12.2.13

improviso do amigo morto

[1893-1945]
[...]


Eu lhe confiava [carta a Mario de Andrade] as minhas dúvidas e preocupações literárias, com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte-pela-arte, e outros temas em moda na época. Com sua paciência apostolar, ele me respondia longa e minuciosamente, procurando me orientar no cipoal de minhas contradições:

Não se esqueça por favor que você é um ancião de quinhentos anos no vício de uma ideologia. Pra abrir caminho, pra se justificar diante de si mesmo, diante da vida e de Deus, você tem de abrir é estrada larga, franca. E no seu caso, o seu maior perigo é ser si mesmo. A tal de "sinceridade" que você invoca é o seu maior perigo. E que sinceridade se você não é você! A sua sinceridade por enquanto é sua espontaneidade. E a sua espontaneidade são dez milhões de anos de crimes humanos, dois mil anos de traição ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um anos de aluno de escola e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. Isso é a sua "sinceridade". Porque até agora escolheram por você. Agora é que você vai escolher.

[F. S. Gente I | 1975 p. 95-96]