30.5.18

provos


Os motoristas agem com arrogância porque sabem que indústria e polícia estão do seu lado, podem levar a cabo seus crimes porque tem certeza que terão respaldo. São consumidores hidrocarburodependentes, mimados pelos traficantes de petróleo: as companhias petrolíferas, que criam e moldam governos, estilos de vida, espaços urbanos e paisagens geográficas conforme suas necessidades. As companhias petrolíferas e os hidrocarburodependentes estão empenhados em criar um mundo em que ir ao trabalho, à escola, fazer compras ou divertir-se sem sentar a bunda num automóvel e sem deixar uma pequena oferta em dinheiro à indústria se tornará impossível. Os motoristas utilizam um meio de transporte socialmente irresponsável e irracionalmente legal, que todo ano lança na atmosfera uma quantidade de substâncias poluentes equivalente a seu peso. Em 1964, uma estatística revelava que 74,1% das vítimas de acidentes de automóvel eram pedestres sacrificados em nome do Santo Automóvel.

Num contexto histórico em que cada homem no planeta almeja suas fedorentas quatro rodas, no mesmo ano em que as massas automobilísticas têm o seu velocino de ouro para adorar (um Aston Martin DB5 dourado, presente em meio ao hardware do delírio fetichista macho-alcoólico-nicotínico de James Bond, o agente secreto com licença para matar, em Goldfinger) eis que aparecem esses gozadores, que ousam zombar do símbolo do crescimento econômico, dogma indiscutível. Reivindicando o direito de andar pela cidade sem serem ameaçados fisicamente por um bando de psicopatas agressivos, trancafiados numa peidorrenta caixa de ferro. E reivindicam, sobretudo, o direito e o prazer de não seguirem os modelos de consumo, de não consumir.

M. G.