11.3.09

dos grandes mestres


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Cabe uma ponderação: nós - o mundo dos intelectuais - consideramos-nos leitores e estamos conscientes das transformações que esse exercício provocou em nossas vidas. Queremos que outros partilhem dessa ventura. Mas, se formos sinceros, dando rápida olhada para trás, para nossos tempos de jovens, o que encontramos? Quando cursamos [...] a universidade, a maioria dos amigos, conhecidos e familiares lia continuamente? Ou éramos nós os alienígenas, curvados sob o peso de nossa aura? Se focalizarmos aquele tempo. veremos que a leitura não era ocupação popular. Nem por isso o mundo chegou ao juízo final. E existiria um país no mundo em que a maioria das pessoas dedica-se a tal exercício? Pensando em obras literárias, talvez sejamos obrigados a concordar com Enzensberger: "na verdade, ela (a literatura) sempre foi um tema para uma minoria. A quantidade dos que se dedicam a ela provavelmente se manteve constante no decorrer dos dois últimos séculos. O que mudou foi apenas a formação desse grupo. Já não é mais uma marca de privilégio de classe se interessar por ela, mas também não é mais um obrigação de classe fazer isso.
"

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Ler não é mais produzir significado, entrar no texto para reescrevê-lo e por meio dele captar as sondas que o autor lançou sobre dores e alegrias humanas. Literatura, nas escola, é questão de enredo e personagem, título e características. É vista como se os autores tivessem uma fórmula mágica, a qual se submeteriam para produzir o texto. Linguagem, visão de mundo, diálogo com a tradição e com as outras produções não são levados em conta.


[VENTURELLI, Paulo. A leitura do literário como prática política. Revista Letras, Curitiba, n. 57. p. 149-172. jan/jun. 2002.]