20.1.19

inéditos


XLII

O governo atual não é um governo, mas uma coisa sem razão profunda de existir, uma maracutaia inaceitável, que é puro produto de um vazio de nossa época. A repulsa ao pensamento crítico só serve para criar intrigas e facínoras.


18.1.19

inéditos


XLI

Uma boa parcela dos brasileiros é medíocre, não ajuda em nada no mundo em que vive, por isso foi eleito (via fake news) um governo medíocre que sequer apresentou um projeto social de distribuição de lugares menos assimétricos.


17.1.19

against


Bolsonaro’s politics have been praised by white supremacists including David Duke of the Ku Klux Klan; his campaign received support from Steve Bannon, the strategist for Donald Trump—the American president to whom Bolsonaro promises total subservience.


16.1.19

na mosca


“O empobrecimento subjetivo, que também leva à regressão do Eu, faz com que o brasileiro busque identificação com políticos, artistas, pastores, padres, comediantes e outras figuras públicas a partir daquilo que os une: a ignorância. Perdeu-se a vergonha de ser ignorante ou burro.”

inéditos


XL

A psicose armamentista invadiu o Brasil profundamente ignorante.
O país, hoje, é dos bandidos.


15.1.19

violência


Por séculos, nos foi dito que sem religião não somos mais do que animais egoístas lutando pelo nosso quinhão, nossa única moralidade a de uma matilha de lobos; apenas a religião, dizem, pode nos elevar a um nível espiritual mais alto. Hoje, quando a religião emerge como a fonte de violência homicida ao redor do mundo, garantias de que fundamentalistas cristãos ou muçulmanos ou hinduístas estão apenas abusando e pervertendo as nobres mensagens espirituais de seus credos soam cada vez mais vazias. Que tal restaurar a dignidade do ateísmo, um dos maiores legados da Europa e talvez nossa única chance de paz?

Depois de todos os argumentos recentes que proclamam o regresso "pós-secular" do religioso, os limites do desencantamento e a necessidade de redescoberta do sagrado, talvez estejamos precisando de uma dose do bom e velho ateísmo.

O que complica hoje toda essa questão é que as chacinas de massa são cada vez mais legitimadas em termos religiosos, ao passo que o pacifismo é predominantemente ateu. É a própria crença num propósito divino superior que nos permite instrumentalizar os indivíduos, ao mesmo tempo que o ateísmo não reconhece um propósito da mesma ordem e por isso recusa todas as formas de sacrifício sagrado.

Slavoj Zizek
Tad.: Miguel S.


14.1.19

curitiba, 1937


Integralistas reunidos na praça Tiradentes fazem o gesto de saudação nazista. 


inéditos


XXXIX

A direita golpista começou balbuciando palavras de ordem. Uma proposição do tipo não pense em crise, trabalhe - como se para trabalhar não fosse necessário pensar - se transformou na mamadeira de piroca. Todavia, a mamadeira para os golpistas é o Estado. E é interessante notar que no meio desse passe de mágica a direita engatinhou até pastar outro jingle publicitário e fundamentalista ruminado acima de todos nós. 

Mas sob o dilúvio de esterco que fora despejado, vamos manter o otimismo e cruzar os dedos para que as forças reativas tenham validade só até a próxima revoada das galinhas verdes. 


inéditos


XXXVIII

O tiozão do churrasco abriu uma mercearia para vender a papinha ideológica de Olavo de Carvalho.


didático


R. F.

Os historiadores estão preparando o capítulo - para os livros didáticos - dedicado aos vermes fascistas?

A ilustração acima pode servir para atualizar os conteúdos.


13.1.19

quando o poder se vale do desejo como sua principal arma


Se, desde o capitalismo industrial, a mídia vem constituindo um importante equipamento do poder, sob a nova versão do regime ela ganha um protagonismo sem precedentes, sobretudo graças aos avanços tecnológicos que permitem uma comunicação generalizada em tempo real. Um exemplo é o que vem se fazendo em vários países da América do Sul, na última década. Com base na edição de informações selecionadas numa aliança entre investigações policiais e poder Judiciário, a mídia constrói narrativas que, veiculadas em tom dramático, amplificam e agravam a imagem da crise econômica e do perigo de que ela seria portadora. Isso alimenta a busca desesperada das subjetividades por uma saída, a qual lhes será oferecida pela mesma narrativa, na figura fictícia de um personagem bode expiatório sobre quem cairia a culpa pela situação de crise, também ficticiamente armada. Assim como a construção da narrativa se baseia em informações reais que são, no entanto, selecionadas e editadas, também desempenharão o papel de bode expiatório figuras ou partidos que se quer eliminar da cena política, em torno dos quais foca-se precisamente a seleção e a edição de informações.

Veiculadas dia após dia, várias vezes repetidas e com diferentes timbres de dramaticidade, tais narrativas oferecem uma pletora de sinais que confirmam a cena temida portadora do perigo de desagregação eminente, fabulada por uma subjetividade reduzida ao sujeito. Sucumbida ao medo, ao ponto em que este ultrapassa o limite do metabolizável e torna-se traumático, ela está pronta para agarrar-se ao conto do bode expiatório para nele projetar a causa de seu mal-estar, como sua única saída, ou pelo menos a mais imediatamente disponível. É, portanto, com alívio que tais narrativas são recebidas e adotadas como verdade por cada um - que, juntos, somam muitos. É que elas justificam o mal-estar e permitem expulsá-lo de si o projetando sobre um outro, além de que seu efeito de contágio gera uma sensação de pertencimento em subjetividades que, por não terem acesso ao corpo-vivo do mundo ao qual pertencem por princípio - acesso a partir do qual poderiam participar da construção do comum - sentem-se isoladas e temem ser humilhadas e excluídas do convívio social. As manifestações públicas massivas desse tipo de subjetividade constituem o ritual coletivo que lhes oferece a sensação de pertencer a uma comunidade homogênea que forma um todo supostamente estável, a qual substitui a construção múltipla e variável do comum e as protege da ameaça imaginária que essa construção lhes traz.

