25.4.20

O colega malvado

Prensa Antifa

Pensando bem, eu poderia derivar o fascismo das recordações da minha infância. Como um conquistador nas províncias mais afastadas, ele enviara para lá os seus mensageiros muito antes de ocupar o território: meus colegas de escola. Se a classe burguesa desde tempos imemoriais acalenta o sonho da comunidade nacional abrutalhada, da opressão de todos por todos, então crianças que já no prenome eram Horst e Jürguen e no sobrenome eram Bergenroth, Bojunga e Eckhardt deram andamento ao sonho antes dos adultos estarem historicamente maduros para realizá-lo. Eu sentia a violência do horror ao qual se dirigiam de modo tão exacerbadamente nítido que depois disso toda alegria me parecia contestável e sem substância. A eclosão do Terceiro Reich pode ter surpreendido meu julgamento político, mas não minha prontidão inconsciente para o medo. Tão de perto todos os motivos da catástrofe permanente haviam tocado em mim, tão inextinguível era a impregnação em mim dos sinais de advertência do despertar alemão, que eu reconheci cada um deles nos traços da ditadura de Hitler: e não raro parecia ao meu horror mais disparatado que o Estado total havia sido inventado especialmente contra mim, para finalmente me infligir aquilo de que eu havia sido dispensado até segunda ordem na mina infância, nos seus prenúncios. Os cinco patriotas que se arremessaram sobre um único colega, o espancaram e o difamaram como traidor da classe quando ele se queixou ao professor - não serão os mesmos que torturavam prisioneiros para desmentir os estrangeiros que falavam de tortura de prisioneiros? Aqueles, cujo alvoroço não tinha fim quando o primeiro da classe falhava - não terão sido eles que cercaram sorridentes e embaraçados o prisioneiro judeu e zombaram das suas desajeitadas tentativas de se enforcar? Que não conseguiam compor uma única sentença, mas achavam longa demais qualquer uma das minhas - não foram eles que destruíram a literatura alemã e a substituíram pela sua escrevinhação? Alguns cobriam o peito com sinais enigmáticos e queriam ser oficiais da Marinha no interior, quando há muito não havia Marinha: eles proclamaram sua adesão à SS, legitimistas da ilegitimidade. Os inteligentes enrustidos, que tinham tão pouco sucesso na sala de aula quando sob o liberalismo o técnico talentoso desprovido de conexões; que então se ocupavam de pequenos serviços para agradar aos pais ou mesmo se dedicavam para seu próprio prazer em longas tardes a intricadas pinturas coloridas: foram eles que contribuíram para a horrível eficiência do Terceiro Reich, e de novo são enganados. Aqueles, porém, que sem cessar troçavam dos mestres e, como se dizia, perturbavam o ensino, no dia - mais, na hora mesma - da sua formatura passavam a se juntar aos mesmos professores na mesma mesa para a mesma cerveja na liga masculina do Männerbund, tinham a vocação dos sequazes, rebeldes nos quais o golpe impaciente do punho na mesa já ecoava a veneração do senhor. Eles não precisavam mais do que ficar sentados para ultrapassar aqueles que haviam abandonado a sua classe e para se vingarem deles. Desde quando eles, cumpridores dos deveres e candidatos à morte, emergiram visíveis do sonho e me expropriaram minha vida passada e minha língua, não preciso mais sonhar com eles. No fascismo o pesadelo da infância veio a realizar-se.

Theodor W. Adorno | 1935
Trad.: Gabriel C.