Não se pode esconder o desejo de mudança que nos últimos anos vem aumentando por causa de um sistema econômico injusto, perverso e obsoleto, cujos efeitos são a fome e a desigualdade social, a guerra e o terror, o colapso climático do planeta, o esgotamento dos recursos naturais. Agora, porém, é um vírus que perturba o mundo.
Nem castigo divino, nem nêmesis da história. É difícil não reconhecer na pandemia a consequência de escolhas ecológicas míopes e devastadoras. A Terra foi tratada como um enorme depósito de escórias e de resíduos, um monte de ruínas. No entanto, não se pode salvar o planeta sem transformar o mundo. A ecologia, que ainda não foi libertada de conceitos patriarcais e considera a Terra o oikos, a esfera doméstica da vida, terá de mudar radicalmente. A relação entre ecologia e economia é flagrante. O colapso é o produto do capitalismo. A fusão entre tecnoeconomia e biosfera está sob os olhos de todos - assim como os resultados mortíferos. Chama-se de Antropoceno a idade da Terra condicionada ao domínio humano, na qual a natureza foi irreparavelmente erodida. Mas esse processo violento não teria sido possível sem a incandescência do capital. É por isso que uma nova maneira de habitar a Terra é impensável sem escapar da economia planetária da dívida.
A condição de imunidade reservada a alguns, os protegidos, os preservados, os garantidos, é negada a outros, os expostos, os rejeitados, os abandonados. Esperam-se cuidados, assistências e direitos para todos. Mas o "todos" é uma esfera cada vez mais fechada: tem fronteiras, exclui, abandona sobras e restos. A inclusão é uma miragem ostentada, a igualdade é uma palavra vazia que agora soa como uma afronta. O abismo aumenta, o fosso se aprofunda. Não é mais apenas o apartheid dos pobres. A discriminação é precisamente a imunidade, que escava o sulco da separação, já presente no interior das sociedades ocidentais e muito mais intensa do lado de fora, na hinterlândia sem da miséria, nas periferias planetárias do desconforto e a desolação. Ali onde sobrevivem os perdedores da globalização não chega o sistema de garantias e de segurança. Internados nos campos, estacionados nos vazios urbanos, descartados e acumulados como lixo, esperam pacientemente uma reciclagem eventual. Mas a sociedade que usa e descarta não sabe o que fazer com seus excedentes. As escórias poluem. É melhor, portanto, manter uma distância segura das pessoas contaminadas, contamináveis, fontes de doença, causas de contágio.
