20.8.17

ensinando a trangredir


[...]

Quando o consumo cultural coletivo da desinformação e o apego à desinformação se aliam às camadas e mais camadas de mentiras que as pessoas contam em sua vida cotidiana, nossa capacidade de enfrentar a realidade diminui severamente, assim como nossa vontade de intervir e mudar as circunstâncias de injustiça.

[...]

Partilhei apaixonadamente minha crença de que, independentemente de classe, raça, gênero ou posição social, sem a capacidade de pensar criticamente sobre nosso ser e nossa vida ninguém seria capaz de progredir, mudar, crescer. Em nossa sociedade tão fundamentalmente anti-intelectual, o pensamento crítico não é encorajado.

[...]

Meu compromisso com a pedagogia engajada é uma expressão de ativismo político. Pelo fato de nossas instituições educacionais investirem tanto no sistema de educação bancária, os professores são mais recompensados quando seu ensino não vai contra a corrente. A opção por nadar contra a corrente, por desafiar o status quo, muitas vezes tem consequências negativas. E é por isso, entre outras coisas, que essa opção não é politicamente neutra. Nas faculdades e universidades, o ensino geralmente é a menos valorizada de nossas muitas ocupações profissionais. Entristece-me o fato de muitos colegas suspeitarem daqueles professores com quem os alunos gostam de estudar. E existe a tendência a solapar o compromisso dos pedagogos engajados com o ensino, afirmando-se que o que fazemos não é tão rigorosamente acadêmico quanto deveria ser. Idealmente, a educação é um lugar onde a necessidade de diversos métodos e estilo de ensino é valorizada, estimulada e vista como essencial para o aprendizado. De vez em quando os alunos se sentem preocupados quando uma turma se afasta do sistema de educação bancária. Lembro-os de que podem passar o resto da vida em turmas que refletem as normas convencionais.

bell hooks
Trad.: Marcelo B. 
1994


17.8.17

valor e cultura


Olha, não é querer exagerar não, mas a indústria cultural do brasil está a se aproximar daquela devastadora técnica de tortura mental desenvolvida pela CIA.


16.8.17

dialética da escola inquisição


Seria mais inteligente ter uma escola sem igreja, mas, eu sei, a inteligência não é o forte do cidadão de bem.


10.8.17

viver na era do capitalismo artista

1982

Da mesma forma que os bens de consumo corrente aparecem como produtos-moda, o mundo da arte também se mistura de maneira íntima com a moda. Essa proximidade não é recente; diferentes artistas já realizaram no decorrer do século passado figurinos para espetáculos, desenharam motivos para vestuário de moda e cartazes para os espetáculos em exibição. Não obstante, os universos da arte e da moda, pensados como heterogêneos, também funcionavam de acordo com lógicas dessemelhantes. Não é mais assim.

Podemos considerar Warhol como o primeiro elo e a figura prototípica da subversão que se efetuou. Ao se proclamar "business artist", Warhol passa do modelo da boêmia e do artista "suicidado pela sociedade" (Artaud) ao artista mundano que, obcecado pelo sucesso e pelo dinheiro, extrai inspiração do universo da cultura de massa, da moda, do jet set internacional, das imagens de superstars e de todas as formas de celebridade. Suas telas reproduzem dólares, a garrafa de Coca-Cola, "golden shoes", e também os rostos de Marilyn Monroe, Liz Taylor, Elvis Presley. Em seus autorretratos (realizados com rosto maquiado e peruca loura) e em suas serigrafias seriais de estrelas, Warhol exprime seu gosto pela mise-en-scene teatralizada de si, seu fascínio com a artificialidade e a aura das divas. Seu ateliê, a Factory, se torna o centro da vida in e um local de festas perpétuas em que se encontram estrelas, gente da moda, do rock, das mídias, as subculturas da vanguarda. Warhol gosta dos grandes astros e se dedica a construir sua imagem e sua obra conforme os caminhos espetaculares do star-system e da publicidade. Para "ser tão conhecido quanto as latas de sopa Campbell"(Leo Castelli), ele participa de todos os acontecimentos, atuando em todos os campos capazes de atrair a atenção das mídias: pintura, fotografia, cinema, romance gravado em cassete, telenovelas, rock. Não para de se impor como astro hollywoodiano, sendo produtor e diretor de sua própria imagem supermidiatizada. Postulando uma pintura sem profundidade, mecânica e superficial, introduzindo o glamour e o comercial na arte, sua obra assinala o triunfo das aparências e do mercado, da publicidade e da moda. Podemos considerá-lo como o primeiro artista cuja obra é emblemática das hibridizações do capitalismo artista rematado.

A notoriedade de Warhol é tamanha que em 1965 ele é classificado no "barômetro da moda" de Eugenia Sheppard logo depois de Jacqueline Kennedy. Reatando com a lógica espetacular e artificialista da moda, o mundo da arte se aproxima do show, do produto midiático e hip. Com Warhol, todas as fronteiras se confundem, as da arte e dos negócio, da cópia e do original, do museu e do supermercado, da high e da low art, do artista e do astro, da obra e da publicidade, da arte e da moda.

[...] O tempo do artista maldito passou: estamos no momento da transestética, em que o importante é menos a criação do que a celebridade, em que os artistas renomados têm um status de astros reconhecido na grande imprensa, em que o preço das obras parece ser o sinal do seu valor artístico, em que a notoriedade dos artista se constrói como uma marca. No tempo do capitalismo artista, as mídias se impõem como novas instâncias de consagração de talentos, a notoriedade passa cada vez mais pelo caminho do espetacular, da comunicação, da midiatização: o mesmíssimo caminho da moda.

Gilles Lipovetsky & Jean Serroy
Trad.: Eduardo Brandão
2013


8.8.17

el educador mercenario


Se sostiene la pretensión de educar "en la libertad", "en la critica", o "para la emancipación", desde una Instituición diseñada para inculcar el principio de autoridad, reproducir la dominación social y "sujetar" a la juventud?

No existen los profesores autenticamente contestatarios: hay aquí, una contradicción entre los dos términos. Así como no es imaginable un "militar pacifista", un "cura ateo", un "guardia civil anticapitalista", un "verdugo filantrópico", etc.

El oficio de profesor deberíamos dejarlo para los partidarios del status quo, para los adoradores del sistema, para los autocratas em miniatura, para los déspotas, a tiranos.

Naturalizada, presa de lo que Lukacs denominó el "maleficio de la cosificación", la instituición escolar se ha convertido finalmente en un fetiche, en un ídolo sin crepúsculo, y la exigencia del confinamento educativo aparece hoy como un dogma de toda pedagogia reformista o no; como un credo al que se abrazan sin excepción los Estados, dictatoriales o democraticos.

