policial deveriam ser julgados pelos abusos, até porque são eles que garantem a continuidade da paranoia com relação à violência, repito que apenas um artifício para esconder a mais selvagem opressão econômica. [...] Os anos 1990 na Argentina foram outros: militares torturadores começaram a ser levados à justiça. A literatura por lá, no entanto, vem repetindo desde aquela época: é pouco, somos historicamente alienados.

... ao negar um lugar político inevitável, os nossos autores estão na verdade tentando esconder o seu conservadorismo.

Um dado curioso: a crítica literária profissional acata a produção literária da periferia, mas não se pronuncia com o mesmo entusiasmo sobre a falta de acesso dessa mesma periferia às instituições de ensino gratuito.

Sabemos que os países que levaram seu aparelho repressivo à justiça tiveram seus índices de violência posteriormente diminuídos.

Nicolas Sarkozy adoraria a nova geração de escritores brasileiros.

... a literatura brasileira contemporânea abandonou qualquer inquietação séria quanto ao seu país e praticamente assumiu o pacto com o discurso do poder econômico e político.

A dificuldade que nossos autores enfrentam para enxergar o próprio tempo tem óbvias consequências conservadoras, já que nos atrasa estética e historicamente.

Em resumo, a literatura brasileira abandona o sentido de negatividade e de resistência ao senso comum e, ao contrário, se alia a ele. Como as classes média e alta estão desde a redemocratização preocupadas com o próximo e hipotético sequestro, a bala perdida, o assalto e sei lá mais qual item do seu álbum de paranoia, não é interessante para a literatura brasileira contemporânea discutir o que nos resta da ditadura, muito menos pedir punição pelos seus crimes. Até porque a instituição que naquela época torturava comunistas, agora tortura qualquer um que vai para em suas mãos. Então, para essas mesmas classes, bem como para a nossa literatura, não convém incomodar essas pessoas.

Se criarmos uma linguagem contra a impunidade, com certeza fortaleceremos as condições para que a justiça formal finalmente cumpra suas obrigações.

... os anos de ditadura não foram, de fato, tratados como deveriam.

E, para voltar de vez ao meu início, concluo com uma pergunta feita por Salinas Fortes, no final de Retrato calado: "E tudo ficará na mesma? Os mesmos senhores de sempre continuarão tranquilos, comandando como se nada tivesse acontecido?". O dia em que a ficção brasileira puder responder "não, os torturadores estão presos", nossa literatura voltará a ser digna de artistas que, em sua época, desafiaram todo tipo de poder, como para terminar por cima, Graciliano Ramos e Machado de Assis.

R. L.


16.6.17

brasil colônia


A intenção religiosa é destruir o cérebros dos pensadores livres. É destruir qualquer sensatez. É claramente um mecanismo de manter o país na estrutura de colonia. Não questionar, não duvidar e não pensar, mas sujar os cérebros de quem não tem nada a ver com a doutrina.


15.6.17

brasil colônia


A televisão transformou a corrupção e o fascismo em objetos de consumo para a classe média idiotizada.


8.6.17

cibercultura

G. Deleuze
... o cibernauta não age passivamente àquilo que se desenrola sob seus olhos. Ele é ativo, pois, diferentemente da televisão, é ele que deve buscar a informação. 

7.6.17

sociedade sem escolas



[...]

Os administradores educacionais de hoje estão empenhados em controlar professores e alunos para satisfazer outros: membros do conselho diretor, legislaturas e executivos de empresas. [...] Muitas pessoas atualmente atraídas para o magistério são profundamente autoritárias e não têm competência para assumir esta tarefa.


Ivan Illich


6.6.17

entre operários

(DIÁLOGO)

- Então, agora que somos livres, explica-me por que, além de seres anarquista, tu és também comunista e ateu... Quero que me digas tudo: pois que, francamente, também eu começo a perceber que vós anarquistas tendes muita razão, como resulta claramente dos jornais que me deste para ler. Não posso, porém, compreender por que não se pode ser anarquista sendo católico ou crente em Deus... Explica-me, então, isto que tu chamas "contradição".

