10.3.20

Farmacopéia do capitalismo


Os defensores do capitalismo continuarão a bater nas mesas duas teclas de sempre: a das proezas salvíficas da inovação tecnológica e da excepcional resiliência desse sistema econômico.

O capitalismo foi capaz de se dotar de legalidade institucional, de administrar a pressão social ou, quando acuado, de eliminá-lo pelo nazifascismo e regime congêneres. Suas piores crises econômicas, suas mais extremas near-death experiences, dispararam mecanismos de resgate estatal, de autofagia parcial, de fortalecimento dos mais aptos, de reconcentração do capital e de inovação tecnológica, que provocaram sucessivos resets no sistema, permitindo-lhe renascer mais forte e vigoroso de suas cinzas.

Eis a armadilha que enreda o sistema econômico global: quanto maior a escala de exploração de energia, minerais, solo, água, proteínas animais etc., mais escassos esses "recursos" se tornam, mais poluente é sua exploração e mais intensa é a taxa de inovação tecnológica requerida para manter essa escala. Isso leva o sistema a recorrer a atividades mais invasivas, custosas e destrutivas, o que, por sua vez, leva a economia a gerar mais alta entropia nela própria e no meio ambiente, desequilibrando os parâmetros biogeofísicos que prevaleceram no ameno Holoceno. Surge, assim, no capitalismo global contemporâneo uma nova lei: a escassez ou maior poluição por abundância dos recursos naturais, as mudanças climáticas e demais desequilíbrios ambientais serão doravante cada vez mais as variáveis decisivas na determinação da taxa de lucro do capital.

O capitalismo é insustentável em termos ambientais e a ideia de que se possa "educá-lo" para a sustentabilidade pode ser considerada como a mais extraviadora ilusão do pensamento político, social e econômico contemporâneos.

O capitalismo é um sistema intrinsecamente expansivo, que se torna tanto mais ambientalmente destrutivo quanto mais dificuldade encontra para se expandir.

A apropriação estatal do excedente econômico não elimina o capitalismo, como acreditavam as diversas revoluções do século XX. Só se superará o capitalismo - a supor que ele seja superável - quando não for mais concebível destruir habitats por dinheiro, quando a acumulação deixar de ser um fim em si mesmo e passar a ser uma variável dependente das possibilidades da biosfera; quando esta for concebida como um sujeito de direito ou, se se preferir lhe recusar esse estatuto, como um limite físico intransponível, sob pena de colapso.

A força do capitalismo reside no fato de projetar nas consciências uma imagem invertida de si, de modo que a desordem que produz surge como ordem natural das coisas. Essa naturalização de uma ordem social histórica impede a percepção de que é possível, ao menos em tese, transcender esses padrões fossilizados de comportamento. Se não formos capazes de ser, como organização socioeconômica e política, mais do que esses padrões fizeram de nós, se o capitalismo for o melhor de que é capaz nossa sociedade global e, em última instância, nossa espécie - também dotada de razão, prudência, senso estético e moral - então merecemos o futuro sombrio, ou talvez o não futuro, a que estamos nos condenando.