Em mi opinión, la educación libre se da justamente allí donde acaba la escuela, empieza sólo cuando acaba la escuela.

Ya debeis saber que vais a ser contratados por el poder, por el Capital y por el Estado, para llevar a cabo los cotidianos e terroríficos "trabajos sucios" sobre la subjetividade de los jóvenes.

Las dosis de autoengaño que necesita cada dia un profesor para seguir ejerciendo con la consciencia tranquila es inmensa, excesiva, y tiene también sus próprios efectos secundarios. A mí lo que extraña, y casi me aterra, es que no todos pierdan la razón en el aula; lo que me horroriza y casi me deprime es que haya profesores [...] "felices", a gusto en su empleo, clinicamente sanos. Es lo que no entiendo. Un profesor moderno, con la consciencia en paz, la sonrisa siempre fresca en los labios y el corazón en equilibrio, amante de su oficio, dichoso, realizando, es para mí una imagem de pesadilla. Un tipo así no solo encarna la máxima imbecilidad concebible en este mundo, ha de ser, también, un homúnculo desalmado.

Pedro G. Olivo



5.8.17

arte e anarquismo


Jean Dubuffet | 1901 - 1985

Meus próprios impulsos sempre foram, creio, aqueles que constituem a posição do anarquismo - com um vivo gosto pelas fraternidades calorosas - ainda que eu nunca tivesse tido a oportunidade de frequentar os meios anarquistas e que eu conheça apenas de maneira brumosa o que é com justeza a teoria e o programa do anarquismo...

Dubuffet | 1970


4.8.17

sobre el anarquismo

 
Mario Riffo

Ser un anarquista consciente es una situación de permanente dificultad (bastante parecida a ser, por ejemplo, un ateo en la Europa medieval)

Nicolas Walter


1.8.17

nulidade


Quem transforma o outro em pronome pessoal quer apenas a medida do poder para encaixotá-lo nalgum grupo sujeitado. 

Ele nunca tem nome.
Ele não pensa.
Ele precisa de nós.


31.7.17

Intencionalidade, Anarquismo e Arte


O pintor anarquista não é aquele que representa quadros anarquistas, mas aquele que, sem preocupação com o lucro, sem desejo de recompensa, luta com toda a sua individualidade contra as convenções burguesas oficiais por uma contribuição pessoal.

A intencionalidade pode ser uma chave sedutora de abordagem da arte, mas ainda é preciso colocá-la em perspectiva à luz da teoria da "recepção". Este será o tema de uma outra discussão. Enquanto aguardamos, trata-se de decidir qual seria a atitude desejável do artista anarquista. Sem dúvida, a de um artista independente, heterodoxo, aberto à novidade, sempre pronto a questionar-se.

Pietro Ferrua
Trad.: Plínio A.


sociedade sem escolas


Os livros didáticos são instrumentos de alienação. Eu disse isso milhares de vezes. Só servem para os professores que não têm leitura. Muitos fatos ficam de fora, muita referência bibliográfica esquecida, muito exercício para encher linguiça. São instrumentos feitos para a galera da educação que não sabe pesquisar por si próprio: manipulados por um material pronto, mastigado e fragmentado.

Depois não sabemos porque tem professor que só pede cópia no caderno para no final da aula carimbar o mickey mouse na testa do aluno prodígio.


La Canción Demoledora


I

Voy a empuñar mi lira, no a pulsarla / para entonar un himno de entusiasmo / que con sus notas vigorosas pueble / de imágenes hermosas, los espacios; / no a pulsarla con lágrimas inútiles / para que broten de sus cuerdas llantos; / voy a empuñarla, sí, com si fuera / un hacha gigante! con mis manos / quiero hacer un deguello que no deje / una sola cabeza de falsario, / una sola cabeza de canalla, / una sola cabeza de tirano! / quiero segar cabezas / como se siega el pasto!

II

Voy a empuñar mi lira / con toda la pujanza de mis brazos, / con el vigor de bronce de mis músculos / con toda la energía de mis años! / Quiero destruir - la destrucción abona - / todo lo que en el mundo sea falso, / todo lo que en el cielo sea impuro, / todo lo que en la tierra sea malo, / todo lo que en el hombre sea infamia!... / quiero ser sanguinario! / quiero abrazar con el calor que es vida, / la sangre de los pueblos desgraciados / para que hechas volcanes, sus miserias / vomiten sobre todos los tiranos!

III

Voy a empuñar mi lira, sí mi lira / forjada con los hierros del esclavo, / fundida sobre el yunque a martillazos! / Voy a empuñarla cual se empuña un hacha / para pulverizar a los peñascos / donde se posee una injusticia, donde / la mentira se alce, y a pedazos / a los abismos arrojarlos quiero / para allanar mi paso / así, con los escombros de esa historia / que escribieron con sangre los humanos!

IV

Voy a empuñar mi lira... / yo quiero descargala como un rayo / que parta las mezquistas, y los templos, / tronche las cruces, hunda campanarios / y en medio de los escombros del derrumbe / los sacerdotes muertos aplastados! / Porque río de Dios, no me amedrenta / su voz atronadora, yo levanto / mi lira de rebelde, como el ángel / Luzbel, y le amenazo. / Cuando el ruje de rabia en las tormentas / pulso mi lira y canto / porque río de Dios; así haga o diga / me río de sua voz e de su mano!

V

Voy a empuñar mi lira / con toda la potencia de mis brazos / para expulsar a Dios de sus dominios / y llamar a los hombres a ocuparlos. / Voy a arrancar las vendas de los ojos / de todos los que nunca vieron los mitos / que para someterlos se inventaron. // Voy a romper de un golpe las cadenas / que privan de luz al presidiario, / para que forje con sus hierros rotos / un formidable tajo / y ajusticie con él a sus verdugos / que son humildes siervos de tiranos. // Voy a llamar a todos los hambrientos / que comem lo que tiran los lacayos / cuando van a pedir a los señores / las sobras del festín a sus palacios. // Voy a llamar a todos los que dejan / palpitantes pedazos / de carne entre los hierros de la máquina; / a todos los que viven sepultados / en las negras entrañas de la tierra / a todos los que mojan con sus llantos / los surcos donde yace la simiente / que será el alimentos de sus amos; / a todas las mujeres prostituídas / escanciadoras de placeres pagos; / a todas esas madres que a sus hijos / no pueden dar el alimento humano, / ni el calor de sus besos y caricias, / ni el refugio sin par de sus regazos; / a todos los pilletes que en las puertas / amanecen helados; / a todos los maltrechos de la vida; / a todos los inválidos / a todos los vencidos en la lucha / por el pan cotidiano; / a todos los que lucen en sus carnes / la indeleble señal del latigazo; / a todos los que ostentan en sus cuerpos / el pus de las heridas, putrefacto...; / a todos los roñosos de las calles / que vagan al azar hechos guiñapos! / a todos los que viven en montones / cual si fueran gusanos! // Voy a llamar la chusma mancillada / con todos los estigmas del pasado, / la que va al hospital, mora en la cárcel, / su cuna es un zaguán, la calle un atrito; / la que tiene por cama / umbrales, por colchón el empedrado / y por lecho de muerte / un perdido rincón en el osario! // Voy a llamarla, sí, quiero con ella / marchar a la conquista de los astros, / para dejar al cielo en tinieblas / y el camino glorioso iluminarnos! / Con cada sol hacermos una antorcha, / mussalchis serán todos los esclavos / e iremos por los mundos / las cosas carcomidas incendiando.

