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O ato de enfiar o dedo é mais que expressão do desejo de conhecer. É gostoso enfiar o dedo. Todo o mundo sabe da função erótica do dedo. Existe uma analogia entre dedo e pênis. Até as crianças já fazem aquele gesto obsceno. O dedo é um dos nossos órgãos sexuais.
Quando eu era menino, sem saber nada sobre sexo, gostava de descascar as mexericas para, depois, enfiar o dedo no buraco fechado e apertado do meio dos gomos. Era delicioso, meu dedo enfiado apertado, no obscuro buraco da mexrica. Um menininho foi humilhado por duas menininhas. Quando elas o viram com o pintinho de fora fazendo xixi, caíram na risada: "É igual a um pepininho!" Ao que ele retrucou: "E vocês, que o que têm são dois gominhos de mexerica"! Bom observador, o menino; sua imaginação já conhecia através de analogias.
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... A fala é fálica. A palavra é pênis. Masculina. No silêncio, é como se não existisse. Mas aí ela toma forma, cresce, se alonga em busca de um ouvido. Que seria da palavra sem o vazio do ouvido que a acolha? A palavra deseja penetrar o ouvido. O ouvido é um vazio. Ele recebe. É feminino. Vaginal.
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... Ereção, como é sabido por todos; é o estado do pênis, contrário a sua condição de flacidez. Flácido, o pênis tem apenas funções excretoras, urinárias. Frequentemente os homens se envergonham dele, em decorrência do tamanho, que julgam pequeno. Ereto, o pênis é outro órgão. Tem poder para dar prazer e fecundar. Um pênis ereto é uma promessa de amor e uma possobilidade de vida.
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O pênis em ereção está procurando. Ele ainda não encontrou. Por isso sofre. A inteligência em ereção é também uma procura; ela não tem ainda.
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Diferente do pênis ereto, o útero é o vazio onde se depositam sementes. Lá o sêmen não fica sêmen. Ele se encontra com o óvulo que estava à espera. E aí uma coisa se inicia, indiferente de tudo o que houve no passado. O útero é lugar de criação, onde o novo é gerado. A mente é como o útero: nela o pensamento procria. É nela que se geram os poemas, a literatura, as obras de arte, as invenções, as teorias científicas.
[ALVES, Rubem. Ao professor, com o meu carinho. Campinas, SP: Verus Editora, 2004. p. 15-29]