A beleza, juntamente com a felicidade, tem sido uma das mais excitantes promessas modernas e um dos ideais que instigam o inquieto espírito moderno. Sua história pode ser considerada paradigmática da origem e desenvolvimento da líquido-moderna cultura do lixo.
Quando os destinos mudam de lugar ou perdem o encanto mais rápido que o trajeto que as pernas podem fazer, que os carros podem percorrer e os aviões voar, manter-se em movimento importa mais que o destino. Não tornar um hábito coisa alguma que se pratique no momento, não estar preso pelo legado do próprio passado, usar a identidade atual como se usa uma camisa que pode ser prontamente trocada quando em desuso ou fora de moda, rejeitar as lições do passado e abandonar antigas habilidades sem inibição nem remorso - estes se tornaram os selos da atual vida líquido-moderna e os atributos da racionalidade correspondente. A cultura líquido-moderna não mais percebe como uma cultura do saber e da acumulação, como aquelas registradas nos relatos de historiadores e etnógrafos. Em vez disso, vivemos uma cultura do desengajamento, da descontinuidade e do esquecimento.
Nesse tipo de cultura, e nas estratégias de política de vida que ela valoriza e promove, não há muito espaço para ideais, menos ainda para os que estimulam um esforço de longo prazo, contínuo e sustentado, composto de pequenos passos que levam com segurança na direção de resultados reconhecidamente distantes. E não há espaço algum para um ideal de perfeição cujo encanto derive da promessa do fim da escolha, da mudança, do aperfeiçoamento. Para ser mais preciso, esse ideal ainda pode pairar sobre o mundo e a vida de um homem ou mulher líquido-moderno - mas somente como um sonho, um sonho que não mais se espera possa se tornar realidade e que raramente se deseja ver transformado em realidade; um sonho noturno que quase se dissipa à luz do dia.
Naquilo que George Steiner chamou de "cultura do cassino", todo produto cultural é calculado para o máximo impacto (ou seja, para dissolver, afastar e remover os produtos culturais de ontem) e a obsolescência instantânea (quer dizer, abreviar a distância entre a novidade e a lata do lixo, ter cuidado em não abusar da hospitalidade, e liberar rapidamente o palco para que nada fique no caminho dos produtos culturais de amanhã). Os artistas, que antes identificavam o valor de seu trabalho com a duração eterna e assim lutavam por uma perfeição que pusesse fim à mudança e lhes garantisse a eternidade, agora se distinguem produzindo instalações destinadas a serem desmontadas quando terminar a exposição, promovendo happenings que se encerram no momento em que os atores resolvem sair em outra direção, revestindo pontes até que o trânsito seja restaurado e embrulhando prédios inacabados até que se retomem os trabalhos de construção, e criando "esculturas espaciais" que convidam a natureza a cobrar o seu tributo e fornecer mais uma prova, se é que isso seria necessário, da absurda brevidade de todos os feitos humanos e da transitoriedade de seus rastros. Não se supõe - e muito menos se estimula - que alguém se lembre qual foi o papo do momento de ontem, embora não se suponha - e muito menos se permita - que alguém possa evitar o papo do momento de hoje.
Para ser admitido na cultura do cassino da era líquido-moderna, é preciso ser despretensioso e onívoro, abster-se de definir com muita rigidez a sua preferência e de aderir a alguma por muito tempo, mostrar-se pronto a provar e aproveitar tudo que esteja atualmente em oferta e ser pouco coerente e estável em suas predileções. A rejeição do novo é de mau gosto, e quem rejeita os riscos se arrisca a ser rejeitado. Mas igualmente incorreta e perigosa é a lealdade ao antigo. E o envelhecimento do novo, antes um longo processo, leva cada vez menos tempo. O "novo" tende a ficar "velho", a ser alcançado e ultrapassado, instantaneamente.
