1.3.26

Recessão no Nordeste, quem trabalha está ameacado de morrer à noite, e os bolsões de calor aumentam, só o guarda-chuva de seda preta resiste


Havia outra situação estranha, curiosa. As regiões de quentura. Verdadeiros bolsões em que era impossível ficar, passar, atravessar. Você ia andando, mergulhava naquele calor insuportável. Corria, tentando escapar, porque às vezes o bolsão era pequeno, a gente se livrava logo. No fundo, era um divertimento. Dramático, mas engraçado, porque subitamente alguém a sua frente punha-se a perecer, gritar, voltava correndo. Voltavam todos, sabia-se que era um bolsão. Mais tarde, quando fizemos a grande travessia, vimos que os bolsões existiam por toda parte. Eram imensos, em certas regiões, estendiam-se por quilômetros. Até que chegou o Tempo Intolerável. Não dava mais para se expor ao sol. Você saía à rua, em alguns segundos tinha o rosto depilado, a pele descascava, a queimadura retorcia. A luz lambia como raio laser. Como o tempo, o perigo nos bolsões de soalheira, como o povo chamava, aumentou terrivelmente. Quem caía dentro, não se salvava. O sol atravessava como verruma, matava. Ao menos, era a imagem que a gente tinha, porque a pessoa dava um berro enorme, apertava a cabeça com as duas mãos, o olho saltava, a boca se abria em busca de ar. Num segundo, o infeliz caía, duro, sem contorcer. A gente via, a alguns passos, a pessoa murchando, secando, desidratada, a pele se desgrudava como folha seca, mais um pouco e os ossos dissolviam. Não acredita, não é? Nunca ouviu falar disso. Ninguém falou, a imprensa jamais noticiou. Os cientistas foram estudar e ficaram perplexos. Apenas conseguiram determinar que os bolses aumentavam gradualmente, em porcentagem semanal. Fizeram mapas, a população recebeu gráficos, mudaram o trânsito das ruas, as pessoas se deslocaram, alteraram estradas. As crianças brincavam, empurrando cachorros e gatos para dentro dos bolsões. Até que os animais se transformaram em comida e não se deixava mais desperdiça-los. Os Civiltares utilizavam os bolsões como castigo. Jogavam presos, desafetos, inimigos, subversivos, na Soalheira e esperavam. Desaparecido o corpo, sem testemunhas, não há crime, diz a lei. Para conseguir confissões ameaçavam as pessoas, no limite dos bolsões: Fala, ou te jogo aí. Falavam. Claro, os bolsões à noite desapareciam. Deve ser aquele fenômeno comum ao deserto. Quente de dia, frio de noite. As famílias andavam pelas ruas, cercanias da cidade, em busca das cinzas de parentes que imaginavam consumidos. Não havia como reconhecer quem. Guiavam-se por conhecimentos relativos, baseando-se em dados frágeis: a mãe que tinha mandando o filho à venda, recomendando cuidado com o bolsão da praça. O pai que tinha ido ver um leilão de carne-seca nos arrabaldes. A filha que tinha ido à loja. A tia que tentava visitar uma avó. Namorada querendo se encontrar com namorado. Procura inútil, todo mundo sabia. Ninguém seguro que estava levando para casa as cinzas certas. Podia ser um bezerro morto, se bem que bezerro fosse coisa rara, preciosa. Na verdade, ninguém suportava ficar dentro de casa. Saíam à noite e se encontravam. Os amigos ajudavam na procura. Ninguém saía só, formavam-se grandes grupos, com medo de ataques dos Caçadores Implacáveis de Empregados. Passeios temerosos, as pessoas sobressaltadas. Se alguém avistava um grupo, desviava-se logo. E o que se via, se pudesse ser visto, do alto, era quase uma balé, gente indo, vindo, desviando, voltando, encontrando outro grupo, se afastando, rodeando, andando de costas, girando. Maluquice, seu! Alguém suporta tensão destas? Até que ninguém mais saiu. De dia, ou de noite. Nem aqueles que tinham guarda-chuvas de seda preta. Não confiavam na invulnerabilidade. Também não adiantava sair. Estava tudo fechado. O padeiro não fazia pão, não existia farinha, nem mesmo a factícia. Os bares esgotaram estoques. A farmácia não tinha nem comprimido. Os fornecedores não chegavam, previam que eram apanhados pelos bolsões, em algum ponto da estrada. Os açudes esvaziaram. Quem trabalhava podia se abastecer na subsistência das fábricas, no entanto, mesmo estas, apesar de muito estoque, começaram a esvaziar. As pessoas se divertiam um pouco jogando pelas janelas os restos de comida, se é que sobrava, o lixo das casas, os papéis, bobaginhas. As vezes, o lixo se incendiava em pleno ar, antes de cair. E então, não houve mais possibilidade de viver. O povo resolveu fugir. A vida intolerável. Sabe o que a gente fazia quando estava apertado, barriga solta? Esperava a noite, ia lá fora. No dia seguinte, o sol incinerava. As noites eram escuras, a energia tinha se esgotado. Verdade, chegaram ao Nordeste alguns geradores de energia solar. Sabe com quem ficaram, não sabe? Com o que sobrou dos coronéis, das famílias que mandavam, daqueles ligados às Multinter. Puxa, você deve estar pensando, não havia mais nada de bom?

Ignácio de Loyola Brandão