- Antes de tudo; faze-me rir quando dizes: "agora que somos livres"- Livres? Porque o patrão da fábrica concede às bestas de carga, que somos nós, apenas pouco minutos para irmos comer um prato de comida no hotel? Comida é modo de dizer, pois que nem mesmo os cães deveriam comer semelhante substância composta de gêneros deteriorados, por ironia chamados alimentícios, e por remate malcozidos e condimentados com banha apócrifa, vinagre tingido com anilina e azeite fedorento; ingredientes que nos estragam o estômago e depauperam o organismo já exausto pelo excessivo trabalho... Ah! não! nós não somos livres... somos escravos ou cousa pior! Meu caro, a escravidão mudou de nome mas não de fato; e tu podes convencer-te de que és livre... de fazer-te explorar pelos patrões... ou senão - de morrer de fome.

- Tens razão, exprimi-me mal; mas, por favor, dize-me quanto te pedi, pois que desejo instruir-me nessas ideias que tu dizes hão de emancipar-nos.

- Com muito prazer procurarei dar-te alguma explicação. Deves saber que nós anarquistas somos também comunistas e ateus; isto é, não acreditamos nem em Deus do céu - nem em Deus da terra; e sim somente na nossa existência aplicada ao trabalho útil de todos os homens em benefício de todos, que é o ato mais sublime, mais social: a solidariedade - que posta em prática com a atuação dos verdadeiros princípios anárquicos seria a felicidade de todo o gênero humano.

Em suma, para não irmos mais longe, em governo - ou melhor, em política - somos anarquistas; em propriedade - isto é, em economia - comunistas; em religião, ateus.

- Isto mesmo é que desejo que tu me expliques...

- É quanto vou fazer...

Somos anarquistas porque queremos que cada homem (e dizendo homem incluímos também a mulher, pois que nós queremos a igualdade para todos, homens e mulheres) pense com a sua cabeça, obre segundo a sua vontade, e que ninguém se imponha nem tampouco suporte imposições de parte do outro. Em poucas palavras: não queremos governo, porque quem diz governo diz autoridade, tirania, despotismo, exploração, etc. Assim, para explicar-me melhor, devo dizer que não combatemos o imperador A ou o rei B, ou o presidente C, ou o ministro X - mas sim combatemos o princípio da autoridade encarnado no sistema, isto é, na forma de governo; pois que, como diz um rifão: o barril não pode dar senão o vinho que o contém. Assim, para nós, o governo sob qualquer forma exteriorizado - seja ainda encapotado à socialista - é a "fraude"! E o princípio de autoridade é antinatural - é contra a razão, a justiça e a natureza...

Somos comunistas, porque o princípio da propriedade como hoje existe - a propriedade individual - permite a um homem explorar outro homem. Prova: tu és pobre, o teu patrão - ou melhor, o patrão da fábrica, pois que nem os cavalos nem os cães deviam ter patrão e muito menos os homens do século XX, este deslumbrante século pomposamente chamado de luz e de progresso - o patrão da fábrica onde tu trabalha é rico. Mas por que é rico? Porque ele, protegido pelas leis por ele mesmo feitas, se apropria do trabalho dos miseráveis que, constrangidos pela fome, se fazem explorar. Por que és pobre?... porque, não possuindo os meios de trabalho, não podes trabalhar livremente por tua conta ou associado com os outros trabalhadores da tua profissão, e és constrangido por isso a vender, por um miserável prato de feijão, a tua força de trabalho! E vê a contradição: tu que trabalhas e produzes és pobre; o patrão que não trabalha e não produz é rico! E depois acredita nos livros, na Economia Política - o evangelho burguês - que dizem que a riqueza é fruto do trabalho!

- Sim... do trabalho alheio...

