27.4.26
The innocent fox
26.4.26
O focinho
Começou, como costumam começar tais coisas: no lodo de charcos despercebidos, na escuridão de luas eclipsadas. Tudo começou com um desejo estrangulador de ar.
O tanque era lugar de maus cheiro e corrupção, de fétidos olores e peixes que queriam oxigênio, respirando por laboriosas guelras. Por vezes, o círculo de água, em lenta contração, deixava grupos de peixes que deslizavam desesperadamente, para escapar ao sol, mas que morriam na lama gorda e quente. Era um lugar de vida inferior. E foi nele que começou o cérebro humano.
Viveram estranhos focinhos naquelas águas, estranhos barbilhões que fossavam a lama do fundo, e passou o tempo - três milhões de anos - mas acima de tudo, creio eu, o lodo. Durante o dia a temperatura no mundo fora do tanque se elevava a uma espantosa intensidade; de noite, o sol mergulhava num vermelho fumegante. Em progressão incessante, nuvens de pó passavam por um ermo cujas plantas eram as plantas de havia muito tempo, muito tempo, as quais, sem folhas, esquisitas e luras, vivia à beira da água, enquanto, sobre grandes extensões de planaltos desnudos, os ventos sopravam com força tal que as pedras adquiriam o polimento de espelhos. Nada havia para manter a terra no lugar. Os ventos uivavam, rolavam nuvens de pó, enquanto breves torrentes regurgitantes de aluvião rumavam para o mar. Era um época de entontecedores contrastes, uma época de mudança.
Na superfície oleosa do tanque, de vez em quando um focinho se projetava para cima, aspirava um pouco de ar grunhindo estranhamente, e recuava para o fundo. O tanque estava condenado, a água era estagnada, oxigênio quase não havia, mas a criatura não queria morrer. Podia respirar ar diretamente por um pequeno pulmão acessório, e podia caminhar. Em todo aquele cenário sem vida e exótico, era a coisa única que podia. Caminhava raramente e sob protestos, mas não era de surpreender. Era um peixe aquela criatura.
Com a passagem dos dias, o tanque tornou-se uma poça, mas o Focinho sobrevivia. Uma noite, o orvalho e o frio cobriram o leito vazio do rio. Quando o sol despontou na manhã seguinte, o tanque não passava de um vazio de lama rachada, mas o Focinho lá não se encontrava. Fora-se. Rio abaixo havia outras poças. Respirando ar por algumas horas, avançou lentamente sobre tocos de pesadas barbatanas.
Alguma coisa fervilhava no cérebro do Focinho, que já não era inteiramente peixe. Marcara-o a lama. É mister um zoólogo especializado em superfícies de pântano e maré para falar sobre a vida; é nesse domínio que os vivos passam por grandes extremos, é aí que os falhados na água, levados ao desespero, fazem tentativas num novo elemento.
Não era realmente um peixe excepcional, mas lutava por manter-se vivo num ambiente privado de oxigênio, ruidoso, incômodo. Mas o Focinho era um crossopterígio de água doce, para dar-lhe o verdadeiro nome, e, apesar de desajeitado e de caminhar com dificuldade, algo sucedera atrás dos seus olhos. A lama iniciara o seu trabalho.
Será interessante considerar que espécie de criaturas poderíamos ser nós, remotos descendentes do Focinho, não fora o charco esverdeado do qual ele provinha. Teríamos sido, provavelmente, insetos mamíferos, de cérebro sólido, com neurônios adaptados a reações mecânicas, transcorrendo a nossa vida com perfeição de relógio bonito, intricado, sem inteligência. Mais provavelmente ainda, nunca teríamos existido. Tudo foi obra do Focinho e da lama. Talvez aí também, no meio de peixes putrescentes e fogos-fátuos azulados, noturnos, se tenha movido o eterno mistério. Duas bolhas apenas, dois balõezinhos de paredes espessas, no fim do pequenino cérebro do Focinho. Era o aparecimento dos hemisférios cerebrais.
Dentre todas as experiências naquele mundo gotejante, cheio de lama, uma foi vital: era necessário nutrir o cérebro. Os tecidos dos nervos são insaciáveis de oxigênio.
O cérebro era constituído por um tubo de paredes delgadas nutrido por meio de ambas as superfícies, só existindo como coisa de paredes delgadas permeadas de oxigênio. O Focinho vivia de uma bolha, de duas bolhas no cérebro.