É com base nesse trauma induzido que se constroem as condições para o poder sem limites do capitalismo globalitário, que passa pela tomada do poder de Estado, em situações em que este todavia não se encontra inteiramente em suas mãos. Isto se faz por meio de algumas operações que se revezam e se juntam em diferentes doses. A primeira são as eleições mascaradas de expressão da vontade popular - uma vontade que é, na verdade, mero fruto de manipulação populista através de procedimentos acima referidos. A segunda são as operações fraudulentas no momento da votação e a terceira o impeachment dos governantes no poder, quando necessário. Este é realizado pelo parlamento, disfarçados de recuperação da democracia por uma ficção jurídica que lhe assegura a legitimidade que, nesse caso, é manobrada pela divulgação midiática massiva de tal ficção. Se golpes de Estado efetuados pela força das armas militares interessavam ao capitalismo industrial, estes já não interessam ao capitalismo financeirizado. Estados totalitários são uma pedra no sapato para a livre circulação de capitais, além do fato de este tipo de Estado promover o princípio identitário, quando o novo regime necessita de subjetividades flexíveis.

Em vez da força das armas militares, as armas de que se utiliza o capitalismo globalitário são de duas ordens: a força pulsional e seu porta-voz, o desejo, sua arma micropolítica, articulada a uma aliança com as forças políticas locais mais reativas, sua arma macropolítica. Estas últimas encarnam-se em personagens ignorantes, grosseiros, abrutalhados e extremamente conservadores, remanescentes de um capitalismo pré-financeirizado e, na maioria dos casos, de uma mentalidade ainda mais arcaica, pré-republicana, colonial e escravocrata. Tais personagens patéticos são usados como laranjas para fazer o trabalho sujo de expulsão de cena dos políticos progressistas, preparando o terreno para a tomada de pode pelo capitalismo financeirizado, mundial por sua própria natureza, já que no mapa de sua circulação não existem fronteiras nacionais. No caso do Brasil, é fácil encontrar esse tipo de figuras nos poderes Legislativo, Executibo e Judiciário, que estão neles instalados desde sempre, apenas atualizando seu discurso e procedimentos. Para ficar apenas em dois exemplos mais óbvios, citemos em primeiro lugar os deputados ruralistas, donos do agronegócio que destrói os ecossistemas e expulsa comunidades indígenas de seus territórios ancestrais, recuperados pela Constituição de 1988 - quando não as dizimam literalmente em um genocídio impune que sequer é veiculado pela imprensa local. Em segundo lugar, grande parte dos deputados evangélicos com seu moralismo hipócrita e um ferrenho machismo heteronormativo, patriarcal e familista, que se justifica e se legitima pela suposta vontade de deus. Mais amplamente estão os corruptos, que proliferam indistintamente por todos os partidos e que viabilizam negócio de Estado espúrios em troca de propina das empresas, por meio de superfaturamento e outras falcatruas. O exemplo mais óbvio é o das empreiteiras responsáveis pela construção de equipamentos públicos que, embora sejam empresas locais, são de capital transnacional, com exceção de algumas como a Odebrecht.

O trabalho sujo consiste antes de mais nada da preparação e realização do golpe propriamente dito. Uma vez consumado o golpe, a segunda tarefa consiste em decisões tomadas rapidamente pelo poder executivo e/ou legislativo, muitas vezes votadas na calada da noite, quando todos dormem, ou em períodos de férias e feriados - especialmente os de Natal e Ano Nono, quando a sociedade está distraída com compras compulsivas de presentes e celebrações em família, na ânsia de encenar uma imagem de felicidade e harmonia. O ritmo alucinado de tais decisões é difícil de acompanhar, pois quando a sociedade (ou, pelo menos, parte dela) se dá conta de uma dessas decisões consistem basicamente em desmantelar as leis trabalhistas e de previdência social e desresponsabilizar o Estado nos setores da educação, saúde, moradia e condições urbanísticas - o que atinge basicamente as camadas mais desfavorecidas - assim como privatizar o número máximo possível de bens públicos, sobretudo aqueles cobiçados pelo capital privado por sua alta rentabilidade.

No entanto, uma vez feito o trabalho sujo, começa um segundo capítulo, no qual os personagens que o executaram passam a ser também eles ejetados, por meio dos mesmos procedimentos jurídico-midiáticos que haviam expulsados de cena os políticos progressistas. A estratégia consiste em multiplicar, dia após dia, os decretos de prisão de tais políticos, ao mesmo tempo em que se prende os donos e altos-executivos das principais megaempresas, com eles mancomunados. A partir das delações "premiadas" de uns contra os outros, passa-se a privilegiar as informações referentes à corrupção desses políticos, os quais são filiados precisamente aos partidos que fizeram o papel de laranjas na derrubada dos governos progressistas. Estes tornam-se os novos protagonistas do papel de bode-expiatório na narrativa midiática. Isso, no entanto, não quer dizer que se deixa de focar os políticos de partidos progressistas, os quais continuam na berlinda até sua total destruição. Resolve-se com essa operação dois problemas de um só golpe. O primeiro consiste no expurgo dos tais personagens patéticos da cena política, por meio de sua condenação que lhes retira o direito de exercer funções públicas. Isto tem a vantagem suplementar de dar à operação uma máscara de neutralidade, já que aparentemente a mesma é imparcial pois visa não só os partidos à esquerda mas todos os demais partidos e, com isso, leva a crer que a corrupção é seu suposto foco, que nada teria a ver com posições políticas. Gera-se assim mais verossimilhança à ficção da legitimidade constitucional que encobre o golpe de Estado recém-realizado - o qual aliás continua em curso por meio dessa operação. O terreno fica livre para a tomada de poder por administradores formados no capitalismo de última geração, que azeitarão os trilhos do país para o tráfico mais eficiente dos fluxos do capital financeirizado, abolindo qualquer barreira à sua livre circulação. O segundo problema que se resolve é a ampliação da cena econômica para a disputa dos negócios locais, os quais se estendem a outros países - principalmente na América Latina e na África, cujos mercados foram conquistados em sua maioria pelos governos do PT. E tudo isso recebido de braços abertos por grande parte da sociedade brasileira, a essas alturas inteiramente identificada com a narrativa midiática. O último capítulo dessa narrativa consistirá certamente em apresentar o capital financeirizado no papel de salvador da pátria que, se tiver o pleno comando do país, lhe devolverá a dignidade pública e reestabelecerá sua economia da grave crise deliberadamente orquestrada.

