Existencil: Patricia H. | Inverno de 2016
Se me pedissem para completar a frase: “Eu gosto de gatos porque...”, duvido que ganhasse algum prêmio, mas sei o que gosto neles e porquê. Gosto de gatos porque eles são elegantes e silenciosos, e têm efeito decorativo; uns leõezinhos razoavelmente dóceis, andando pela casa. Poderia dizer que são silenciosos na maior parte do tempo – porque um siamês no cio não é silencioso. Acredito que os gatos dão menos trabalho que os cachorros, embora admita que os cachorros, em geral, viajam melhor.
Para desconsiderar as reclamações habituais sobre gatos, como móveis arranhados e uma casa fedorenta, posso dizer que tive sorte. Já vi casas de outras pessoas onde os gatos praticamente tomaram conta do lugar. Uma porta oval com painéis de plástico está instalada na minha porta da frente, e meus dois siameses preferem ir para a rua a usar dentro de casa o que chamamos discretamente de caixinha higiênica – embora eu tenha providenciado instalações dentro de casa quando eram filhotes. Eles tomaram gosto pela vida lá fora assim que puderam. Eu moro no campo e tenho um jardim cercado, então fica fácil para eles, e para mim. Eu não gostaria de ter de levar um cachorro para tomar ar, de duas a três vezes por dia, em todo e qualquer tipo de clima. Quanto a arranharem, também não é problema. Preguei um capacho comum em uma tábua curta – com algumas tiras de borracha na parte superior e inferior para não escorregar – e encostei contra uma parede fora do caminho no meu banheiro do andar de baixo. Os gatos adoram enfiar as unhas ali, porque faz um crepitar satisfatório. É a inclinação do capacho que atrai os gatos, não os postes verticais com aromas industrializados que são vendidos a preços altíssimos nas lojas de animais.
Gatos dando uma de Watson? Fazendo perguntas ingênuas? Descobrindo a verdade dos fatos de forma acidental? Penso que os gatos dariam Watsons muito piores que os cachorros. Tanto os gatos como os cachorros confiam mais em seus focinhos do que nos olhos, mas será que um gato teria interesse? Por curiosidade, um gato poderia mostrar o caminho até um cadáver, poderia também indicar hostilidade a uma pessoa com um rosnar espantosamente profundo, ou mesmo saindo da sala. Nunca utilizei nenhum desses truques ao escrever mas, recentemente, fiz uso dos hábitos predatórios dos felinos, fazendo o gato arrastar um par de dedos humanos – pendurados aos metacarpos estraçalhados – pela portinhola de plástico, enquanto um jogo de palavras cruzadas transcorria na sala de jantar.
Não são apenas as solteironas que gostam de gatos, acho. Na verdade, as solteironas (o que quer que sejam hoje em dia) deveriam estar mais inclinadas a ter um cão que ladra por questões de proteção. Raymond Chandler gostava de ter um gato roliço junto dele, ou sobre a escrivaninha. Simenon é frequentemente fotografado com algum de seus gatos, em geral um gato preto. Os gatos oferecem para o escritor algo que os outros humanos não conseguem: companhia que não é exigente nem intrometida, que é tão tranquila e em constante transformação quanto um mar plácido que mal se move. Meu siamês mais jovem é educado o bastante para responder quando lhe dirijo a palavra. Se pergunto se está tendo uma dia agradável, sua resposta pode ser; “Muito!”, ou “Não, só mais ou menos”. Quando estou trabalhando, ele me interrompe apenas se tem fome – e ele tem uma inflexão precisa para indicar “estou com fome’. Como não é comilão, nem gordo, eu sempre atendo, indo até a cozinha e buscando algo para ele.
Os gatos escondem um senso de travessura por trás da expressão serena. Já vi ambos os meus gatos procurarem o colo de um visitante que é alérgico, ou que detesta gatos abertamente. Os gatos se entediam com os amantes de gatos. Semyon, meu siamês mais novo, tem um ouvido ótimo, e xinga claramente quando o telefone toca e ele está por perto. Minha gata mais velha sabe quando estou presa ao telefone e não perde a chance de arranhar, ou fazer de conta que está arranhando, o encosto de uma poltrona vermelha de veludo a três metros de distância. Ela se diverte se eu arranco meu sapato e atiro nela.
Meu estilo de vida? Seria considerado parado demais para a maioria das pessoas, até mesmo para a maioria dos escritores. Não tenho televisão, embora esteja sempre quase pronta para comprar uma. Leio montes de jornais. Não consigo ler ficção, exceto contos, quando estou escrevendo um romance. Como exercício, arrumo o jardim. Não chamo de jardinagem, porque soa um trabalho muito árduo, que de fato é, mas chamar de arrumação torna o trabalho mais fácil. O mesmo ocorre com qualquer problema ou catástrofe: simule uma postura calculada, chame por um outro nome e a batalha já está quase vencida.
Gosto de fazer aniversário no mesmo dia que Edgar Alan Poe: 19 de janeiro. Ele é outro não solteirão que aparentemente gostava de gatos. O de pelagem tartaruga, dele e de Virginia, a mantinha aquecida, deitando-se ao pé da cama quando ela estava doente, e eles não tinham dinheiro para aquecer decentemente o chalé em Yonkers.
Os cães são fortes, e um doberman pinscher pode exibir uma aparência ameaçadora quando se precisa de algo assim em uma história. Mas as histórias que os escritores inventam são apenas isso: ficção, e não vida real – e acho que as mentes dos escritores são ativas ou perturbadas o suficiente para precisarem da aura calmante de um gato em casa. Um gato faz de um lar, um lar; com um gato, um escritor não está só e, no entanto, está sozinho o bastante para trabalhar. Mais do que isso, um gato é uma obra de arte ambulante, dorminhoca e em constante transformação. Um escritor poderia “utilizar” um gato para farejar uma tábua de assoalho exatamente no momento certo, mas essa é a possibilidade que soa verdadeira na vida, porém falsa na ficção. Um cachorro pode ser utilizado ou comandado, mas um gato não obedece ordens. Na verdade ninguém faz uso de um bom quadro na parede, ou de um concerto de Beethoven, e, no entanto, eles podem ser uma necessidade na existência de um indivíduo.
Patricia Highsmith
Trad.: Petrucia F.
