[Leminski 1944-1989]
... a cultura popular do Sul é muito rala, bombardeada pelos meios de massa, despersonalizadores, antinacionais, niveladores.
[...]
O
princípio do prazer tem um componente anárquico. Por isso, é uma
espécie de inimigo público, em qualquer regime. O leitor já advinhou que
a criatividade artística está intimamente ligada ao pleno
desenvolvimento do princípio do prazer, a arte sendo uma modalidade de
jogo e o jogo, como atividade livre do espírito, sendo a mais alta
atividade do homem.
[...]
Curitiba é uma
cidade abstrata. Vivendo do setor terciário, de serviços, Curitiba não
produz bens agricolas nem industriais. Produz papéis, firmas
reconhecidas, documentos, atestados, segundas vias, abstrações. Ora, o
sexo, como a arte, é uma atividade direta, primeira, física. Entre nós,
ambos estão destinados a se manifestar como taras ocultas. Curitiba é a
cidade dos desejos inconfessáveis. Uma cidade onde a sexualidade é
reprimida pela mística imigrante do trabalho. Reprimindo o erotismo, a
sensualidade das pessoas, está-se reprimindo a criatividade, a explosão
dos signos, a florescência das formas. Em Curitiba, todas as modalidades
de repressão sexual estão articuladas com a mística imigrante do
trabalho e o mito da poupança. Repressão sexual, o tabu da virgindade, o
machismo, a rigidez de papéis homem/mulher, o preconceito contra o
homossexualismo... Curitiba é uma cidade terrível para os homossexuais.
Talentos homossexuais importantes foram massacrados, anulados,
pulverizados pela cidade. A mística imigrante do trabalho explica. O
homossexualismo é uma atividade em si. Não produz nenês nem herdeiros. O
sexo homossexual não dá lucro.
Curitiba, metafísica e
fisicamente, ignora o corpo. Como o Sul, em geral. O trabalho é uma
"espiritualização", uma abstratização do corpo. O trabalho deforma o
corpo, que só o esporte faz florescer. Curitiba nunca foi importante,
esportivamente. Esporte é jogo, atividade lúdica, tudo aquilo que a
mística imigrante do trabalho abomina. "Brincadeira tem hora", os
dizeres da nossa bandeira. Só que, se tem hora, não é brincadeira,
evidentemente. Em lugar das velocidades lúdicas do esporte, conhecemos
sua modalidade pragmática, contábil, mercatória: a pressa. Nossa pressa é
a maior quantidade de trabalho concentrada na menor fração de tempo. O
modelo, evidentemente, são as máquinas e sua fria eficácia, oticamente
neutra, biologicamente irresponsável. Mas o corpo do bicho-homem tem
seus direitos, clamores e ímpetos. E o corpo se vinga,
masoquisticamente, das repressões, pressas e prisões a que está
submetido, em problemas sexuais, em mais tiranias... Quem está com
pressa, não tem tempo para ver a paisagem. Nem para refletir sobre o
trajeto e o percurso. A pressa é a face visível do tempo maquinal e
despótico, criado pelo trabalho industrial e pela burguesia europeia,
com a Revolução Industrial. Como tal, é inimiga mortal das liberdades do
homem, entre as quais está a de produzir essas liberdades, que são os
produtos culturais, poemas, visões, músicas... A preguiça é que é de
vanguarda.
[LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011. p. 111-118]
