[Henri Cartier-Bresson]
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Afinal, namorados, junto com os pardais são o único encanto lírico que ainda resta nesta cidade que cada dia vai ficando mais áspera.
Já não temos café sentado, nem sala de espera em cinema, nem salão de chá com orquestra; já não temos retreta de coretos de praça - nenhuma dessas doçuras antigas. E o que seria de nós, então, depois do duro dia de trabalho, quando voltamos exaustos para casa, se na fila de lotação não nos distraísse o gentil descuido dos namorados, ou se dentro dos ônibus, onde os homens empurram as mulheres, apanhando o lugar sentado graças à lei do mais forte, onde na hora de atender ao assobio insolente do trocador constatamos como está magra a carteira - que seria de nós se, pela janelinha do veículo, não avistássemos o casalzinho amoroso que conversa bobagem sob as amendoeiras da Praça Paris - e nos lembra que, apesar da deformação das criaturas e das misérias da vida, este mundo não é de todo ruim?
[QUEIROZ, Rachel de. O brasileiro perplexo. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963. p. 177-180]