Na América Latina, tais procedimentos são usados para desmantelar os governos progressistas que tinham se instalado nas últimas décadas em alguns países do continente, após a dissolução das respectivas ditaduras militares, a qual se deu ao longo dos anos 1980. É no momento da ascensão da esquerda ao poder que começa a ser concebido o seriado da nova modalidade de golpe. O primeiro laboratório da consumação da nova estratégia de poder foi a destituição de Fernando Lugo da presidência do Paraguai em 2012. Já comprovada a eficácia do novo conceito de golpe, a produção do seriado no Brasil, que havia começado a ser concebido em 2002 com a eleição de Lula, intensifica-se e torna-se mais veloz dia após dia, culminando com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016. Nas mencionadas grandes manifestações de massa a favor de sua destituição, o mantra "a culpa é da Dilma", que pouco a pouco tomou conta freneticamente das ruas e praças por todo o país, surgiu precisamente do consumo da ficção que a mídia havia construído, tendo a presidenta, o Partido dos Trabalhadores e seus quadros - principalmente seu líder, Lula da Silva - no papel principal de bodes expiatórios. Isso tem acontecido em outros países latino-americanos quando ainda resta a seus governantes progressistas algum tempo de mandato.

Já em outras situações, quando seus mandatos estão próximos do término, a estratégia midiático-jurídica-parlamentar se inscreve na preparação das eleições, eliminando da disputa o(s) candidato(s) mais progressista(s), de modo que esta se dê entre candidatos neoliberais e ultraconservadores - sendo estes últimos um indesejado efeito colateral de seu empoderamento pelo próprio capitalismo financeirizado que, como vimos, neles se apoia na preparação da tomada de poder. É o caso do Peru, em que o candidato progressista perdeu de longe para o neoliberal, o qual venceu com uma margem pequena de diferença em relação à candidata ultraconservadora.


12.1.19

inéditos


XXXVII

A mais nova receita publicitária se chama fake news.


abre aspas


[...]

Perambulamos em meio a espectros do comum: a mídia, a encenação política, os consensos econômicos consagrados, mas igualmente as recaídas étnicas ou religiosas, a invocação civilizatória calcada no pânico, a militarização da existência para defender a "vida" supostamente "comum", ou, mais precisamente, para defender uma forma-de-vida dita "comum". No entanto, sabemos que esta "vida" ou esta "forma-de-vida" não é realmente comum, que quando compartilhamos esses consensos, essa guerra, esses pânicos, esses circos políticos, esses modos caducos de agremiação, ou mesmo esta linguagem que fala em nosso nome, somos vítimas ou cúmplices de um sequestro. 

[...]

O que o corpo não aguenta mais é a mutilação biopolítica, a intervenção biotecnológica, a modulação estética, a digitalização bioinformática do corpo, o seu entorpecimento nesse hedonismo. Em suma, num sentido muito amplo, o que o corpo não aguenta mais é a mortificação sobrevivencialista. Seja em um estado de exceção, seja na banalidade cotidiana, como em um shopping center das nossas cidades.


10.1.19

inéditos


XXXVI

O que os golpistas arquitetam quando gritam paz é tão somente uma falsa paz: paz sobre a precariedade do outro.


9.1.19

inéditos



XXXV

Até que ponto somos livres para recusar as demandas morais as quais não pedimos?


8.1.19

a formação social brasileira

ou a antipoesia detectado por Schawrz:

Impunidade oficial / Adesão conscienciosa ao opressor / Meandros morais do empreguismo / Polícia atuando por conta própria.


vida precária


O discurso nos faz uma reivindicação ética precisamente porque, antes da fala, algo nos é dito. De forma simples, e talvez não exatamente como Levinas pretendia, somos primeiro dirigidos, reportados por um Outro, antes mesmo que assumamos a linguagem para nós.

Ser submetido ao discurso é, já de início, ser despido de vontades e sentir esta privação como a base de sua própria situação ao discurso.

Se o pensamento crítico tem algo a dizer sobre ou para a presente situação, pode muito bem sê-lo no domínio da representação, no qual humanização e desumanização ocorrem sem cessar.

J. B.


7.1.19

a história na era digital


Outra questão de nosso presente, menos aguda há dez anos, é a das mutações que impõem à história o ingresso na era da textualidade eletrônica. O problema já não é o que, classicamente, vincula os desenvolvimentos da história séria e quantitativa com o recurso ao computador para o processamento de grande quantidades de dados, homogêneos, repetidos e informatizados. Agora se trata de novas modalidades de construção, publicação e recepção dos discursos históricos.

A textualidade eletrônica de fato transforma a maneira de organizar as argumentações, históricas ou não, e os critérios que podem mobilizar um leitor para aceitá-las ou rejeitá-las. Quanto ao historiador, permite desenvolver demonstrações segunda uma lógica que já não é necessariamente linear ou dedutiva, como é a que impõe a inscrição, seja qual for a técnica, de um texto em uma página. Permite uma articulação aberta, fragmentada, relacional do raciocínio, tornada possível pela multiplicação das ligações hipertextuais. Quanto ao leitor, agora a validação ou a rejeição de um argumento pode se apoiar na consulta de textos (mas também de imagens fixas ou móveis, palavras gravadas ou composições musicais) que são o próprio objeto de estudo, com a condição de que, obviamente, sejam acessíveis em forma digital. Se isso é assim, o leitor já não é mais obrigado a acreditar no autor; pode, por sua vez, se tiver vontade e tempo, refazer total ou parcialmente o percurso da pesquisa.