- Bravo! Assim mesmo: a riqueza é o fruto do trabalho... alheio. E é isto que nós não queremos, por isso que somos comunistas, isto é, queremos que a propriedade seja comum. Que todos trabalhem e que todos possam gozar dos produtos do trabalho comum, e que não suceda, como agora, que só uma parte da humanidade seja condenada a um trabalho forçado, enquanto uma minoria privilegiada apodrece no ócio e na abundância, quando milhões de seres sofrem todos os martírios de uma miséria sem nome.

- É verdade, é injusto, é infame tudo isso, e considero-me partidário vosso nesse ponto; não sei porém por que não concordais com a religião...

- Outra vez com a religião? Tu tens uma ideia fixa sobre esse ponto,e compadeço-me de ti porque o teu cérebro, se não foi completamente atrofiado pelos padres, católicos ou protestantes, não tardará muito a sê-lo, se tu continuares a frequentar as igrejas.

Posto isto, digo-te: somos ateus porque cremos que as religiões pervertem os espíritos, tornando o homem um dócil instrumento passivo neste mundo, deixando-se explorar, mandar, e dominar só porque os padres dizem que Deus criou o mundo assim, e, portanto, é crime revoltar-se contra a vontade de Deus. Resultado: suportar com resignação todos os sofrimentos neste mundo para depois de mortos... Deus nos acolher no céu! Mas tu poderias perguntar-te: quem voltou depois de morto para nos dizer que tudo isto é verdade? Entretanto, nós sofremos o inferno nesta vida, e os ricos gozam o paraíso neste vale de lágrimas vivendo no luxo e na abundância. Caro amigo, deixa de ser ingênuo até o ponto de acreditar em tolices.

- Sim, mas tu não admites que exista Deus?

- Como deveria admiti-lo, quando ele não se deixa ver? Tu és muito curioso quando falas: admitir não é provar que uma coisa existe. Mas admitindo mesmo que esse teu Deus exista: então, é ele bom ou mau? Se é bom, por que permite tantas injustiças? Se as permite, então é um Deus mau? Reflete bem, meu amigo, como é absurdo tudo isto, e depois contradize-me, se tens razões. Não quero aqui entrar em particularidades para demonstrar-te o absurdo da existência de um Deus que só existe na mente dos insensatos e dos interessados, para que estes possam com mais facilidades explorar aqueles. Falta-me o tempo para isso, e melhor poderás fazê-lo tu mesmo, pois que te darei a ler um livrinho que explica largamente este assunto. Só te digo que olhes a tua triste posição e a de tantos milhões de operários consumidos nos sofrimentos penosos do trabalho escravo e nas garras de uma miséria eterna - eles, suas famílias e seus filhinhos - e compare-a com o fausto dos ricos; e depois dize-me se isto é justo, e se o teu Deus que fecha os olhos não é cúmplice interessado em tais iniquidades.

Em suma, por isto, nós não cremos em Deus, nem no filho, nem no espírito santo, nem na... mãe que os pariu todos!... Compreendeste?...

- Compreendi, sim, e com muito prazer vou ler esse livro que tu me prometes para melhor esclarecer o meu cérebro sobre um assunto tão importante... 

- Pois bem, agora não temos mais tempo para conversar porque a máquina já deu sinal para os carneiros irem deixar-se tosquiar pelo patrão. Outra vez, te explicarei o que é a anarquia, ou melhor, a sociedade futura... Até outro dia, pois.

- Até logo...

Guglielmo Marroco
O amigo do Povo, SP, ano I, n. 6
21 de junho de 1902


4.6.17

mil platôs


[...]

Proust dizia: "as obras-primas são escritas em um tipo de língua estrangeira". É a mesma coisa que gaguejar, mas estando gago da linguagem e não simplesmente da fala. Ser um estrangeiro, mas em sua própria língua, e não simplesmente como alguém que fala uma outra língua, diferente da sua. Ser bilíngue, multilíngue, mas em uma só e mesma língua, sem nem mesmo dialeto ou patuá. Ser um bastardo, um mestiço, mas por purificação da raça. É aí que o estilo cria língua. É aí que toda língua devém secreta, e entretanto não tem nada a esconder, ao invés de talhar um subsistema secreto da língua. Só se alcança esse resultado através de sobriedade, subtração criadora. A variação contínua tem apenas linhas ascéticas, um pouco de erva e água pura.

