4.4.18

o verdadeiro preço das apostilhas


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Como professor, eu estava sempre sugerindo aos alunos a aquisição de livros, a organização de uma biblioteca, mesmo modesta - sugestão quase sempre acolhida com indiferença. Ao mesmo tempo, via as mesas de certos professores cheias de apostilhas, contendo, mimeografados, excertos de obras literárias e teóricas, para distribuição à classe. Assim é que, ainda como membro do Conselho Superior, propus que se dirigisse a todo o corpo docente uma circular advertindo contra aquela prática e mostrando a sua inconveniência. Embora aprovada, a circular só viria a ser emitida quase um ano depois, quando eu próprio voltei ao assunto.

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Deixo bem claro: não acho que as apostilhas afastem os estudantes dos livros. Elas são a expressão natural de um povo escassamente afeito à leitura e que por isso não se afeiçoou ao livro nem o respeita. O resultado negativo das apostilhas, portanto, não seria o de criar no educando a noção de que os livros, em última análise, são inúteis, deles só se aproveitando algumas páginas (as que as apostilhas, sabiamente, transcrevem), e sim a de fortalecer uma carência já arraigada -  a falta de amor aos livros, de apreço aos livros.

O papel do professor, seja em que nível for, não é nem deve ser apenas ensinar determinada matéria. O professor não deve ser um mero transmissor de conhecimento, mas um inseminador de cultura, um civilizador. [...] Pode-se mesmo dizer, sem exagero, que o estudo baseado em apostilhas não merece tal nome. É um simulacro de estudo, uma falcatrua pedagógica, uma aprendizagem bastarda. Trata-se, antes de tudo, de uma forma pervertida de apreciar o esforço intelectual.

[...] O que se procura formar é uma mente passiva, sem agilidade e sem autonomia, um elemento preparado para receber mais tarde, no mundo das comunicações de massa e da opressão, o frango desossado, a sopa feita, a feijoada feita, a roupa feita, o noticiário feito, a constituição feita.

E se o professor assim o faz, e são muitos, inúmeros, os que entram nessa onda funesta, é que ele, por sua vez, é um deseducado e, como tal, um confirmador, um propagador da incultura. Tivesse, diante dos livros, uma atitude reverente, resultado de um convívio extenso e profundo com eles, fosse realmente um servo do saber, não um assalariado repetidor de fórmulas, um cúmplice do aviltamento intelectual a que vem sendo submetida a massa estudantil brasileira, andaria vendendo ou distribuindo apostilhas? Não creio. Como não creio que nenhuma lei, decreto, portaria, instrução ou ameaça provoque o desaparecimento, a curto prazo, desse câncer da vida brasileira. Confio, não importa se ingenuamente, na força das ideias, na eficácia da discussão. O que se deve, então, a meu ver, ao invés de pretender medidas repressivas (incoerentes, afinal de contas, desde que o sistema, por vias indiretas, beneficia-se do regimen de apostilhas), é clamar, sempre que possível, contra esse engodo, fazendo ver aos estudantes que eles estão pagando - não importa se, materialmente, elas custem muito ou nada - estão pagando as apostilhas com um preço muito alto: estão pagando-as com o estreitamento de sua vida mental e, portanto, com a redução da sua estatura humana.

Osman Lins
1977