lembrei que
tenho um artigo pendente. escrevi quatro páginas, faltam seis. eu sei que não vou terminá-lo. há uma força que não me deixa por um fim. uma energia sobrenatural que não me deixa concretizá-lo. e preciso escrever essas parcas linhas para tentar buscar um ponto de equilíbrio. vinte e cinco mil caracteres é o limite. não exceder. não se conter. no artigo estabeleço o diálogo entre o filme o cheiro do ralo, marxisismo, niilismo e sociedade da cultura do consumo no contexto da pós-modernidade. são várias leituras, muitos pensamentos opostos, paradoxais que me sobrecarregam. não sei dar fim. dar por acabado. encontrar o fio coerente. meu tempo ocioso me atrapalha. tenho todo o tempo do mundo para anotar, reler passagens, citar. mas para quê? quem me lerá? que função há em escrever um artigo com toda essa bagagem referencial? o fluxo de pensamento é alavancado, truncado. e vertiginoso. sério e desleixado. pensei em distraidos venceremos, título de um livro de poesia de paulo leminski. distraídos. como vencer? preciso me distrair. levar as coisas mais na esportiva, como diriam.
vou à janela e vejo, lá embaixo, o seu joaquim arrumando o jardim de entrada do prédio. seu joaquim faz. eu projeto. possibilito minha racionalidade em campo discursivo. e não faço.
hoje dormi, depois de muitas tentativas, muito bem. um pouco a mais do normal. fazia tempo que não descansava a consciência. com os olhos apagados, como a um filme que termina.
tenho de encerrar o artigo o mais depressa. as idéias dentro do lugar. sistematizadas. recortadas. recortar. embasar-me teoricamente para escrever. fazer surgir idéias novas. parágrafos importantes. verdades viscerais.
penso que me transformei numa representação. um personagem plano. sem idéias, preso no tempo da memória. trechos que foram marcados a fogo. eles dariam bons enredos, estórias, reflexões. será que dariam mesmo? mas quero deixá-los. acabados no terreno do pretérito. como seria, no entanto, revisitá-los tendo como objetivo final refazer uma vontade antiga de?
