estão todos esperando. todos. nem mais, nem menos. sento-me no coffe shop arabesco e detenho-me a observar uma única mulher, mesmo antes da sua opção pela prostituição, esperando. uma mulher bonita, jovem, dona de cintilantes olhos negros, de pele morena e rabo de cavalo, mas magoada, triste e cansada. ela espera, em pé, impacientemente. mas por que nenhum homem é capaz de se aproximar e dizer: vamos sair daqui. por que eu mesmo não a chamo para compartilhar uma xícara de expresso e um pão de queijo? o resto da humanidade também espera: na praça pública os amantes se amam sob lençois invisíveis de carne, esperando o momento mágico. os namorados, os casais, os amigos. uns trocam carícias, outros se olham cada qual a sua maneira silenciosos. uma outra mulher, que paro para observar no meio do caminho de volta para casa, sentada num banco gasto debaixo do pinheiro lê; no entanto, esperando que possivelmente o herói romanesco a assalte e a leve embora montados na cavalgadura do corcel negro, como naquele filme americano. o traficante vestido de casaca escura espera o usuário de pó, da maconha, do crack. e o usuário, viciado em si mesmo, espera, mutuamente, o amanhecer para encontrar-se com o traficante. o suicida espera a capacidade de suportar o inesperado diante do copo de cianureto como um pêndulo indeciso a marcar o tempo. o homem sóbrio, mas com distúrbios mentais ainda recônditos, os quais veem percorrendo sua linhagem desde sempre, espera o cérebro embeber-se de vertigem para apanhar a passagem sem volta sobre o balcão do guichê imaginário. todos esperam. nem mais, nem menos. todos esperam um dia em que tomados de coragem façam a viajem realizável da partida irrealizável. e muito mais aqueles dois. muito mais ele e ela. esperando. ambos esperando.
20.5.09
para além do circundante
estão todos esperando. todos. nem mais, nem menos. sento-me no coffe shop arabesco e detenho-me a observar uma única mulher, mesmo antes da sua opção pela prostituição, esperando. uma mulher bonita, jovem, dona de cintilantes olhos negros, de pele morena e rabo de cavalo, mas magoada, triste e cansada. ela espera, em pé, impacientemente. mas por que nenhum homem é capaz de se aproximar e dizer: vamos sair daqui. por que eu mesmo não a chamo para compartilhar uma xícara de expresso e um pão de queijo? o resto da humanidade também espera: na praça pública os amantes se amam sob lençois invisíveis de carne, esperando o momento mágico. os namorados, os casais, os amigos. uns trocam carícias, outros se olham cada qual a sua maneira silenciosos. uma outra mulher, que paro para observar no meio do caminho de volta para casa, sentada num banco gasto debaixo do pinheiro lê; no entanto, esperando que possivelmente o herói romanesco a assalte e a leve embora montados na cavalgadura do corcel negro, como naquele filme americano. o traficante vestido de casaca escura espera o usuário de pó, da maconha, do crack. e o usuário, viciado em si mesmo, espera, mutuamente, o amanhecer para encontrar-se com o traficante. o suicida espera a capacidade de suportar o inesperado diante do copo de cianureto como um pêndulo indeciso a marcar o tempo. o homem sóbrio, mas com distúrbios mentais ainda recônditos, os quais veem percorrendo sua linhagem desde sempre, espera o cérebro embeber-se de vertigem para apanhar a passagem sem volta sobre o balcão do guichê imaginário. todos esperam. nem mais, nem menos. todos esperam um dia em que tomados de coragem façam a viajem realizável da partida irrealizável. e muito mais aqueles dois. muito mais ele e ela. esperando. ambos esperando.
