[Lawrence Ferlinghetti, 1919 - ]
Utilidades da poesia
Então, para que serve a poesia nesses nossos dias?/ Qual seu uso? Qual sua utilidade?/ Nesses dias e noites da Era do Capocalipse em que a poesia é o asfalto/ das estradas dos exércitos noturnos/ como naquele paraíso de palmeiras no norte da Nicarágua/ onde promessas são feitas nas plazas/ e desfeitas nas quebradas/ ou nos campos verdíssimos/ da Estação de Armas Navais de Concord/ onde trens blindados esmagam manifestantes verdes/ onde a poesia se faz importante pela ausência/ ausência de pássaros na paisagem de verão/ ausência de amor nas coxas da meia-noite/ ausência de luz ao meio-dia/ na Casa (não-tão) Branca/ Pois mesmo a poesia ruim é importante/ por aquilo que não diz/ por aquilo que abandona/ Que dizer do sol escorrendo/ pela pele da manhã/ das noites brancas e das bocas sedentas/ lábios ululando Lulu sem parar/ e dos seres alados que cantam/ e dos gritos distantes numa praia ao anoitecer/ e da luz jamais vista na terra ou no mar/ e das cavernas descobertas pelo homem/ onde corriam rios sagrados/ junto às cidades costeiras/ onde caminhamos distraídos/ intensamente comovidos/ com o louco espetáculo da existência/ todos esses animais tagarelas sobre rodas/ heróis e heroínas com mil olhos/ com corações corajosos e superalmas ocultas/ nem aí para mitos/ (Por uma vida sem mitos!/ gritou Joseph Campbell/ e se mandou de barco para o Havaí)/ sempre impressionados por eu insistir/ com esses aprumados bípedes de cara lisa/ esses atores frementes/ pálidos ídolos nas ruas noturnas/ dançarinos extáticos no pó da Last Waltz/ nesse tempo de engarrafamentos da Era do Capocalipse/ onde a voz do poeta soa distante/ a voz da Quarta Pessoa do Singular/ a voz dentro da voz da tartaruga/ a face atrás da face da raça/ letras de luz na página da noite/ a ávida voz da vida como Whitman a escutou/ um leve riso selvagem/ (quiçá a libertemos/ do editor de texto da mente!)/ E eu sou o repórter diário de outro planeta/ redigindo a história decadente/ do Que Quando Onde Como e Por quê/ dessa espantosa vida aqui/ e dos estranhos palhaços que governam/ com os cotovelos no parapeito/ das demoníacas aterrorizantes fábricas/ lançando suas sombras entrevadas/ na grande sombra da Terra/ no fim do tempo não visto/ no supremo haxixe do nosso sonho.
Tradução: Fabiano Calixto
