30.12.20

Pós-extrativismo


As empresas que controlam a exploração de recursos naturais não renováveis, devido à sua localização e forma de exploração, se convertem frequentemente em poderosos grupos de poder empresarial frente a Estados nacionais relativamente fracos. A experiência nos mostra como algumas transnacionais se aproveitam de uma posição dominante - obtida, por exemplo, por sua contribuição à balança comercial do país - para influenciar as esferas de poder nacionais por meio de uma constante ameaça a governos que se atrevam a remar na contracorrente. Uma “nova classe corporativa” capturou não apenas o Estado, sem maiores contrapesos, mas também importantes meios de comunicação, institutos de pesquisa, consultorias, universidades, fundações e escritórios de advocacia. Esta classe corporativa transnacional converteu-se em “ator político privilegiado”, por possuir “níveis de acesso e influência dos quais não goza nenhum outro grupo de interesse, estrato ou classe social” e, ainda mais, que permite “empurrar a configuração do resto da pirâmide social”. “Trata-se de uma mão invisível [em certas ocasiões, muito visível] no Estado que outorga favores e privilégios e que, uma vez que os obtém, tende a mantê-los a todo custo", e os assume como "direitos adquiridos”.

O extrativismo cria uma concepção reducionista da Natureza, pois reduz a complexidade das redes biofísicas e dos processos de reprodução naturais a meros “recursos”, que estão disponíveis para prospecção, exploração e mercantilização. Tampouco reconhece as consequências negativas dos processos de extração. No melhor dos casos, suas externalidades são consideradas, mas não como parte de um contexto integral próprio das estruturas da Natureza. A partir desta perspectiva, o extrativismo lesiona o meio ambiente natural e social em que intervém, sobretudo quando se trata de megaprojetos - que rompem os ciclos vitais da Natureza e destroem os elementos substanciais dos ecossistemas, impedindo sua regeneração. Ou seja, o extrativismo afeta de maneira grave e irreversível os Direitos da Natureza.

Não existe, em síntese, um extrativismo bom e um extrativismo ruim. O extrativismo é o que é: um conjunto de atividades de extração maciça de recursos primários para a exportação, que, dentro do capitalismo, se torna fundamental no contexto da modalidade de acumulação primário-exportadora. Deste modo, o extrativismo é, em essência, tão predador quanto “o modo capitalista que vive de sufocar a vida e o mundo da vida”, esse processo que foi levado a tal extremo que a reprodução do capital somente pode se realizar na medida em que “destrua igualmente os seres humanos e a natureza”, como afirmou o filósofo equatoriano Bolívar Echeverría.