10.9.08

[Dos grandes prosadores]

[José de Alencar 1829-1877]

Rio, 13 de maio

Estou hoje com bem pouca disposição para escrever.
Conversemos.

A conversa é uma das coisas mais agradáveis e mais úteis que existe no mundo.

A princípio conversava-se para distrair e passar o tempo mas atualmente a conversa deixou de ser um simples devaneio do espírito.
Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a peor coisa que Deus deu ao homem.

Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber conversar, é preciso estudar profundamente todos os recursos da palavra.

A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma ciência, uma profissão mesmo.
Há, porém, diversas maneiras de conversar. Conversa-se a dois, en tête-à-tête; e palestra-se com muitas pessoas, en causerie.
A causerie é uma verdadeira arte como a pintura, como a música, como a escultura. A palavra é um instrumento, um cinzel, um craion que traça mil arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil harmonias de sons e formas.

Na causerie o espírito é uma borboleta de asas douradas que adeja sobre as idéias e sobre os pensamentos, que suga-lhes o mel e o perfume, que esvoaça em ziguezague até que adormece na sua crisálida.
A imaginação é um prisma brilhante, que reflete todas as cores, que decompõem os menores átomos de luz, que faz cintilar um raio do pensamento por cada uma de suas facetas diáfanas.
A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada como uma ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e muito da estratégica militar.
Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente um duelo e um combate
.
Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos camaradas, que conversam intimamente e a sós, ficai certo que estão calculando algebricamente o proveito que podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o grande problema da amizade clássica dos tempos antigos.

Se forem dois namorados en tête-à-tête, que estiverem a desfazer-se em ternuras e meiguices, requebrando os olhos e afinando o mais doce sorriso, podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou buscam uma incógnita que não existe neste mundo - a fidelidade.

[...]

[ALENCAR, José de. Ao correr da pena. 2º ed. São Paulo: Edições Melhoramentos. S/d. p 215-16.]