Gilles Deleuze
Trad.: Ana L. e Lúcia C.


3.6.17

2.6.17

sem saída


não confundir democracia com delegacia
e nem cadeira com cadeia

porque
felizmente
eu não sou chave.


1.6.17

na cretinolândia

Lanceta
Guerra Sociale, SP, ano III, n. 57
26 agosto 1917

Houve, não era muito remota, um povo que habitava um magnífico e resplandecente país. A vegetação luxuriante que cobria eternamente grande parte desse verdadeiro Éden atestava de uma maneira cabal que a fartura existia nessas paragens; era essa, pelo menos, a impressão que tinha o viandante que bordejasse em algum navio a imensa costa desse grande país, que tinha uma superfície de mais de oito milhões de quilômetros quadrados e era habitado por uma população de vinte e cinco milhões de almas.

Todo esse bom conceito, porém, se desvanecia como fumo, assim que o viajor pisava em terra. Nesse país existia a fome tantálica, uma espécie de fome que não se encontrava em outras regiões porque os naturais morriam à mingua em frente dos armazéns abarrotados de comestíveis.

Nos cia se apinhavam sacas e sacas de açúcar, de feijão e de outros gêneros alimentícios, que eram exportados para o estrangeiro por um preço baratíssimo. Dentro do país esses mesmos gêneros custavam três vezes mais do que o preço por que eram vendidos para o estrangeiro. Enfim, o que se passava nessa região privilegiada do globo era fantástico, absurdo, inconcebível.

Mas o mais interessante era a organização social desse povo. O sistema que o regia era o democrático (o governo do povo pelo povo), mas o povo só era soberano para apanhar grossa pancadaria, quando por acaso, o que sucedia raras vezes, protestava contra as iniquidades dos governantes. Tinha muitas leis, leis sábias, entre elas duas de grande importância, a lei da rolha e a lei dos dois pesos e duas medidas. A liberdade só existia para certas castas do país, sendo-lhes permitida a liberdade de avançarem no erário público e de roubarem votos para serem eleitas pais da pátria, uma espécie de dignidade, muito pouco digna por sinal, em que se aquinhoavam alguns contos de réis, a título de subsídio, apenas com a condição de os eleitos dizerem que não havia fome no país.

Os parasitas neste país de que vimos falando eram aos milhares, que se dividiam em diversas classes: empregados públicos, senadores, deputados, oficiais de diversas cousas e loisas. Os empregados públicos, por patriotismo, não trabalhavam, iam para a repartição, faziam a lista do bicho, um jogo muito interessante e existente nessa região tão encantada quanto misteriosa.

O viajante de cujas memórias extraímos estes apontamentos, vendo tanta anormalidade, tanta burrice, tanta estupidez nos naturais desse país, que não se revoltavam contra tanta tirania, o crismou de Cretinolândia (o país dos cretinos).

Sempre existe e tem existido cada coisa por este mundo! É caso para perguntarmos aos nossos botões: mas por que não se revolta esse povo contra tanta infâmia, contra tanta injustiça acumulada?

Mas que mania tinha essa gente de deixar-se morrer à mingua em frente dos armazéns repletos de alimentos!

Hoje, em nenhum país que se preze de civilizado, tal aconteceria, porque o povo daria um assalto em forma aos tais armazéns e acabava por uma vez com os açambarcamentos que neste país a que nos vimos reportando, seguindo os apontamentos do viajante a que acima nos referimos, eram feitos por uma matula de desalmados comerciantes, que era quem na verdade governava essa nação, vivendo à la gordaça conluio com meia dúzia de patifes.

