10.10.08

[manhã]

[Self-portrait, de Edward Hopper, 1930]

manhã

Não há mais união. Não há mais nada entre a gente. Foram doze anos juntos. Mas o dois últimos foram desastrosos. Terríveis. Calamitosos. Não havia mais comunicação quando nos encontrávamos. O silêncio entre corpos, cada qual mergulhado em pensamentos. Agarrados como víboras.

Pensei em voltar para a casa do meu pai. Ou ir passar uns dias em Paranaguá, junto de minha mãe. Há quanto tempo não nos falamos? Porque a distância? Chegar lá e reconhecê-la. Mais velha. Uma cicatriz invisível mas visível no rosto. Caminhar pela longa extensão da praia e tomar um banho de mar. Ver os pássaros. Os carregadores de camarões com suas caras vermelhas e roupa puída. Apenas ver. Pisar a areia e sentir que estou vivo. Poderia dormir na cama do meu pai. Deitar o corpo nela e reconhecer a velha cama construida de imbuia. Dar atenção às suas lamentações e vermos o quanto somos iguais, ou melhor, o quanto todos temos algo de semelhante. Que seja uma pequena ínfima mágoa.

A noite é longa e tenho um único cigarro. Doe-me o corpo. Cansam-me os pensamentos. Estou derreado. Olho para a imensa e confortante biblioteca que adquiri ao longo dos anos. A coleção de discos. Os quadros na parede. A roupa bem passada. Para que tudo isso? Este conforto que sinto na poltrona, talvez seja o mal. Talvez, não. O luxo. Não sei. Não possuo teorias cabíveis de me explicar o que digo. Não possuo idéias novas. Sobraram-me apenas as memórias. Distantes no espaço de Ribeirão Preto. Elas bastam? Elas são? Também não sei. Mesmo diante dessa solidão existencial, posso dizer que estive acompanhado de escritores em volta. Criadores de histórias amargas. Enredos de derrotas. Tramas de solidões. Tudo: era-me. Estive-me sendo através da leitura. Será a vida uma grande derrota? Um mal acabamento de nós mesmos? Uma perda?
Um sonho? Um suspiro? Gostaria tanto de me desfazer desses questionamentos. Tormentos. que estragam qualquer começo. Esmiuçam. Dão por fim o ínicio. Que início? As ideías pra tanta miséria.

Um som que vem do banheiro, prova-me que Ana levantou. Deus!, com todos os diabos, já é de manhã. Você está aí, pergunta-me ela enquanto lava o rosto. Acordado novamente? Não senti seu corpo por toda a noite. Deslizando, ela se aproxima, beija-me o rosto: bom dia, meu querido, diz Ana com uma fala conciliativa. E desaparece feito fantasma pelo corredor. Ana, não se vá. Fique mais um pouco. Ana! Pego-me contemplando a parede branca. Nunca uma parede fora tão branca como hoje.

São dez horas! Como passa o tempo.

Agora mesmo um amigo me telefonou. Queria me encontrar para almoçarmos. Não posso. Passei a noite insone, justifiquei para ele. Eram os pensamentos que me tomavam o corpo todo. Será que acendo e dou cabo desse último cigarro? Se ao menos eu estivesse bêbado para tanto me esquecer. Deixar-me só. Preciso repensar. Mas por quê? Sinto o pescoço duro. Uns nervos de aço. Acho que vou deitar. E dormir um pouco.