27.2.23

Scorched Earth


Costumes e comportamentos sociais que derivavam de um entrelaçamento entre humanos e animais, insetos, plantas, florestas e rios foram eliminados ou marginalizados. Um mundo da vida cujos ritmos sociais eram originalmente moldados por eventos como a mudança das estações, as fases da lua, a migração dos pássaros, a oscilação do dia e da noite, a alternância entre sono e vigília e a sequência dos festivais, deixou, no entanto, vestígios nas atividades aparentemente insignificantes da vida diária.

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No presente, há mais de 500 mil pedreiras e escavações ativas que empregam mais de 45 milhões de pessoas e nas quais são extraídos não só minérios mas também a areia e o cascalho necessários para a construção de novas estradas e megacidades. A mina de Grasberg, na província indonésia de Papua, uma das maiores e mais lucrativas do mundo, é um bom exemplo: a cratera escavada mede cerca de 30km quadrados, e mais de 700 mil toneladas de rejeitos são despejadas nos rios locais a cada semana. Sozinha, emprega 23 mil trabalhadores que ganham menos de dez reais por hora. Desde os anos 1990, vários milhares de rebeldes separatistas papuanos, mineiros grevistas e ambientalistas foram assassinados por seguranças particulares. A maior parte das amplas regiões do planalto e de floresta tropical da área foi contaminada de modo irreversível pelo escoamento de substâncias tóxicas. E tudo isso para atender às demandas de cobre dos fabricantes de eletrônicos, sobretudo para a produção dos componentes-chave do Green New Deal - painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos - mas também dos chips utilizados em supercomputadores e da fiação de casas "inteligentes" movidas pela Internet das Coisas (IOT). Fios de cobre ainda são o condutor preferido para a geração e transmissão de energia elétrica em escala industrial e para a maior parte das telecomunicaçãoes. A proprietária da mina de Grasberg, a empresa Freeport-McMoRan, administra dezenas de minas similarmente destrutivas ao redor do mundo, como no Peru, no Chile, na Bolívia, na Mauritânia, na África do Sul, na Zâmbia e no Novo México.

As operações de centenas de outras empresas que saqueiam o lítio destinado às baterias veiculares, o neodímio das turbinas eólicas, o coltan dos drones militares, o níquel, o molibdênio e outros elementos necessários para dispositivos e redes digitais ampliam ainda mais essa escala incomensurável de extração sociocida, sobretudo no Sul global. 


No Peru, uma companhia chinesa se dedica a um processo de décadas que tem como objetivo literalmente desmontar o monte Toromocho, de 4.500 metros de altitude, a fim de recuperar vários bilhões de toneladas de minérios - outro pequeno exemplo da canibalização capitalista do planeta a serviço do prolongamento de uma "era digital" em implosão. Os métodos tóxicos de extração de metais raros causam prejuízos irreparáveis ao solo, à água e aos seres humanos; ainda assim, a maior parte dos donos de smartphones, usuários de redes sociais e viciados na Netflix nos Estados Unidos não fazem a ideia de onde ficam Papua ou o Peru nem se interessam pela vida dos povos que lá habitam. Os defensores do capitalismo verde e todo um espectro de coisas "renováveis" oferecem garantias fraudulentas de que, caso fiscalizada, a extração de recursos poderia ocorrer sem a destruição de habitats, ecossistemas e comunidades humanas, mas sabem que isso jamais acontecerá. A história mostrou de forma definitiva que o capitalismo é inconciliável com qualquer tipo de conservação ou preservação. À medida que a energia térmica se difunde pela biosfera em níveis incompatíveis com a manutenção da vida, é importante dizer o óbvio: esses minérios precisam continuar no solo, e a tarefa urgente que se apresenta é a da redução radical da necessidade de energia ilimitada e descartáveis que rodeiam nossas vidas e envenenam a Terra.

Jonathan Crary
Trad.: Humberto do Amaral