Alejandro Sux
Buenos Aires, 1906

26.7.17

sociedade sem escolas


Se todos nós estivéssemos envolvidos na criação de um coletivo inteligente e heterogêneo dentro da rede virtual não haveria a necessidade das escolas prisões e muito menos das secretarias de educação.

Mas os profissionais da desinformação e os timoneiros da máquina da lama ainda persistem no fomento da imbecilização como prática educacional.


¡Enrabiaos!

Cuando las palabras
son vacinadas de su contenido
nos invade la pasividad de la
sumisión democrática

HAY MUCHOS TIPOS DE VIOLENCIA,

está en todas partes, y nadie, por más que se proclame «no violento/a», es ajeno a ella. Ya sea por activa, ya sea por pasiva, nuestros actos y nuestras costumbres contienen grandes dosis de violencia para satisfacer nuestro estatus, nuestro bienestar, nuestras costumbres y ocios; en definitiva nuestra forma de vida.

La cuestión no es si somos violentos o no, sino si asumimos que nuestra forma de vida genera violencia (directa o indirectamente), o por el contrario nos creemos en un estadio superior de pureza donde sólo vemos lo que queremos ver, ignorando aquellas cosas que nos hacen sentir incómodas. 

Las personas que se consideran «no violentas» deberían plantearse si no están delegando la violencia necesaria para el desarrollo de su vida (cómoda vida en un país occidental, por más que nos encontremos en medio de una crisis endémica) en los especialistas de la violencia: maderos, granjeros, matarifes, seguratas, etc. Delegar nuestras responsabilidades no nos hace menos responsables. De la misma manera que el, mejor dicho la ministra de defensa es responsable de las violaciones, torturas y asesinatos que cometen los soldados que previamente ha enviado a pueblos que padecen guerras y poseen petróleo, nosotros somos responsables cuando hacemos que otros actúen violentamente en nuestro beneficio.

Algunos ejemplos cotidianos de violencia:

VIOLENCIA es consumir productos de origen animal, especialmente cuando estos productos se «fabrican» de manera intensiva, haciendo entonces que los animales padezcan desde que nacen mutilaciones, violaciones, secuestros a cadena perpetua, engordes forzados, amontonamiento, torturas, desnutrición y maltratos varios hasta la lenta y dolorosa muerte.

VIOLENCIA es llamar a la policía cuando tenemos un problema que no sabemos resolver, por lo que éste se resolverá mediante el miedo que generan a gran parte de la población (por la amenaza de las armas que llevan o de lo que te puede caer en forma de multa o prisión) o mediante la fuerza, como hacen en numerosas ocasiones (¡muchas de ellas sin provocación previa!).

VIOLENCIA es gritarle a alguien para evitar que grite e insulte a la policía. ¿O es que se merece más respeto un antidisturbios que está apalizando a alguien que alguien que sencillamente grita de impotencia? ¿o es que tiene más derecho a gritar alguien de la Organización o de cualquier Comisión de vete a saber que, que el resto de los mortales?

VIOLENCIA es, sencillamente, consumir cosas que no sabemos ni de donde vienen, ni cómo se fabrican, ni de qué país en guerra provienen sus materiales, pero sobretodo, lo más violento es no querer saberlo para no sentirnos cómplices, creyendo que ignorancia es lo mismo que inocencia.

VIOLENCIA es ver una paliza de los seguratas del metro a alguno que se ha colado y no decir nada, mirar al suelo, seguir caminando y justificar nuestra pasividad con el «si hubiese pagado como yo eso no le sucedería...»

VIOLENCIA es ir a trabajar cada día, pero sobre todo el día después de que han despedido a algún o algunas compañeras y pasar a su lado sin mirarle a la cara pensando que «es la ley del mercado».

VIOLENCIA es ver una redada donde cuatro chavales de cara a la pared están siendo humillados por la prepotencia xenófoba-machista-policial, por la sencilla razón de parecer «moros». Y más violento es ver la indiferencia a su alrededor, como si eso no estuviese sucediendo, quizás por miedo a los cuerpos policiales, quizás por el racismo de gran parte de la sociedad, o quizás por que hay prisa porque hoy juega el Barça.

VIOLENCIA es buscar trabajo y tener que humillarte, rebajarte, desnudarte moralmente y comerte la dignidad para mendigar una mierda de trabajo mal pagado del que seguramente te echarán cuando quieran, o cuando oses quejarte de que haces más horas de las que cobras o de que hace dos meses que no te pagan.

VIOLENCIA es sentir los gritos de la vecina cada noche cuando su marido llega a casa medio borracho y descarga la impotencia por la mierda de vida que lleva; y más violento es subir el volumen de la tele para no escucharlos y no tener que ir a llamar a la puerta de delante.

VIOLENCIA es consumir energía sin ser capaces de generarla a pequeña escala, fomentando las centrales nucleares con sus «accidentes», o la inundación de pueblos enteros para hacer centrales hidráulicas , o las mareas negras que de tanto en tanto nos visitan «por culpa de un temporal», o la contaminación de las térmicas, o que planten decenas de «molinos sostenibles» delante de casa (de la gente campesina).

VIOLENCIA es vivir en una cuidad haciendo que nos traigan todas nuestras necesidades de fuera y, paradójicamente, mientras más lejano sea el origen más barato es el producto, fomentando monocultivos intensivos que destrozan tierras lejanas, porque las de aquí quizás ya nos las hemos cargado.

VIOLENCIA es, como decía un cartel después de la huelga del 29S, esta normalidad en la que vivimos, esta democracia en la que, mientras no intentes cambiar nada, siempre podrás quejarte, indignarte y patalear.

