Comer é comungar. Ajoelha, orando,
Em frente desse pão, ou duro ou brando.
Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro!
Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás,
Tigre voraz.
[Oração do pão - Guerra Junqueiro]
Em frente desse pão, ou duro ou brando.
Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro!
Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás,
Tigre voraz.
[Oração do pão - Guerra Junqueiro]
o doutor em filosofia e a manicura de doutores
Prendeu-lhe os peitos com as duas mãos nodosas e deu-lhe no corpo um giro de cento e oitenta graus. Depois abriu-a por trás como se partisse o pão do dia. Então entra nela perseguidor e atento. (Desejo sim, sem dúvida; mas muito de falseta.) Ele a persegue por dentro com os seus filosofemas; os açula como a cães de caça no mataréu: Uh! Uh! - silvos e assobios. Ela persegue o sol que é pobre nesse apartamento de inverno com aquecedor Magiclic. Ele a sacode de lá para cá. Ela se deixa levar mas está alerta: cada lâmina de unha - perolada a dele, cintilante a dela - deve bater na outra sem riscar. Ele a sacode lá para cá e resume o seu desespero gritando-lhe, por dentro do túnel clareado azul-noite com seu pênis de ponta-de-farol, que a vida não tem fecho, não tem fecho, não tem fecho. Ela por fim diz sim, sim, sim, sim, com o corpo feroz em arco, sem entender a língua dele, de escalas. O tempo passa. O ar é áspero feito uma lixa. Ele tosse. Ela desliga o Magiclic.
[TAVARES, Zulmira Ribeiro. Cortejo em Abril: ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 72]