É o cérebro dos insetos, dos peixes de hoje, de alguns répteis e de todas as aves, e assinala sempre o aparecimento de elaborados padrões de instinto e o fim do pensamento.
Por dois modos se procura a porta: nos charcos dos rios e nas plataformas de maré dos estuários pelos quais os rios chegam ao mar.
Em todos os casos a primeira aventura na temida atmosfera parece haver sido em grande parte determinada pelo inexorável amontoamento de inimigos e pela retirada, cada vez maior, para situações marginais em que se esgotava a reserva de oxigênio. Por fim, na ousada escolha das margens pantanosas, ou na luta por alimento nas plataformas de maré, a terra passa a constituir lar.
Teríamos encarado o seu pulmão de bexiga de ar, as suas barbatanas curtas e morosas, e a sua característica habilidade de ziguezaguear terra acima, como adaptações especializadas para um recanto ambiental particularmente restrito em águas continentais estagnadas. Teríamos pensado em termos de água e repelido o Focinho como interessante malogro na linha principal da evolução progressiva, escapando dos inimigos e sobrevivendo com êxito apenas nas vizinhanças tenebrosas e marginais desprezadas pelos teleósteos destinados a dominar os mares e todas as águas vivas.
O Focinho foi o primeiro vertebrado a emergir completamente da membrana da água para uma nova dimensão.
Não faz muito, li um livro em que um ilustre cientista falava alegremente de uns dez bilhões de anos futuros que nos restam, indicando, com felicidade, o que o homem poderia realizar nesse período. Peixes no mar, pensei novamente, e aves no ar. Não é de admirar que o meu explorador tivesse um momento de tortura ao avistar os saltadores de lama com as suas reservas mentais e falta de promessas. Existe algo errado em a nossa visão do mundo, ainda ptolemaica, embora ninguém mais acredite que o Sol gire em torno da Terra.
Ensinamos o passado, enxergamos para trás, no tempo, mais do que qualquer outra raça anterior a nós, mas paramos no presente, ou, na melhor das hipóteses, projetamos para bem dentro do futuro versões idealizadas de nós próprios. Talvez inevitavelmente, vemos todo o longo caminho atrás de nós apenas com olhos humanos. Vemos a nós próprios como culminância e fim, e se é que consideramos a nossa passagem, cremos que a luz do Sol irá conosco deixando escura a Terra. Somos o fim. Para nós, ergueram-se e desabaram continentes, para nós foram dominados o ar e as águas, para nós pulsou e tornou-se mais intricada a grande teia viva.
Verifiquei que havia peixes atuais que respiravam o ar, não por um pulmão senão pelo estômago ou por estranhas câmaras onde deveriam estar as guelras, ou que respiravam como respirava outrora o Focinho. Verifiquei que alguns rastejavam pelos campos ao cair da noite perseguindo insetos, ou dormiam na relva ao lado de tanques e que se afogavam, mantidos sob a água, como se afogariam os próprios homens.
Dentre todos esses peixes, o mais estranho é talvez o periophthalmus, que escala as árvores com as suas barbatanas e persegue insetos; cata vermes como qualquer pássaro nas plataformas de maré; vê como veem as coisas da terra, e sobretudo se esquiva e evade com uma curiosa insolência que sugere mais a terra do que o mar.
Talvez nos elucide o velho percurso através do charco. Somos um dos muitos aspectos da coisa chamada Vida; não somos a sua imagem perfeita, porque ela não tem imagem salvo a Vida, e a vida é múltipla e emergente no fluxo do tempo.
Periphery of capitalism
Planeta favela
24.4.26
Planet of slums
Planet of slums
Planet of slums
A new view of society
23.4.26
Dead cities
22.4.26
Especially in Brazil
Porque não me ufano
Um país de analfabetos
O título A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud, continua bastante provocativo para os crédulos e supersticiosos do século XXI, que acham que os devaneios são predições de coisas boas e ruins.
21.4.26
Down and out in Paris and London
20.4.26
The Society of Equals
In Memory of Count Heyden
Porque não me ufano
Psicanálise
Mini galeria de perguntas meramente retóricas
19.4.26
Porque não me ufano
18.4.26
Karl Marx Decides to Change the World
17.4.26
To the Finland Station
16.4.26
The revolution in poetry
Crepúsculo dos símbolos
O dinheiro
15.4.26
Vida intelectual
Antonio Candido e Décio de Almeida Prado também marcaram o jornalismo cultural ao fundar em 1956 o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Homens como eles não existem mais.