VIOLENCIA es creer que antes de la spanishtwitterrevolution no había habido luchas mucho más dignas, pero más violento es ver como se rebajan y asimilan discursos y puntos mínimos pseudo reformistas, personas con una larga trayectoria de lucha seria contra la dominación, pensando que eso puede ser el embrión de alguna cosa. Violencia es comparar esta pantomima con las revueltas nord-africanas que han dejado decenas de muertos y heridos. Violento es ser enemigo de una multitud (de derechas y de izquierdas, que más da) y verla mover las manos al viento para aprobar pedir una reforma electoral que, aunque somos apartidistas, sólo beneficia a los partidos políticos; aunque ninguno nos represente, sería una herramienta para nuestros futuros representantes. Violencia es, en todo caso, la ley de partidos que excluye a gran parte de la sociedad vasca, y más violento es que a la # spanish revolution no se le haya ocurrido exigir su derogación. Violencia es decirle revolución a algo que no pretende revolucionar nada, que ni tan siquiera tiene algún objetivo pragmático ni lo puede tener porque las revoluciones nunca han sido de derechas y de izquierdas a la vez, de empresarios y parados, de ricos y pobres...quien tense más la cuerda se llevara el pastel, podrá marcar la línea a seguir y arrastrar a los ingenuos, perdón, a los indignados que queden. Pero es evidente que las acampadas están siendo unas buenas plataformas para los trepadores y líderes de los pequeños partidos y organizaciones que ven como, por primera vez miles de personas les escuchan mientras dejan ir sus discursos, miles de personas que no saben que están escuchando a los cabecillas de listas de algún partido, asistiendo sin darse cuenta a un mega-mitting-poli-partidista.

VIOLENCIA es... un montón de cosas, muchas de las cuales formamos parte o somos directamente responsables, pero no podemos negar que el ser humano es el animal más violento del planeta, somos extremadamente violentos, y a menudo, gratuitamente violentos. La cosa es: ¿Quien está libre de violencia para imponerle a alguien una No-Violencia parcial? ¿Donde está la frontera entre violencia y no-violencia? ¿Es posible que, con los años y la interiorización del civismo esta frontera haya avanzado, logrando cada vez más situaciones y maneras de hacer? ¿Serían hoy violentos los objetores e insumisos que hace veinte años se enfrentaban a penas de prisión por luchar contra los ejércitos?


24.7.17

a poesia

Atelier Populaire || 1968

A poesia - O que é a poesia? A poesia é a organização da espontaneidade criadora, a exploração do qualitativo segundo as leis internas de coerência, aquilo a que os gregos chamavam poiein, que é o "fazer", mas o "fazer" devolvido à pureza do seu momento original, em outras palavras, à totalidade.

Onde faltar o qualitativo, nenhuma poesia será possível. No vazio deixado pela poesia instala-se o oposto do qualitativo: a informação, o programa de transição, a especialização, o reformismo, em suma, o fragmentário sob suas diversas formas. Contudo, a presença do qualitativo não garante a poesia. Pode acontecer que uma grande riqueza de signos e de possibilidades se perca na confusão por falta de coerência, ou se destrua por interferências mútuas. O critério de eficácia deve predominar sempre. A poesia portanto é também a teoria radical digerida pela ação, o coroamento da tática e da estratégia revolucionária, o apogeu do grande jogo da vida cotidiana.

O que é a poesia? Em 1895, durante uma greve mal começada e que parecia votada ao fracasso, um militante do Sindicato das Estradas de Ferro tomou a palavra e mencionou um processo engenhoso e barato para fazer avançar os objetivos da greve. "Com 2 centavos de um determinado material utilizado corretamente podemos impossibilitar o funcionamento de uma locomotiva". O governo e os capitalistas imediatamente cederam. Aqui a poesia é claramente a ação que gera novas realidades, a ação de inversão de perspectiva. A matéria-prima está ao alcance de todos. São poetas aqueles que sabem como usá-la, que material qualquer não é nada se comparado com a profusão de energia sem igual disponibilizada pela vida cotidiana: a energia da vontade de viver, do desejo desenfreado, da paixão do amor, do amor das paixões, a força do medo e da angústia, o furacão do ódio e o ímpeto selvagem da fúria de destruir. Que transformações poéticas não poderemos esperar de sentimentos tão universais experimentados como aqueles associados à morte, à velhice e à doença? É dessa consciência ainda marginal que deve partir a longa revolução da vida cotidiana, a única poesia feita por todos, e não por um.

"O que é a poesia?", perguntam os estetas. E é então preciso lembrar-lhes esta evidência: a poesia raramente tem a ver com poema. A maior parte das obras de arte trai a poesia. Como poderia ser de outra forma já que a poesia e o poder são inconciliáveis? Quando muito, a criatividade do artista prende-se a si mesma, enclausura-se esperando a sua hora numa obra inacabada, aguardando o dia de dar a última palavra. Mas, mesmo que o autor espere muito dela, essa última palavra - aquela que precede a comunicação perfeita - nunca será pronunciada enquanto a revolta da criatividade não tiver levado a arte à sua realização.

A obra de arte africana, quer se trate de um poema ou de uma música, de uma escultura ou de uma máscara, só é considerada acabada quando é verbo criador, palavra atuante: só quando é um elemento criativo que funciona. Ora, isso não é válido só para a arte africana. Não existe arte alguma no mundo que não se esforce por funcionar; e por funcionar, mesmo no âmbito das recuperações ulteriores, com exatamente a mesma vontade que a gerou: uma vontade de viver na exuberância do momento de criação. Compreende-se por que razão as melhores obras não têm fim? É que elas exigem de todas as formas o direito de se realizar, de entrar no mundo da experiência vivida. A decomposição da arte atual é o arco idealmente retesado para tal flecha.

Nada pode salvar da cultura do passado o passado da cultura, com exceção dos quadros, da literatura, das arquiteturas musicais ou líricas que nos atingem pelo qualitativo, livre da sua forma - de todas as formas de arte. Isso ocorre com Sade, Lautreamónt, e também com Villon, Lucrécio, Rabelais, Pascal, Fourier, Bosch, Dante, Bach, Swfit, Shakespeare, Uccello. Eles se livram do seu envoltório cultural, saem dos museus nos quais a história os tinha colocado e se tornam dinamite para as bombas dos futuros realizadores da arte. O valor de uma obra antiga deve ser avaliado pela parte de teoria radical que contém, pelo núcleo de espontaneidade criadora que os novos criadores se prontificam a libertar para e por uma poesia inédita.

A teoria radical é exímia em dilatar a ação iniciada pela espontaneidade criadora, sem alterá-la nem desencaminhá-la de seu curso. Do mesmo modo, em seus melhores momentos, o processo artístico tenta imprimir ao mundo o movimento de uma subjetividade tentacular, sempre sequiosa de criar e de se criar. Mas, enquanto a teoria radical se gruda à realidade poética (a realidade que se faz), ao mundo que se transforma, a arte adota um processo idêntico com um risco muito mais elevado de se perder e corromper. Só a arte armada contra si mesma, contra aquilo que tem de mais fraco - de mais estético - resiste à recuperação.

