7.8.13

sobre o capitalismo e o desejo

[Deleuze & Guattari | 1973]

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Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo.
 
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O dinheiro, o capital-dinheiro, é um pouco de demência tal que só teria em psiquiatria um equivalente: aquilo a que se chama o estado terminal. É muito complicado, mas farei uma observação de detalhe. Há exploração nas outras sociedades, há também escandá-los e segredos, mas isso faz parte do código, há mesmo códigos explicitamente secretos. No capitalismo, é muito diferente: não há nada secreto, pelo menos em princípio e segundo o código (eis porque o capitalismo é “democrático” e se reclama da “publicidade”, mesmo no sentido jurídico). E contudo nada é confessável. É a própria legalidade que não é confessável. Por oposição às outras sociedades, é ao mesmo tempo o regime do público e do inconfessável. É próprio do regime do dinheiro um delírio muito particular. Veja-se aquilo que atualmente se chamam “escândalos”: os jornais falam muito deles, toda a gente faz questão de se defender ou de atacar, mas é em vão que se procura o que têm de ilegal, tendo em conta o regime capitalista. A folha de impostos de Chaban, as operações imobiliárias, os grupos de pressão e em geral os mecanismos econômicos e financeiros. Sem necessidade de publicar o privado, contenar-se-ia em fazer confessar o que é público. Encontrar-nos-íamos numa demência sem qualquer equivalente nos hospitais. Em vez disso, falam-nos “de ideologia”. Mas a ideologia não tem importância alguma: o que conta não é a ideologia, nem sequer a distinção ou a oposição “econômico-ideológico”, é a organização de poder. Porque a organização de poder é a maneira como o desejo já está no econômico, como a libido investe no econômico, assedia o econômico e alimenta as formas políticas de repressão.
 
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Não há ideologia, há tão-somente organização de poder, uma vez dito que a organização de poder é a unidade do desejo e da infra-estrutura econômica. Observem-se dois exemplos. O ensino: em Maio de 68, os esquerdistas perderam imenso tempo por pretenderem que os
professores fizessem a sua auto-crítica como agentes da ideologia burguesa. É estúpido e deleita as pulsões masoquistas dos professores. A luta contra os concursos foi abandonada em proveito da querela ou da grande confissão pública anti-ideológica. Durante esse tempo, os professores reorganizaram sem dificuldade seu poder. O problema do ensino não é um problema ideológico, mas um problema de organização de poder: é a especificidade do poder docente que aparece como uma ideologia, mas é uma pura ilusão. Dos anarquistas aos maoístas, o leque é muito grande, tanto político como analítico. Sem contar, fora da reduzida franja dos grupúsculos, com a masse de pessoas que não sabem muito bem como se determinar entre o impulso esquerdista, a atração da ação sindical, a revolta, a expectativa ou o desinteresse... seria preciso descrever o papel dessas máquinas de esmagar o desejo que os grupúsculos são, esse trabalho de mó e de crivo. É um dilema: ser destruído pelo sistema social ou integrar-se no quadro pré-estabelecido dessas igrejinhas. Nesse sentido, Maio de 68 foi uma revelação surpreendente. A potência desejante atingiu uma tal aceleração que fez explodir os grupúsculos. Estes restauraram-se em seguida e participaram no restabelecimento da ordem com as outras forças repressivas, CGT, PC, CRS (Polícia de choque francesa) ou Edgar Faure. Não digo isto por provocação. Certamente, os militantes se bateram corajosamente contra a polícia. Mas se deixarmos a esfera da luta de interesse para considerar a função do desejo, é preciso reconhecer que o enquadramento de certos grupúsculos abordava a juventude num espírito de repressão: conter o desejo liberto para o canalizar.
 
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Encontramos sempre o velho esquema: o destaque de uma pseudo vanguarda apta a operar as sínteses, a formar um partido como um embrião de aparelho de Estado; extração de uma classe operária bem ensinada, bem educada; e o resto é um resíduo, lumpenproletariado de que é sempre preciso desconfiar (sempre a velha condenação de desejo). Mas mesmo estas distinções são uma maneira de aprisionar o desejo em benefício de uma casta burocrática. Foucault reage denunciando o terceiro, dizendo que, se houver justiça popular, não passa por um tribunal. Mostra bem como a distinção “vanguarda/proletariado/plebe não-proletarizada” é em primeiro lugar uma distinção que a burguesia introduz nas massas, e de que se serve para esmagar os fenômenos de desejo, para marginalizar o desejo. A questão toda está no aparelho de Estado. Seria bizarro contar com um partido ou com um aparelho de Estado para libertar os desejos. Reclamar uma justiça melhor é como reclamar bons juízes, bons policiais, bons patrões... etc. Aqui dizem-nos: como querem unificar as lutas pontuais sem um partido? Como fazer a máquina funcionar sem um aparelho de Estado? Que a revolução tenha necessidade de uma máquina de guerra é evidente, mas isso não é um aparelho de Estado. Que tenha também necessidade de uma instância de análise, análise dos desejos de massas, está certo, mas isso não é um aparelho exterior de síntese. Desejo liberto quer dizer que o desejo sai do impasse do fantasma individual privado: não se trata de adaptar, de o socializar, de o disciplinar, mas de o ligar de tal maneira que o seu processo não seja interrompido num corpo social, e que produza enunciações coletivas. O que vale não é uma unificação autoritária, mas antes uma espécie de enxameação ao infinito: os desejos nas escolas, nas fábricas, nos quartéis, nas creches, nas prisões etc. Não se trata de sobrepor-se, de totalizar, mas de se ramificar num mesmo plano de báscula. Enquanto se permanecer numa alternativa entre o espontaneísmo impotente de anarquia e a codificação burocrática e hierárquica de uma organização de partido, não há libertação de desejo.
 