Fruto do epistemicídio nacionalista, também o ensino formal mostra os sinais do atraso, versinho ruim da música comercial para os miúdos substituindo a prática de leitura, o acolhimento correto da procura de sentido para a vida. A gritaria sobrepõe a argumentação.
The book become almost human
Porque não me ufano
14.4.26
Schmutzstück
Storie di 51 donne
Io rifarei la stessa scelta di vita. Sì, son convinta, son convinta. Quel che ho fatto non l’ho fatto per niente, non l’ho fatto così. Non so se avrei la forza di resistere l’età che ho oggi, non è più i trentasei anni che avevo allora. Non so quanto potrei resistere. Allora mia figlia non esisteva; adesso ho mia figlia che esiste e il bambino che esiste. Allora era molto più facile per me. C’era Pietro, c’era mia madre e i miei fratelli. Ma oggi c’è molto di più davanti a me. Ma se fosse da ricominciare non mi tirerei indietro. Direi che è un’altra pagina da fare. Non abbiamo conquistato ancora tutto.
Porque não me ufano
Porque não me ufano
Brasil: terra da bandidagem
Porque não me ufano
Porque não me ufano
O brasileiro é muito pouco motivado ao materialismo histórico. Por isso ele não consegue perceber a técnica de produção econômica sobre a estrutura da sociedade e na caracterização da sua fisionomia moral. Sem a principal arma crítica e teoria revolucionária, o subdesenvolvido não irá suprimir as condições sociais responsáveis pelos proletariados miseráveis e, o persistir tais condições sociais, de novo se formam os mesmos proletariados.
Porque não me ufano
12.4.26
A falta de educação
11.4.26
Século das Luzes: o triunfo da razão
Casa-grande & senzala
10.4.26
Os cus de Judas
Suggestion
Provincianismo
A poesia do terceiro mundo
Casa-grande & senzala
Não haverá geração para ler Gilberto Freyre.
9.4.26
Não haverá geração para ler Roberto Bolaño
Teachers as transformatory intellectuals
7.4.26
Não verás país nenhum
Dialética da escola-prisão
Provincianismo
Dialética da escola-prisão
As crianças de Porto Alegre estão aprendendo com as professoras do baile de favela a jogar a bunda para trás. Acreditem. É isso mesmo. É a pedagogia do vamos pular e matar o tempo do funcionalismo público. O ensino em termos de conhecimento científico foi rasgado e jogado no lixo. A leitura da palavra não existe, a história da literatura desapareceu, a formação de leitores entrou em extinção. Os incompetentes treinados são maioria no campo educacional e não há modos de reverter. É a miséria intelectual gritando, xigando, cuspindo e, sobretudo, reforçando o domínio da indústria cultural do lixo. Não há mais necessidade de estudos acadêmicos, de sistematizar o saber, de uma linha de pesquisa, pois o spotify está dando classes para as pobres criancinhas sem presente e sem futuro. Não é a toa que as crianças cantam em uníssono: e os menor preparado pra foder com a xota dela.
6.4.26
On the production of subjectivity
Porque não me ufano
Os cus de Judas
Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca? A esses, os Camilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda, procuramo-los, de bazooka ao ombro, raivosos, nas florestas da Bolívia, bombardeamos-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitos cruéis e viscosos, mais parecidos connosco, cujos bigodes nos não trepam pelo esófago refluxos verdes de remorso. De forma que as relações sexuais constituem entre nós, percebe, uma violação mole, uma apressada exibição de ódio sem júbilo, a derrota molhada de dois corpos exaustos no colchão, à espera de reencontrarem o fôlego que lhes foge para verificarem as horas no relógio de pulso à cabeceira, se vestirem sem uma palavra, examinarem sumariamente no espelho do quarto de banho a pintura e o cabelo, e partirem, a coberto da noite, ainda húmidos do outro, a caminho da solidão das suas casas. Os que moram a dois, aliás, e dividem com má vontade o edredão e o dentífrico, padecem, de resto, de um isolamento semelhante; ah, as refeições frente a frente, em silêncio, cheias de rancor que se palpa no ar como a água de colónia das viúvas! Os serões junto à televisão acariciando projectos vingativos de assassínio conjugal, a faca do peixe, a jarra da China, um oportuno empurrão pela janela! Os sonhos minuciosamente detalhados do enfarte de miocárdio do marido ou da trombose da mulher, a dor no peito, a boca à banda, as palavras infantis babadas a custo na almofada da clínica!

















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