No mundo dos impressos, um livro de história supõe um pacto de confiança entre o historiador e seu leitor. As notas remetem a documentos que o leitor, no geral, não poderá ler. As referências bibliográficas mencionam livros que o leitor, na maioria das vezes, não poderia encontrar senão em bibliotecas especializadas. As citações são fragmentos recortados por mera vontade do historiador, sem possibilidade, para o leitor, de conhecer a totalidade dos textos de onde foram extraídos os fragmentos. Esses três dispositivos clássicos da prova da história (a nota, a referência, a citação) estão muito modificados no mundo da textualidade digital a partir do momento em que o leitor é colocado em posição de poder ler, por sua vez, os livros que o historiador leu e consultar por si mesmo, diretamente, os documentos analisados. Os primeiros usos dessas novas modalidades de produção, organização e certificação dos discursos de saber mostram a importância da transformação das operações cognitivas que implica o recurso ao texto eletrônico. Aqui há uma mutação epistemológica fundamental que transforma profundamente as técnicas da prova e as modalidades de construção e validação dos discursos de saber.

Um exemplo das novas possibilidades abertas tanto para a consulta de corpus de documentos como para a própria construção de uma argumentação histórica é a dupla publicação (impressa, nas páginas da American Historical Review, e eletrônica, no site da American Historical Association) do artigo que Robert D. dedicou às canções subversivas recolhidas pelos espiões da polícia do rei nos cafés parisienes do século XVIII. A versão eletrônica oferece ao leitor o que o impresso não pode lhe dar: uma cartografia dinâmica dos lugares onde são cantadas as canções, os informes da polícia que recolhem as letras subversivas, o corpus de canções e, graças à gravação feita por Hélène D., a escuta dos textos tal como os ouviram os contemporâneos. Assim se estabelece uma relação nova, mais comprometida com os vestígios do passado e, possivelmente, mais crítica com respeito à interpretação do historiador.

Ao permitir uma nova organização dos discursos históricos, baseada na multiplicação das ligações hipertextuais e na distinção entre diferentes níveis de textos (do resumo das conclusões à publicação dos documentos), o livro eletrônico é uma resposta possível, ou ao menos apresentada como tal, à crise da edição nas ciências humanas. Em ambos os lados do Atlântico os efeitos são comparáveis, embora as causas principais não sejam exatamente as mesmas. Nos Estados Unidos, a questão principal é a redução drástica das aquisições de monographs pelas bibliotecas universitárias, cujos recursos são devorados pelas assinaturas de publicações científicas que, em alguns casos, têm preços consideráveis (entre 10.000 e 15.000 dólares por ano). Daí a hesitação das editoras universitárias diante da publicação de obras que são consideradas por demais especializadas: teses de doutorado, estudos monográficos ou livros de erudição. Na França, e sem dúvida mais amplamente na Europa, uma redução similar da produção, que limita o número de títulos publicados e recusa as obras demasiadamente caras, provém sobretudo da diminuição do públicos de leitores assíduos - que não era formado apenas por universitários - junto com a queda do volume de suas compras.

A edição eletrônica dos livros de história que as editoras não querem ou não podem publicar é a solução para essa dificuldade? As iniciativas tomadas nesse sentido, com a criação de coleções digitais dedicadas a publicar livros novos, permitiram pensar que é assim. Porém continua pendente uma questão: a da capacidade desse livro novo de encontrar ou produzir seus leitores. Por um lado, a longa história da leitura mostra fortemente que as mudanças na ordem das práticas costumam ser mais lentas que as revoluções das técnicas e que sempre estão defasadas em relação a estas. A invenção da imprensa não produziu imediatamente novas maneiras de ler. Por sua vez, as categorias intelectuais que associamos com o mundo dos textos subsistem diante das novas formas do escrito, enquanto que a própria noção de "livro" se acha questionada pela dissociação entre a obra, em sua coerência intelectual, e o objetivo material que assegurava sua imediata percepção e apreensão. Por outro lado, não se deve esquecer que os leitores (e os autores) potenciais dos livros eletrônicos, quando não se trata de corpus de documentos, são ainda minoritários. Continua existindo uma profunda brecha entre a obsessiva presença da revolução eletrônica nos discursos e a realidade das práticas de leitura, que continuam estando, em grande medida, apegadas aos objetos impressos e que não exploram senão parcialmente as possibilidades oferecidas pelo digital. O fracasso e o desaparecimento de numerosos editores que se haviam especializado no mercado dos ensaios e dos romances em formato eletrônico nos lembram que seria uma erro considerar que o virtual já é real.

Roger Chartier
Trad.: Cristina A.


6.1.19

inéditos


Eneko


XXXIV

Sabemos que governo autoritário não gosta de livre pensamento.



inéditos


XXXIII

O sistema cultural, sob esta "nova plataforma política", vai ser prato cheio para os rituais de violência.


4.1.19

inéditos


XXXII

Se eu fosse o Cabôco Mamadô eu enterrava o "povo brasileiro". Sem cerimônia.



inéditos


XXXI

A juventude inteligente de maio de 68 tinha um programa muito bacana:

- abolição das classes;
- acesso a história consciente;
- construção livre da vida.

O problema é pensar como aplicar esses três tópicos em um país que foi tomado de assalto por grupos fundamentalistas que acreditam que vieram do barro.


abre aspas


Cuando un régimen autoritario se acerca a su crisis final, su disolución sigue, como regla, dos pasos. Antes de su verdadero colapso, una ruptura misteriosa tiene lugar: de repente la gente sabe que el juego ha terminado, ya no tiene miedo. No es solamente que el régimen pierda su legitimidad, sino que además su ejercicio del poder es percibido como una reacción impotente de pánico. Todos conocemos la clásica escena de dibujos animados: el gato llega al precipicio, pero sigue caminando, ignorando el hecho de que ya no hay suelo bajo sus pies; sólo empieza a caer cuando mira para abajo y nota el abismo. Cuando pierde su autoridad, el régimen es como un gato sobre el precipicio: para que caiga, sólo se le tiene que recordar que mire hacia abajo...


inéditos


XXX

Quais os mecanismos de integração do proletariado aos sistema de exploração?


abre aspas


La ideología religiosa, en la adopción y sustitución del análisis político se expresó, de hecho, en la expansión hacia dicho campo de fórmulas teocráticas como “God Bless America” y se continuó por “In God we trust”, que apoyado por la Guerra Fría se hizo presente desde 1956 en todos los billetes y monedas estadounidenses (Bueno, 2010). En la lucha del bien contra el mal, Dios contra Satán, Cristo/ Anticristo, espíritus/ demonios, las misiones de la nueva derecha cristiana, en manos de personas con “verdades absolutas” para sanar la sociedad, ha matizado y definido el giro en múltiples procesos electorales.

