12.3.26

A garota da banda


Não é que nosso apartamento na Lafayette estivesse apertado, simplesmente tinha chegado a hora de uma mudança. Qualquer um que sai de Nova York sabe que quando a cidade já não funciona mais para você como antes a única pergunta é para onde ir. Portland, Oregon, Raleigh-Durham, Carolina do Norte. Nós consideramos esses dois lugares e também olhamos o Brooklyn - Carroll Gardens e Cobble Hill -, mas os preços desses bairros eram acima do que queríamos pagar, e eu não queria morar mais longe, nos subúrbios de Nova York.

Eu também estava pensando no futuro. Eu não queria criar a Coco na Lafayette Street. Não ao lado do Soho, não com hordas de modelos esqueléticas em cada calçada do shopping a céu aberto de consumismo de alto padrão. A cultura das babás de Nova York também me incomodava, com os pais trabalhando o dia inteiro para poder pagar para uma desconhecida tomar conta de uma criança que eles nunca conseguem ver. Os gastos e a inconveniência e, mais tarde, as escolas e provas e inscrições e o microgerenciamento de seu filho em uma cidade onde nenhuma criança pode andar sozinha, onde não há jardins nem vizinhos de verdade - tudo isso foram fatores em nossa decisão de ir.

Northampton, Massachusetts, era há muito tempo um mercado secundário para nós. Era uma cidade de estudantes. O Smith era lá, e bem perto ficavam as universidades Amherst, U Mass Amherst, Hampshire, Mount Holyoke. Williams também ficava a uma hora de viagem. Era cheia de pessoas da cidade de Nova York, então não parecia um subúrbio tradicional ou uma cidade-dormitório. Northampton é também uma das cidades pequenas mais liberais dos Estados Unidos. A rua principal era um borrão pontuado por cafés, estúdios de tatuagem, restaurantes vegetarianos, estúdios de yoga e consultórios de terapeutas. Implícita à decisão de mudar para lá estava a esperança de que talvez eu, Thurston e Coco pudéssemos ficar mais centrados na família, mais unidos, menos dispersos. Para facilitar as coisas, tínhamos bons amigos na região, como Byron Coley e sua família, e J Mascis, que morava em Amherst.

Mas mudar da cidade para o interior ainda parecia exótico. Um corretor nos mostrou alguns imóveis, a maior parte eram casas de fazenda com quartos retangulares sem iluminação e tetos que batiam em nossas cabeças. Thurston foi criado em uma casa extremamente velha, com tetos tão baixo que ele não conseguia ficar em pé em seu próprio quarto. Quando encontramos à venda uma casa de tijolos grande e espaçosa, com três andares e um quintal, perto do campus do Smith College, nós corremos para comprá-la, ou melhor, Thurston correu. Ele abordava as coisas com um excesso de confiança infantil, ao contrário de mim, que recuava e questionava mais as coisas. No final, usando o dinheiro que eu tinha ganho com a venda da X-Girl, nós compramos a casa. Nós mantivemos o apartamento da Lafayette Street, mas agora éramos habitantes da Nova Inglaterra.

Antes mesmo da gente mudar, um jornal local, o Gazette, publicou uma matéria de capa sobre nossa mudança para Northampton, o que me incomodou, porque agora todo mundo na cidade sabia onde morávamos. Uma noite, eu me lembro, alguém deixou uma fita demo na varanda da entrada. Outra noite, dois alunos do Smith que moravam do outro lado da rua grudaram um bilhete em nossa porta perguntando se eu e a Julie Cafritz poderíamos tocar em um programa de rádio do Smith College. Julie e seu marido, Bob, haviam se mudado para a região alguns anos depois que a gente. Eu e Julie acabamos participando do programa, e nos divertimos.

Em comparação com Nova York, tudo parecia mais barato em Massachusetts, e a casa nos deu uma sensação inteiramente nova de espaço e liberdade. O porão ideal para tocar, e também dava para guardar a imensa coleção de LPs do Thurston. Com o tempo, foi se enchendo de livros, fitas cassete e VHS, além de vários materiais de arquivo e merchandise do Sonic Youth, dividindo espaço com os móveis de família que herdei dos meus pais, assim como outras lembranças, incluindo bonecos de argila que fiz quando era adolescente.

Com o passar do tempo, acabei gostando de morar em Northampton. Era uma cidade muito mais ligada a Nova York do que a Boston - as pessoas liam o New York Times, não o Boston Globe -, embora Nova York estivesse a três horas de viagem ao sul, enquanto Boston ficava a menos de cento e cinquenta quilômetros para o leste. Era também rural e bonita, uma cidade pequena, com a sofisticação de uma cidade maior. A última coisa que eu queria no mundo era morar em um subúrbio, mas com seus estudantes, acadêmicos, hippies, fazendeiros, pessoas vindas de Nova York e velhos yankees, Northampton era algo completamente diferente. Alguns anos depois que eu e Thurston nos mudamos, encontrei Lawrence Weiner, o artista, em uma exposição em Nova York. "Você ainda mora em Massachussets?", ele perguntou. "Então por que está aqui? Você não precisa de um passaporte para sair?" A ideia que Lawrence tiha de Northampton, e de toda a Nova Inglaterra, era de que os puritanos ainda mandavam em tudo. Eu ri.

Qualquer fantasia que eu tinha sobre morar em Northampton não conseguia me fazer superar o medo que todo ex-nova-iorquino sente de estar cercado pela tranquilidade e a conformidade. Mas nenhum lugar pode proporcionar tudo. Eu fico igualmente desconfiada dos estalos de energia que Nova York oferece, que fragmentam e esgotam as pessoas. Morar lá dá uma sensação falsa de autoimportância e autoconfiança. Se você é muito ansioso, a cidade trabalha sua ansiedade por você, te deixando estranhamente calmo.

Kim Gordon