É sabido que a sociedade de consumo reduz a arte a uma variedade de produtos de consumo. E quanto mais se vulgariza essa redução, mais a decomposição se acelera, mais crescem as possibilidades de uma superação. A comunicação tão imperativamente desejada pelo artista é impedida e proibida mesmo nas relações mais simples da vida cotidiana. De tal modo que a busca de novos modos de comunicação, longe de estar reservada aos pintores ou aos poetas, é parte hoje de um esforço coletivo. Assim acaba a velha especialização da arte. Já não existem artistas uma vez que todos o são. A futura obra de arte é a construção de uma vida apaixonante.

A criação importa menos que o processo que gera a obra, que o ato de criar. O que faz de alguém um artista é o estado de criação, e não o museu. Infelizmente, o artista raramente se reconhece como criador. Na maior parte do tempo, faz pose diante de um público, se exibe. A atitude contemplativa diante de uma obra de arte foi a primeira pedra lançada no criador. Inicialmente ele provocou essa atitude, mas agora tenta desfazê-la uma vez que, imperativos econômicos. É por isso que não existe mais obra de arte no sentido clássico do termo. Já não pode haver obra de arte, e ainda bem. A poesia reside em outro lugar, nos fatos, nos acontecimentos que criamos. A poesia dos fatos, que sempre foi tratada marginalmente, reintegra hoje o centro dos interesses de todos, o centro da vida cotidiana, que na verdade ela nunca abandonou.

A verdadeira poesia não dá a mínima para poemas. Na sua busca do livro, Mallarmé nada mais desejava do que abolir o poema, e como abolir um poema senão realizando-o? E essa nova poesia foi usada com fulgor por alguns contemporâneos de Mallarmé. Quando o autor de Hérodiade lhes chamou "anjos da pureza", teria ele tomado consciência de que os agitadores anarquistas com suas bombas ofereciam ao poeta uma chave que, encurralado na sua linguagem, ele não podia usar?

A poesia está sempre em algum lugar. O seu recente abandono das artes torna mais fácil ver que ela reside antes de tudo nos gestos, num estilo de vida, numa busca desse estilo. Reprimida em toda parte, essa poesia por toda parte floresce. Brutalmente recalcada, reaparece na violência. Consagra motins, casa-se com a revolta, anima os grandes carnavais revolucionários antes que os burocratas lhe fixem residência na cultural hagiográfica.

A poesia vivida soube provar no decorrer da história, mesmo nas revoltas parciais, mesmo no crime - essa revolta de um só, como disse Coeurderoy - , que ele protegia acima de tudo aquilo que há de irredutível no homem: a espontaneidade criadora. A vontade de criar a unidade do homem e do social, não na base da ficção comunitária, mas a partir da subjetividade, é o que faz da nova poesia uma arma que todos devem saber manejar por si mesmos. A temporada de caça à experiência poética já começou. A organização da espontaneidade será obra da própria espontaneidade.

Raoul Vaneigem
Trad.: Leo V.
1967



23.7.17

el educador mercenario


La Polla Records || 1984


Se preguntaba por la ‘posibilidad’, después de Auschwitz, de una Educación que nunca ha existido - o ha existido sólo como «falsa consciencia», como mito, como componente esencial de la «ideología escolar». Esa Educación de Adorno tampoco fue posible «antes» de Auschwitz. Más aún: los campos de concentración y de exterminio fueron concebidos y realizados gracias, en parte, a la educación «real», «concreta», que teníamos y que tenemos - la educación obligatoria de la juventud ‘recluida’ en Escuelas; la educación que segrega socialmente, que aniquila la curiosidad intelectual, que modela el carácter de los estudiantes en la aceptación de la Jerarquía, de la Autoridad y de la Norma, etc., ésta es la única «educación» que conocemos - a la cual las democracias contemporáneas pretenden meramente lavarle la cara. Esta educación ‘efectiva’, de cada día en todas las aulas, habiendo coadyuvado al horror de Auschwitz, sigue siendo perfectamente posible después...

Has hablado de “anti-pedagogía”... ¿A qué te refieres con ese concepto? ¿Qué recriminas al ‘pedagogismo’ moderno?

En esencia, entiendo por “anti-pedagogía” la negación del dogma fundacional de ese taimado saber: el prejuicio de que hay algo que corregir y algo que forjar en la subjetividad de los jóvenes. Como anti-pedagogo, yo niego ese supuesto; y, para el ejercicio de la Corrosión que sugiero, y que durante dos años llevé a cabo, propongo justamente lo contrario: no pretender hacer nada “por” los estudiantes, dejar en paz a la juventud, no inmiscuirnos en “sus” asuntos, permitir que cada cual decida dónde reside su propio ‘bien’... Luchar contra la máquina escolar, obstruir sus movimientos característicos, dificultar su funcionamiento coercitivo. Luchar contra la máquina, mas ya no por los alumnos. Contra la máquina y, accidentalmente, con los alumnos (ya que la resistencia estudiantil puede ‘converger’ con la práctica corrosiva de los antiprofesores; y cabe cierta complicidad en el fraude, cierta solidaridad en la transgresión); pero nada más.

Al no situarse “por encima” de los demás, al no incurrir en la infamia de usurpar la voz del otro (infamia de hablar ‘por’ los estudiantes, de transformar los método en su nombre, etc.), el anti-profesor aún en ejercicio, en pleno ‘recorrido’, no pretende salvar a nadie, no procura ayudar a nadie -¿cómo, si apenas está seguro de saber ayudarse a sí mismo? No le interesa, en absoluto, la cabeza del estudiante: lo suyo es desguazar la maquinaria escolar, desescolarizarse. A esto se refiere el término “anti-pedagogía”, que está en mi punto de partida. La Polla Records, en “Gurú”, tema de su álbum Salve, centró muy bien esta cuestión: 

“Has venido a salvarme, de la otra parte del mundo; 
me traes la salvación, pero eso es por tu cuenta y riesgo. 
¿Quién cojones te ha mandado? 
¡Gurú! Una patada en los huevos es lo que te pueden dar... 
¡Vete a salvar a tu viejo, sólo pretendes cobrar! 


Lo mismo que Marx, lo mismo que Nietzsche, lo mismo que Illich y Reimer, yo no ‘venero’ el ídolo del Confinamiento Educativo, no hago mío ese dogma. Considero, además, que, desde el punto de vista de la “resistencia”, de la “contestación”, de la “oposición” al Sistema, lo más coherente sería negar esa exigencia del Encierro, del Enclaustramiento; y trabajar para que, fuera de la Escuela, en la sociedad civil, en el extrarradio de las instituciones estatales, los jóvenes vean multiplicados los medios (los recursos, los instrumentos) de su auto-educación: colaborar, p. ej., en la creación y en el funcionamiento de ateneos, bibliotecas alternativas, asociaciones culturales, foros de discusión, revistas, galerías independientes, editoriales, colectivos de un signo o de otro, talleres de creación, etc., etc. 