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... será que o capitalismo foi revolucionário nos seus primórdios, será que a revolução industrial coincidiu sempre com uma revolução social? – Não, não me parece. O capitalismo, desde o seu nascimento, esteve ligado a uma repressão selvagem, teve imediatamente a sua organização de poder e o seu aparelho de Estado. Que o capitalismo tenha implicado a dissolução dos códigos e dos poderes sociais precedentes é certo. Mas, nas fendas dos regimes precedentes, ele tinha já estabelecido as engrenagens do seu poder, inclusive do seu poder de Estado. É sempre assim: as coisas não são tão progressivas; antes mesmo que uma formação social se estabeleça, os seus instrumentos de exploração e repressão já lá estão, girando ainda no vazio, mas prontos para trabalhar plenamente.
 
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... A burguesia impõe um novo código, econômico e político; pode-se pensar que ela foi revolucionária. Nada disso. [...] A burguesia nunca se enganou quanto ao seu verdadeiro inimigo. O seu verdadeiro inimigo não era o sistema precedente, mas aquilo que escapava ao controle do sistema precedente, e que ela tinha por objetivo dominar por sua vez. Ela própria devia o seu poder à ruína do antigo sistema; mas só podia exercer esse poder desde que tomasse como inimigo todos os revolucionários do antigo sistema. A burguesia nunca foi revolucionária. Ela mandou que fizessem a revolução. Ela manipulou, canalizou, reprimiu uma enorme pulsão do desejo popular. As pessoas foram deixar-se matar em Valmy.
 

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... dilema muito simples: ou se chega a um novo tipo de estruturas que conduzam finalmente à fusão do desejo coletivo e da organização revolucionária; ou se continua no impulso presente e, de repressões em repressões, caminharemos para um fascismo ao pé do qual Hitler e Mussolini parecerão uma brincadeira.
 
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...: a organização revolucionária deve ser a de uma máquina de guerra e não a de um aparelho de Estado, a de um analisador de desejo e não a de uma síntese exterior.
 
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Actuel. – Será possível estabelecer um paralelo com os movimentos contemporâneos: as comunidades e os caminhos para fugir à fábrica e ao escritório? E haverá um papa para os enganar? Jesus-revolução?
Félix Guattari. – Não é inconcebível uma recuperação por meio do cristianismo. É até certo ponto uma realidade nos Estados Unidos, mas muito menos na Europa ou na França. Mas há já vista uma nova fase latente sob a forma de tendência naturista, a ideia de que seria possível retirar-se da produção e reconstituir uma pequena sociedade à parte, como se não estivesse marcado e fechado pelo sistema do capitalismo.
 
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Há uma tecnocracia da Igreja.
 
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A psicanálise: funciona ao ar livre, mas é ainda pior, muito mais perigosa como força repressiva.
 
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A resistência nada significa para o médico, mas renascimento entra no esquema universal, arquétipo: “Você quer renascer”. O médico reencontra-se aí: finalmente, o seu circuito. E força-a a falar do seu pai e da sua mãe.
 
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Delírio do campo social.
 
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Está no nível da tarefa repressiva do juiz de Ângela Davis que assegurava: “O seu comportamento só se explica por ela estar apaixonada”. E se, ao contrário, a libido de Ângela Davis fosse uma libido social revolucionária? E se ela estivesse apaixonada por ser revolucionária?
 
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Certa geração começa a estar farta dos esquemas que servem pra tudo – Édipo e castração, imaginário-simbólico –, que apagam sistematicamente o conteúdo social, político e cultural de toda a perturbação psíquica.
Actuel. – Vocês associam a esquizofrenia ao capitalismo, é mesmo este o fundamento do vosso livro. Há casos de esquizofrenia em outras sociedades?
Félix Guattarri. – A esquizofrenia é indissociável do sistema capitalista, ele próprio concebido como uma primeira fuga: uma doença exclusiva. Nas outras sociedades, a fuga e a marginalidade assumem outros aspectos. O indivíduo a-social das chamadas sociedades primitivas não é internado. A prisão e o asilo são noções recentes. Ele é expulso, exila-se para o limite da aldeia e aí morre, a menos que vá se integrar numa aldeia vizinha. Cada sistema tem, aliás, a sua doença particular: o histérico das chamadas sociedades primitivas, as manias depressivas-paranóicas no Grande Império... A economia capitalista procede por descodificação e desterritorialização: tem os seus doentes extremos, isto é, os esquizofrênicos, que, no limite, se descodificam e desterritorializam, mas tem também as suas consequências extremas, os revolucionários. 


[DELEUZE, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006. p. 331-343]