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Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve pra nada. Este próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto de arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou àquela que esperavam - assim como todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silêncio.
[Editora Record - tradução de Valerie Rumjanek Chaves, 9 ed. 1996]