Pedro G. Olivo



19.7.17

devir


Ser terno
na modernidade corrosiva.

Ser corajoso
em tempos difíceis.

17.7.17

pensar por nosotros mismos




Quien niega Auschwitz es el mismo que estaría dispuesto a rehacerlo.
Primo Levi

Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzem, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam-se os músculos, soltam a fibra. O homem deixa-se invadir por modelos de comportamento que não representam a sua energia, mas que o transformam em um uniforme a mais.

Silviano Santiago


16.7.17

das passagen-werk

estêncil: Anarcrítica || 2017

Se se comparar a obra em desenvolvimento na história à uma fogueira em chamas, o comentador está diante dela como o químico, o crítico como o alquimista. Enquanto para aquele madeira e cinza permanecem os únicos objetos de sua análise, para este a chama guarda um enigma: o do vivo. Assim, o crítico se interroga sobre a verdade cuja chama viva continua a arder por cima das achas pesadas do que foi e das cinzas leves do vivido.


Walter Benjamin
Trad.: Graciela Calderón e Griselda Mársico

Desbravar os domínios onde apenas a loucura, até agora, cresceu em abundância. Avançar com o machado afiado da razão e sem olhar nem à direita nem à esquerda, para não sucumbir ao horror que, do fundo da floresta virgem, procura nos seduzir. Toda terra deverá um dia ser desbravada pela razão, ser desembaraçada das brenhas do delírio e do mito.


Walter Benjamin
Trad.: Jean Lacoste


equilibrio


Kortatu || 1986


O Brasil nos obriga a beber é uma falácia do sistema capitalista. O Brasil, praticamente, nos obriga a desistir, se não nos deixa doente. A burrice é distribuída de várias maneiras, por meio da televisão, por meio da música e por meio da imprensa, sistematicamente, para não deixar sequer espaço para o uso do bom senso. E isso triplica enormemente para o lado negativo quando é ajudado pelos intelectuais conformistas.


15.7.17

hip hop & esqueleto cafeinado



Soy la ironía de Bukowski, la rebeldía de Gramsci 
y escupo a los medios de la burguesía como Chomsky 

A responsabilidade dos intelectuais
Noam Chomsky
Trad.: Renato M.

O padrão de enaltecimento e punição é conhecido e familiar ao longo da história: os que se engajam e se alinham a serviço do Estado são geralmente exaltados pela comunidade intelectual geral, ao passo que os que se recusam a se mobilizar a serviço do Estado são punidos.

A distinção entre as duas categorias de intelectuais fornece o arcabouço para a determinação da "responsabilidade dos intelectuais". A expressão é ambigua: ela se refere à responsabilidade moral dos intelectuais como seres humanos decentes, numa posição para usar seu privilégio e status a fim de promover as causas de liberdade, justiça, misericórdia, paz e outras inquietações sentimentais? Ou se refere ao papel que se espera que ele desempenham na condição de "intelectuais tecnocráticos e orientados pela política", não depreciando, mas servindo à liderança e às instituições estabelecidas? Uma vez que o poder geralmente tende a triunfar e preponderar, os da última categoria são considerados os "intelectuais responsáveis", enquanto os primeiros são descartados ou denegridos - em seu próprio território.



14.7.17

em liberdade


O escritor é o guardião do repertório das histórias que o povo conta e vive, mas é antes de tudo o guardião da língua de que se serve este povo para contar as histórias do passado e as histórias que os acontecimentos de hoje (em todo o território nacional) fabricam. Numa sociedade complexa como a nossa, seria muito simples se o escritor fosse só o contador de histórias. Ele deve preservá-las, passá-las adiante, mas é responsável pela língua que as gravou. Para isso, é preciso que alargue as suas próprias possibilidades de fabricar uma linguagem, entrando por formas linguísticas que não possui, que não comanda. É assim que acaba por ter acesso ao coletivo da língua e à ficção do outro. Abrindo fronteiras, desbravando território estranho. Ganha, passa, recupera.

Não é exagero dizer que o escritor brasileiro tem a obrigação de traduzir o seu português (língua aprendida na escola, exercida através da função individual dentro da classe dominante, uniformizada pelo convívio, aprimorada e conscientizada através dos nossos bons autores daqui e de além-mar) para o brasileiro falado por pessoas de diferentes estratos sociais, que não tiveram acesso às instâncias de purificação da língua.

[...]

Assim como o escritor se interessa pelo alargamento das suas fronteiras linguísticas, também o leitor tem de trabalhar nesse sentido se quiser acompanhar o romancista, lendo a sua obra. Dessa forma terá acesso a um pensamento diferente do seu. Terá um melhor conhecimento do outro, do intricado funcionamento da sua cabeça e da maneira como fabrica soluções e problemas. Tudo isso sem a interferência de uma única subjetividade individual ou de classe. Não concebo uma intriga - num país de tantos falares quanto o nosso - sem antes fazer uma investigação minuciosa da língua em que esta intriga foi vivenciada. Saio à cata do falar dos meus personagens, encontrando por aí uma série de línguas menores que precisam ser dicionarizadas.

Dizem que os meus livros são construídos demais. Existe nesse tipo de frase um elogio implícito à espontaneidade na execução da obra de arte que me incomoda. Quanto mais espontâneo o discurso de um semelhante, mais fácil a sua compreensão por um outro semelhante, pois ficam ambos dentro de um circuito tautológico. O discurso ficcional não tem obrigação de seguir o circuito a que chamo de jornalístico (de semelhantes para semelhantes). Pode segui-lo - e será uma opção do romancista, condizente com a história que quer narrar. De modo geral, o nosso romance do Nordeste é, básica e intrinsecamente, feito por não-semelhantes para não-semelhantes. Ele tem de, como obrigação, criar um curto-circuito emocional no momento da leitura.

O leitor de jornal (ou de romance espontâneo) não quer fazer esforço algum quando lê. Contenta-se em absorver a escrita de um outro como se fosse um papale mata-borrão. Deixa-se guiar apenas pelas faculdades da memória e não pelas reflexão. Este leitor tem uma visão fascista da literatura. Fascismo não é apenas governo autoritário e forte, de preferência militar, que deixa que se reproduzem, sem contestação, as forças econômicas da classe dominante. Fascismo existe todas as vezes em que o ser humano se sente cúmplice e súdito de normas. Amolecem o cérebro, espreguiçam-se os músculos, soltam a fibra. O homem deixa-se invadir por modelos de comportamento que não representam a sua energia, mas que o transformam em um uniforme a mais. Chega a uma triste conclusão: quanto mais semelhante sou ao meu semelhante, mais sei a respeito do mundo, da sociedade e das pessoas.