Según Garaudy (2006) el discurso político-religioso en Estados Unidos mostró rasgos comunes desde Washington, y Norteamérica, según los oligarcas que la dirigen, no dejó nunca de ser el brazo armado de la Providencia Divina. La invocación de la fe para fines de dominación y uso del poderío político-militar ha sido uno de los principios fundamentales de la corporación militar que gobierna al pueblo de Estados Unidos (Palacios, 2015).


3.1.19

thursday


Morphine | 1994


um dia


E se um dia,
a ausência de dinheiro
não for sentido como incômodo,
mas um alívio?


2.1.19

neuromancer



I


É maravilhoso o que uma guerra pode fazer pelos mercados.



no future


I

O psicopata bostão digitou que combaterá o "lixo marxista" instalado nas instituições de ensino. Aonde?

Cara, só se marxismo virou alguma marca de cueca e calcinha ou perfume da Avon para ele estar pulverizado nisto que cês chamam de escola.

Ps: e lixo - todos nós sabemos - é o que tem na cabeça esse energúmeno e seus eleitores.


1.1.19

circunstancial


- Democracia do tanto faz?
E deu de ombros.


as reivindicações da canalha


Ó canalha boçal e repugnante, vais afinal convencendo-te de que ninguém de ti faz caso? Não ganhas para a exígua satisfação das tuas necessidades - e por isso gritas contra os teus patrões, contra os teus senhores, contra os teus governantes...

Achas, ó vil canalha, que trabalhas muitas horas e ganhas o insuficiente para viver, para poder arrastar a tua mísera existência de escravo, sem ideais e sem desejos... É por só passares fome que grita, plebe imunda!

O teu destino há de ser o aniquilamento completo. Desengana-te, corja vil. Tens que ser a eterna besta de carga, a alimária da nora, a girar, a girar da manhã à noite, em passo tardo e igual até não poder mais. 

Berraste, saíste para as ruas em magotes, a reclamar mais pão e menos serviço - e o teu patrão avisou logo a polícia, cognominou-te revoltada e criminosa, vituperou-te como estrangeira e suja, caluniou dizendo-te farte e bem paga - e os governantes, indignados com as tuas reclamações sediciosas e extemporâneas, atiraram contra ti os homens da caserna, que te tosaram bem, medindo-te, entre risos escarninhos, as espáduas esquálidas com o seu sabre reluzente e flexível.

Afinal, que ganhaste? Por terem dó de ti, que apanhaste chorando docilmente, sem revolta, deram-te mais uma migalha no ordenado e concederam-te uns minutos mais de descanso... Algo es algo... Mas o feijão continua a subir, o pão mirra cada vez mais, a carne (tu ainda comes carne, é, miseranda canalha?) resume-se a uns frangalhos sebosos e um osso que se adquirem a mil e tantos réis o quilo, as batatas são objeto de luxo, os legumes nem se bispam, e assim anda tudo por esta cristianíssima Paulicéia... Como poderás tu, ó canlha fétida e repugnante, encher o grosseiro bandulho, se os alimentos mais vulgares e triviais assumem foros aristocráticos?

Pobre filhos da escumalha, desde o respeito até a justiça, desde o bem-estar até a alegria, desde a carne até a batata - tudo foge de ti... Produzes o mesmo efeito que a peste!

Basta, pois, de declamações néscias e de queixas ridículas. Resigna-te à tua condição de escrava. Não perturbes mais o plácido viver dos cavalheiros que governam a nau do Estado ou se alcandoram na Bolsa...

Que há de meninas pálidas e enfeadas, moças anêmicas e tristes, velhas esquálidas e encarquilhadas devido ao mau passado e ao exaustivo trabalho? E que têm eles com isso? Não nos deram ruas primorosamente empedradas, asfaltadas e arborizadas nos bairros chiques de Higienópolis, Avenida Paulista e Campos Elísios, para que os automóveis rodem sem abalo, suavemente? 

Que há de crianças que timidamente estendem a mão aos transeuntes implorando um tostão para matar a fome implacável que lhes rói as tenras vísceras? E para que há agentes de polícia e guardas cívicos senão para castigar e prender inexoravelmente esses malandretes que, em vez de estarem curtindo a fome a um canto de sua água-furtada, expõe, imprudentemente, a sua ignóbil miséria?

Que nestas brumosas manhãs de outono já miseráveis que revolvem febrilmente as latas de lixo antes de irem para o carro, procurando trapos velhos, papéis servidos, umas tronchas semipodres ou uns restos de comida misturados com cinza para apaziguar as raivosas contrações dos intestinos? Quem assiste a esses deprimentes espetáculos? Não são as respeitáveis damas da "elite", que a essa hora matinal ainda repousam placidamente nos fofos e ricos leitos. Nem são os "almofadinhas" e demais "meninos bonitos" que recolhem de madrugada, depois de haverem compartilhado de todos os prazeres da crápula durante a noite inteira. Nem são os jogadores, os notívagos frequentadores dos bordéis de alto bordo, os boêmios de alta e baixa estofa, pois todos eles nesse momento têm os olhos embaçados pelo sono e pelo álcool e não reparam nessas coisas repugnantes e infames.

E então aqueles que moram em quartinhos reduzidos e quentes como fornos, em porões baixos e úmidos, em cortiços infectos e escuros! E em todas essas habitações há sempre uma criança que chora porque os seios mirrados e moles, como trapos, da mãe não dão mais o suco leitoso; há uma mãe que suspira vendo morrer extenuado o filho tuberculoso; há um moço que medita um crime; há uma jovem que compara a sua sorte à das prostitutas e imagina com ânsia na perdição; há um homem que jura e maldiz...

