24.5.22

A origem destrutiva do capital

 

Não foi, porém, a força produtiva, mas, pelo contrário, uma retumbante força destrutiva que abriu caminho a modernização, a saber, a invenção das armas de fogo.

A arma de fogo não estava mais nas mãos de uma posição "de baixo" que fazia frente no domínio feudal, mas conduziu antes a uma "revolução de cima" com a ajuda de príncipes e reis. Pois a produção e a mobilização dos novos sistemas de armas não eram possíveis no plano de estruturas locais e descentralizadas, na forma como até então haviam marcado a reprodução social, mas exigiam uma organização inteiramente nova da sociedade em diversos planos.

Os beligerantes não podiam mais se equiparar por si próprios e tinham de ser providos de armas por um poder social centralizado. Por isso, a organização militar da sociedade separou-se da civil.

Indústria armamentista, corrida armamentista e manutenção de exércitos permanentemente organizados, divorciados da sociedade civil e ao mesmo tempo com forte crescimento, conduziram necessariamente a uma subversão radical da economia. O grande complexo militar, desvinculado da sociedade, exigia uma "permanente economia de guerra". Essa nova economia da morte estendeu-se como uma mortalha sobre as estruturas agrárias das antigas sociedades. Como os armamentos e o exército não podiam mais se amparar na reprodução agrária local, mas tinham de ser abastecidos com recursos de envergadura e em relações anônimas, eles passaram a depender da mediação do dinheiro. Produção de mercadorias e economia monetária, como elementos básicos do capitalismo, ganharam impulso no inicio da era moderna por meio da liberação da economia militar e armamentista.

Esse desenvolvimento produziu e favoreceu a subjetividade capitalista e a sua mentalidade do "fazer-mais" abstrato. A permanente carência financeira da economia de guerra conduziu, na sociedade civil, ao aumento dos capitalistas usuários e comerciais dos grandes poupadores e dos financiadores de guerra. Mas também a nova organização do próprio exército criou a mentalidade capitalista. Os antigos beligerantes agrários transformaram-se em "soldados", ou seja, em pessoas que recebem o "soldo". Eles foram os primeiros "assalariados" modernos que tinham de reproduzir sua vida exclusivamente pela renda monetária e pelo consumo de mercadorias. E, por isso, eles não lutaram mais por objetivos idealistas, mas somente por dinheiro. A eles era indiferente a quem matar, pois o soldo "interessava"; com isso, eles se tornaram os primeiros representantes do "trabalho abstrato" (Marx) no moderno sistema produtor de mercadorias. Aos chefes e comandantes dos "soldados" interessava angariar recursos por meio de butins e convertê-los em dinheiro.

Não foram, portanto, o pacífico vendedor, o diligente poupador e o produtor cheio de ideias que marcaram o início do capitalismo, muito pelo contrário: do mesmo modo que os "soldados", como artesãos sanguinários da arma de fogo, foram os protótipos do assalariado moderno, assim também os comandantes do exército e "condottieri", "multiplicadores de dinheiro", foram os protótipos do empresariado moderno e de sua "prontidão ao risco". Como livres empresários da morte, os condottieri dependiam, porém, das grandes guerras, dos poderes estatais centralizados e de sua capacidade de financiamento. A relação moderna de reciprocidade entre mercado e estado tem aqui a sua origem.

A fim de poder extorquir os monstruosos tributos, os poderes estatais centralizados tiveram de construir um aparato monstruoso de polícia e administração.

A moderna democracia do Ocidente é incapaz de ocultar o fato de ser herdeira da ditadura militar e armamentista do início da modernidade - e isso não só na esfera tecnológica, mas também em sua estrutura social. Sob a fina superfície dos rituais de votação e dos discursos políticos, encontramos o monstro de um aparato que administra e disciplina de forma continuada o cidadão aparentemente livre do Estado em nome da economia monetária total e da economia de guerra a ela vinculada hoje. Em nenhuma sociedade da história houve tão grande percentual de funcionários públicos e administradores de recursos humanos, soldados e policiais; nenhum jamais desbaratou uma parcela tão grande de seus recursos em armamentos e exército.

Robert Kurz
1943 - 2012