O pináculo da criação artística é alcançado quando a espontaneidade e a inventividade do fluxo-fantasia se fundem de tal maneira com o conhecimento das regularidades do material e com o julgamento da consciência do artista, que as fantasias inovadoras surgem como por si mesmas, satisfazendo as demandas tanto do material, como da consciência.
Mozart é um representante deste tipo em sua forma mais clara. Em seu caso, a espontaneidade do fluxo-fantasia em grande parte permanecia íntegra quando convertida em música. Muitas vezes as invenções musicais fluíam dele como os sonhos emanam de uma pessoa que dorme.
O fato de que em tais momentos uma obra se componha por si mesma, por assim dizer, não resultava apenas da fusão de seu fluxo-fantasia com seu conhecimento artesanal do timbre e do alcance dos instrumentos de sua época ou das formas tradicionais de música. Surgia também da união de ambos, conhecimento e fantasia, a uma consciência artística altamente desenvolvida e sensível. O que sentimos ser a perfeição de muitas de suas obras deve-se igualmente à sua rica imaginação, ao seu conhecimento muito amplo dos componentes da música e à espontaneidade de sua consciência musical. Não obstante sejam muitas as inovações de sua fantasia musical, nunca escolheu uma nota errada. Conhecia com "certeza sonâmbula" quais figuras sonoras — dentro da estrutura do padrão social em que trabalhava — se ajustavam à dinâmica imanente da música que estava escrevendo, e quais devia rejeitar.
Um amplo conhecimento musical e uma consciência altamente desenvolvida estavam indissoluvelmente ligados a sua criação musical.
Norbert Elias
1897 - 1990