Que belo quadro, hem, canalha imunda? Desejas coisa melhor que habitações repugnantes, fogãozinho quase sempre apagado, leitos de capim moído, cadeiras esculhambadas, esse cheiro penetrante e crasso de miséria que perfuma o ar denso e mortífero que nunca se renova nem se purifica?...

E, no entanto, ó canalha miserável, lá pelos começo de 89, quando de agitavas e mexias sonhando um porvir ditoso em que a dignidade e o trabalho te elevassem e engrandecessem, eras capaz de supor continuar nesta abjeção? Aqueles delírios de emancipação, aquela ânsia de sair da tua esfera, aqueles protestos contra tudo o que coartava a tua liberdade deviam merecer o prêmio merecido - e agora estás gozando o resultado da tua candura... Por que não chamas a contas todos aqueles que te engordaram - perguntando-lhes pela liberdade e pelo bem-estar que eles, em discursos inflamados, te prometeram tanta vez, logo que triunfassem?

Já os quiseste chamar a contas?... Ah, sim? E que foi que eles te disseram? Nada? Ah! ah! ah!... Mandaram espadeirar-te e moer-te os lombos com o chanfalho policial?... Pois então que querias, gentalha fétida? Talvez que eles descessem dos seus faustosos palacetes ou apeassam dos seus confortáveis automóveis para te abraçar e consolar?... Tu andas muito iludida, plebe esfarrapada. É necessário que compreendas que eles, hoje, já não precisam mais de ti. Eles não necessitam mais de ouvintes para os seus discursos, porque não fazem mais discursos, só pensam nos negócios que dão riqueza, poderio e esplendor. Para ser eleitos eles dispõem em cada localidade de um ou dois pajés, a que dão o nome pomposo de chefes políticos e que os servem com a dedicação pasmosa recorrendo à Mallat quando os votos são poucos... Tu és, pois, unicamente a besta paciente e laboriosa, cuja única missão consiste em trabalhar, trabalhar, trabalhar, até que a morte te redima dessa triste abjeção!

Que não queres que isto assim continue? Tu deliras, corja submetida. Como podes fazer prevalecer as tuas aspirações igualitárias e justiceiras se estás desunida e fraca, se és incapaz de pôr-te de acordo, e quando algum revoltado audaz te quer fazer compreender os teus direitos e como deves proceder, vem a polícia, prende o orador e tu nem a audácia miseranda tens de protestar e opor-te à iníqua prisão?

Que me dizes de Domingos Pereira? Que fizeste até agora por ele? Que és capaz de fazer por ele, ó escumalha aviltada e vilipendiada? E ele está preso por ti, é por ti que ele está sofrendo o cárcere há um mês e foi brutalmente espancando e barbaramente tratado pelos algozes da Polícia...

A liberdade não se implora nem se pede. A liberdade conquista-se, a liberdade toma-se.

Sois capazes disso, ó filho do Pó?

Pois, quando fordes, tereis conseguido a vossa integral emancipação.

Everardo Dias
A Plebe, SP, ano II, n. 17, 1919.


31.12.18

o adulador


Conhece-o, companheiro? É um desgraçado que se esqueceu de que é homem e transformou-se em cão.
Não tem uma palavra para os poderosos que não seja de submissão, nem um ato prático que não seja servil.
É odiado pelos companheiros, a quem prejudica em benefício dos patrões, é desprezados por estes, que o reconhecem indigno.
Não tem vontade, não tem honra nem dignidade de homem. As injustiças e os insultos dos patrões não o revoltam, nem o fazem corar, porque não tem brio.
Nunca será capaz, ainda mesmo que tenha de descer a uma infâmia, de desobedecer às ordens do mestre.
É pior que a besta, porque esta às vezes se insubordina contra a vontade ou a tirania do domínio.
Já viste em uma oficina o trabalhador que, ao chegar o mestre ou o patrão, logo dele se acerca para arguilo do estado de sua saúde?
Tens notado aquele que, mal o mestre dá sinal de cansaço ou incomodado de saúde, se apresse em levar-lhe uma cadeira para que descanse?
Conheces aquele que se finge o teu amigo, quer saber de tuas opiniões, do juízo que formas do teu mestre, para ter o que contar-lhe?
Viste aquele que para ser agradável ao patrão prejudica um trabalhador como ele, carregado de família, indicando quem faça as obras por menor preço?
Observaste o covarde que, confiado na proteção do mestre, insulta ao companheiro digno e honesto e quanto este o repele vai intrigá-lo e consegue tirar-lhe o trabalho e o pão?
Reparaste aqueles que têm as chaves dos armários e das gavetas onde há peças de ferramenta que não querem dar aos outros operários, que são assim prejudicados?
Todos esses são aduladores, os judas do operariado, com que nos aborrecemos.

P. Industrial 
Aurora Social, PE, ano I, n. 11, 1901


30.12.18

a explicação é simples:


as formigas não defendem o tamanduá que as come.


29.12.18

o que dizem as máquinas


O carvão em brasas crepita no forno; ferve borbulhante a água na caldeira; o pistão empurra a manivela; a manivela movimenta o eixo, faz girar o poderoso volante, e, enquanto a máquina ruge como um cansado monstro, a correia sem fim propõe em movimento outros eixos e outras rodas, outras correias e outras máquinas. A indústria marcha, a produção aumenta, o operário trabalha.

Como é belo o poder da inteligência humana! À sua invocação o movimento se multiplica e surgem o calor e a luz.