A verdadeira leitura é uma luta entre subjetividades que afirmam e não abrem mão do que afirmam, sem as cores da intransigência. O conflito romanesco é, em forma de intriga, uma cópia do conflito da leitura. Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. Encontrar no romance o que já se espera encontrar, o que já se sabe, é o triste caminho de uma arte fascista, onde até mesmo os meandros e os labirintos da imaginação são programados para que não haja a dissidência de pensamento. A arte fascista é "realista", no mau sentido da palavra. Não percebe que o seu "real" é apenas a forma consentida para representar a complexidade do cotidiano. 

O romancista ocupa, por isso, uma posição difícil dentro da sociedade e do seu grupo. Ele traz problemas sem solução para os seus semelhantes. Incomoda-os, não os deixando quietos e tranquilos com a vida que estão levando. Todas as vezes em que percebe que uma norma está sendo criada e seguida como modelo ideal por um grupo considerável de cidadão, é o momento em que entra em cena com as suas armas críticas. Esta crítica, no entanto, não aparece de forma explícita. Seria preferível, neste caso, escrever um ensaio. A crítica na ficção joga com a ambiguidade: reproduz a norma (momento em que o leitor, tendo encontrado um semelhante, simpatiza com ele), mas ao reproduzi-la, começa a instilar gotas de insatisfação que perturbam o mesmo leitor (tendo simpatizado inicialmente com os personagens, o leitor começa a achar o seu/dele comportamento estranho, deixando, enfim, de simpatizar com o livro).

Silviano Santiago
1994


12.7.17

la universidad desconocida

Santiago | 2017


Llegará el día en que desde la calle te llamarán: / chileno. / Y tú bajarás las escaleras de tres en tres. / Será de noche / y tus ojos por fin habrán encontrado el color / que deseaban. / Estarás preparando la comida o leyendo. / Estarás solo y bajarás de inmediato. / Un grito una palabra / que será como el viento empujándote de improviso / hacia le sueño. / Tú bajarás las escaleras de tres en tres / con un cuchillo en la mano. / La calle estará vacía.

Roberto Bolaño


11.7.17

formação continuada


A educação formal não passa de uma mentira. E essa mentira não possui disfarce. O que ela vem tentando fazer é só instigar um fervor patriótico. Em poucos momentos o sistema educacional promove o pensamento criativo ou algum tipo de estrutura conceitual para a análise independente ou de empoderamento. Fabrica-se uma mentalidade automatizada e robotizada de alguém que segue ordens para o "bem da nação". 


10.7.17

welcome to hell


O que os alienados de sofá vão chamar de violento na manifestação em Hamburgo (barricadas, carros queimando, chuva de pedra, fogos de artifícios) foi causado pela repressão policial.

Todos os vídeos que estão a circular pela rede mostram que o aparelho repressor seguiu a cartilha para perseguir os manifestantes anarquistas que se reuniram pacificamente.


9.7.17

welcome to hell




Desde a guerra civil de Espanha a ação revolucionária dos anarquistas passou pelo planeta inteiro e desembocou em Hamburgo.

Devemos ser práticos! Há que fundar sociedades de resistência!

Salud y anarquia!


8.7.17

apêndice


Os tolos e fanáticos perseguiram até o filósofo Bertrand Russel. Moveram-se para agir contra a nomeação do livre pensador para a Universidade de Nova York. Atacaram-no de todas as maneiras. Nomearam-no de ministro do demônio, usaram e abusaram de recurso demagógico em uma ação judicial e o queriam expulso dos Estados Unidos.

Em tempos de ignorância difundida como entretenimento, vale muita a leitura de Cómo se evitó que Bertrand Russel enseñase en la Universidad de la ciudad de Nueva York:

[...] este desaguisado de procedimiento no esta nada comparado con las deformaciones, calumnias y falsas conclusiones contenidas en el juicio, que merece el estudio más cuidadoso. Demuestra lo que aparentemente puede hacerse a plena luz del día, incluso en un Estado democrático, si un fanático ostenta el poder judicial y se siente apoyado por políticos influyentes.

7.7.17

observações sobre as várias tentativas de perseguição ao Wikileaks e às pessoas a ele associadas


Órgãos do governo norte-americano, como a Biblioteca do Congresso, o Departamento de Comércio e as Forças Armadas, bloquearam o acesso ao conteúdo do Wikileaks em suas redes. E a proibição não se limitou ao setor público: instituições acadêmicas foram advertidas de que os estudantes que tivessem a ambição de seguir carreira no funcionalismo público deveriam evitar o conteúdo divulgado pelo Wikileaks em suas pesquisas e atividades na internet.


30.6.17

máquina da lama



A elite brasileira viciada em dinheiro se contenta apenas adquirir carros e destruir as cidades, transformando-as em um imenso estacionamento. É ela, bitolada, que mantém toda a estrutura podre da sociedade. É ela, seduzida pelos meios de comunicação de massa, entregue ao entretenimento mais alienante do planeta, que deseja a morte de ciclistas. É ela, historicamente alienada, que não compreende e também não quer compreender e nunca vai compreender as lutas de classes. 

A elite brasileira é pilantra, caluniadora, golpista, só pensa em si, no seu consumo cego. É ela seduzida pelo "bens" da indústria cultural. É ela deseducada, acelerada, impaciente e corrupta até o osso. É ela que é individualista e autoritária.

A elite brasileira não passa de um produto da publicidade. Rigorosamente um produto. Perfeitamente um produto: um objeto. O modelo mais bem acabado, por exemplo, é o atual prefeito de São Paulo. 

A elite brasileira mantém a desigualdade social para discriminar e excluir. Para ela, a sociabilidade se dá apenas pelo entretenimento. 

Sabemos, diante de tanta falcatrua, que o mundo inteiro é podre, mas podem ter certeza que no Brasil é quatro vezes, cinco vezes, infinitamente pior.


29.6.17

formação continuada


O bairro mais podre em que trabalhei como professor de literatura foi o Batel. Não é à toa que lá, justamente lá, eu fui encontrar uma bandeira dos confederados pendurada numa barraquinha de quinquilharias na praça da Espanha.

Depois que eu digo que a classe abastada é historicamente alienada, a geral acha que eu exagero.


27.6.17

abre aspas

Mafalda | Quino

A resposta da vanguarda ao cognitivo, ao ético e ao estético é inequívoca. A verdade é uma mentira, a moral fede e a beleza é uma merda. E é claro que eles estão certos. A verdade é um comunicado da Casa Branca, a moral é a Moral Majority, e a beleza é uma mulher nua anunciando um perfume. É claro também, que eles estão errados. A verdade, a moral e a beleza são importantes demais para serem passadas com desprezo às mãos do inimigo.

