Quando o fantástico me visita (às vezes sou eu o visitante e meus contos foram nascendo dessa boa educação recíproca ao longo de vinte anos), lembro-me sempre da admirável passagem de Victor Hugo: "Ninguém ignora o que é o ponto vélico de um navio; lugar de convergência, ponto de intersecção misterioso até para o construtor do barco, no qual se somam as forças dispersas e todo o velame desfraldado". Estou convencido de que esta manhã Teodoro olhava um ponto vélico no ar. Não é difícil encontrá-los e até provocá-los, mas uma condição é necessária: fazer uma ideia muito especial das heterogeneidades admissíveis na convergência, não ter medo do encontro fortuito (que não o será) de um guarda-chuva com uma máquina de costura. O fantástico força uma crosta aparente, e por isso lembra o ponto vélico; há algo que encosta o ombro para nos tirar dos eixos. Sempre soube que as grandes surpresas nos esperam ali onde tivermos aprendido por fim a não nos escandalizarmos diante das rupturas de ordem. Os únicos que crêem verdadeiramente nos fantasmas são os próprios fantasmas, como o prova o famoso diálogo na galeria de quadros. Se em qualquer esfera do fantástico chegássemos a essa naturalidade, Teodoro já não seria o único a ficar quieto, pobre animalzinho, olhando o que ainda não sabemos ver.
Julio Cortázar
1914 - 1984
Trad.: Davi Arrigucci Jr.
e João A. Barbosa