Mas os infelizes habitantes dessa região tinham sangue de barata nas veias! Que infelicidade!

31.5.17

notas de uma sociedade decadente



Em nossa sociedade a canalhice tem instituição. A democracia canalha é o termo que melhor descreve a sociedade brasileira.

Criou-se uma classe média televisionada, que não passa de um bando de araras bêbadas que vivem a repetir todos os clichês midíaticos.

É uma classe média que só consegue se expressar por meio de adesivos. Ignorante até o osso. Impaciente, sempre com pressa, acelerada, viciada em sujeira, na máquina da lama.

É uma classe média difamatória, caluniadora. Perfeita para ser usada por grupos criminosos.

Cara, como é nojento!


30.5.17

diário de san francisco

1905-1975

Contar! Contar! Contar!

24 de novembro de 1943. Meu amigo o escritor Raimundo Magalhães me escreve de Nova York contando que a polícia em São Paulo abriu fogo contra os estudantes que desfilavam pelas ruas num silencioso protesto contra o chamado Estado Novo. Procuro ansiosamente nos jornais e revistas norte-americanas a notícia desse fato, que, segundo parece, deve ter ocorrido em princípios de outubro passado. Não encontro nada. Há como que um absoluto blecaute com relação a notícias sobre o Brasil. A censura brasileira é um prodígio de hermetismo. Fico a pensar que é mais fácil ludibriar a Gestapo e descobrir o que vai pela chancelaria de Hitler em Berlim do que ficar sabendo o que se passa nas ruas de São Paulo ou Rio.

Casualmente estive a discorrer em aula esta manhã sobre a "bondade essencial" do brasileiro, o nosso horror à violência e a nossa amável tática que consiste em usar a malícia em vez da maldade. Contei a meus alunos que proclamamos a Abolição e a República sem nenhum derramamento de sangue. Mostrei como tudo isso indica que temos, se não uma civilização, pelo menos uma cultura, uma serena sabedoria de vida.

E mesmo agora, diante dessa sombria notícias, não vejo nenhum motivo para mudar de opinião sobre meus compatriotas. Porque tenho a certeza de que apenas um grupo reduzido de homens de mentalidade fascista é responsável por esse crime. Não compreendo - ou, antes, compreendo mas não justifico - a razão por que essa mesma imprensa norte-americana que ataca tão ferozmente a Argentina pelas suas tendências nazistas deixe passar em branco, sem a menor menção, uma tão bárbara expressão de nazismo como foi o atentado contra os estudantes paulistas.

Érico Veríssimo

27.5.17

a cena do ódio


José de Almada Negreiros

(... ) Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anêmicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards,
esse vaivém cínico de bandidos mudos,
esse mexer esponjoso de carne viva,
esse ser-lesma nojento e macabro,
esse S ziguezague de chicote autofustigante,
esse ar expirado e espiritista,
esse Inferno de Dante por cantar,
esse ruído de sol prostituído, impotente e velho,
esse silêncio pneumônico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás — vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro: deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
— Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
— Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!
Depois põe-te a virar sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra,
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
— põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois põe-te à coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhes a cabeça por dentro
co'as tuas unhas e cacos de garrafas,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa, muito depressa,
sem que o sol te veja,
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais!
Mas hás de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás de pagar-Me o Abismo e a Morfina!
Hei de ser cigana da tua sinal
Hei de ser a bruxa do teu remorso!
Hei de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei de vara mágica encantar-te arte de ganir!
Hei de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne viva deitar fel,
e depois na carne viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros,
Hei de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei de bóia do Destino ser em brasa
e tu náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei de ser a mulher que tu gostes,
hei de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!



25.5.17

globalização, democracia e terrorismo



[...]