Mas, ai!, a máquina ainda pode dizer ao operário:

- Não te orgulhes. Em nada te diferencias de mim. Instrumento de trabalho como eu, teu estômago, assim como meu forno recebe o carvão indispensável, só recebe o alimento estritamente suficiente para que continues a desempenhar tua função mecânica. Sou um instrumento mais valorizado que tu, porque és mais abundante e custas menos. Quando me desgasto, me substituem; quando te desgastas, te abandonam. É a mesma coisa; não a mesma coisa, pior; porque tua única vantagem, tua inteligência, converte-se então em desvantagem; a consciência de teu valor passado será teu tormento. Tu, como eu, produzes, produzes, como eu, para os outros, não para ti. Juntos construímos fortunas que te pertencem e que jamais desfrutas. Operário: apodera-te de mim; arranca-me dos braços do velho capital; teu matrimônio comigo é tua única salvação. Deixa de ser instrumento para que o instrumento te pertença. Te quero amo, senhor, não companheiro. O capital me explora, só tu me fecundas. Só a ti quero pertencer.

O Chapeleiro, SP, ano I, n.4, 1 de maio 1904


26.12.18

inéditos


XXI

Como pode o ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de seriados de golpes e fragmentos hipócritas?



24.12.18

poesia-resistência


"Sociedade de consumo" é apenas um aspecto (o mais vistoso, talvez) dessa teia crescente de domínio e ilusão que os espertos chamam "desenvolvimento" (ah! poder de nomear as coisas!) e os tolos aceitam como "preço do progresso".

Quanto à poesia, parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender. A propaganda só "libera" o que dá lucro: a imagem do sexo, por exemplo. Cativante: cativeiro.

Ou quererá a poesia, ingênua, concorrer com a indústria & o comércio, acabando afinal por ceder-lhes as suas graças e gracinhas sonoras e gráficas para que as desfrutem propagandas gratificantes? A arte terá passado de marginal a alcoviteira ou inglória colaboracionista?

Na verdade, a resistência também cresceu junto com a "má positividade" do sistema. A partir de Leopardi, de Holderlin, de Poe, de Baudelaire, só se tem aguçado a consciência da contradição. A poesia há muito não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade. Daí vêm as saídas difíceis: o símbolo fechado, o canto oposto à língua da tribo, antes brado ou sussurro que discurso pleno, a palavra-esgar, a autodesarticulação, o silêncio. O canto deve ser "um grito de alarme", era a exigência de Schonberg. E os expressionistas alemães queriam ouvir no fundo do poema o "urro primitivo", Urschrei!

[...]

A ideologia procura compor a imagem de uma pseudotatalidade, que tem partes, justapostas ou simétricas ("cada coisa em seu lugar", "cada macaco no seu galho"), mas que não admite nunca as contradições reais. A ideologia dominante não consegue ser, a rigor, nem empírica nem dialética. Não consegue ser empírica porque as leis do mercado e da burocracia desprezam a face do ser vivo singular. A ratio abstrata transformou o corpo e a cabeça de cada indivíduo em mão-de-obra sem nome nem rosto que pode ser substituída a qualquer hora. Das fontes da natureza fez matéria-prima; do fruto do trabalho dez mercadoria a ser trocada e consumida. Pela força mesma dessa abstração, que o capitalismo incha e reproduz a cada momento, a ideologia tampouco suporta o momento da negação com que o pensamento dialético exige que a "má positividade" seja superada.

Sob o peso desse aparelho mental não totalizante, mas totalitário, vergam opressos quase todos os gestos da vida social, da conversa cotidiana aos discursos dos ministros, das letras de música para jovens às legendas berrantes de cartazes, do livro didático ao editorial da folha servida junto ao café da vítima confusa e mal amanhecida.

Alfredo Bosi
1977


22.12.18

fanzine


O ensino, como instituição, tem por objetivo manter os fundamentos da sociedade, e não questioná-la de maneira profunda.

mobilização de washington


Sol branco sobre crânios suados / Monumento a Washington piramidado altas nuvens graníticas acima de massa d'almas, criança gritando nos cérebros na grama tranquila / (negro peso pendurado de blue jeans em cruz de terra) - / Luz d'alma sob céu azul / Reunidos perante Casa Branca cheia de alemães abigodados & botões de polícia, telefones de exército, Campainhas de CIA, grampos de FBI walkie-talkies de Serviço Secreto, alarmes Interfone pra Delegacia de Entorpecentes & Especuladores Imobiliários Mafiosos da Flórida. / Cem mil corpos nus perante um Robô de Ferro / Cérebro de Nixon crânio Presidencial espiando por binóculo / da Ala Leste da Fábrica de Paranóia Poluente.

Ginsberg
9 de maio de 1970
Trad.: Paulo H.


20.12.18

ecologia


[...]

Se o dinheiro tornasse a mente mais sadia,
ou se o dinheiro amadurecesse no intestino
a fome para além da dor da fome,
ou se o dinheiro aplacasse o estertor da morte,
ou fizesse o moribundo rir novamente,
ou encorajasse a ovelha risonha,
a aconchegar-se onde se deitara o leão,
eu iria fazer dinheiro e me cobrir de ouro.

Ginsberg | Trad.: Mauro C.


19.12.18

la société punitive


1926 - 1984
[...] 

Em toda parte se está em luta - há, a cada instante, a revolta da criança que põe o dedo no nariz à mesa, para aborrecer seus pais, o que é uma rebelião, se quiserem... 


abre aspas


[...]

A lógica que inspira determinado ato de resistência pode por um lado estar ligada aos interesses específicos de classe, gênero ou raça; mas por outro lado tal resistência pode representar e expressar os movimentos repressivos inscritos pela cultura dominante ao invés de uma mensagem de protesto contra sua existência. A dinâmica da resistência pode não apenas ser inspirada por um conjunto radical como por um conjunto reacionário de interesses [...] por causa da incapacidade de entender a natureza dialética da resistência, o conceito tem sido tratado superficialmente, tanto em termos teóricos como em termos ideológicos, na maior parte das teorias de educação.

Henry Giroux

[...]

En vez de fomentar un ilimitado sector de diversidad, simplicidad, autonomía y belleza humana, producimos uniformidad, complejidad, carreras de precios y crisis neuróticas. 

Paul Goodman


18.12.18

a estética do silêncio


stencil | 2018

[...]

