O deus-trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros.
O fim do trabalho torna-se o fim da política.
A luta de classes está no fim porque a sociedade do trabalho também está.
A democracia da sociedade do trabalho é o sistema de dominação mais pérfido da história - é um sistema de auto-opressão. Por isso, esta democracia nunca organiza a livre autodeterminação dos membros da sociedade sobre os recursos coletivos, mas sempre apenas a forma jurídica das mônadas de trabalho socialmente separadas entre si, que, na concorrência, arriscam sua pele no mercado de trabalho. Democracia é o oposto de liberdade. E assim, os seres humanos de trabalho democráticos dividem-se, necessariamente, em administradores e administrados, empresários e empreendidos, elites funcionais e material humano. Os partidos políticos, em particular os partidos dos trabalhadores, refletem fielmente essa relação na sua própria estrutura. Condutor e conduzidos, VIPs e o povão, militantes e simpatizantes apontam para uma relação que não tem mais nada a ver com um debate aberto e tomada de decisão. Faz parte desta lógica sistêmica que as próprias elites só possam ser funcionárias dependentes do deus-trabalho e de suas orientações cegas.
A Roda tem que girar de qualquer jeito, e ponto final. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem [...].
A simulação estatal de trabalho é, por princípio, violenta e repressiva. Ela significa a manutenção da vontade de domínio incondicional do deus-trabalho, com todos os meios disponíveis, mesmo após sua morte. Este fanatismo burocrático de trabalho não deixa em paz nem os que caíram fora - os sem-trabalho e sem-chances - nem todos aqueles que com boas razões rejeitam o trabalho, nos seus já horrivelmente apertados nichos do demolido Estado social. Eles são arrastados para os holofotes do interrogatório estatal por assistentes sociais e agenciadores do trabalho e são obrigados a prestar uma reverência pública perante o trono do cadáver-rei.
Os novos "pobres que trabalham" têm o direito de engraxar o sapato dos businessmen da sociedade do trabalho ou de vender-lhes hambúrger contaminado, ou então, de vigiar o seu shopping center. Quem deixou seu cérebro na chapeleira da entrada até pode sonhar com uma ascensão ao posto de milionário prestador de serviços.
O incômodo do "lixo humano" fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres. Nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Central, já existem mais pessoas na prisão do que na média das ditaduras militares. Na América Latina, são assassinados diariamente mais crianças de rua e outros pobres pelo esquadrão da morte da economia de mercado do que oposicionistas nos tempos da pior repressão política. Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante.
genealogia
"Trabalho" é um conceito que mascara sua constituição na experiência burguesa, protestante e iluminista do mundo - o ethos de dominação da natureza (e do feminino, do de cor, do estrangeiro etc.) - do homem branco, viril, maníaco pela atividade, que tende a perder a capacidade da própria experiência da diferença e da qualidade.
Por trás do conceito de trabalho está um processo de homogeneização ou abstração real de todas as atividades concretas sob o ditado de um tempo social abstrato da concorrência, cuja finalidade já não é os homens, mas a imanência da própria atividade, do próprio meio: a produção de valor (e mais-valia), que passa por cima das necessidades e vontades de uma sociedade inteira, e a rigor, de toda a vida do planeta.
Grupo Krisis | 1999
Tradução: Heinz D. Heidemam e Claudio D.