Tortura nos corpos de prisioneiros políticos eram necessariamente sádicos e embrutecidos em sua vida privada. Tal como os SS, que eram efetivamente punidos em casos de assassinatos particulares, ao mesmo tempo que eram treinados para cometer assassinatos em massa com toda a calma, isso tornou suas atividades mais, e não menos, condenáveis. A ascensão do megaterror no século passado não reflete a banalidade do mal, e sim a substituição dos conceitos morais por imperativos superiores. 

[...] 

Na América Latina, o objetivo dos regimes torturadores, na medida em que não constituíam uma degeneração patológica da política, não era, normalmente, impedir o aumento do número de participantes nas atividades subversivas, mas, mais concretamente, obter informações dos ativistas a respeito dos seus grupos. 

[...]

Os países que têm economias pujantes e estáveis e uma distribuição de renda relativamente equitativa entre seus habitantes tendem a ser menos vulneráveis - social e politicamente - do que os países pobres, economicamente instáveis e com distribuição interna de riquezas fortemente desigual. O aumento significativo da desigualdade econômica e social dentro dos países ou entre eles reduzirás as possibilidades de paz.

E. H. 
Trad.: José V. 



24.5.17

24.05




Somente 
um
sistema
classista
e
racista
prende
Rafael Braga
e
deixa
solto
Aecio Neves




22.5.17

vivam os tomates

por Ouologuem Yambo
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974

Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam 
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados

Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as 
Minhas gengivas
Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates

Ouologuem Yambo nasceu em 1940, em Dogon (Mali), filho de um inspector escolar. Desde 1962 vive em Paris, onde se formou em filosofia, literatura e sociologia. 

20.5.17

deus, um delírio

 
"Se a história da ciência nos mostra alguma coisa, é que não chegamos a lugar nenhum ao chamar nossa ignorância de deus".

deus, um delírio

1856 - 1950

O fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio.
B. Shaw


19.5.17

brinquedo absurdo


Singer

Qualquer mecanismo para nos distrair 
é um dispositivo de alienação.

18.5.17

cadeião chocolate

Bomb it

Eu não estou a fim de me tornar o ponto de referência vivo de todas as vidas ilusórias, dos valores místicos.

Sou apenas um cara que gosta do gênero punk, escrever fanzines, deixar uns estêncil pela urbe e praticar a leitura.

Eu gostava de lecionar, mas a coerção, os assédios morais, as arbitrariedades, o fundamentalismo descarado e a repressão jurídica das cadelas do fascismo só vieram consolidar o que eu vinha observando. A escola não passa de uma prisão.

No mais, sou calmo como um bomba.


17.5.17

deus, um delírio


[...]

Dizem que Alfred Hitchcock, o grande cineasta especialista na arte de assustar as pessoas, estava uma vez dirigindo na Suíça quando de repente apontou pela janela do carro e disse: "Essa é a cena mais aterrorizante que já vi". Era um padre conversando com um menininho, a mão dele sobre o ombro do garoto. Hitchcock pôs a cabeça para fora do carro e gritou: "Fuja, menininho! Salve a sua vida!".

Richard Dawkins | 2007
Trad.: Fernanda Ravagnani



a arte de viver para as novas gerações


O senso-comum é um compêndio de falsidades como: os chefes são sempre necessários, sem autoridade a humanidade se precipitará na barbárie e no caos e assim por diante.
Raoul Vaneigem


16.5.17

chopin na cadeira elétrica


Acción Directa

Acción Directa: una banda que supo resistir en los 90
En un momento de crisis, de privatizaciones en los servicios básicos, de desempleo y precarización laboral una de las bandas punk rock que impugno al capitalismo.

Transcurrían los años 90, el imperialismo avanzaba triunfante con la ofensiva neoliberal en el mundo entero. La caída del muro de Berlín y el rechazo a la burocracia gobernante “en bloque” con el rechazo al estado obrero de la unión soviética, pretendía borrar del imaginario colectivo las ideas de la revolución y de la construcción de un sistema socialista como alternativa al capitalismo. Era el momento de una brutal ofensiva ideológica reaccionaria que decretaba “el fin de la historia”, “el fin de las ideologías” y de la clase obrera.