Uma paisagem não exige sua "compreensão", suas imputações de significado, suas angústias e suas simpatias; ao contrário, requer sua ausência, solicita que ele não acrescente nada a isso.

Susan Sontag


17.12.18

viagens


Não me lembrava das pessoas. Osman, dr. Sidrônio e Luccarini eram sujeitos decentes. Mas a engrenagem onde havíamos entrado nos sujava. Tudo uma porcaria. Tolice reconhecer que a professora rural, doente, merecia ser trazida para a cidade e dirigir um grupo escolar: fazendo isso, dávamos um salto perigoso, descontentávamos incapacidades abundantes. Essas incapacidades deviam aproveitar-se de qualquer modo, cantando hinos idiotas, emburrando as crianças. O emburramento era necessário. Sem ele, como se poderiam aguentar políticos safados e generais analfabetos? Necessário reconhecer que a professora não havia sido transferida e elevada por mim: fora transferida por uma ideia, pela ideia de aproveitar elementos dignos, mais ou menos capazes. Isso desaparecia. E os indivíduos que haviam concorrido para isso desapareciam também. Excelente que Osman, em cima, e Luccarini, embaixo, continuassem. Não continuariam  muito tempo. Ficava a estupidez; "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas." Para que meter semelhante burrice na cabeça das crianças? 

Graciliano Ramos


a cidade dos asfixiados

[...]

Situada um tanto ou quanto distantes da cidade, num daqueles edifícios que comparei a gigantescas nacelas, esta escola tem como móveis, em lugar de bancos, balanços presos ao teto. Durante todo o tempo das aulas, os alunos ficam a se balançar em cadência. Não se veja entretanto nisto nada que se pareça com o que denominávamos, no meu tempo, algazarra. Não; aliás, uma coisa dessas não poderia acontecer; todas as precauções foram tomadas. A maior parte do tempo que os alunos passam nas classes é consagrada ao amolecimento de seu crânio. Tarefa tanto mais facilitada porque, como se lembram, os jovens bovrilos vêm ao mundo com o crânio nu e continuam calvos a vida toda. Em todas as escolas, regam-lhes a cabeça demoradamente com loções tépidas. Torrentes de emolientes, fluidos, líquidos ou oleaginosos, rios de shampoos amaciadores são despejados constantemente sobre as caixas cranianas dessas jovens esperanças, a fim de prepará-los convenientemente para a educação que vão receber. Ou melhor: esse tratamento constitui parte integrante do programa.

Com efeito, logo que os crânios estão suficientemente amolecidos, os jovens bovrilos são transferidos para a Grande Coneria, que corresponde mais ou menos à nossa Universidade, assim designada porque as cabeças são ali moldadas em formas de cones. Os crânios adolescentes, que se tornaram tão fáceis de amassar quanto blocos de barro, são metidos em moldes cônicos, de onde saem perfeitamente moldados em forma de cone, de tronco de cone, de cone duplo ou triplo. Clínicos especializados conservam-nos dentro desses moldes, até que tenham adquirido uma consistência definitiva. Acontece por vezes que algumas cabeças se mostrem refratárias à modelagem: serão outros tantos indivíduos fracassados. Felizmente, os casos desse tipo são bastante raros. Na maior parte das vezes, a operação obtém um êxito total, e a fábrica de cones pode orgulhar-se de seus produtos que, por seu turno, também se orgulham de terem sido tão bem moldados. Quando se tem o direito de colocar depois do nome: cone tríplice diplomado, ou: ex-aluno da Grande Coneria, pode-se olhar de cima para os contemporâneos e há toda probabilidade de que se venha a conquistar em breve o direito a uma barba postiça que desça até o umbigo.

Mas estou antecipando as coisas. Eu tinha começado a contar que se procede também -  o que não é menos importante - à educação dos pulmões dos alunos. Ensinam-lhes a respirar um ar especial, o droggaz, irrespirável para os não-iniciados. 

Régis Messac | 1972
Trad.: Heloysa Dantas


anatomia do fascismo


O fascismo é um gênero de ideologia política cujo cerne mítico, em suas várias permutações, é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista.

O fascismo é a ditadura explícita e terrorista dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro.


16.12.18

nunca fomos tão engajados


[...] a intelectualidade nunca esteve tão engajada. Rara mesmo, em nossos dias, é a torre de marfim. Acredito aliás que a crítica independente, sem patrocinador nem interesse direto à vista, é o que mais nos está fazendo falta. Quase todos estamos empenhados, suponhamos, na administração pública, nalgum partido, num departamento da universidade, numa firma de pesquisa, num sindicato, numa associação de profissionais liberais, no ensino secundário, num setor de relações públicas, numa redação de jornal etc, com o objetivo nem sempre muito crível de usar os nossos conhecimentos em favor de alguma espécie de aperfeiçoamento e modernização. Assim, um dos impulsos essenciais à idéia de engajamento, que mandava trazer a cultura dita desinteressada ao comércio dos interesses comuns, se realizou plenamente. O que não ocorreu foi a esperada diferença democrática que esta descida à terra faria. Na falta dela, o compromisso social dos especialistas, incluída aí a dose normal de progressismo, é o mesmo que ir tocando o serviço, e a combatividade do engajamento pode ter algo de um lobby de si próprio. A tecnificação da sociedade avança e o número dos especialistas aumenta. A ligação entre estes e governo, administração pública e gestão do capital é estreita, formando o bloco da autoridade moderna. "Os varões sabedores", como dizia Machado de Assis, para caracterizar inteligência rara que acabava de se enganar por completo. Do outro lado da cerca os leigos ficam inermes, e, mais que isso, desqualificados. O bloco das capacidades de que mal ou bem as grandes lideranças sindicais também fazem parte, conhece estes efeitos e trata de tirar proveito deles. Os representantes do país organizado, e também de si mesmos, defrontam-se com o país desorganizado, oposição que em parte se sobrepõe à divisão entre as classes, que entretanto não desaparecem, a não ser que fechemos os olhos. Neste ponto a velha inspiração democrática do engajamento intelectual talvez tenha alguma vigência moderna.

Roberto Schwarz
1994