Maninha, recorda-se daquele dia chuvoso, sem luz elétrica em casa,
apanhamos um pacote de velas na gaveta e espalhamos ao redor da sala quando Wong apareceu estranhando a escuridão? Cê lembra? Nas mãos do chinês: uma caixinha de plástico. Ué, Wong, você perguntou, onde vai com isso?
Wong sentou-se ao nosso lado. Silenciosamente pôs sobre as pernas a
caixinha da qual pinçou duas fotos. Um casal, se não me falha a memória e um homem encapuzado. Quem seriam, você me interrogou com os olhos. A moça tinha talhos terríveis no corpo e seu companheiro amarrado numa cadeira, a boca fechada com uma bola de meia. O cenário não revelava muita coisa: o chão batido e o resto do enquadramento se assemelhavam a um quintal obscuro. A outra foto mantinha o refém dentro do armário de uma escada. Suas roupas molhadas encharcavam o chão, formando um semi-círculo imperfeito. O ar conspirava para que o líquido fosse inflamável. Perguntamos à Wong: mas que diabos?... porém, Wong não pronunciou sequer um gesto. Apenas calou-se. E
respeitamos o seu silêncio, velando a noite.