Começou, como costumam começar tais coisas: no lodo de charcos despercebidos, na escuridão de luas eclipsadas. Tudo começou com um desejo estrangulador de ar.
O tanque era lugar de maus cheiro e corrupção, de fétidos olores e peixes que queriam oxigênio, respirando por laboriosas guelras. Por vezes, o círculo de água, em lenta contração, deixava grupos de peixes que deslizavam desesperadamente, para escapar ao sol, mas que morriam na lama gorda e quente. Era um lugar de vida inferior. E foi nele que começou o cérebro humano.
Viveram estranhos focinhos naquelas águas, estranhos barbilhões que fossavam a lama do fundo, e passou o tempo - três milhões de anos - mas acima de tudo, creio eu, o lodo. Durante o dia a temperatura no mundo fora do tanque se elevava a uma espantosa intensidade; de noite, o sol mergulhava num vermelho fumegante. Em progressão incessante, nuvens de pó passavam por um ermo cujas plantas eram as plantas de havia muito tempo, muito tempo, as quais, sem folhas, esquisitas e luras, vivia à beira da água, enquanto, sobre grandes extensões de planaltos desnudos, os ventos sopravam com força tal que as pedras adquiriam o polimento de espelhos. Nada havia para manter a terra no lugar. Os ventos uivavam, rolavam nuvens de pó, enquanto breves torrentes regurgitantes de aluvião rumavam para o mar. Era um época de entontecedores contrastes, uma época de mudança.
Na superfície oleosa do tanque, de vez em quando um focinho se projetava para cima, aspirava um pouco de ar grunhindo estranhamente, e recuava para o fundo. O tanque estava condenado, a água era estagnada, oxigênio quase não havia, mas a criatura não queria morrer. Podia respirar ar diretamente por um pequeno pulmão acessório, e podia caminhar. Em todo aquele cenário sem vida e exótico, era a coisa única que podia. Caminhava raramente e sob protestos, mas não era de surpreender. Era um peixe aquela criatura.
Com a passagem dos dias, o tanque tornou-se uma poça, mas o Focinho sobrevivia. Uma noite, o orvalho e o frio cobriram o leito vazio do rio. Quando o sol despontou na manhã seguinte, o tanque não passava de um vazio de lama rachada, mas o Focinho lá não se encontrava. Fora-se. Rio abaixo havia outras poças. Respirando ar por algumas horas, avançou lentamente sobre tocos de pesadas barbatanas.
Alguma coisa fervilhava no cérebro do Focinho, que já não era inteiramente peixe. Marcara-o a lama. É mister um zoólogo especializado em superfícies de pântano e maré para falar sobre a vida; é nesse domínio que os vivos passam por grandes extremos, é aí que os falhados na água, levados ao desespero, fazem tentativas num novo elemento.
Não era realmente um peixe excepcional, mas lutava por manter-se vivo num ambiente privado de oxigênio, ruidoso, incômodo. Mas o Focinho era um crossopterígio de água doce, para dar-lhe o verdadeiro nome, e, apesar de desajeitado e de caminhar com dificuldade, algo sucedera atrás dos seus olhos. A lama iniciara o seu trabalho.
Será interessante considerar que espécie de criaturas poderíamos ser nós, remotos descendentes do Focinho, não fora o charco esverdeado do qual ele provinha. Teríamos sido, provavelmente, insetos mamíferos, de cérebro sólido, com neurônios adaptados a reações mecânicas, transcorrendo a nossa vida com perfeição de relógio bonito, intricado, sem inteligência. Mais provavelmente ainda, nunca teríamos existido. Tudo foi obra do Focinho e da lama. Talvez aí também, no meio de peixes putrescentes e fogos-fátuos azulados, noturnos, se tenha movido o eterno mistério. Duas bolhas apenas, dois balõezinhos de paredes espessas, no fim do pequenino cérebro do Focinho. Era o aparecimento dos hemisférios cerebrais.