En nuestro país el gobierno de Carlos Menem, con Duhalde en el gobierno de la PBA implemento una política de sistemática persecución y represión contra la juventud. La caída de la dictadura en 1983 y la breve primavera democrática Alfonsinista, no impedía que las policías bravas realizaran violentas razias. Uno de sus blancos favoritos fue la juventud identificada con el rock y en particular, el punk que desde sus sonidos rechinantes y estruendosos, y sus letras combativas se oponía en los hechos a la cultura consumista e individualista en una suerte de resistencia cultural anti neoliberal.

El indulto a genocidas de la dictadura militar como una amenaza a todo tipo de protesta contra el gobierno de turno era el telón de fondo de esta situación. Mientras los empresarios como el actual presidente Mauricio Macri, se enriquecían a costillas del pueblo trabajador con un estado manejado por la burguesía nacional decadente y socia menor del imperialismo. Estaban de fiesta.

Acción Directa una banda de punk rock subversivo
Acción Directa surge luego del compilado punk rock invasión 1988, para que a través de la música, de la mística de los recitales y el grito contenido los jóvenes expresen su bronca. Una forma de agitar la resistencia a través de un punk rock hilarante que incitaba a la violencia colectiva como necesaria para que los pueblos se liberen.

La banda oriunda de La Plata tocó por primera vez en Junio del 92 junto a Chempes 69, la banda en la que cantaba Miguel Bru, un joven de 23 años, estudiante de periodismo, que el 17 de agosto de 1993, seria torturado y asesinado por la policía en la comisaría 9na. Su cuerpo nunca apareció, pero la movilización desatada, logro un triunfo parcial encarcelando a dos de los policías responsables. Era también la década en la que Walter Bulacio, asesinado por la policía en un recital de los redondos, desato la bronca de miles y su rostro se transformó en bandera de lucha contra la represión y la impunidad. 

También fueron parte de la Coordinadora contra la represión de Zona Oeste, prendiéndose en todo festival contestatario o de resistencia al Menemismo, tocaron en festivales contra los despidos en YPF, acompañando la lucha por memoria, verdad y justicia de los organismos de DDHH, por la libertad de los presos políticos de Neuquén Panario, Chritensen y Estrada, detenidos por luchar con los desocupados.

Sus discos “Con la sangre roja y el corazón a la izquierda”, “Revolución o muerte” son un manifiesto musical de la resistencia en aquellos años.

La banda terminó por separarse en 1997, luego de cinco años de música, lucha y militancia a la par de la izquierda, rescatamos su música contestataria antisistema que fue el grito de desahogo de una juventud que no tenía nada que perder. Este es un humilde homenaje a una banda que supo resistir y rechazar la cooptación del rock.

Ernesto Álvarez


valor e cultura



XXXIV

Em proveito da operacionalidade e da velocidade a verdade é deixada de lado. Torna-se basura.

Uma das razões da pós-modernidade é o fim da preocupação com a verdade. Mesmo que, embora, toda verdade carregue seus conflitos de interesses, a modernidade tardia menospreza o pensamento analítico.

E isso é tão perceptível dentro das escolas.



15.5.17

advis pour dresser une bibliothèque


Conselhos para formar uma biblioteca
Objetivo de organizar uma razão política

Gabriel Naudé | 1644

"Seu objetivo consistia em contrabalançar, e mesmo anular, o poder da igreja, que, por meio da Bíblia interpretada por uma casta ou estamento com poder de monopólio nesse domínio, apresentava-se como fonte exclusiva de 'conselhos' políticos para os soberanos. Naudé esposava um projeto político que, em suas palavras, procurava substituir a autoridade espiritual da Igreja pela Máquina Cultural que era a biblioteca."

Teixeira Coelho
Dicionário Crítico de Política Cultural


11.5.17

fuck off!


