3.4.24

As palavras


Muito precoce, Sartre havia descoberto a luta de classes:

Naquela época, meu avô se prenunciava apenas numa estranha desconfiança: quando recebia, por ordem postal, o montante de seus direitos autorais, erguia os braços para o céu gritando que lhe estavam cortando a garganta, ou então entrava no aposento de minha avó e declarava sombriamente: "Meu editor me assalta como numa floresta”. Eu descobria, estupefato, a exploração do homem pelo homem. Sem essa abominação, felizmente circunscrita, o mundo, no entanto, apresentar-se-ia bem feito: os patrões davam segundo suas capacidades aos operários segundo seus méritos. Por que era preciso que os editores, esses vampiros, o descompusessem, bebendo o sangue de meu pobre avô? Meu respeito cresceu por aquele santo homem cujo devotamento não obtinha recompensa: fui preparado desde cedo a tratar o magistério como um sacerdócio e a literatura como uma paixão.

Jean-Paul Sartre