Terry Eagleton


26.6.17

direito à literatura

Estêncil | 2017

[...]

Certos bens são obviamente incompressíveis, como o alimento, a casa, a roupa. Outros são compressíveis, como os cosméticos, os enfeites, as roupas supérfluas. Mas a fronteira entre ambos é muitas vezes difícil de fixar, mesmo quando pensam nos que são considerados indispensáveis. O primeiro litro de arroz de uma saca é menos importante do que o último, e sabemos que com base em coisas como esta se elaborou em Economia Política a teoria da "utilidade marginal", segundo a qual o valor de uma coisa depende em grande parte da necessidade relativa que temos dela. O fato é que cada época e cada cultural fixam os critérios de incompressibilidade, que estão ligados à divisão da sociedade em classes, pois inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra. Na classe média brasileira, os da minha idade ainda lembram o tempo em que se dizia que os empregados não tinham necessidade de sobremesa nem de folga aos domingos, porque não estando acostumados a isso, não sentiam falta... Portanto, é preciso ter critérios seguros para abordar o problema dos bens incompressíveis, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista social. Do ponto de vista individual, é importante a consciência de cada um a respeito, sendo indispensável fazer sentir desde a infância que os pobres e desvalidos têm direito aos bens materiais (e que portanto não se trata de exercer caridade), assim como as minorias têm direito à igualdade de tratamento. Do ponto de vista social é preciso haver leis específicas garantindo este modo de ver.

Por isso, a luta pelos direitos humanos pressupõe a consideração de tais problemas, e chegando mais perto do tema eu lembraria que são bens incompressíveis não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual. São incompressíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à literatura.

Mas a fruição da arte e da literatura estaria mesmo nesta categoria? Como noutros casos, a resposta só pode ser dada se pudermos responder a uma questão prévia, isto é, elas só poderão ser consideradas bens incompressíveis segundo uma organização justa da sociedade se corresponderem a necessidades profundas do ser humano, a necessidades que não podem deixar de ser satisfeitas sob pena de desorganização pessoal, ou pelo menos de frustação mutiladora. A nossa questão básica, portanto, é saber se a literatura é uma necessidade deste tipo. Só então estaremos em condições de concluir a respeito.

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos de folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

... a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. 

A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado. [...] A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. Isto ocorre desde as formas mais simples, como a quadrinha, o provérbio, a história de bichos, que sintetizam a experiência e a reduzem a sugestão, norma, conselho ou simples espetáculo mental.

A eficácia humana é função da eficácia estética, e portanto o que na literatura age como força humanizadora é a própria literatura, ou seja, a capacidade de criar formas pertinentes.

Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.

O que há de grave numa sociedade como a brasileira é que ela mantém com a maior dureza a estratificação das possibilidades, tratando como se fossem compressíveis muitos bens materiais e espirituais que são incompressíveis. Em nossa sociedade há fruição segundo as classes na medida em que um homem do povo está praticamente privado da possibilidade de conhecer e aproveitar a leitura de Machado de Assis ou Mário de Andrade. Para ele, ficam a literatura de massas, o folclore, a sabedoria espontânea, a canção popular, o provérbio. Estas modalidades são importantes e nobres, mas é grave considerá-las como suficientes para a grande maioria que, devido à pobreza e à ignorância, é impedida de chegar às obras eruditas.

Para que a chamada literatura erudita deixe de ser privilégio de pequenos grupos, é preciso que a organização da sociedade seja feita de maneira a garantir uma distribuição equitativa de bens. Em princípio, só numa sociedade igualitária os produtos literários poderão circular sem barreiras, e neste domínio a situação é particularmente dramática em países como o Brasil, onde a maioria da população é analfabeta, ou quase, e vive em condições que não permitem a margem de lazer indispensável à leitura. Por isso, numa sociedade estratificada deste tipo a fruição da literatura se estratifica de maneira abrupta e alienante.

Como seria a situação numa sociedade idealmente organizada com base na sonhada igualdade completa, que nunca conhecemos e talvez nunca venhamos a conhecer?

Utopia à parte, é certo que quanto mais igualitária for a sociedade, e quanto mais lazer proporcionar, maior deverá ser a difusão humanizadora das obras literárias, e, portanto, a possibilidade de contribuírem para o amadurecimento de cada um.
Nas sociedades de extrema desigualdade, o esforço dos governos esclarecidos e dos homens de boa vontade tenta remediar na medida do possível a falta de oportunidades culturais. Nesse rumo, a obra mais impressionante que conheço no Brasil foi de Mário de Andrade no breve período em que chefiou o Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, de 1935 a 1938. Pela primeira vez entre nós viu-se uma organização da cultura com vista ao público mais amplo possível. Além da remodelação em larga escala da Biblioteca Municipal, foram criados: parques infantis nas zonas populares; bibliotecas ambulantes, em furgões que estacionavam nos diversos bairros; a discoteca pública; os concertos de ampla difusão, baseados na novidade de conjuntos organizados aqui, como quarteto de cordas, trio instrumental, orquestra sinfônica, corais. A partir de então a cultura musical média alcançou públicos maiores e subiu de nível, como demonstram as fichas de consulta da Discoteca Pública Municipal e os programas de eventos, pelos quais se observa diminuição do gosto até então quase exclusivo pela ópera e o solo de piano, com incremento concomitante do gosto pela música de câmara e a sinfônica. E tudo isso concebido como atividade destinada a todo o povo, não apenas aos grupos restritos de amadores.

O problema da desigualdade social e econômica, está o problema da intercomunicação dos níveis culturais. Nas sociedades que procuram estabelecer regimes igualitários, o pressuposto é que todos devem ter a possibilidade de passar dos níveis populares para os níveis eruditos como consequência norma da transformação de estrutura, prevendo-se a elevação sensível da capacidade de cada um graças à aquisição cada vez maior de conhecimentos e experiências. Nas sociedades que mantêm a desigualdade como norma, e é o caso da nossa, podem ocorrer movimentos e medidas, de caráter públicos ou privado, para diminuir o abismo entre os níveis e fazer chegar ao povo produtos eruditos.

As classes dominantes são frequentemente desprovidas de percepção e interesse real pela arte e a literatura ao seu dispor, e muitos dos seus segmentos as fruem por mero esnobismo, porque este ou aquele autor está na moda, porque dá prestígio gostar deste ou daquele pintor.

O que há mesmo é espoliação, privação de bens espirituais que fazem falta e deveriam estar ao alcance como um direito.

Antonio Candido | 1988