18.2.10

cartão-postal

[Johnny Marbelo]

Maria,

me chateia muito saber que naquele dia chuvoso em que apareci na sua porta, duas batidas, uma garrafa de vinho e um ramalhete de flores na mão, você não me receber como a um amigo. Tá certo que apareci sem avisar e um pouco alto. Você estranhou a minha presença, ali, plantado na calçada. O terno ensopado. Notei pela sua cara. Parecia que eu chorava? Pense na chuva como uma metáfora.
Por que não me convidou para entrar? Nem mesmo me ofereceu uma toalha para eu poder enxugar a minha alma.
Você foi grossa comigo. Bateu a porta. Daí eu vaguei, por uns instantes, pela sua rua, sem saber qual direção tomar. Eu parecia um barco bêbado sendo carregado pela enxurrada. Mas fique sabendo, Maria, que eu estava disposto a te pedir em namoro. Tá certo que é uma coisa piegas, ainda mais nestes tempos pós-modernos. Veja, não dá pra gente ficar saindo e vendo as pessoas num frenesi louco. Como diria o filósofo, são os tempos da efemeridade.
Pense a respeito.

Um beijo do teu sempre
Ulissezinho.