8.12.12

más companhias


mamãe dizia
meu filho
não ande
com más companhias

a anarquia a maconha

o ácido
eram más companhias


& aquele mar da bahia
(onde o mar maresia)


andar com joyce
debaixo do braço


& fazer
poesiaemgreveqorpoestranhomuda
alegria
dor
& fantasia


& naquele tempo
a democracia
era má companhia


(& hoje ainda
parece ambrosia)


rimas
são más companhias


climas e céus experimentados

 

estar vivo
era estar mal acompanhado


horas & horas
aéreo & avoado
motivo de escárnio
para os alinhados


a vida mesma
era má companhia
estar morto & só
era o que eu podia


a cibalenaspirina
o barbitúrico
diempax
que vicia
é má companhia


& o poder
(o rei passou
& com ele a companhia)


os mass media


& este mundo

da tecnologia


& a fantasia
poder pensar o dia
a dia?
& combater a preguiça & a entropia
da língua
quem paga o preço
& não xinga?

 

& certa verdade
é má companhia


& a princesa
beijou
o trovador que dormia
a corte se escandalizou
ela explicou
não beijei o homem
mas a boca
de onde sai tal poesia


& a rebeldia
fala plena da adolescência
fala vazia


múmias
ímãs
são más companhias


& a cara-metade
& uma lírica
de rostinho colado
à realidade


de pura autoria


com quem se convive
é má companhia



[BONVICINO, Régis. Más companhias. Poesia 1983-1986. São Paulo: Editora Olavobrás, 1987]