Dentre todas as experiências naquele mundo gotejante, cheio de lama, uma foi vital: era necessário nutrir o cérebro. Os tecidos dos nervos são insaciáveis de oxigênio.
O cérebro era constituído por um tubo de paredes delgadas nutrido por meio de ambas as superfícies, só existindo como coisa de paredes delgadas permeadas de oxigênio. O Focinho vivia de uma bolha, de duas bolhas no cérebro.
É o cérebro dos insetos, dos peixes de hoje, de alguns répteis e de todas as aves, e assinala sempre o aparecimento de elaborados padrões de instinto e o fim do pensamento.
Por dois modos se procura a porta: nos charcos dos rios e nas plataformas de maré dos estuários pelos quais os rios chegam ao mar.
Em todos os casos a primeira aventura na temida atmosfera parece haver sido em grande parte determinada pelo inexorável amontoamento de inimigos e pela retirada, cada vez maior, para situações marginais em que se esgotava a reserva de oxigênio. Por fim, na ousada escolha das margens pantanosas, ou na luta por alimento nas plataformas de maré, a terra passa a constituir lar.
Teríamos encarado o seu pulmão de bexiga de ar, as suas barbatanas curtas e morosas, e a sua característica habilidade de ziguezaguear terra acima, como adaptações especializadas para um recanto ambiental particularmente restrito em águas continentais estagnadas. Teríamos pensado em termos de água e repelido o Focinho como interessante malogro na linha principal da evolução progressiva, escapando dos inimigos e sobrevivendo com êxito apenas nas vizinhanças tenebrosas e marginais desprezadas pelos teleósteos destinados a dominar os mares e todas as águas vivas.
O Focinho foi o primeiro vertebrado a emergir completamente da membrana da água para uma nova dimensão.
Não faz muito, li um livro em que um ilustre cientista falava alegremente de uns dez bilhões de anos futuros que nos restam, indicando, com felicidade, o que o homem poderia realizar nesse período. Peixes no mar, pensei novamente, e aves no ar. Não é de admirar que o meu explorador tivesse um momento de tortura ao avistar os saltadores de lama com as suas reservas mentais e falta de promessas. Existe algo errado em a nossa visão do mundo, ainda ptolemaica, embora ninguém mais acredite que o Sol gire em torno da Terra.
Ensinamos o passado, enxergamos para trás, no tempo, mais do que qualquer outra raça anterior a nós, mas paramos no presente, ou, na melhor das hipóteses, projetamos para bem dentro do futuro versões idealizadas de nós próprios. Talvez inevitavelmente, vemos todo o longo caminho atrás de nós apenas com olhos humanos. Vemos a nós próprios como culminância e fim, e se é que consideramos a nossa passagem, cremos que a luz do Sol irá conosco deixando escura a Terra. Somos o fim. Para nós, ergueram-se e desabaram continentes, para nós foram dominados o ar e as águas, para nós pulsou e tornou-se mais intricada a grande teia viva.
Verifiquei que havia peixes atuais que respiravam o ar, não por um pulmão senão pelo estômago ou por estranhas câmaras onde deveriam estar as guelras, ou que respiravam como respirava outrora o Focinho. Verifiquei que alguns rastejavam pelos campos ao cair da noite perseguindo insetos, ou dormiam na relva ao lado de tanques e que se afogavam, mantidos sob a água, como se afogariam os próprios homens.
Dentre todos esses peixes, o mais estranho é talvez o periophthalmus, que escala as árvores com as suas barbatanas e persegue insetos; cata vermes como qualquer pássaro nas plataformas de maré; vê como veem as coisas da terra, e sobretudo se esquiva e evade com uma curiosa insolência que sugere mais a terra do que o mar.
Talvez nos elucide o velho percurso através do charco. Somos um dos muitos aspectos da coisa chamada Vida; não somos a sua imagem perfeita, porque ela não tem imagem salvo a Vida, e a vida é múltipla e emergente no fluxo do tempo.
