15.3.26

Os cus de Judas


A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesitações de pirilampos: o amor barato e rápido em compartimentos abafados, aclarados por pavios indecisos de petróleo que coloriam as paredes de barro de uma ilusão de capelas. Chegava-se de bisnaga antivenérea no bolso e aplicava-se a pomada através da braguilha aberta à maneira de uma vulva de pano, sob o olhar indiferente das mulheres de dentes serrados em triângulo, acocoradas na cama no alheamento de perfil de certos retratos de Picasso, em cuja curva  dos lábios flutuam Guernicas desdenhosas. No mesmo colchão dormiam, em regra, os filhos, as galinhas e algum antepassado decrépito perdido em pesadelos de múmia, rosnando os hieróglifos dos seus sonhos. O tenente fornicava de pala do boné para trás e pistola à cinta, com o impedido de espingarda em riste a vigiar as redondezas, o oficial de operações mandou vir uma máquina de costura do Luso e cosia bainhas de calça de madrugada ao lado de uma negra esplêndida, de enérgicos seios pendentes como os da loba de Roma, e o capitão das damas, instalado ao volante, pedia a raparigas impúberes que o masturbassem, oferecendo em troca cartuchinhos de rebuçados de hortelâ-pimenta: o branco chegou com um chicote, cantava o milícia na viola, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo.

Lobo Antunes
1942 - 2026