11.3.21

Entulho nazista

 
L&PM | 1986

Detectar os anseios fascistas em nosso meio

Os filmes nazistas são épicos de uma sociedade alcançada, onde a realidade cotidiana é transcendida pelo autocontrole extático e pela submissão; eles são sobre o triunfo do poder. 

Ao celebrar a sociedade onde a exibição da habilidade física, da coragem e da vitória do homem mais forte sobre o mais fraco são, assim como ela os enxerga, os símbolos unificadores da cultura comunal - onde o sucesso na luta é a "principal aspiração da vida de um homem" - Riefenstahl dificilmente parece ter modificado as ideias dos seus filmes nazistas. E seu retrato dos Nuba vai mais longe que seus filmes ao evocar um aspecto do ideal fascista: uma sociedade na qual as mulheres são meras procriadoras e auxiliares, excluídas de todas as funções cerimoniais, e representam uma ameaça à integridade e força dos homens.

Artistas que tornaram-se fascistas / estética fascista.

Estéticas fascistas nascem de (e justificam) uma preocupação com situações de controle, de comportamento submisso, de esforço extravagante e de resistência à dor; elas endossam duas situações aparentemente opostas: a egomania e a servidão. As relações de dominação e de escravização tomam a forma de uma pompa característica: a manipulação de grupos de pessoas; a transformação de pessoas em coisas; a multiplicação ou reprodução das coisas; e o agrupamento de pessoas/coisas ao redor de uma força toda-poderosa e hipnótica ou de uma figura-líder. A dramaturgia fascista concentra-se nas transações orgiásticas entre forças poderosas e seus fantoches, uniformemente trajadas e exibidas em números sempre crescentes. Sua coreografia alterna-se de um movimento incessante a uma postura congelada, estática e "viril". A arte fascista glorifica a capitulação, exalta a irracionalidade e toma a morte fascisnante.

Essa arte é dificilmente confinada a trabalhos rotulados como fascistas ou produzida sob governos fascistas. (Só para citar alguns filmes: Fantasia, de Walt Disney; The Gang's All Here (Entre a loura e a morena, com Carmen Miranda e Alice Faye) de Busby Berkeley, e o 2001 de Kubrick também exemplificam admiravelmente certas estruturas formais e temas da arte fascista. E, naturalmente, aspectos da arte fascista proliferam na arte oficial de países comunistas - que sempre se apresenta sob a bandeira do realismo, aos passo que a arte fascista despreza o realismo em nome do "idealismo". Os gostos pelo monumental e pela reverência massiva ao heróis são comuns, tanto à arte fascistas quanto à comunista, refletindo a visão de todos os regimes totalitários de que a arte tem a função de "imortalizar" seus líderes e doutrinas. A apresentação do movimento em padrões grandiosos e rígidos é um outro elemento comum, pois tal coreografia reflete a própria unidade do Estado. As massas são feitas para tomarem forma a serem desenhadas. Daí as manifestações atléticas de massa, exibições coreografados de corpos, serem atividades valorizadas em todos os países totalitários; e a arte do ginasta, tão popular agora na Europa Oriental, também evoca aspectos recorrentes da estética fascista: o refreamento ou confinamento da força; a precisão militar.

A arte fascista exibe uma estética utópica - a da perfeição física.

O ideal fascista é transformar a energia sexual numa força "espiritual", para o benefício da comunidade.

A estética fascista é baseada no refreamento de forças vitais; os movimentos são restritos, contraídos e reprimidos.

A arte nazista é reacionária, desafiadoramente desengajada da corrente principal das conquistas realizadas no campo das artes deste século. 

Para um público não sofisticado na Alemanha, a atração da arte nazista talvez se desse porque ela era simples, figurativa, emocional; não-intelectual; um alívio às exigentes complexidades da arte modernista. 

Ninguém que faz filme hoje em dia faz alusão a Riefenstahl, enquanto muitos diretores de cinema consideram Dziga Vertov como um incitamento inexaurível e uma fonte de ideias sobre a linguagem cinematográfica.

Com o trabalho de Riefenstahl, o truque é filtrar a ideologia política nociva para fora de seus filmes, guardando apenas os méritos "estéticos". Elogiar os filmes de Vertov pressupõe o conhecimento de que ele era uma pessoa atraente e um artista-pensador inteligente e original, eventualmente esmagado pela ditadura a que servia. Riefenstahl nem mesmo é uma pensadora.

O nacionalsocialismo - e, de um modo mais geral, o fascismo - também representa um ideal, ou melhor, ideais que persistem ainda hoje, sob outras bandeiras: o ideal da vida como arte, o culto à beleza, o fetichismo da coragem, a dissolução da alienação em sentimentos extáticos de comunidade; o repúdio ao intelecto, a família do homem (sob a paternidade de líderes).

A exaltação da comunidade não exclui a busca da liderança absoluta; ao contrário, pode inevitavelmente levar a ela.

Sem uma perspectiva histórica, tal compreensão prepara o caminho para uma aceitação curiosamente distraída da propaganda de todos os tipos de sentimentos destrutivos - sentimentos esses que as pessoas implicadas estão se recusando a encarar seriamente. 

A SS foi planejada como uma comunidade militar de elite supremamente violenta.

Os uniformes da SS eram justos, pesados, rijos, e incluíam luvas para confinar as mãos e botas que faziam as pernas e os pés parecerem pesados, encerrados, obrigando o portador a ficar ereto. 

Hitler considerava a liderança como domínio sexual das massas femininas, como estupro.

Entre o sadomasoquismo e o fascismo há uma ligação natural.

A coqueluche por insígnas fascistas indica algo bem diferente: uma resposta a uma liberdade opressiva de escolha no sexo (e em outras questões), a um grau insuportável de individualidade; o ensaio da escravização.

Nunca a relação entre mestres e escravos foi tão conscientemente estetizada.

Susan Sontag
1933 - 2004