Cartoon de Miguel B.
Eu tenho a impressão de que as palavras estão sob pressão crescente no nosso mundo líquido moderno. Não só o número de palavras está diminuindo, mas elas estão sendo encurtadas e reduzidas a uma série de consoantes nas mensagens eletrônicas que agora são o veículo de comunicação dominante. Porém, mesmo as palavras que continuam a ser pronunciadas inteiras tendem a ser absorvidas em áreas menores e escolhidas por razões hedonístico-emocionais. Zapeando pelos canais voltados para jovens na TV, os aspectos visuais mais surpreendentes são as imagens de corpos seminus, homens e mulheres, representando escrupulosamente a variedade de grupos étnicos, para garantir que a folha de parreira da correção política seja preservada. Mas o ouvido é ferido pela repetição incessante de poucas palavras-chave: festa, dança, sexo, noite, diversão. A música pop sempre girou em torno de descrições de amor, predominantemente de tipo infeliz, de modo que pessoas comuns possam se identificar com facilidade com letras comuns. Qualquer alienígena assistindo à Tv para "jovens" hoje e observando as cenas pensaria que os terráqueos nada mais fazem além de dançar, embriagar e fazer sexo, principalmente à noite, num frenesi desenfreado e aparatoso. Obviamente, se você considerar a natureza precária da vida de nossas crianças, e a escassez de oportunidades oferecidas, a evidência propriciada pela TV é pior do que antífrase, é completamente enganadora.
