22.11.08

sob suspeita

[abaixo a infâmia]



não meus caros


que bom se o poema
tivesse o cheiro do bife a cavalo com batata frita e arroz
[com feijão

que bom se o poema
fosse amargo como uma paixão não correspondida

que bom se o poema
tivesse a textura do chopp gelado

que bom se o poema
fosse doce lambido como um pirulito

que bom se o poema
bomba: explodisse na cara do leitor

no entanto, meus caros

um poema é um poema
mera construção linguística cuja matéria prima

as palavras [e as palavras
] que não possuem sentimentos ou punho cerrado revolta no peito ou cheiro de pólvora

são inúteis como qualquer idéia

revolucionária de estômago invisível

inútil tentar homem com cérebro
inútil tentar qualquer resolução

o poema é símbolo e aparência
não alimenta a boca faminta
dos meninos abandonados
tampouco faz a reforma agrária

o poeta funcionário público em seu gabinete
come amendoim descasca banana coça o saco
boceja enorme o tédio o bafo de álcool
o poeta funcionário público como um homem qualquer é um grande sacana de um
[mentiroso

debruçado em sua janela
como conter a guerra a fome a morte a injustiça social
o tráfico de crack na rua saldanha marinho atrás da sua casa?

de que te vale pensar nisso tudo se daqui a pouco
guloso o poeta funcionário público estará comendo uma batata suiça num bairro nobre de sua cidade iluminada
com a barriga embriagada de vinho importado por um salário mínimo a garrafa?

que indignação pode ter em suas palavras?
quais sonhos pode guardar o seu corpo?

por hora,
bem, por hora já não está mais aqui

o autor do escrito - sem convicção