27.4.12

Sem sexo, neca de criação

[Leminski 1944-1989] 
[...]

... a cultura popular do Sul é muito rala, bombardeada pelos meios de massa, despersonalizadores, antinacionais, niveladores.

[...]

O princípio do prazer tem um componente anárquico. Por isso, é uma espécie de inimigo público, em qualquer regime. O leitor já advinhou que a criatividade artística está intimamente ligada ao pleno desenvolvimento do princípio do prazer, a arte sendo uma modalidade de jogo e o jogo, como atividade livre do espírito, sendo a mais alta atividade do homem.

[...]

Curitiba é uma cidade abstrata. Vivendo do setor terciário, de serviços, Curitiba não produz bens agricolas nem industriais. Produz papéis, firmas reconhecidas, documentos, atestados, segundas vias, abstrações. Ora, o sexo, como a arte, é uma atividade direta, primeira, física. Entre nós, ambos estão destinados a se manifestar como taras ocultas. Curitiba é a cidade dos desejos inconfessáveis. Uma cidade onde a sexualidade é reprimida pela mística imigrante do trabalho. Reprimindo o erotismo, a sensualidade das pessoas, está-se reprimindo a criatividade, a explosão dos signos, a florescência das formas. Em Curitiba, todas as modalidades de repressão sexual estão articuladas com a mística imigrante do trabalho e o mito da poupança. Repressão sexual, o tabu da virgindade, o machismo, a rigidez de papéis homem/mulher, o preconceito contra o homossexualismo... Curitiba é uma cidade terrível para os homossexuais. Talentos homossexuais importantes foram massacrados, anulados, pulverizados pela cidade. A mística imigrante do trabalho explica. O homossexualismo é uma atividade em si. Não produz nenês nem herdeiros. O sexo homossexual não dá lucro.
Curitiba, metafísica e fisicamente, ignora o corpo. Como o Sul, em geral. O trabalho é uma "espiritualização", uma abstratização do corpo. O trabalho deforma o corpo, que só o esporte faz florescer. Curitiba nunca foi importante, esportivamente. Esporte é jogo, atividade lúdica, tudo aquilo que a mística imigrante do trabalho abomina. "Brincadeira tem hora", os dizeres da nossa bandeira. Só que, se tem hora, não é brincadeira, evidentemente. Em lugar das velocidades lúdicas do esporte, conhecemos sua modalidade pragmática, contábil, mercatória: a pressa. Nossa pressa é a maior quantidade de trabalho concentrada na menor fração de tempo. O modelo, evidentemente, são as máquinas e sua fria eficácia, oticamente neutra, biologicamente irresponsável. Mas o corpo do bicho-homem tem seus direitos, clamores e ímpetos. E o corpo se vinga, masoquisticamente, das repressões, pressas e prisões a que está submetido, em problemas sexuais, em mais tiranias... Quem está com pressa, não tem tempo para ver a paisagem. Nem para refletir sobre o trajeto e o percurso. A pressa é a face visível do tempo maquinal e despótico, criado pelo trabalho industrial e pela burguesia europeia, com a Revolução Industrial. Como tal, é inimiga mortal das liberdades do homem, entre as quais está a de produzir essas liberdades, que são os produtos culturais, poemas, visões, músicas... A preguiça é que é de vanguarda.

[LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011. p. 111-118]