Luis Ruffato, em seu artigo intitulado Sobre o vandalismo, chamou os Black Blocs de "desagradáveis e irritantes" e escreveu ainda que eles se infiltram em manifestações pacíficas reduzindo a tática à vazão de adolescentes.

A desonestidade intelectual está alcançando até mesmos os escritores ditos originais.


10.5.17

valor e cultura


Neste falatório interminável e infernal cada pessoa exprime sua opinião de acordo com seus sentimentos ou seus preconceitos.


7.5.17

a gênese do proibicionismo moderno e o ponto de inflexão atual

[...]

O proibicionismo tem em si um natureza anti-republicana, é um despotismo sobre os direitos de escolha fundamentais, aqueles que dizem respeito a si próprio.

[...]

Submeter esta relação entre o real molecular, o imaginário psicológico e o simbolismo social a uma polícia de conduta é querer policiar o próprio corpo, monitorar seus trânsitos e estabelecer interditos coercitivos de comportamentos e estilos de vida.

Essa coerção, fundada pelo puritanismo ianque, associada ao despotismo tártaro manchu e tornada doutrina oficial do eugenismo industrialista fordista fascista erigido em biopoder global, se tornou uma megaindústria de acumulação financeira hipertrofiada, lucro mercantil exorbitante, máquina repressiva bilionária, despesas de endoregulação disfuncional com aprisionamento privatizado e burocracias policiais e jurídicas multiplicadas.

H.C.


6.5.17

Um conto sobre como a indústria da música ativamente cria e alimenta doenças mentais


"A indústria musical é como um boteco dentro de uma cervejaria que ajuda a criar e manter doenças mentais na cabeça de seus clientes; tudo isso atrelado a uma sinuca, projetada para atrair quem já sofre destes males."

5.5.17

cultura e valor


A indústria da música no Brasil é análoga a um ladrão. Ela rouba o silêncio criativo, o pensamento crítico, o corpo e a temperança e os transforma num pacote mercantil para alimentar outra indústria: a do álcool.


3.5.17

cultura e valor


A geral tem de saber que um escritor e um artista compromissados (que não fazem concessões ou representam marcas, e que, muito menos, não almoçam com o rei, e por isso fica mais difícil o seu reconhecimento e suas relações sociais) cobram pelo escrito e pela arte.

O sujeito que deseja um Gramsci na parede do seu escritório ou uma resenha de seu novo livro de graça pensa o quê da vida, que o escritor e o artista vivem em uma sociedade que se paga o aluguel com abraço?

Tempo para ler e escrever não consta na contabilidade? E tinta do spray, cês acham que dá na árvore da praça mais próxima?


2.5.17

limitar o limite: modos de subsistência

Tim Noble & Sue Webster

[...]

Segundo um boato dos anos 1990, havia, além da Muralha da China, uma outra "construção" humana visível do espaço: o Aterro Sanitário de Fresh Kills, em Nova York; sintomaticamente, um limite e uma wasteland. Esse boato trazia consigo uma profunda verdade: depositado no fundo do mar, deslocado para as periferias, o lixo é a grande produção da modernidade - e sua maior realização como obra é a ilha de Lixo do Pacífico. O mundo foi contaminado pela indigestão consumista, fazendo da Terra um "planeta doente". Nesse processo, ignorou-se a reciprocidade da transformação envolvida em toda digestão, a sua via de mão dupla: a transformação daquilo que se consome. Mas, como sugerem as obras de Tim Noble e Sue Webster, o "projeto humano" se tornou a sombra de seu lixo - e não apenas o contrário. Não é um acaso, portanto, as cidades destruídas por catástrofes "naturais" se parecerem muito mais com lixões do que com ruínas. Vivemos em um cenário de terra devastada, em um mundo esvaziado de sentido e repleto de montanhas de lixo, que continuarão aqui mesmo que cessemos imediata e totalmente de gastar as coisas do mundo. Não é que teremos que nos virar com pouco, como alertava Benjamin: teremos que nos virar com restos.

Alexandre N.