Como se articula a admissão da pobreza no campo político? Como os homens que fizeram a Revolução Francesa transformaram o espetáculo da multidão de miseráveis num pressuposto da ação política e da legitimidade de qualquer governo? O que tinha permitido no calor da Revolução essa solidariedade inquebrantável entre alguns dos seus agentes e o homem pobre? Que espírito da tradição política francesa impregnava e movia esses revolucionários a tal ponto que o seu dever político plenamente racional se expressa na solidariedade em relação ao próximo? A compaixão, experiência exclusivamente pessoal, totalmente privada, é lançada como móvel da política.
É bem verdade que a indiferença em relação à pobreza havia desaparecido no século XVIII, e com Rousseau, a repugnância inata ante o sofrimento alheio fora arrancada dos recônditos da intimidade pessoal. Esse sentimento novo, a compaixão, é a chave para se compreender a mudança na própria concepção de povo no decorrer da Revolução Francesa: não mais só os cidadãos, mas eles somados aos pobres. A teoria política de Rousseau já havia transformado a compaixão num dever político plenamente racional, e os revolucionários foram capazes de transformar esse dever numa solidariedade fundada na comunhão de interesses com os oprimidos e explorados.
Maria Stella M. Bresciani
