2.1.10

por que ver os clássicos



OITO E MEIO

I

Sei de pessoas que julgaram superficial o "8 1/2", de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser superficiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?

II

Em Picasso, em certos Picasso, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amendronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da "Salomé" de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no "8 1/2" de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista - o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.

[QUINTANA, Mário. 80 anos de poesia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1996. p. 101-102]